Maravilhas do Mundo Prog: Ars Nova – Android Domina [2001]

7 de julho, 2011 | por Mairon
Diversos
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Por Mairon Machado
O Japão sempre foi um país onde o rock era mais do que um estilo, sendo quase uma religião. Não a toa, diversas bandas gravaram seus primeiros álbuns ‘in the act’ na Terra do Sol Nascente, tamanho o fervor do público nipônico em relação aos shows. Deep Purple, Judas Priest, UFO, Viper, Iron Maiden entre outros são alguns exemplos de grandes bandas que fizeram seu legado na pequena ilha da Ásia, deixando influências diversas por lá.
O progressivo no Japão também era algo que se destacava. Curiosamente, as bandas britânicas faziam relativo sucesso por lá, mas eram as bandas italianas que fundiam a cabeça dos japoneses. Não somente isso. Como em tudo o que conhecemos, os japoneses sempre foram mais avançados do que o resto do mundo, e desta forma, o país era um grande exportador de bandas progressivas que hoje são obscuridades caçadas a tapas pelos colecionadores, através de um emprego forte do jazz rock nas composições. 
Algumas bandas e artistas que se destacaram nesse período que compreende os anos 70 e início dos 80 são: Ain Soph, Jimmy, Yoko & Shin,  Toshiyuki Miyama, Kan Mikami, Hiro Koichi, Shingetsu, Stomu Yamashita e claro, a inesquecível Flower Travellin’ Band.
Kyoko Kanazawa
Em 1983, a cena progressiva do Japão era tão bizarra quanto uma história do Jaspion. As bandas do estilo que existiam praticamente empregavam muitos sintetizadores e eletrônicos, no que os próprios japoneses definiram como sendo synth-prog, e que de progressivo mesmo tinha apenas a parte experimental. Nesse período que a baixista Kyoko Kanazawa resolveu montar um grupo para homenagear um dos seus principais ídolos, o baixista e vocalista Greg Lake.
Ao lado de Keiko Thubata (teclados) e Yumiko Saito (bateria), nascia o sonho de homenagem a Lake, e consequentemente ao Emerson Lake & Palmer, que foi batizado de Ars Nova (não confundir com o grupo americando de mesmo nome, mas da década de 60). O trio feminino começou a se apresentar por diversas cidades japonesas, chamando atenção pela técnica impecável de Thubata, que acabou deixando o grupo em 1986, sendo substituída por Keiko Kumagai. Com Keiko, o Ars Nova realizou apenas dois shows, e por causa de problemas pessoais, acabou ainda em 1986.
A linda capa de Fear & Anxiety
Mas, em 1991, as garotas se reuniram novamente, e com um contrato com a gravadora Made in Japan Records, lançam Fear & Anxiety (1992), destacando a bela faixa “Fata Morgana”. No ano seguinte, Saito foi substituída por Akiko Takahashi, que estreiou no álbum Transi (1994), o qual elevou o nome do Ars Nova para fora do Japão, tornando-as reconhecidas nos Estados Unidos, onde foram atração do Prog Fest de Los Angeles, em 1995.
Em 1997, lançam The Goddess of Darkness, que levou o nome Ars Nova para shows pela europa, bem como a saída de Kyoko Kanazawa em outubro daquele ano. Akiko e Keiko seguiram como dupla, e tendo como baixista convidado Ken Ishita, lançam o quarto álbum, The Book of the Dead, em 1998. Uma gigantesca turnê mundial ocorreu logo após o lançamento de The Book of the Dead, passando por europa, Estados Unidos e alguns países da ásia, tendo no baixo Naomi Miura.
Akiko Takahashi
A dupla então decidiu dar um tempo nas gravações, dedicando-se a projetos paralelos e também a família, até que em 2000, reuniram-se novamente, contando agora com Mika Nakajima (voz, sintetizador, piano, órgão) ao lado de Akiko e Keiko. Com essa formação, lançam o espetacular Android Domina em 2001.
A provocativa capa, com duas mulheres sensualmente uma em cima da outra, já chama a atenção, mas é a sensacional faixa-título que coloca a casa abaixo. Responsável por abrir o CD, “Android Domina” é divida em cinco partes, e criativamente, explora o piano como sendo o divisor dos temas da pequena suíte. Ela começa com os gemidos sensuais de uma moça em plena atividade sexual, seguido por barulhos percussivos, que a medida que aumentam de intensidade, aumentam também a intensidade dos gemidos, explodindo nos acordes dos sintetizadores de Nakajima.  Essa parte é chamada de “Transformer”, e após os acordes de Nakajima, é a vez de Keiko surgir com seus sintetizadores, fazendo um tema em cima dos acordes de Nakajima, que tornam-se sombrios, retomando os gemidos e levando a um curto tema do sintetizador, muito na linha dos temas de Rick Wakeman nos clássicos Journey to the Center of the Earth (1974) e Myths and Legends of King Arthur and the Knights of the Round Table, encerrando “Transformer” com acordes de piano.
Então, sintetizadores, percussão como chicotes e bateria abrem “Desire”, em um ritmo frenético, para então baixo e bateria comandarem o andamento das intervenções do sintetizador de Keiko, variando o ritmo até chegarmos a um belíssimo tema clássico dos sintetizadores de Keiko, com o piano de Nakajima dando um show ao fundo. O tema é repetido, destacando as belas mudanças de ritmo de Akiko, para o piano quebrar o ritmo em uma linha muito próxima a “Tocatta” (Emerson Lake & Palmer), com muitos barulhos de sintetizadores em um andamento complicado e repleto de percussões, as quais abrem espaço para um longo acorde de órgão hammond.
Keiko Kumagai
Esse acorde termina quando Nakajima começa a cantar a letra de “Hypnosis”, um lindo trecho com piano e sintetizadores executando um tema clássico que acompanham os vocais de Nakajima. O órgão de igreja se destaca, fazendo o belo solo central sozinho, com escalas fantásticas e realmente hipnotizantes, trazendo o sintetizador solando ao fundo, fechando essa parte da canção com o piano novamente quebrando tudo junto com a percussão.
O ritmo aumenta, e o hammond toma conta. Entramos em “Instinct”, onde Keiko demonstra sua habilidade no hammond, tendo ao fundo o espetacular acompanhamento da bateria de Akiko e também do excelente dedilhado de Nakajima. Fãs de Emerson Lake & Palmer, ouçam aqui a versão feminina japonesa do grupo, principalmente quando Nakajima passa a solar em cima do moog, relembrando o tema de “In the Hall of the Mountain King” em alguns momentos.
Por fim, “Resurrection” surge após um espetáculo sonoro do hammond e do piano, retomando os temas iniciais de “Transformer”, em uma velocidade mais cadenciada da bateria de Akiko, que faz rolos simples mas precisos, fechando essa maravilha com a percussão e o piano, como sempre, fazendo o encerramento. 
Android Domina conta ainda com as belas passagens clássicas de “All Hallow’s Eve”, a trabalhadíssima “Horla Rising” e a excelente “Bizzarro Ballo in Maschera”, merecedora de ser chamada de maravilha assim como a faixa-título, além de outras duas boas composições (“Mother” e “Succubus“),  que demonstram como a entrada de Nakajima aproximou o som do Ars Nova ao mundo da música clássica, já que a participação do piano deu uma nova cara as viagens eletrônicas dos teclados de Keiko.
Kyoko, Keiko e Akiko
Depois ainda vieram Biogenesis Project (2003), que contém diversos convidados, entre eles Masuhiro Goto, o qual acabou substituindo Akiko na bateria, bem como Shinko Shibata substituiu Nakajima. Goto durou até 2005, quando Hazime assumiu o posto. Nesse ano, o grupo lançou Force for the Fourth, e o último álbum do grupo é Seventh Hell, lançado em 2009 e já contando também com o guitarrista Satoshi Handa, mantendo as influências elpísticas em boas composições, mas que perto de “Android Domina” são apenas pequenas estrelas na gigantesca galáxia explorada pelo grupo no ano de 2001.



5 Comentarios

  1. Interessantíssimo, caro Mairon! ainda não conheço essa banda, só de nome…tá aí uma bela dica!
    Valeu, abraço!
    Ronaldo

  2. Mister disse:

    Tem muita coisa boa no rock japonês, copiada ou não dos americanos e europeus, e essas neusas são maravilhosas. Parabéns pelo texto, Mairon.

  3. Vlw meus caros. Espero que estejam apreciando essa viagem pelas terras niponicas. Amanha teremos aquela que talvez seja a mais importante banda daquele pais, e nossa saga peregrinara por mais duas semanas.

    Abs

  4. Ryuunoshin disse:

    Em primeiro lugar parabéns pela Matéria Mairon e pela divulgação da banda, eu sou um fã do Ars Nova, do prog japonês e das bandas de metal japonês.
    Gostaria de fazer uma observação, o Ars Nova mesmo seguindo muito o som das bandas britânicas, começou a carreira por serem fãs e fazendo covers da GIGANTE Novela, acho que esta informação merecia destaque.
    Eu fico feliz de ler esta materia em meu idioma, fico feliz por aqui encontrar outras informações que não tinha conhecimento da banda.
    E gostaria de saber como faço para entrar em contato com você Mairon, também li a materia do Gerard outra banda que sou fã, e dela ainda mais fã do que o Ars Nova, para mim Toshio é Toshio-Sama hahhahahha, só não comentei por lá porque a parte de comentários sumiu, então cara como faço para trocar um ideia contigo, além destas bandas conheço mais um dezena de outras bandas japonesas de prog fora uma dezena de metal e a grande maioria clássicas dos anos 80.

    • Ryuunoshin disse:

      Esqueci de mencionar que tem algumas observações a fazer do post do Gerard, e que eu falei errado no comentário acima não são uma dezena de bandas de metal japonês que conheço são uma centena e meia hahahhahaha, tenho muito material aqui da cena japonesa.
      Aguardo resposta
      Abraços

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