Por Diogo Bizotto
Poucos guitarristas podem se gabar de possuir uma carreira tão abrangente, demonstrando talento nas mais diferentes frentes onde atacou, como o norte-irlandês Gary Moore. Seja com o hard rock do Thin Lizzy, o jazz fusion do Colosseum II, o blues rock da Gary Moore Band ou nas diversas participações em álbuns dos mais variados artistas, como Greg Lake, Paul Rodgers e The Travelling Wilburys, Moore imprimiu uma marca indelével que influenciou gerações distintas de guitarristas, demonstrando uma influência que superou em muito o volume das vendagens dos álbuns que contaram com sua participação.

Adotando apenas seu nome como alcunha e gravando uma grande quantidade de álbuns ao longo de quatro décadas diferentes, Gary continuou a expandir o universo de gêneros abordados em sua jornada musical, adicionando, em especial, o blues eletrificado e o heavy metal à paleta de estilos. Em meados dos anos 80, o AOR também foi trabalhado pelo guitarrista com bastante propriedade, e é em Run For Cover que reside a aproximação mais promíscua de Gary com o hoje em dia malogrado gênero.

Nos álbuns imediatamente anteriores, Corridors of Power (1982), Dirty Fingers (gravado em 1981, mas lançado em 1983) e Victims of the Future (1984), Moore havia flertado como nunca antes com o heavy metal, e músicas como “End of the World”, “Hiroshima” e “Murder in the Skies” são boas amostras do êxito de Gary ao lidar com o estilo. Entretanto, mesmo em meio a algumas músicas pesadas como as citadas, por vezes o guitarrista registrava faixas com um certo apelo comercial e surgentes tendências AOR, mas mantendo o elevado nível de qualidade, enfatizando boas melodias, caso de canções como “Always Gonna Love You”, “Rest in Peace” e “Hold on to Love”. Foi seguindo os passos de obras como essas que o projeto mais ambicioso de Gary Moore começou a tomar forma e se transformou em Run For Cover, um dos mais bem sucedidos álbuns em toda seu percurso pela música.

Thin Lizzy em 1979: Brian Downey, Scott Gorham, Phil Lynott e Gary Moore

Folhear o encarte do álbum já da uma boa ideia de quão ambicioso Run For Cover tinha a pretensão de ser. Ao invés de apoiar-se em uma banda fixa, cada faixa apresenta um line-up distinto, incluindo o uso de diversos produtores para dar forma às canções compostas por Gary. Ao lado de prévios colaboradores, como o tecladista, guitarrista e vocalista Neil Carter (UFO, Wild Horses) e o baixista Bob Daisley (Rainbow, Ozzy Osbourne, Uriah Heep), juntaram-se novos músicos, caso dos bateristas Gary Ferguson e Charlie Morgan. Mais que isso, a lista de participações especiais é engrossada pela presença de Paul Thompson, baterista do Roxy Music, que toca em duas faixas, e de Glenn Hughes (Trapeze, Deep Purple, Black Sabbath), que canta em quatro e toca em cinco músicas.

Mas nenhuma presença foi tão especial quanto a daquele que esteve ao lado de Gary em diversos momentos de sua trajetória desde a infância, e que acabaria por oferecer, junto ao guitarrista, algumas de suas últimas performances ao vivo e em estúdio. Falo do grande Phil Lynott, baixista, vocalista e força motriz de uma das melhores e mais influentes bandas de rock que os anos 70 ofereceram ao mundo, o Thin Lizzy. Phil, que viria a falecer em janeiro de 1986, apenas quatro meses após o lançamento de Run For Cover, toca baixo e canta em dois destaques do álbum, “Out in the Fields” e “Military Man”, essa última, composição sua.

Capa do single para “Empty Rooms”

O que poderia ter resultado em uma salada indigesta, dada a quantidade de pessoas diferentes envolvidas em sua produção, acabou soando de maneira extremamente coesa e equilibrada. O status do guitarrista, que ainda não era dos mais elevados, exceto talvez entre a própria classe artística musical, foi alçado a níveis jamais alcançados antes, destacando a 5ª posição galgada por “Out in the Fields” na parada de singles britânica e o 12º lugar conquistado pelo álbum. Gary ainda teria que batalhar muito para atingir o mercado norte-americano com mais força, algo que só conseguiria com alguma propriedade em 1990, com seu primeiro álbum voltado para o blues elétrico, o bem sucedido Still Got the Blues.

A introdução de “Run For Cover”, executada nos sintetizadores de Andy Richards, já dá uma ideia do que teremos dali em diante quando se mescla à guitarra ainda com peso, mas mais polida de Gary, que toma à frente da música com seus vocais e com um dos vários bons solos executados ao decorrer do disco. Glenn Hughes domina o microfone na tipicamente AOR “Reach For the Sky”, mostrando que, assim como fez em Seventh Star (Black Sabbath), a má fase  pessoal vivida nos anos 80 não se transferia para os estúdios. Linhas de guitarra tipicamente blues encerram a faixa, adicionando um tempero interessante.

Em “Military Man”, canção composta por Phil Lynott, é a vez do velho amigo de Gary tomar conta dos vocais e do baixo, executando um de seus últimos trabalhos antes de sua prematura morte, algo que soa mais emocionante ainda se ouvido em retrospecto, constatando o estado fragilizado no qual se encontrava o artista. O andamento por vezes marcial impresso pela bateria relaciona-se com a letra, reforçada pelas apresentações de Gary junto a Phil, devidamente vestidos com roupas estilizadas de modo a lembrarem uniformes militares. A intensidade da música se expande a cada segundo e tem seu clímax no final, em mais uma boa performance solo de Moore.

Capa do single para “Out in the Fields”

Um dos hits do disco reside em “Empty Rooms”, regravação da balada presente em Victims of the Future, de maneira nitidamente mais radiofônica, eliminando mais de dois minutos em sua extensão e adicionando novas texturas de sintetizadores. Pode desagradar a muitos a presença da bateria eletrônica, mas admito que, apesar de preferir a versão original, mais guitarrística, a presente em Run For Cover soa mais “redondinha”, e o solo de Gary vai em uma linha mais hard rock, menos blueseira. Como um bônus para a edição em CD, o álbum traz “Out of My System”, mais uma faixa tipicamente AOR a contar com Glenn Hughes no baixo e no vocal, dessa vez sem tanto destaque. Paul Thompson, ex-baterista do Roxy Music, também marca presença.

Destaque mesmo é a seguinte, “Out in the Fields”, grande hit do disco. Mais uma a trazer a marcante presença de Phil Lynott no baixo e dividindo os vocais com Gary, inclusive em seu videoclipe, onde os mesmos uniformes militares presentes em “Military Man” são utilizados. Isso se deve à conjunção com a letra escrita por Moore, a respeito dos conflitos religiosos ocorridos em sua Irlanda natal. Dotada de uma introdução marcante, especialmente devido à afiada guitarra de Gary, a música cativa do primeiro ao último segundo, denotando sua habilidade como compositor. A canção é tão boa que, três anos depois, Kai Hansen, guitarrista da banda alemã Helloween, prestaria uma certa “homenagem” não-oficial (muito boa, por sinal) na forma de “I Want Out”, presente no álbum Keeper of the Seven Keys Part 2 (1988). Ouçam e comparem a estrutura de ambas!

“Nothing to Lose” traz Moore utilizando uma timbragem semelhante à que Eddie Van Halen usaria alguns anos depois, e, além de Glenn Hughes no vocal, tem Paul Thompson cuidando das baquetas. O refrão é bom para ser entoado pelas plateias, mas não transcende a qualidade demonstrada pelas hábeis mãos do guitarrista. Outro músico rico em talento é o baixista que atua em “Once in a Lifetime”, o habilidoso Bob Daisley, um dos meus favoritos no instrumento. Outra música explicitamente AOR, soa melhor que as outras no mesmo estilo cantadas por Hughes, em especial pelo bom trabalho de Neil Carter nos backing vocals, complementando a voz de Gary com destreza. A sacolejante “All Messed Up” é a melhor a contar com os préstimos de Glenn Hughes, e traz um balanço rock ‘n’ roll difícil de resistir, convidando a, mesmo sentado, mexer cabeça e pés. A balada “Listen to Your Heartbeat” encerra o disco de maneira suave, rica em arranjos mais delicados e suprimindo a faceta mais pesada do guitarrista, que sola melodicamente.

Recebendo uma premiação pelas vendas de Run For Cover: Gary Ferguson,
Neil Carter, Bob Daisley, Phil Lynott e Gary Moore

Após mais dois álbuns apostando em uma mistura equilibrada entre hard rock, heavy metal e AOR com os álbuns Wild Frontier (1987, dotado de minha favorita em sua carreira, a faixa-título) e After the War (1989), o guitarrista lançaria-se como um blueseiro moderno, criando temas próprios e interpretando antigos standards, alcançando um reconhecimento sem precedentes em sua jornada, especialmente nos Estados Unidos. Mas no entanto, em se tratando de sua trajetória solo, Gary nunca mais soaria tão marcante quanto em sua encarnação hardeira, cunhando riffs, licks e solos inesquecíveis, influenciando uma infinidade de guitarristas que até hoje carregam com muito orgulho o legado desse verdadeiro mestre das seis cordas. Run For Cover ainda tem um mérito muito especial: a tentativa de Moore em trazer o amigo Phil de volta à música, resgatando-o do limbo criativo e de sua situação deplorável que se sucedia desde o fim do Thin Lizzy, em 1983, afundando-se cada vez mais em drogas ilícitas. É uma pena que durou pouco, mas Gary fez o que estava a seu alcance, inclusive dedicando posteriormente o álbum Wild Frontier a Phil. “And I remember a friend of mine, so sad now that he’s gone…”

Track list:

1. Run For Cover
2. Reach For the Sky
3. Military Man
4. Empty Rooms
5. Out of My System
6. Out in the Fields
7. Nothing to Lose
8. Once in My Lifetime
9. All Messed Up
10. Listen to Your Heartbeat

6 comentários

  1. Rodrigo Piróquio

    Caralho, resenha sensacional. Descreveu de maneira brilhante um dos melhores trabalhos de um nome importantíssimo do rock.

    A se lamentar apenas ele não ter conseguido trazer seu grande amigo e parceiro musical, Phil Lynott, de volta do buraco em que se meteu por causa das drogas.

    Esses dois juntos formaram uma das melhores duplas da história do rock. Felizmente a música dos dois ficará para sempre. Infelizmente não tive o prazer de ver essas duas lendas em cima do palco.

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  2. Mairon Machado

    Faltou citar uma das melhores bandas que Gary tocou, o poderoso Skid Row, dono de um hard pesado e ao mesmo tempo progressivo que leva o ouvinte a se debater no chão, tamanha a violência sonora (ouçam 34 hours e me digam se nao tenho razao)

    No mais, baita texto e baita homenagem para o melhor guitarrista da Irlanda, falecido recentemente, mas ainda presente entre os fãs graças a albuns como este trabalhado pelo Diogo!

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  3. jantchc

    acho q souuma das araras pessoas q não gostam de thyn lizzy

    não suporto esta banda, acho muito chata..

    mas adoro o gary moore e achei a out in the fields ótima.

    este disco é muito bom, como tantos outros da carreiras solo do gary nos anos 80..

    otima resenha..

    adoro este site..

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  4. diogobizotto

    Pois é, Mairon… não citei nem o Skid Row nem o BBM pelo fato de nunca ter ouvido os grupos, mas tenho a curiosidade. Jantchc, muito obrigado pelos elogios! Abraço!

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  5. Anônimo de volta

    O Dirty Fingers e o Victims of the Future também são ótimos. Prefiro o Gary Moore hard/heavy do que tocando blues.

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