Por Mairon Machado

Um dos grandes diamantes do rock nacional no final da década de 70 abalou as estruturas do rock progressivo e, pouco depois, abalou as pernas dos brasileiros com canções de extremo bom gosto musical baseadas no funk Motowniano, mas perdendo a credibilidade progressiva que acabou consolidando seu nome com o passar dos anos, e fazendo do mesmo talvez o mais cultuado grupo de rock progressivo do nosso país. Estou falando do Som Nosso de Cada Dia.

No final da década de 60, um jovem chamado Pedro Baldanza chegava à cidade de São Paulo carregando em sua mala um baixo Fender Jazz. O jovem Pedro adotou o nome de Pedrão, montando a banda Enigma, que por incrível que pareça foi a pedra fundamental para o surgimento de outro grande nome do rock nacional, o Novos Baianos. 

Manito, Marcinha, Pedrão e Pedrinho Batera

O Enigma no início era formado pelo trio Pedrão (baixo e vocais), Jean (guitarras) e Odair (bateria). A banda passou a frequentar diversos bares e cidades do interior paulista, até que em um determinado dia, na cidade de Ubatuba, conheceram três desconhecidos cantores: Paulinho (Boca de Cantor), Moraes Moreira e Baby Consuelo. Os três passaram a integrar o Enigma, que passou a se apresentar com mais frequência, principalmente em festivais. Foi em um dos festivais que o Enigma teve contato com o grupo Minus. No Minus, estava o talentoso guitarrista Pepeu Gomes, que foi adicionado ao Enigma em  seguida. Com o protótipo do Novos Baianos praticamente pronto, lançam o compacto duplo “Psiu”, “29 Beijos” / “Globo da Morte” e “Mini Planeta Íris”, o qual é cobiçadíssimo por qualquer colecionador que se preze.

A banda assumiu o nome de Novos Baianos, seguindo uma bela carreira  que teve sua Discografia Comentada aqui no Consultoria do Rock recentemente. Porém, somente Baby, Paulinho, Pepeu e Moraes foram para o Rio. Jean e Odair largaram fora quando a doidera começou a aparecer ainda em São Paulo, e Pedrão, com diversos problemas familiares, acabou decidindo por ficar na terra da garoa mesmo, morando com a sua mãe. 

Perfume Azul do Sol (Pedrão é o primeiro da direita para a esquerda)

Mas a senhora acabou conseguindo uma grana considerável pela indenização da morte do pai de Pedrão, pegou mala e cuia e viajou para o Rio Grande do Sul, deixando Pedrão morando sozinho na casa de parentes em São Paulo, afundado em dívidas e sabendo que tinha perdido uma grande chance de se tornar famoso ao lado do Novos Baianos.

Graças ao amigo Edson Ribeiro, Pedrão conheceu o artista plástico Agamenon e também o cantor Walter Franco. A partir de Agamenon, Pedrão conhece o guitarrista Benvindo, que estava montando a banda Perfume Azul do Sol, onde Pedrão rapidinho virou o baixista, gravando o espetacular Nascimento (1974).

O Perfume Azul do Sol não pegou, e Pedrão resolveu ir para o exterior. Porém, um convite inusitado surgiu através da esposa de um amigo, a qual apresenta para ele o multi-instrumentista Manito, que estava procurando integrantes para montar uma banda após sua saída do grupo Os Incríveis.

Manito no Os Incríveis (segundo da esquerda para a direita)

Na verdade a ideia de Manito era montar uma banda para tocar em bailes, e para tal projeto já havia conseguido o baterista Pedrinho Batera. Quando Pedrão chegou, trazendo consigo um violão e nada mais, começou a ser formado o embrião do Bloco Cabala, o qual era o nome do projeto de Manito. Pedrão mostrou algumas de suas ideias para Manito e Pedrinho. Em poucos dias, o projeto Cabala caía por terra, e em 1971, surgia o Som Nosso de Cada Dia.

Após esses primeiros encontros, Manito teve uma breve passagem pelo Mutantes, substituindo nada mais nada menos que Arnaldo Baptista. Além disso, a falta de equipamento do Som Nosso de Cada Dia, limitando-se  apenas a aparelhagem de Manito, uma bateria, um violão e o baixo de Pedrão, atrasaram ainda mais o desenvolvimento das composições do trio. Mesmo assim, conseguem uma aparelhagem decente, e logo, um contrato com a gravadora Continental. Com dinheiro, aparelhos e muita criatividade, o grupo entrou nos estúdios para gravar seu primeiro álbum, o fabuloso Snegs. Porém, o disco ficou engavetado por quase um ano, mas mesmo assim o Som Nosso  de Cada Dia seguiu seus caminhos.

Mutantes: Sergio Dias, Manito, Liminha e Dinho Leme

Em abril de 1974, Alice Cooper se apresenta pela primeira vez no Brasil, e como banda de abertura, seleciona o Som Nosso de Cada Dia. A banda então abriu os shows de Titia Alice, tocando para mais de 100 mil pessoas em duas noites na cidade de São Paulo. No Rio, o grupo tocou no Maracanãzinho lotado, levando a plateia a gritar o nome da banda durante o show de Tia Alice. Com o sucesso das apresentações, finalmente é desengavetado o primeiro LP do conjunto.

Regravado em apenas dois dias, ou seja, praticamente ao vivo, Snegs contou com poucos overdubs, como violões, solos de Manito tocando violino e sax e mais os vocais da banda, que contavam ainda com a esposa de Pedrão, Marcinha.

Manito, Pedrinho Batera e Pedrão

Logo na abertura, uma maravilha que pára o tempo. “Sinal da Paranóia” é algo que choca ao mesmo tempo que cativa, tamanha a dose carregada nos sintetizadores e nas linhas vocais da canção. A levada forte de Pedrinho Batera, com o som tradicional das baterias brasileiras dos anos 70, é envolvida suavemente pelos teclados de Manito, enquanto Pedrão marca o ritmo em seu baixo. 

Então a belíssima letra, composta por Capitão Fuguete, começa a ser entoada por Pedrão, acompanhado pelo dedilhado de um violão e pelo órgão de Manito. Pedrinho dá ritmo ao violão e ao órgão, acompanhando os vocais de Pedrão. Escalas no órgão e a forte marcação do baixo apresenta as vocalizações cantando uma das principais frases do rock nacional: “A Procura da essência”, chegando no refrão, onde o nome da canção é gritado insanamente.

Após o refrão, uma viagem bem no estilo ELP surge, com Manito mostrando toda sua evolução após a saída dos Incríveis, tanto no moog, quanto no excepcional solo de violino que lembra muito o King Crimson na fase Lark’s Tongues in Aspic (1973), onde Pedrinho e Pedrão fazem a doideira percussiva para Manito mandar ver no arco e em acordes de sintetizadores. 

Após o solo de violino e a intrincada quebradeira da cozinha Pedrão e Pedrinho, voltamos ao refrão, encerrando essa maravilha com uma pequena sessão instrumental repleta de vocalizações insanas, além do baixo de Pedrão estourando os alto-falantes entre o ritmo de Pedrinho e os teclados de Manito.

Pedrão, Manito e Pedrinho Batera

Outras grandes pérolas estão escondidas em Snegs, como “O Som Nosso de Cada Dia”, “Snegs de Biufrais“, “Massavilha” e a líndissima “Direccion de Aquarius“, mostrando que o Som Nosso de Cada Dia era um potencial rival para o que o Mutantes fazia na mesma época.

A banda passou a ser mais cultuada do que já era, tornando-se atração principal em festivais como o de Águas Claras, Rock da Garoa e O Maior Show de Todos os Tempos, intermediadas por algumas mudanças, onde a principal foi a saída de Manito, levando a alterações até mesmo na composição do grupo, que virou um quinteto, batizado agora apenas de Som Nosso. 

Som Nosso, um passeio pelas festas entre sábado e domingo

Com a formação do Som Nosso contando com Pedrão, Pedrinho, Dino Vicente (teclados), Paulinho (teclados) e Rangel (percussão), o resultado foi o álbum Som Nosso, lançado em 1977, e que trazia também a participação de Egídio Conde (guitarra), Tuca Camargo (teclados), Marcinha, Armando e Tony Osanah (vocais). Totalmente diferente de Snegs, Som Nosso já mostra suas diferenças direto na capa, apenas com as letras “Som Nosso” escritas em branco sobre um fundo preto. 

O disco traz onze faixas (quatro a mais que “Snegs”) que, sem os teclados de Manito, perderam o brilho e a veia progressiva, mas ganharam, e muito, no swing e no embalo. Divido em dois lados, o Sábado, com sons perfeitos para uma balada de sábado, e o Domingo, com sons mais relaxantes pra curar a ressaca, o álbum se caracteriza por mesclar músicas bem funkeadas com as composições que fariam parte do outro lado do álbum Amazônia, o qual nunca foi lançado oficialmente. O resultado foi decepcionante para os fãs de Snegs, mas, para aquele com a mente mais aberta, agradou, e muito (principalmente pela época em que foi lançado). 

Os anos se passaram, até que em 1993 uma reunião do trio original aconteceu para a gravação da faixa “O Guarani”, que entrou como bônus na versão em CD de Snegs. Mesmo ficando anos sem tocar juntos, Manito, Pedrão e Pedrinho mostraram talento em uma belíssima composição.

Live ’94, decepção para os fãso do Som Nosso

Em 1994, o grupo se reuniu para dois shows que resultaram no CD Live 94, mas que infelizmente não tem o mesmo brilho dos álbuns anteriores, mesmo contando com músicas inéditas, como “Tinta Preta Fosca” e “O Amor”.  Nesse álbum participam Pedrão (baixo e voz), Pedrinho (bateria), Manito (flauta e sax), Jean Trad (guitarra) e Homero Lotito (teclados). Pouco tempo depois desses shows, Pedrinho faleceu, deixando órfãos milhares de bateristas no Brasil e no mundo.

O excelente À Procura da Essência

Em 2004, À Procura da Essência chegou as lojas. Gravado ao vivo nos anos de 1975-1976, o disco traz versões estendidas e viajantes para diversos sons do álbum Snegs, bem como partes da ópera “Amazônia”, gravada em 1975, mostrando toda a força da nova formação de quando o Som Nosso de Cada Dia era um quinteto capaz de fazer maravilhas tão grandiosas quanto qualquer grupo britânico.

3 comentários

  1. Dead or Alive

    Olá, gostei muito de suas histórias,e como vc puder ver se tiver tempo de dar uma passada no Som Mutante, eu tive uma visão um pouco diferente por causa da minha idade à época. Mas acho que o que importa não é minha memória ou seus estudos e conhecimento e sim a preservação da história o que no brazil é uma piada. Viajei no seu texto mesmo conhecendo toda a fase Manito, e posso te dizer ou melhor afirmar que a questão instrumentos é um pouco diferente no SNdCD, prq na real o sensei Manito tava saindo de uma bad trip e foi trazido para a Previdência (onde estão na foto as crianças e eles) pelo motorista da Rita Lee que bancou o tratamento e o retorno do Manito a vida normal (não sou fã dela,mas ela foi fundamental). Ela tb bancou instrumentos e despesas no início e depois tb teve suas turbulências.
    Bem me perdoe prq não vim aqui corrigir nem ensinar pois ainda busco a essência que o Manito sentado em seu teclado me falava ao ouvido qdo eu desafinava nos backing vocals – presta atenção na essência!! só vim prestar uma reverência ao trabalho bem feito, irei colocar seu blog no meu blog'roll com o maior prazer. Se quiser algo que eu possa ajudar sobre o Manito ou a época dele que convivi estou a disposição sem nenhuma imposição ou custo, afinal aos 50 o que tinha de fazer já fiz, hoje sou só um lobo andarilho em busca ainda da essência e morrendo de saudades daquele tempo e daquele que me ensinou os primeiros acordes.
    Enjoy!!!!!!!!
    http://sommutante.blogspot.com

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  2. Mairon Machado

    Dead or alive, muito obrigado pelo seu comentario. Peço perdão por algum erro ou informação desencontrada. Muito do que consegui de informação sobre o Som Nosso foi em um jornal que circulou em São Paulo ano passado, com duas edições trazendo a historia do grupo.

    Acompanho o seu bloh há algum temp, e em nome dos colegas do consultoria do rock, agradeço a colaboração de citar nosso nome lá. Estamos rabalhando em nome da essência, do amor que temos pela música, e é sempre bom poder compartilhar conhecimento, pois aqui no consultoria, ninguém é o dono da razão ou se acha um jornalista de renome que possa escrever o que bem pensa e nãoaceitar criticas.

    Obrigado novamente, siga acompanhando o site e quem sabe nãopossamos trocar figurinhas de colaborações?

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  3. Anônimo

    sensacional muito bom o texto me remeteu ao passado…tive a benção e a alegria de ver estes musicos ao vivo no Anhembi(abertura p/Alice),eu como a maioria dos presentes naquele dia tivemos a agradavel surpresa do som tirado pelo Manito "Som nosso de cada dia"

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