Por Diogo Bizotto
Muitas pessoas concordam que cada momento pede um tipo diferente de música, que se adapte à realidade dos fatos que ocorrem ao nosso redor, ao clima que nos circunda. Quando falo em clima, também posso me referir à presença de sol ou chuva, à temperatura do ambiente, à estação do ano… e poucas coisas combinam tanto com o inverno quanto o black metal, especialmente se for advindo da Noruega, berço de alguns dos artistas mais relevantes do gênero, a começar pelo pioneiro Mayhem, além de outros nomes como Darkthrone, Emperor, Burzum, Satyricon e Enslaved. Contudo, nenhum dos citados se especializou tão bem em transmitir em forma de música e através de sua identidade visual todo o frio proveniente de suas terras nórdicas quanto o Immortal.

Formado em 1990 em Bergen, cidade litorânea no oeste do país, desde seus primórdios o Immortal revolveu ao redor de duas figuras centrais: o baixista, baterista e vocalista Abbath Doom Occulta e o guitarrista e letrista Demonaz Doom Occulta. Por mais que outros membros houvessem passado pelo grupo, a dupla sempre determinou o direcionamento musical e visual, muitas vezes gravando sozinhos todo o material registrado em estúdio. A sonoridade original, inaugurada oficialmente em 1992 com Diabolical Fullmoon Mysticism e continuada com Pure Holocaust (1993), demonstrava um black metal ríspido, sem concessões a teclados e elementos externos à clássica combinação de guitarra, baixo e bateria. O ápice dessa sonoridade foi alcançado com Battles in the North (1995), álbum que elevou a extremos a aspereza e a velocidade do Immortal, sendo considerado até hoje o melhor lançamento da banda por muitos fãs.

Foi apenas em 1996 que, com a entrada do baterista Horgh, o Immortal conseguiu estabilizar seu line-up e lançou Blizzard Beasts (1997), um disco que, observado em retrospecto, revelou-se como o elemento de transição entre o que o grupo costumava ser e aquilo que ele se tornou com o álbum seguinte, objeto dessa resenha, o fantástico At the Heart of Winter. Porém, antes de submergir em suas particularidades, é necessário citar que, após o lançamento de Blizzard Beasts, Demonaz foi diagnosticado com tendinite, fato que não permitiu mais que o guitarrista continuasse executando sua função satisfatoriamente. Ao invés da previsível substituição, Demonaz manteve-se na banda como letrista e assumindo encargos empresariais, posição que ocupa até hoje, e Abbath acumulou a função de guitarrista, papel que passou a executar em suas apresentações ao vivo.

Horgh e Abbath

Dessa forçada mudança surgiu aquele que, para mim, concorre ao título de melhor álbum do grupo com o também magnífico Sons of Northern Darkness (2002), trazendo composições criadas por Abbath e letras escritas por Demonaz. Os andamentos mais retos do passado foram substituídos por linhas mais elaboradas e ricas, alternando blast beats (a famosa “metranca”), típicos do black metal, com viradas e alternâncias de ritmo que têm tudo a ver com o death e o thrash metal, demonstrando a superioridade de Horgh nas baquetas em comparação com Abbath, que, por sua vez, exibiu toda sua competência na construção de riffs e bases que conseguem uma grande façanha em se tratando de metal extremo: grudar na cabeça do ouvinte.

Outra grande adição digna de elogios em At the Heart of Winter é a presença do produtor sueco Peter Tägtgren, músico na época já famoso por liderar o Hypocrisy e a one man band Pain, profissional de primeira linha em se tratando de produzir discos de heavy metal. Gravando no estúdio de propriedade de Peter, o Immortal teve ressaltadas suas novas e superiores performances através de uma produção gorda e orgânica, além de uma mixagem equilibrada, que pouco lembrava a aspereza do passado. Em um gênero famoso pelo arraigamento a tradições, essas mudanças poderiam ter arrecadado a antipatia de muitos fãs, mas o que se viu majoritariamente foi uma grande aceitação, tanto de público quanto de crítica, que enxergou, além do corpse paint e da temática típica, músicos talentosos criando canções relevantes. Um fator que certamente foi responsável (e até hoje é) pela boa aceitação do Immortal tanto entre tradicionalistas quanto fãs novatos, é que, apesar da latente evolução, o grupo nunca cedeu a experimentalismos que poderiam dissociar sua música da proposta original. Mesmo a adição de algumas linhas de teclado mais contribuíram para construir o clima passado através das faixas do que receberam alguma ênfase em especial.

Abbath, com um fiorde norueguês ao fundo

Desde os primeiros instantes de “Withstand the Fall of Time” percebe-se que, apesar de mantida a característica guitarra carregada de fuzz, a música praticada pelo Immortal vem embebida em tons muito mais épicos do que outrora. Apesar de ainda apresentar segmentos velozes, esses se revelam mais ricos em viradas de bateria e bons riffs, mas é nas mudanças de andamento, que começaram a ser exploradas com mais propriedade em Blizzard Beasts, que se revela o grande trunfo do Immortal. Abbath cativa o ouvinte com uma mão direita que, apesar de rápida e precisa quando necessário, revela-se uma máquina de cuspir riffs com uma cadência quase atípica para o gênero.

Quem pensa que foram feitas concessões em se tratando de peso está completamente enganado. A segunda faixa, “Solarfall”, atinge nossos ouvidos sem piedade desde o primeiro instante, mostrando-se a mais thrasher de todo o álbum, alternando momentos velozes com outros mais cadenciados, constituindo um destaque em um disco onde todas as faixas são dignas de elogios. Os quase nove minutos de “Tragedies Blows at Horizon” confirmam a aperfeiçoada vocação do Immortal para a criação de climas distintos na mesma canção com grande naturalidade, ora exibindo riffs que poderiam ter sido extraídos de um álbum do Kreator lançado nos anos 80, ora invocando o lado mais épico de bandas como Manowar e Bathory, influências confessas de Abbath.

O andamento empolgante e cavalgado de “Where Dark and Light Don’t Differ” é perfeito para criar uma boa interação com o público black metal, que muitas vezes é carente de músicas que permitam uma reciprocidade física para com os artistas. Ideal para arrebentar pescoços durante os concertos! A faixa-título é dona de um início calmo e atmosférico, que logo cede espaço para viagens intrincadamente variadas, destacando não apenas o bom trabalho de Abbath na criação de melodias cativantes através de seus riffs, mas a execução de linhas de baixo que, apesar de pouco audíveis (quase uma praga no gênero), complementam a massa sonora com habilidade.

Abbath ao vivo

É com violência que “Years of Silent Sorrow” encerra um álbum aparentemente curto, mas cujas seis faixas jamais possuem menos de seis minutos de duração. Doses cavalares de riffs tipicamente death e thrash metal dividem espaço com melodias de proporções épicas, demonstrando que a música praticada pelo Immortal, apesar de ainda extrema, teve sua dimensão muito ampliada. No topo de tudo o que descrevi até agora, a voz de Abbath ressoa com grandeza e peculiaridade, sem cair em alguns clichês de diversos outros vocalistas black metal, que apelam para vocais que mais se assemelham a um grasnar de corvos. Abbath trabalha em um registro mais grave, e, sem dúvida, é um dos mais competentes no estilo.

Por mais que muitos não queiram levar o Immortal a sério devido à sua identidade visual, que não economiza no corpse paint nem em trajes ricos em ornamentos que parecem mais adequados a um guerreiro medieval, o foco da banda sempre foi sua música, que, apesar de enraizada em preceitos tradicionais, foi sendo moldada com o passar dos anos e se tornando cada vez mais rica. Passando ao largo de polêmicas envolvendo membros de outras bandas norueguesas de black metal, hoje em dia o Immortal é dono de uma popularidade invejável, especialmente se levarmos em conta que se trata de um grupo que pratica essa vertente, sem concessões sinfônicas ou outros fatores que poderiam vir a angariar uma audiência mais ampla. Analisando hoje em dia, fica fácil definir At the Heart of Winter como o álbum mais crucial na escalada do Immortal como uma potência musical merecedora de elogios. Se você não conhece o grupo ou sequer o gênero, é com o clima lúgubre de At the Heart of Winter que recomendo que inicie sua descoberta.

Track list:

1. Withstand the Fall of Time
2. Solarfall
3. Tragedies Blow at the Horizon
4. Where Dark and Light Don’t Differ
5. At the Heart of Winter
6. Years of Silent Sorrow

3 comentários

  1. Artur

    Adorei a análise feita. Tá ai uma banda que sempre foi apegada as origens, sem deixar de lado a música e a evolução musical que toda banda deve passar, sem preconceitos em termos de inovar.
    É uma pena que o Immortal não seja levado muitas vezes a sério, pois é simplesmente perfeita no que faz, com um som único e muito interessante.

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  2. diogobizotto

    Pois é, Artur. Devido à imagem, muitas boas bandas de black metal não recebem a merecida atenção, seja pelo visual ou pelas atitudes de alguns dos músicos no passado, envolto em polêmicas, especialmente na Noruega.

    O Immortal, inclusive, é um dos maiores alvos de piadinhas graças às poses um tanto exageradas de seus integrantes sob à ótica das lentes das câmeras, mas leva a sério seu som como poucas bandas do gênero. Como afirmei no artigo, e não me canso de reforçar, "At the Heart of Winter" e "Sons of Northern Darkness" são álbuns magníficos, bons do início ao fim, que têm tudo para agradar fãs de outras subdivisões do heavy metal.

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  3. Artur

    Realmente Diogo, a imagem da banda é alvo de piadas diversas, tá certo que muitos dos clipes são no mínimo forçados de mais. O que ocorre na verdade é que ninguém percebe o senso de humor desses caras, especialmente do Abbath, que deve ser uma figura!
    O Immortal sempre se preocupou com a música, ficando fora daquele circuito de violência e radicalismo e é por isso que para mim é a banda que mais merece respeito da cena norueguesa.
    O último álbum dos caras, All Shall Fall, prova que a banda está numa crescente, fazendo cada vez músicas mais maduras.

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