Por Diogo Bizotto

Para muitos, inclusive no Brasil, hoje em dia o Take That é visto como pouco mais que a boy band que catapultou o cantor Robbie Williams para o mundo, esse sim detentor de grande fama e sucesso que superou as fronteiras de sua Inglaterra natal, atingindo em cheio a Europa continental e a América do Sul, onde é dono de grande popularidade, inclusive superior à obtida nos Estados Unidos.

Entretanto, a realidade passa a uma longa distância dessa ideia. Como todas as boy bands que conheço, a união dos membros do Take That se deu, mais do que por alguma afinidade musical entre seus cinco integrantes, pelas mãos de um empresário, na época interessado em lançar a resposta britânica ao New Kids on the Block, grupo vocal surgido na segunda metade dos anos 1980 nos Estados Unidos, que apostava em um pop urbano com toques de rhythm ‘n’ blues para conquistar a audiência jovem feminina. Entretanto, ao contrário do New Kids on the Block e da maioria esmagadora dos grupos do gênero, que dependiam de compositores externos para prover seu material, o Take That trazia nas suas fileiras um jovem bastante prolífico na criação de seu próprio catálogo: Gary Barlow. Foi ao redor dele que o grupo foi montado, tendo Gary também como seu principal vocalista, ao lado de Robbie, Mark Owen, Howard Donald e Jason Orange.

Na primeira metade dos anos 1990, nenhum outro artista superou a popularidade do quinteto na Grã-Bretanha. Praticando um pop dançante e fazendo uso de um visual que, apostando na aparência dos integrantes e em videoclipes de conteúdo sexual, conquistava massivamente tanto o público feminino jovem quanto a audiência gay, o Take That teve que lidar com a histeria das fãs e com a frustração de alguns de seus membros em um curto espaço de tempo. Robbie Williams, em especial, mostrava-se insatisfeito com os rumos tomados pelo grupo, determinados majoritariamente por Gary Barlow e pelo empresário Nigel Martin Smith. Além disso, suas experiências com drogas também foram fator predominante nos atritos com seus companheiros. Mesmo evoluindo gradativamente e tendo lançado em 1995 um disco nitidamente mais maduro, Nobody Else, o Take That perdeu Robbie em julho daquele ano. Ciente das mudanças que estavam se operando no cenário britânico, menos de um ano depois o grupo encerrou suas atividades, não sem antes registrar um último single, o cover para “How Deep Is Your Love” (Bee Gees).

 

Take That nos anos 1990: Robbie Williams, Mark Owen, Gary Barlow, Jason Orange e Howard Donald

A verdade é que, apesar de possuir algumas faixas de destaque ao longo de sua então curta carreira, como “Pray” e “Never Forget”, mas mais especialmente quando investiam nas baladas, vide “Back For Good” e “Nobody Else”, a qualidade musical do Take That sempre passou a uma boa distância de fazer jus ao sucesso comercial obtido. Em carreira solo, Robbie Williams conseguiria equilibrar essas duas variáveis com maestria, criando hits que reúnem sensibilidade pop e qualidade aos montes, como “Angels”, “Rock DJ”, “Come Undone” e “Advertising Space”. Gary Barlow e Mark Owen também tentariam lançar a sorte como artistas solo, mas, apesar da boa recepção inicial ao trabalho de Barlow, acabaram passando a uma grande distância do êxito conquistado por Robbie.

Em 2005 foi lançada a coletânea Never Forget: The Ultimate Collection, que trouxe uma compilação de quase todos os singles lançados pelo Take That, incluindo uma faixa composta por Gary em 1995, gravada especialmente para o disco com o grupo reunido, exceto por Robbie Williams. As ótimas vendagens, somadas à repercussão de um documentário televisivo a respeito de sua carreira, levaram a uma reunião definitiva do agora quarteto, que realizou uma turnê na Grã-Bretanha e na Irlanda antes de entrar em estúdio para registrar um novo álbum.

Quem pensou que a ausência de uma estrela internacional como Robbie faria falta ao Take That errou feio. Digo mais: quem esperava um disco na mesma veia dos antecessores, registrados nos anos 1990, frustrou-se mais ainda. Unindo forças com o produtor, compositor e multi-instrumentista norte-americano John Shanks, creditado em álbuns dos mais diversos artistas da música pop e do rock (Santana, Bon Jovi, Sheryl Crow, Melissa Etheridge etc.), o quarteto oferece em Beautiful World uma coleção de joias do pop contemporâneo, dotadas de um perfeccionismo notável. Além disso, as músicas, normalmente creditadas a Gary, têm aqui seus créditos divididos entre todos os membros, além da participação de alguns compositores externos. Apesar de Gary ainda ser o principal vocalista do grupo, tomando a frente em seis das 12 faixas, essa tarefa também está muito melhor distribuída em Beautiful World do que em álbuns do passado. Até Jason Orange, que não havia se arriscado antes, abraçou essa responsabilidade em “Wooden Boat”.

 

Take That reunido em 2006: Jason Orange, Mark Owen, Gary Barlow e Howard Donald

Tomar contato com uma sonoridade mais orgânica logo na abertura, com a ótima “Reach Out”, é um convite para que mesmo aqueles que nunca gostaram do Take That dêem uma chance aos artistas. A voz de Gary ressoa com a mesma juventude da década passada, mas ainda melhor, mais técnica, segura, confortante. Instrumentalmente, trata-se de um pop rock simples e contagiante, no qual, em seu refrão, surge pela primeira vez no disco aquele que é um dos maiores trunfos do grupo, as equilibradas harmonias vocais executadas pelos quatro. Em dado momento é feita uma provável referência ao sucesso “I Believe in a Thing Called Love”, do The Darkness, banda inglesa de hard rock muito bem sucedida na época.

O primeiro single, “Patience”, mostrou-se uma excelente escolha para reapresentar o Take That ao público, escancarando seu amadurecimento através de uma verdadeira power ballad que muitos músicos de rock adorariam ter composto. Ao contrário do que alguns podem estar pensando, nem o fato de contar com arranjos orquestrais lhe empresta a pecha de “brega”. Nas palavras de Nicky Wire, baixista da banda galesa Manic Street Preachers, “Patience é o maior single de retorno de uma banda na história. Se Neil Young a tivesse escrito, as pessoas a estariam chamando de obra-prima”. Mas não, foi cunhada por uma ex-boy band, e, apesar disso, foi aclamada por público e crítica.

Contando com o vocal principal executado por Howard Donald, a faixa-título segue na linha das anteriores, um pop rock de instrumentação aparentemente simples, mas bem pensada em seus detalhes, denotando um perfeccionismo que permeia todo o disco. Howard pode não contar com timbre e técnica tão bons quanto Gary Barlow, mas manda muito bem, auxiliado pelos backing vocals de seus companheiros, e dá conta do recado ao vivo. Se em “Patience” Gary teve a chance de brilhar em uma ótima balada, em “Hold On” a vez é de Mark Owen, mostrando seu timbre mais rouco em mais uma canção que reforça o quão nivelado por cima é Beautiful World, mesclando uma faceta acústica com a profusão de arranjos orquestrais.

Outra que trilha um caminho mais acústico, dessa vez unido ao piano, é “Like I Never Loved You at All”, trazendo mais uma performance arrasadora de Barlow, também responsável pelas teclas. Um prato cheio para os apreciadores de baladas ricas em linhas vocais melódicas, além de letras bem trabalhadas e perfeitamente encaixadas. Bastante diferente é “Shine”, segundo single extraído do álbum, cantada por Mark Owen. Possuidora de um tom mais otimista e bem humorado, a música, conduzida pelo piano, combina melodias que poderiam ter sido extraídas de alguma canção escrita por Paul McCartney com o lado mais espalhafatoso de Freddie Mercury no Queen. A atenção às harmonias vocais, presentes do início ao fim de Beautiful World, são ainda mais exacerbadas em “Shine”, grande mérito do quarteto.

 

Take That na turnê para Beautiful World

Contrastando com a anterior, “I’d Wait For Life” é provavelmente o mais melancólico registro em toda a carreira do Take That, contando em quase toda sua extensão apenas com a voz de Gary acompanhada de piano e arranjos de cordas, além, é claro, dos backing vocals de seus colegas. “Ain’t no Sense in Love”, mais uma com Barlow à frente, traz um dos mais agradáveis refrões do álbum, lidando com a ausência de lógica no amor (Pois você não é a que eu preciso / mas é a que eu quero / faz perfeito sentido para mim).

É até redundante comentar sobre o fato de “What You Believe In”, cujo vocal principal é executado por Mark, ser dotada de mais um refrão digno de nota. A impressão passada é que, não estivesse cada música completamente redondinha, na medida para viciar logo na primeira audição, simplesmente não haveria álbum algum. Engana-se o leitor que acredita, apesar de toda minha exposição, tratar-se apenas de pop chiclete, que se ouve algumas vezes e depois descarta-se. Desde que tomei conhecimento de Beautiful World não consigo parar de ouvi-lo, e é raro passar um dia sem que escute ao menos uma de suas faixas.

Howard Donald, que já havia registrado a faixa-título com muita propriedade, volta a apresentar sua voz em alto estilo com “Mancunian Way”, reafirmando tudo aquilo que expus mais acima. A alternância entre o estilo das linhas vocais nas estrofes, na ponte e no refrão é agradabilíssima, fazendo dessa mais uma música para deixar o nível do disco lá no alto. Apesar de todos os rasgados elogios às anteriores, é em “Wooden Boat” que reside a maior surpresa do álbum. Além de apresentar Jason Orange em performance solo pela primeira vez, a canção traz um saudabilíssimo e inesperado acento folk, quase pastoril, agregando violões a sutis arranjos de cordas e percussão.

Como se já não fosse o suficiente, Beautiful World ainda reserva uma faixa escondida, a balada pop rock “Butterfly”, encerrando o registro de maneira confortável, tendo a familiar voz de Gary Barlow à frente, deixando tudo “em casa” e concluindo a audição de um dos melhores discos que a música pop ofereceu nos últimos anos. Particularmente diria até mais que isso, mas temo que a carga de elogios que empreguei ao realizar esta resenha possa elevar em demasia a expectativa dos possíveis novos ouvintes. Se bem que, querem saber? Dane-se! Beautiful World é um dos melhores álbuns que tive a oportunidade de ouvir desde que comecei minha jornada musical 16 anos atrás, iniciando pelo heavy metal. Se um disco em que simplesmente todas as faixas são destaque, mais parecendo uma coletânea do que qualquer outra coisa, não merecer esse rótulo, pouquíssimos são os que merecerão.

 

Take That em 2011, reunido com Robbie Williams (centro)

Tão bem sucedido (ou mais) que em sua primeira encarnação, o Take That seguiu em frente e colocou outro lançamento no mercado em 2008, o ótimo The Circus, destacando canções como “The Garden”, “Greatest Day” e “Julie”. Em 2010, foi anunciado o retorno de Robbie Williams às fileiras do grupo, que soltou Progress no final do mesmo ano. Apesar de não ser tão bom quanto os anteriores, o sucesso da mais recente encarnação do (novamente) quinteto tem sido grande, além do álbum contar com uma forte candidata a melhor música do grupo, a soberba “The Flood”, coroando a renovada parceria com Robbie. Se existe uma boy band que soube executar a perfeita transição para uma man band, essa é o Take That, que de quebra protagonizou um dos melhores retornos à ativa já vistos. Ah, se a música pop fosse sempre assim…

Track list:

1. Reach Out
2. Patience
3. Beautiful World
4. Hold On
5. Like I Never Loved You at All
6. Shine
7. I’d Wait For Life
8. Ain’t No Sense in Love
9. What You Believe In
10. Mancunian Way
11. Wooden Boat
12. Butterfly [Faixa escondida]

7 comentários

  1. Pablo

    Robbie Williams é um baita cantor/intérprete. Independente de preferências musicais, o talento do cara é mais do que evidente.

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  2. Mairon Machado

    Primeiramente, tenho que dar os parabéns ao Diogo por esse post, que talvez seja o melhor já feito no CDR. Um baita texto que explica em detalhes a historia da banda de forma bem didatica.

    Quanto ao Take That, nao conheço, mas abrirei meus ouvidos a partir desse texto com os videos disponibilizados e depois deixo meus comentarios, mas quero registrar que outra banda que fez bem a transição boy-band para man-band foi o Hanson

    da xaropisse de MMMBop, o grupo entrou nos anos 2000 com canções bem mais acessíveis, lançando discos interessantes e que eu destaco Underneath e The Walk

    Novamente, parabens Diogo!

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  3. Mairon Machado

    Bah, essa "Shine" é muito Queen, tirando o vocal principal. Até a guitarra-orquestrada do May ta presente. Ouvi todas as canções disponibilizadas pelo Diogo, e pior que para ruim não serve. Nada que me faça comprar o CD, mas tipo, se ta rolando de fundo, não fica ruim. A melhor é Wooden Boat, mas Shine tb me chamou a atenção

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  4. diogobizotto

    Mairon, entendo essa associação que fizeste com o Hanson, pois é inegável que aqueles garotos que fizeram "MMMBop" evoluíram pacas e se tornaram músicos respeitáveis, mas ao mesmo tempo é interessante notar que se tratou de uma associação mais natural, uma afinidade fraternal, puxando da origem da palavra, que se refere a "irmãos", coisa que o trio é.

    Quanto ao seu elogio de "melhor (post) já feito no CDR", claro que acredito se tratar de um exagero, mas agora deixando a modéstia de lado, me puxei pacas pra deixar o texto coeso, e busquei fontes diversas, inclusive assistindo o documentário que citei no artigo. Obrigado pela valorização!

    Ah, mais uma coisa: eu até imagino o Roger Taylor cantando "Shine" com sua voz rouca, aproximando-se da de Mark Owen!

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  5. ayda

    Diogo parabéns! Tenho muito orgulho de ter sido tua teacher e ver escrito essa maravilha de texto de um dos meus grupos favoritos!!! Voce realmente contou de uma maneira simples e verdadeira a evoluçao da carreira desses artistas, que muitos criticos ingleses torciam o nariz. Eu sempre acreditei que o talento do Gary seria um ponto forte e seguro para a sobrevivencia do grupo, e que eles nao eram apenas belos dançarinos e sim reproduziam exatamente o pensamento de uma geraçao. Way to go my boy! I'm proud of you!!!

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  6. diogobizotto

    O orgulho é meu por ter tido, muito mais que uma teacher, uma amiga. Obrigado pelos elogios! Acredito que o Take That, mais especialmente esse disco, são muito dignos de toda a atenção dos fãs de qualquer gênero que prezem, sobretudo, pela boa música. Thanks!

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