Por Diogo Bizotto
É bastante normal que, mesmo há muito tempo na fase adulta, certas coisas tragam lembranças de nossa infância quase que imediatamente, remetendo a momentos especiais e experiências inesquecíveis. O cinema configura-se em uma das mais prolíficas fontes de memórias, e, não raro, muitos filmes marcam gerações inteiras de crianças e adolescentes, habitando eternamente seu imaginário.

Da minha geração, em especial, posso destacar três aventuras cinematográficas que foram extremamente marcantes, e até hoje geram nostalgia: “Os Goonies” (“The Goonies”, 1985), “Labirinto” (“Labyrinth”, 1986) e “Os Garotos Perdidos” (“The Lost Boys”, 1987). Certamente já assisti a todos os citados e os apreciei em dado momento de minha vida; entretanto, nenhum deles foi tão importante para mim quanto outra obra da época: “Falcão, o Campeão dos Campeões” (“Over the Top”, 1987).

Giorgio Moroder

Ao contrário dos três citados anteriormente, que constituem aventuras com toques de mistério e suspense pueris, direcionadas a um público mais jovem, “Over the Top” trata-se de um dramalhão a respeito da tentativa de Lincoln Hawk (Sylvester Stallone), um caminhoneiro, reconquistar o amor e a confiança de seu filho (David Mendenhall) após anos de afastamento. Apesar da história ser um tanto cafona e permeada por algumas más atuações, em especial a (péssima) de David Mendenhall, o filme me conquistou desde a primeira vez que o vi. Talvez pelo fato do protagonista ser caminhoneiro, como meu pai, talvez por abordar alguns ritos de passagem cada vez mais perdidos entre pais e filhos… o que interessa é que “Over the Top” tem um lugar muito especial em minha memória afetiva.

Para minha positiva surpresa, há alguns anos encontrei, vasculhando um balaio de ofertas em vinil, a trilha da referida obra pelo módico preço de um real, em ótimo estado de conservação, incluindo seu encarte original. Não pensei duas vezes e saí com o disco embaixo do braço, pronto para reviver, dessa vez em áudio, as diversas lembranças trazidas à tona pelo filme.

Assim como o produto cinematográfico, o produto sonoro também tem suas falhas. Apesar de alguns pontos altos, a trilha também traz amostras de pop genérico oitentista, pouco digno de nota. Todas as canções, exceto uma delas, foram compostas pelo renomado músico e produtor italiano Giorgio Moroder, um dos pioneiros no desenvolvimento da música eletrônica, tendo se associado aos mais diversos artistas, do hard rock à disco music, e especializando-se posteriormente na criação de trilhas para filmes, como “Scarface” (1983), “Flashdance” (1983) e “Top Gun” (1986). Quem ficou encarregado das letras foi Tom Whitlock, que costumava ser mecânico dos automóveis de Giorgio antes de revelar seu talento como letrista.

Single para “Winner Takes It All”

A escolha dos intérpretes das faixas foi um tanto heterogênea. De artistas estabelecidos que até hoje estão na ativa (Sammy Hagar, Asia), passando por outros que tiveram seus dias de glória mas hoje em dia estão esquecidos (Kenny Loggins, Eddie Money), até outros que mal superaram o status de desconhecidos (Larry Greene, Big Trouble), a distribuição das canções foi diversa. Inclusive, é difícil precisar quem exatamente tocou o que em cada música, pois a ficha técnica refere-se a todo o álbum, e não a cada faixa em separado. Dessa maneira, além de contar com os supracitados, o disco também recebeu os préstimos de músicos como os guitarristas Dan Huff (um ás dos estúdios, que gravou com artistas como Michael Jackson, Shania Twain e Whitesnake, além de sua banda, o Giant), Eddie Van Halen (também tocando baixo em “Winner Takes It All”), o baterista Denny Carmassi (Montrose, Heart, Whitesnake) e o pianista Greg Phillinganes (Eric Clapton, Toto, Michael Jackson).

É com Sammy Hagar, que à época havia lançado apenas um disco com o Van Halen, que o álbum inicia já em alta, logo mostrando o tema mais hardeiro do disco, “Winner Takes It All”, que chegou a receber um videoclipe onde o vocalista e guitarrista interage com os personagens do filme. Apesar dos sintetizadores ditarem a tônica do track list, nesse caso a guitarra de Sammy fala alto, incluindo bons licks e solos. Eddie Van Halen faz bonito no baixo, inclusive oferecendo um pequeno solo ao instrumento, mostrando que não apenas na guitarra seu talento é grande.

A canção seguinte, tema de abertura do filme, sempre foi a que me trouxe as maiores lembranças, não apenas em relação à película, mas a todo um universo deixado para trás, perdido em meio ao amadurecimento. Trata-se de “In This Country”, interpretada pelo grande Robin Zander, vocalista do Cheap Trick. A impressão de constante progressão através de simples mas belas linhas de piano e bateria, além dos rasgados vocais de Zander, tornam essa não apenas minha favorita do registro, mas de toda uma época. Bombástica, mas na medida certa.

Single para “Meet Me Half Way”

Larry Greene, sobre o qual não fui capaz de encontrar mais informações, colabora interpretando duas faixas no disco, “Take It Higher” e “Mind Over Matter”. Enquanto a segunda é candidata às mais fracas do registro, apesar de possuir um groove interessante, mas um tanto repetitivo, a primeira revela-se uma boa surpresa, trazendo uma linha de baixo sintetizado bastante agradável em conjunção com uma tecladeira mais “alegrinha”. Outro desconhecido é o grupo Big Trouble, uma girl band que aqui colabora com “All I Need Is You”, uma balada pouco digna de nota, cujo açúcar é ressaltado pelos vocais femininos.

Única composição que não é de autoria de Giorgio Moroder, “Bad Nite” foi escrita e executada por Frank Stallone, irmão mais jovem de Sylvester. Não seria exagero chegar à conclusão de que sua inclusão se deu mais por camaradagem que qualquer outra coisa, já que a canção definitivamente não é grande coisa. Não se pode dizer o mesmo de “Meet Me Half Way”, cantada por Kenny Loggins. Brega, cafona… a música é isso e muito mais. Mas prefiro deixar me levar pelo seu tom estrondoso, cortesia desse que foi um dos artistas mais populares em se tratando de trilhas sonoras nos anos 80, registrando sucessos como “Footloose” e “Danger Zone”.

Tipicamente AOR é “Gypsy Soul”, boa música que recebeu aqui a interpretação do Asia. Na verdade, apesar do crédito para o grupo, apenas o vocalista e baixista John Wetton se faz presente, tendo em vista a então recente dissolução da banda. De refrão contagiante, a canção conta com uma eficiente linha de baixo e um bom solo de guitarra, destacando-se como uma das melhores do álbum. A instrumental “The Fight” traz Giorgio Moroder pilotando seus sintetizadores na construção de um clima apoteótico, certamente criado tendo em vista as cenas do filme. Lembra as músicas-tema da série “Rocky”, que também conta com a atuação de Sylvester Stallone.

Pôster original de “Over the Top”

O vocalista, guitarrista e saxofonista Eddie Money encerra o disco com “I Will Be Strong”, outra com uma sonoridade oitentista tipicamente AOR, enfatizando seus vocais roucos mas eficientes. Trata-se de uma boa música, que encerra um álbum que conta com altos e baixos, assim como o filme, mas que tem lugar garantido na memória afetiva de muitas pessoas, especialmente na minha. Que tal deixar a chatice de lado e apreciar alguns momentos nostálgicos ao som de algumas pérolas oitentistas?

Track list:

1. Winner Takes It All
2. In This Country
3. Take It Higher
4. All I Need Is You
5. Bad Nite
6. Meet Me Half Way
7. Gypsy Soul
8. Mind Over Matter
9. The Fight
10. I Will Be Strong

3 comentários

  1. fernandobueno

    Esse é um dos filmes que me lembram muito a minha infância também, junto com Fúria de Titãs, Krull e os filmes do Conan…
    Não me lembrava muito da trilha que vc apresentou, mas foi só dar uma ouvidinha que tudo veio a mente de novo…

    Responder
  2. diogobizotto

    Bah, sem dúvida os filmes do Conan também fizeram parte… quanto a eles, o problema é que eu, desde criança, já lia as histórias em quadrinhos e sabia que os filmes passavam a uma boa distância delas, o que, na época, acabava me decepcionando um pouco…

    Responder
  3. Mairon Machado

    Esse é bem oitentista. Ja pasei por esse vinil diversass vezes, e honestamente, tirando Gypsy Soul e de Winner Takes it All, o resto é meio dificil para mim. Trilhas sempre tem boas coisas, e a de Labyrinth tb é muito legal!

    Responder

Deixar comentário

Seu email NÃO será publicado.