Por Mairon Machado

O ano era 1983. Havia passado um ano desde o lançamento do último disco do ícone do rock britânico Queen, o conturbado Hot Space.  A turnê de divulgação do LP, junto ao afloramento sexual de Freddie Mercury, acabou levando o grupo para uma crise interna de proporções gigantescas. A solução encontrada para o não término do Queen foi que cada um tirasse umas longas férias.
Nesse período, Roger Taylor (bateria), se mandou para a Escócia, John Deacon (baixo) voltou para os estudos de eletrônica e para sua família, enquanto Mercury excursionou por projetos paralelos e carreira solo. Apenas o guitarrista Brian May ficou a ver navios e sem ter o que fazer. Não querendo abandonar a música, mas querendo abandonar o Queen, May buscava alguma inspiração para tentar arranjar forças e lançar-se em uma carreira solo.

Caixa com a série completa de Star Fleet
Foi quando em um belo dia de janeiro de 1983, em sua casa, May viu que seu filho Jimmy estava vidrado em um programa de TV. Esse programa era uma série de ficção científica da TV britânica, com diversos efeitos visuais para as batalhas dos heróis, os quais pilotavam veículos espaciais que podiam reconfigurar-se em gigantescos robôs durante as batalhas contra alienígenas que viajam em aeronaves em formato de inseto, gerando pequenas máquinas de guerra, tudo para possuir o segredo de F Zero One.
Apesar da bizarra história, May ficou fascinado com a série, e principalmente, com a tema de abertura do programa, batizado de Star Fleet, a qual foi composta por Paul Bliss. Assim, decidiu fazer uma versão para a trilha, a qual ele batizou de “a versão hard para Star Fleet”. 
Confortado com a ideia, ele começou a ligar para alguns amigos, ver se os mesmos estavam disponíveis, e se aceitavam fazer a gravação da mesma, já que ele queria presentear o filho que lhe apresentou a série com a canção. Os quatro primeiros amigos que ele ligou logo aceitaram participar. Eles eram Alan Gratzer (bateria), Phil Chen (baixo), Fred Mandel (teclados) e Eddie Van Halen (guitarra).
Brian May, Eddie Van Halen, Phil Chen e Fred Mandel
Nos dias 21 e 22 de abril de 1983, o quinteto se uniu para fazer o registro da trilha de Star Fleet no Record Plant Studios, de Los Angeles. Como as gravações ocorreram muito bem, sobrou tempo no estúdio, que os levou a gravar algumas improvisações. Passado as gravações, Brian entregou a fita para o menino e mostrou a gravação para diversos amigos, que acabaram o aconselhando a lançar o material em um LP, já que o que estava contido nas gravações era um registro únido do guitarrista do Queen fora da banda.

Assim nasceu Star Fleet Project. Lançado ainda em 1983, com o título da banda de Brian May + Friends, este é um álbum que passou despercebido até mesmo pelos fãs do Queen. Muitos nem se quer se animam a ouvir, devido a capa do mesmo com seu robô espacial, e a maioria desconhece a participação de Eddie Van Halen nas seis cordas.

Eddie Van Halen e Brian May

Pobres mortais! Star Fleet Project é uma boa amostra de como Brian May sabe tocar vários estilos, sem se prender ao andamento do Queen, e ainda, de como Eddie Van Halen no início dos anos 80 era o melhor guitarrista que a Terra tinha sobre seus pés. O álbum abre com “Starfleet“, onde os acordes da guitarra de Brian são acompanhados pelos harmônicos de Van Halen, trazendo a bateria em um ritmo bem anos oitenta. Aqui já podemos perceber um detalhe importante: a mixagem privilegiou as guitarras, deixando bem claro quem é que está fazendo sua parte principalmente pelos diferentes estilos de May e Van Halen.

Os vocais de Brian surgem sobre o ritmo oitentista, tendo ao fundo intervenções vocais na linha do Queen, e também a destacada participação dos sintetizadores. Após a segunda repetição do refrão, começa a sequência de solos, primeiro com Brian, seguindo seu estilo tradicional, e depois com Van Halen, abusando de harmônicos. Os vocais retornam cantando o nome da canção, levando para mais uma sequência de solos, agora começando com Eddie.

A letra é repetida, encerrando a canção com seu nome sendo cantado e carregada de sintetizadores, partindo então para uma longa sessão instrumental onde Brian e Van Halen brincam em cima dos acordes centrais da mesma, de onde Eddie brota fazendo um rápido solo, seguido pelo solo de Brian, e terminando com uma sequência de solos de ambos.

A seguir, começa a sessão de improvisos, primeiro com “Let Me Out”, onde piano e baixo fazem a introdução de um leve blues, com Brian cantando sobre o bom andamento da canção. May é o responsável pelo primeiro solo, cantando a sequência da letra, a qual já havia sido escrita para entrar em algum álbum do Queen, mas nunca mereceu uma chance. Van Halen faz o segundo solo, e então o blues come solto, em um ritmo embriagante, crescendo na espetacular sequência de solos de Brian e Van Halen, com os dois guitarristas totalmente relaxados, executando solos fantásticos e empregando suas diferentes técnicas para arrancar o mais feeling blues que você poderá ouvir de ambos, encerrando o lado A em um clima de total descontração com Brian entoando o nome da canção, e com Eddie estourando uma das cordas de sua guitarra.

Contra-capa de Star Fleet Project

O lado B é totalmente dedicado para a jam “Bluesbreaker (Dedicated to E. C.)”. E. C. significa Eric Clapton, e se você pensou que só ia ouvir blues em “Let Me Out”, está redondamente enganado. May e Van Halen estraçalham em um blues espetacular, nessa incrível jam session com solos memoráveis, começando com Van Halen solando timidamente, seguido de Brian em uma linha rock ‘n’ roll, sem firulas ou técnicas extravagantes. Eddie passa a usar acordes de blues, aplicando velocidade ao manhoso ritmo de piano, baixo e bateria, e a canção cresce em ritmo com Brian, que despeja distorções e escalas velozes ao lado de bends e alavancadas, sem perder a pose bluesística.

Estamos no centro da orgia bluesy, e Eddie parece uma mistura de Jimmy Page (Led Zeppelin) e Eric Clapton, totalmente diferente de seu estilo habitual, enquanto May solta bends rasgados, fazendo a guitarra gritar como poucos. Arpejos então é a “arma” de Eddie para seu quarto solo, mesma técnica empregada por Brian. A sequência de solos nessa altura já tomou conta do seu corpo, e finalmente, Van Halen faz as suas mágicas escalas que são impossíveis de serem reproduzidas, chegando no momento onde ambos os guitarristas solam juntos, com muitos bends e arpejos.

Encarte do LP

Fred Mandel ganha seus segundos de fama, com um interessante solo ao piano, trazendo a guitarra de Brian para entrar na sequência final de solos, dessa vez solando mansamente, com notas engasgadas que são repetidas por Van Halen, um monstro na guitarra, com sua mão direita sendo muito veloz. O grupo para, deixando Mandel sozinho para puxar o ritmo de um dançante rock ‘n’ roll, seguido por baixo e bateria. As guitarras aparecem vagarosamente, e May faz mais um solo neste novo ritmo, encerrando a canção do nada, com algumas conversas ao fundo e monstrando que o quinteto estava à vontade, apenas improvisando.

Festa de lançamento de Star Fleet Project, contando, ao fundo, com May (esquerda), Van Halen (direita), John Entwistle (centro, ao lado de Eddie) e diversos convidados

Como Brian escreveu no encarte do vinil: “você pode nos ouvir sorrindo como que em um busca de respostas para as notas de guitarra um do outro“. Esse é o clima de Star Fleet Project: relaxado, tranquilo e sem exibicionismo. Dois monstros da guitarra apenas tendo o prazer de tocar seu instrumento.

Sou um dos poucos que conheço que gostam desse disco. Para todos os que nunca ouviram por preconceito, ou medo, eu digo: deixem isso de lado e adquiram já este valioso material. Se você gosta de guitarras bem tocadas, e principalmente, se é fã de ambos os guitarristas e bandas, você não irá se arrepender!

Track list:

1. Starfleet
2. Let Me Out
3. Bluesbreaker (Dedicated to E. C.)

1 comentário

  1. Anônimo

    Ôpa…. eu tenho esse disco… é tudo isso aí que vc disse…

    Para matar a saudade, depois vou dar uma ouvida…

    belo blog…

    um abraço.

    Responder

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