Por Mairon Machado

No início da década de 80, o Rio de Janeiro foi berço daquele que para muitos é o melhor grupo daquele estado. O Bacamarte, assim como Mutantes e Recordando o Vale das Maçãs, rompeu as fronteiras das Terras Brazilis e construiu uma reputação sólida no exterior, principalmente no Japão.

O início foi em 1974, quando o multi-instrumentista Mário Neto (guitarras, violões) começou sua carreira ao lado de três colegas da Escola Marista, no Rio de Janeiro. Mário chegou a cursar a faculdade de Engenharia na Veiga de Almeida, mas seu monstruoso talento fez com que ele guinasse mesmo para a música.

O Bacamarte teve diversas formações, até que em 1977, consolidou-se com seu line-up clássico: Mário, Sérgio Villarim (teclados), Delto Simas (baixo), Mr Paul (percussão), Marcus Moura (flautas e acordeão) e Marco Veríssimo (bateria). Assim, participaram do programa Rock Concert, na TV Globo, onde conseguiram o apoio para gravar uma demo. Porém, o grupo não conseguiu apoio de nenhuma gravadora, já que o progressivo tradicional da turma estava fora da moda. Durante esse período, o grupo passou a contar com Jane Duboc, nos vocais.

O grupo, assinando contrato com a Som Arte

Mesmo sem apoio, Mário e companhia continuaram insistindo no som progressivo, até que em março de 1981 a rádio Fluminense FM sofreu uma total renovação em sua forma de transmissão, que inicialmente era voltada principalmente para corridas de cavalos. A partir de primeiro de março daquele ano, a “Maldita” acabou se tornando uma das rádios preferidas dos jovens cariocas, principalmente pelo fato de se preocupar com o lançamento de novos grupos.

Um desses novos grupos foi o Bacamarte. Sentindo que havia uma luz no fim do túnel, Mário levou sua fita demo para Luís Antonio Melo, que trabalhava arduamente na reformulação da rádio. Segundo o próprio Melo, Mário chegou com a fita no dia primeiro de maio, dois meses depois da rádio ter reinaugurado, explicando o som do grupo e também o objetivo que ele queria.

A conversa não durou mais que quinze minutos, e Mário foi embora por volta das 14 horas. Porém, Melo colocou a fita pra rodar e ficou curtindo o som até as 17 horas. Estava dado então o pontapé inicial para o lançamento de uma obra-prima. Vale a pena ressaltar que a “Maldita” também foi responsável pelo lançamento de bandas como Barão Vermelho, Kid Abelha e os Abóboras Selvagens, Paralamas do Sucesso, Dorsal Atlântica e muitas outras.

Bacamarte, em apresentação no Circo Voador

Tocando direto na rádio, o Bacamarte ressurgiu das cinzas e um contrato com a gravadora Som Arte Produções foi assinado, gerando o maravilhoso álbum Depois do Fim, lançado em 1983, mas com as canções gravadas em 1977. Inovador para a época, o álbum trazia uma sonoridade totalmente diferente do início dos anos setenta, onde o talento individual de cada instrumentista, bem como o belíssimo trabalho vocal de Jane, fizeram com que a banda fosse comparada ao Curved Air e ao Renaissance, dois ícones do progressivo britânico.

O trabalho instrumental é praticamente perfeito. “UFO”, “Miragem”, “Controvérsia” e “Caño” exalam virtuosismo, técnica e harmonia com arranjos arrepiantes e passagens muito ricas em melodias, enquanto “Pássaro de Luz”, “Depois do Fim” e “Smog Alado”, além do lado instrumental, também exaltam a essência lírica de Jane Duboc.

Mas é em “Último Entardecer” que a casa (e as lágrimas) vêm abaixo. A canção começa com o lindo tema do piano e Mário solando utilizando variações no volume. O Bacamarte surge, e Mário passa a solar notas em sequência, levado pelo violão e pelo tema inicial do piano, emocionante e ao mesmo tempo encantador, com Mário despejando notas velozes em escalas simples. O piano faz uma pequena sequência de acordes, e Jane solta a voz carregada de sotaque “carioquês”, acompanhada pelos sintetizadores, enquanto o ritmo do tema inicial é retomado.

Mário então volta com seu solo, primeiro explorando bends muito agudos, e, depois de uma sequência de acordes de sintetizadores, destruir sua guitarra em rápidas notas que destacam-se sobre o veloz acompanhamento de baixo, bateria e piano. As escalas de Mário, junto das sessões marcadas entre piano, bateria e baixo, levam a um curto solo de piano.

A canção volta a ficar cadenciada, com Jane trazendo novamente a letra, em um rtimo ainda marcado, com Mário solando ao fundo. O piano sola sozinho, abrindo espaço para Mário executar um difícil e lindo trêmolo ao violão. Então, o clima da canção fica pesado, com uma forte marcação de baixo e bateria intermediada pelo veloz dedilhado do violão, e então, o piano, baixo e bateria puxam um ritmo típico das grandes canções do Renaissance, para Jane retomar a letra acompanhada por uma flauta e pelo resto do grupo, encerrando essa maravilha com o mesmo tema da introdução sendo repetido pelo piano, guitarra, baixo e bateria.

Versão original do LP, com o famoso mini-encarte

Depois do Fim contava ainda com uma bela capa elaborada por Eduardo Pereira e com um mini-encarte que trazia a foto da banda em um show no Circo Voador. Aliás, esse show tornou-se famoso principalmente por ter sido um dos primeiros da banda após o ingresso na programação da Fluminense. Ali, estavam presente Mário, Marcus, Sérgio, Simas (no violoncelo), Mr Paul, William Murray (baixo) e Mário Leme (bateria). Os vocais ficaram a cargo de Cecília Spyer, a qual substituiu Jane, que havia partido para uma bem sucedida carreira solo.

O disco vendeu muito, principalmente no Japão, alcançando sucesso também em países como Rússia, Alemanha e Itália. O site especializado Prog Archives elegeu Depois do Fim como o décimo sétimo melhor álbum progressivo de todos os tempos em 2009, à frente de obras como Pawn Hearts (Van Der Graaf Generator), Nursery Crime (Genesis), Fragile (Yes) e Aqualung (Jethro Tull), isso só para citar alguns. Mas, mesmo tendo alcançado o tão desejado sucesso, a banda acabou se dissolvendo aos poucos, terminando em meados de 1984.

Após o Bacamarte, cada integrante partiu para um projeto diferente. Jane se revelou ao mundo em obras como Ponto de Partida (1985) e Brasiliano (1992). Sérgio Villarim seguiu trabalhando em diversos projetos, consolidando-se no Hervah (antiga Herva Doce) ao lado de Roberto Lly (baixo), Marcelo Susseking (guitarras), Fred Maciel (bateria) e Márvio Fernandez (voz).

Marcus formou-se em Biologia e também trabalha como webdesigner. Com o fim do grupo, iniciou carreira solo apresentando-se em shows e compondo música para teatro, vídeo, dança, instalações de arte e web. Além disso, é fundador do website Nova Música, o qual projetou inúmeros artistas independentes através da internet. Também participou de grupo Roque Malasartes, tocando teclados, flautas e acordeão, e desenvolveu o trabalho Maracatrance, com participação do percussionista Reppolho. Mr Paul trabalhou na bateria da escola de samba Salgueiro, vindo a falecer há poucos anos.

O belo álbum solo de Mário Neto

Em 1999, Mário Neto retornou ao mundo da música, lançando, com o nome de Bacamarte, o álbum Sete Cidades, onde toca praticamente todos os instrumentos, com excessão dos teclados, que são tocados por Robério Molinari. O disco traz ótimas canções, como “Mirante das Estrelas”, “Espírito da Terra” e “Portais”, e acabou fazendo um relativo sucesso.

Porém, mesmo com o retorno do nome Bacamarte ao público, Mário se retirou da música novamente, voltando para a obscuridade que o acompanhou desde o início dos anos setenta, até o lançamento de um dos mais incríveis álbuns progressivos da história, tendo seu ápice no maravilhoso hino “Último Entardecer”.

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