Por Mairon Machado

Os nomes nipônicos progressivos apresentados até o momento são recentes. Porém, no início da década de 70, o rock progressivo já era uma marca registrada no Japão. Dezenas (se não centenas) de bandas empregavam a sonoridade clássica misturada ao jazz e muito virtuosismo. Outras, expandiam a sonoridade hard rock através de longas suítes, trabalhadas exaustivamente e que se tornaram clássicos com o passar dos anos. 
Esse é o caso da Flower Travellin’ Band. Formado no início de 1970 pelo compositor, vocalista e guitarrista Yuya Uchida, Akira “Joe” Yamanaka (Vocais), Hideki Ishima (guitarra) e George Wada (bateria), o quarteto teve uma carreira muito curta, de apenas três álbuns, mas que modificaram para sempre o destino da música no Japão. As origens da Flower Travellin’ Band estão no jurássico grupo The Flowers, responsável por uma das mais impressionantes maravilhas do mundo prog (que será tratado na próxima semana). Contando com sete membros, o The Flowers deixou de existir justamente pelos custos para se manter o pessoal da banda, deixando aos mortais apenas um álbum, o não tão expressivo Challenge (1969), que traz diversas covers e incapaz de mostrar toda a sonoridade que o grupo exaltava nos shows.

Yuya Uchida

Com o término dos The Flowers, Uchida passou a vagar pelos subúrbios de Tóquio a fim de encontrar novos membros que alavancassem suas ideias, fortemente influenciadas pelo rock britânico de bandas como Black Sabbath, Led Zeppelin, Experience e Cream. Foi durante a versão japonesa de Hair que Uchida conheceu Yamanaka, o qual já havia participado do grupo Four Nice Ace. Junto aos remanescentes do The Flowers Ishima e Uwada, participam de um festival chamado Rock’n’Roll Jam 70, onde se consagraram como principal atração.

Decidido a não ser mais um músico, concentrando-se na produção musical do grupo, Uchida levou os novos Flowers a serem convidados pela Capitol Records para ser banda de apoio do tecladista Kuni Kawachi, o que foi registrado no álbum Kirikyogen (1970), um espetáculo sonoro à parte dentro do rock progressivo japonês. Apesar disso, Uchida não ficou agrado com as experiências progressivas, e com a adição do baixista Jun Kosuki, transformou o The Flowers na The Flower Travellin’ Band.

A polêmica capa de Anywhere

O bastismo do grupo foi ainda em 1970, com o álbum Anywhere, apresentando covers estonteantes para quatro clássicos do mundo da música: “Black Sabbath” (do Black Sabbath), “Louisiana Blues” (Muddy Waters), “House of the Rising Sun” (Animals) e “21th Century Schizoid Man” (King Crimson), além das vinhetas “Anywhere”. A polêmica capa com todos os membros nus, chamou mais atenção do que a pesada musicalidade do grupo, que apresentava um repertório ainda desconhecido para os japoneses, já que essas canções haviam acabado de sair do forno na Inglaterra (com exceção de Louisiana Blues).

Mesmo assim, o grupo cresceu, passando a fazer um show atrás do outro e criando uma legião de fãs por toda a ilha asiática. Isso os levou a assinar contrato com a Atlantic Records, que decidiu investir pesado nos garotos. Uchida, assim, passou a elaborar sua obra-prima, que misturaria o peso rock ocidental com sutilezas da música oriental. Assim, nasce “Satori”.

Momentos de elaboração de Satori

Com uma força magnânima, imponência e muitos minutos de delírios instrumentais e vocais, “Satori” foi lançada no vinil de mesmo nome, no dia 25 de abril de 1971. O significado da palavra, Iluminação através do zen, serve bem para exemplificar o auge da inspiração de Uchida e seus colegas de banda, sendo que até os dias de hoje, Satori é considerado como principal LP já lançado no Japão.

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Dividida em cinco partes, “Satori” ocupa todo a versão original do vinil,  abrindo com um longo barulho que traz a percussão. Então, um grito insanamente arrepiante dá espaço para o pesado riff da guitarra, acompanhado pela marcação de baixo e bateria, soltando então o segundo riff, em um andamento agitado, chegando às vocalizações imitando Tarzan sobre um terceiro riff. O primeiro riff é repetido, e assim, Yamanaka passa a cantar sobre este riff, lembrando muito o estilo de cantar de Ozzy Osbourne no início do Black Sabbath.

As vocalizações do Tarzan retornam, assim como o primeiro riff, e Yamanaka continua a sequência da letra, para então as vocalizações do Tarzan aparecerem pela última vez. Guitarra e baixo repetem a melodia das vocalizações, com o peso comendo solto, e Yamanaka soltando outro grito insano, encerrando a primeira parte com guitarra, baixo e bateria fazendo notas repetidas durante alguns segundos.
A segunda parte de “Satori” é onde a viagem realmente começa. O ritmo percussivo acompanha a estridente guitarra de Ishima, solando com escalas orientais e em um andamento característico do oriente. Yamanaka canta a letra acompanhado pelo tema oriental das guitarras e pelo ritmo cavalgante de baixo e bateria. Essa sequência é repetida, apenas com uma alteração no solo, repetindo também a letra, com Yamanaka ficando acompanhado somente pela percussão. É a percussão que leva o andamento central dessa segunda parte, que conta com o solo triste e agonizante da guitarra, com um timbre único e impossível de não ser reconhecido a partir do momento que você ouve pela primeira vez.

Jun Kozuki, George Wada, Joe Yamanaka e Hideki Ishima

Chegamos na terceira parte, começando com vinte segundos de barulhos de chuva, com a marcação do baixo de Kozuki imitando trovões. A pequena viagem da parte dois é superada pela maluquice total de “Satori Part 3”. O baixo faz um tema bem suave, com o volume muito baixo, e a entrada da bateria permite que a guitarra repita a melodia do tema do baixo, com o timbre pelo qual você já está hipnotizado. O ritmo marcial lhe leva para um abate sem resistência, e a Flower Travellin’ Band está conduzindo você para entregar-se de corpo e alma nessa viagem. A guitarra de Ishima começa a solar, descontrolada, com notas soltas, esparsas, e praticamente sem sentido, em cima da escala oriental e do acompanhamento sombrio e aterrorizante de baixo e bateria.

O tema oriental da guitarra é repetido, sempre com o andamento marcial ao fundo, até que a canção sofre uma mudança, com a guitarra fazendo quatro acordes que, junto com as viradas de Wada, levam para o belo duelo  entre as guitarras de Ishima, sobrepondo-se em um andamento hardiano fenomenal, onde finalmente você se entrega à genialidade dos japoneses, deixando consumir seu corpo com as doses de adrenalina injetadas pelas guitarras.
Tendo domado sua presa, a Flower Travellin’ Band entra em uma pequena viagem percussiva, onde os barulhos da guitarra e dos pratos voltam a assombrar o recinto, formando uma cadeia de sons que nos leva ao tema oriental que deu início a terceira parte, a qual é encerrada com uma dança russa acompanhando o agora rápido tema oriental.

Wada, Ishima, Yamanaka e Kozuki

 

Satori Part 4” é a mais longa e mais leve das cinco partes, começando com acordes jazzísticos da guitarra, puxando então um ritmo hardiano e entoando o riff principal com baixo e guitarra. Yamanaka canta em cima desse riff, com o andamento maluco da bateria sendo a principal atração, além dos efeitos de barulhos espaciais ao fundo. A partir do momento da entrada da harmônica de Yamanaka, o norte da canção é perdido, transformando-a em um delicioso hard-blues onde o solo da harmônica é embriagante como que saindo dos lábios de algum blueseiro negro da década de 30, seguido pelo magistral solo das guitarras de Ishima, com notas bem no estilo britânico de se tocar o instrumento, mas sem perder a dignidade psicodélica/oriental do grupo. Yamanaka fica acompanhado apenas pela bateria, solando na harmônica, e então, baixo e guitarra passam a acompanhar a melodia da harmônica, para a bateria trazer o ritmo inicial, com guitarra e baixo fazendo o riff e repetindo a letra, que encerra essa parte com muito barulho de bateria, guitarra e baixo.

Ishima e sua Sitarla
Por fim, “Satori Part 5” quebra tudo, com o imortal início onde o tema marcado de guitarra, baixo e bateria aterrisa em um novo andamento marcado e assustador, com Yamanaka gemendo cânticos orientais sobre esse andamento, saindo das profundezas de uma cova totalmente escura. Guitarra, baixo e bateria fazem uma rápida marcação, e Yamanaka novamente fica sozinho, soltando seus cânticos, para então Ishima solar, com notas encantadoras. Somos uma cobra-naja sendo levada pelas notas da guitarra, que com suas notas tristes, encaminha “Satori” para seu final derradeiro, o qual é feito pelos gemidos de Yamanaka e com o pesado tema marcado de guitarra, baixo e bateria, além de um gongo fazendo a sua parte nipônica. Os 42 minutos da canção lhe levaram para dimensões jamais descobertas por você, apesar da viagem ter ocorrido dentro de seu quarto. 

Make Up, o disco da mala

Satori era acondicionado em uma linda capa desenhada por Shinobu Ishimaru, talvez a mais bela do rock progressivo que não tenha sido desenhada por Roger Dean (famoso pelas capas do Yes nos anos 70). Depois desse álbum, a Flower Travellin’ Band ainda lançou mais dois discos: Made In Japan (1972) e o conceituado (e raro) Make Up, o qual vinha embalado em uma mala marrom, encerrando as atividades em 1974, com Uchida passando a se dedicar à carreira de ator de cinema, e com os demais membros do grupo seguindo em carreiras musicais desiguais, mas tendo deixado um legado eterno não só no Japão, como no resto, destacando o trabalho de Ishima, o qual gravou vários LPs com cítara e também é um dos únicos dois músicos a tocar um instrumento chamado sitarla, o qual é metade guitarra, metade cítara.

Flower Travellin’ Band 2008: (Em pé) George Wada e Jun Kobayashi (sentado) Nobuhiko Shinohara, Joe Yamanaka e Hideki Ishima

O grupo se reuniu novamente em 2007, com Wada, Yamanaka, Shima, o tecladista Nobuhiko Shinohara e o baixista Jun Kobayashi, e lançou em 2008 We Are Here.  Após diversos shows pelo Japão entre 2008 e 2009, a ideia de fazer uma excursão mundial para promoção do álbum, apresentando também velhos clássicos, acabou esbarrando no fato de Yamanaka ter sido diagnosticado com Câncer no pulmão em março de 2010.

Não somente dessa Maravilha sobreviveu Uchida, mas antes, outro petardo havia sido composto em 1969, e demorou mais de 30 anos para ser ouvido na íntegra pelos seus fãs. O nome dessa canção você irá conhecer na próxima semana.

7 comentários

  1. Mister

    Tive a felicidade de ver uma matéria escrita por mim sobre essa banda publicada na poeira Zine. Não se concentrou em álbum algum especificamente, mas sim na carreira do Uchida que remonta aos anos 50 e é muito rica dentro do rock japonês. Não sei mais em que número da poeira saiu a matéria, mas ela se completa com esta do Mairon e para quem quiser saber mais sobre a banda (e tiver acesso à números antigos da pZ) é uma referência menos tortuosa do que as matérias em inglês e japonês que recheiam a internet. Tudo o que eu tinha pra falar sobre a banda e a minha admiração por ela está lá. Quanto ao texto publicado pelo Mairon só posso dizer uma coisa: Deus te abençoe, rapaz.

    Ah, e uma curiosidade a respeito da prolífica carreira do Uchida no cinema: ele interpretou o comandante da prisão militar no filme “Furyo, em nome da honra”, atuando ao lado do Bowie e do Sakamoto.

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  2. Ricardo Seelig

    Grande banda. 'Satori' é um dos meus discos preferidos, e 'Made in Japan' também é um grande álbum.

    E parabéns pelos 100 mil acessos no blog.

    Abraço.

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  3. Mairon Machado

    Gaspa

    A matéria que tu te referes saiu na PZ do Jeff Beck de dezembro de 2008, numero 22, e foi um bom guia para elaborar essa matéria de hoje e a da semana que vem, que eu espero que aprecies.

    Te agradeço pela inspiração. Se não fosse teu texto, jamais teria conseguido completar as informações para essa sequência sobre o mestre Uchida!

    Cadão, desde o Anywhere até o Make Up, a FTB só lançou discaços. Existem alguns bootlegs da banda, com canções inéditas, que vale a pena dar uma ouvida tb

    Abraço

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  4. micaelmachado

    Belíssimo texto. Explicar 42 minutos de "viagens sonoras" com tanta concisão e precisão não é para qualquer um.

    Gosto bastante do "Anywhere", mas confessoque não conheço muito os outros discos da banda. Falha minha, que este texto me encoraja a corrigir!

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  5. Mister

    Estive pensando umas coisinhas:
    não considero o Satori um disco progressivo. Pra mim soa mais como um hard psicodélico, mas entendo perfeitamente a análise que o Mairon fez no texto e é tão válida quanto a minha. Mas o curioso é que em 1971 mesmo já era possível ouvir o equivalente ocidental desse disco nos sulcos do LP Split, do Groundhogs. São conceitualmente e sonoramente bastante semelhantes. Pelo menos para mim.

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  6. Leandro

    Ah, sim! Agora o blog tá perfeito!
    Bandaça mesmo!
    A galerinha que acha que som pesado dos anos 70 se resume a Black Sabbath deveria conferir bandas como essa e abrir a cabeça pra um universo esquecido do rock pesado.
    Parabéns a todos.

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