Por Pablo Ribeiro
Após o sucesso de Unplugged (1996), álbum e vídeo em formato acústico gravado ao vivo para a MTV norte-americana, que contou com a participação de dois membros originais que encontravam-se havia muito tempo fora do grupo – o guitarrista Ace Frehley e o baterista Peter Criss -, os chefões Paul Stanley e Gene Simmons resolveram voltar às maquiagens abandonadas no começo dos anos oitenta, reunindo a formação clássica da banda, junto a Ace e Peter. O próximo passo seria lançar um novo disco de estúdio para celebrar, e encher o bolso de (mais) grana.
Gravado entre janeiro e abril de 1998 nos estúdios One On One e A&M, ambos em Los Angeles (Estados Unidos) e produzido por Bruce Fairbairn, Psycho Circus foi lançado no Japão, com 11 faixas, no dia 18 de setembro do mesmo ano. Quatro dias depois foi a vez do resto do mundo receber a bolacha, contendo 10 faixas. A primeira edição internacional de Psycho Circus trazia uma capa holográfica que alternava imagens de uma cortina de circo com o logo da banda e imagens de um palhaço. Já a edição original japonesa trazia uma capa fold-out com duas dobras que, ao se abrirem, revelavam, atrás da cortina com o logo da banda, a imagem do palhaço.
Além da produção gráfica esmerada e criativa, Psycho Circus apresenta uma produção sonora que também é de primeira. Som cristalino e nítido, com todos os instrumentos bem definidos e balanceados. Mas à parte das questões gráficas e das técnicas de produção e gravação, a expectativa maior repousava em outros dois quesitos: a qualidade das músicas contidas no disco e a performance individual de cada músico, e sua consequente reafirmação enquanto banda (agora reunida).
Capa fold-out da edição japonesa (verso)
Capa fold-out da edição japonesa (frente)
Quanto ao primeiro quesito, os fãs não puderam reclamar. Embora o disco claramente não esteja no nível de um Destroyer (1976) ou de um Creatures of the Night (1982), ou até mesmo de um Revenge (1992) – e nem deveria, uma vez que esses discos já haviam sido feitos, e os tempos eram outros -, e a imprensa musical não tenha sido exatamente receptiva à bolachinha, Psycho Circus contém muito do que os admiradores do Kiss esperavam. Há algumas escorregadelas aqui e ali, é inegável. Mas o disco tem bons momentos, o suficiente para passar longe de receber a alcunha de “ruim”.
“Psycho Circus” (a música) é uma boa faixa de abertura (e primeiro single também, em uma versão editada), iniciada com um som de circo/parque de diversões, desembocando em um hardão cantado por Stanley. Em seguida, “Within”, cantada por Gene, tem aquele feeling meio típico das canções às quais o Demon empresta sua voz. Paul canta mais uma: “I Pledge Allegiance to the State of Rock and Roll”, com título autoexplicativo. Bem festeira.
“Into the Void” é a proxima, trazendo Ace nos vocais. Uma das melhores faixas do disco, e seria hipocrisia dizer que isso se deve ao simples fato de seu cantor ser Ace Frehley. A música é boa e ponto. Gene canta mais uma: “We Are One”… Fraquinha. Baladinha sem muito o que dizer, enfim. Chegou a ser lançada como single, em uma versão mais curta, direcionada às rádios. Esse foi claramente o alvo. Aí vem aquela faixa a respeito da qual muita gente comentou na época, e que muitos esperavam: “You Wanted the Best”. A grande expectativa se devia a um fator simples: todos os quatro integrantes originais da banda cantariam nela. A faixa da reconciliação! O velho Kiss estava de volta! Analisando friamente, a música é divertida, flui bem, tem uma letra bacana… Mas é meio apagada. A próxima tem mais brilho: “Raise Your Glasses”, outra com os vocais do Starchild Paul. Ela saiu também em uma versão um pouco diferente chamada “Collector’s Mix”, mas a presente no disco é superior. Boa faixa que tem um sentimento próximo à já mencionada “I Pledge Allegiance to the State of Rock and Roll”. Descompromissada, mas muito divertida.
Kiss em 1998: Gene Simmons, Peter Criss, Ace Frehley e Paul Stanley
É chegada a vez do número vocal solo de Criss. “I Finally Found My Way” é uma balada que tenta recapturar a aura de uma “Beth” (presente no já citado Destroyer). É uma bela balada, guiada pelo piano, que é acompanhado por uma sessão de violinos. Apesar de muito bonita, fica claro que a banda forçou a barra para encaixar Criss. Detalhe para os excelentes backing vocals de Stanley! “Dreamin'” é a penúltima música da edição normal de Psycho Circus. Gerou polêmica por ter muita semelhança com “I’m Eighteen”, megaclássico de Alice Cooper. Surgiram boatos de processos e plágio, mas que acabaram por terminar no famoso “foi apenas um mal entendido”. Entretanto, a semelhança existe. “Journey of 1.000 Years” fecha a versão internacional do disco, com Simmons dando um tom mais melancólico do que sombrio à musica. Não é ruim, mas parece uma musica solo de Gene. “In Your Face” é faixa bônus exclusiva para o Japão (e lado B do single para “Psycho Circus”). Cantada por Ace, é uma boa faixa, que não destoa do resto do disco, mas sua ausência no track list normal não comprometeu.
Mas e quanto à performance individual dos músicos? Peter segurou a onda? Ace mandou ver nos licks como nas antigas? A resposta mais correta seria: sim! Mas só nas músicas onde tocaram…
Acontece que Psycho Circus conta – além dos quatro integrantes originais – com participações de tradicionais colaboradores de Stanley e Simmons. Bruce Kulick, que tocava com a banda desde meados dos anos 80, toca guitarra em “Within”. Tommy Thayer, que anos mais tarde se tornaria membro efetivo da banda, toca guitarra em todas a músicas do disco, com exceção de “Into the Void”. As baquetas de todo disco ficaram a cargo de Kevin Valentine (exceção feita a “Into the Void”, novamente). Além desses, Shelly Berg toca piano em “I Finally Found My Way” e “Journey of 1.000 Years”, e o produtor Bob Ezrin toca piano Fender Rhodes em “I Finally Found My Way”. Além disso, Paul Stanley toca baixo em “We Are One”, “I Finally Found My Way” e “I Pledge Allegiance to the State of Rock and Roll”. Finalizando, Gene Simmons toca guitarra em “We Are One”. Existem rumores de que a versão “Collector’s Mix” de “Raise Your Glasses” seria na verdade a demo da música, essa sim com a bateria tocada por Criss. Mas não há confirmação desse fato.
Óculos 3-D distribuído na turnê de Psycho Circus
De qualquer forma, a ciranda de colaboradores do disco, enquanto frustra o fã no que tange à famigerada “reunião da formação clássica” da banda, por outro lado não compromete em nada o resultado final do disco. Logo depois do lançamento de Psycho Circus, o Kiss saiu em turnê mundial – passando inclusive pelo Brasil – com um show 3-D (isso em 1999!) com direito a óculos especiais (tenho o meu até hoje). No começo, tudo funcionou relativamente bem, até que os problemas começaram a surgir, culminando com a saída de Frehley, primeiro, e depois com a debandada de Criss. Nada que já não fosse esperado, tendo em vista o histórico da banda e de seus integrantes.
Track list:
1. Psycho Circus
2. Within
3. I Pledge Allegiance to the State of Rock & Roll
4. Into the Void
5. We Are One
6. You Wanted the Best
7. Raise Your Glasses
8. I Finally Found My Way
9. Dreamin’
10. Journey Of 1.000 Years
11. In Your Face [faixa bônus para o mercado japonês]
Em alguns lugares do mundo, por ocasião da turnê que se seguiu, Psycho Circus foi relançado com um CD bônus ao vivo que contava com seis faixas:
1. Psycho Circus
2. Let Me Go, Rock ‘n’ Roll
3. Into the Void
4. Within
5. 100.000 Years
6. Black Diamond

3 comentários

  1. fernandobueno

    Eu adoro o Kiss. Está entre minhas bandas preferidas. Mas quando lembro dessas picaretagens de gravações fico um pouco frustrado. Não entendo muito a necessidade de ter outras pessoas gravando os discos. Cacete!!! A gravação de um álbum é tão importante para uma banda e na hora de gravá-lo os caras não fazem sua parte!!! Lembrando que isso acontece desde o final dos anos 70. Até entendo que se tenha uma participação de outras pessoas. Mas existem músicas na história da banda que só tem a voz dos componentes oficiais…
    Sobre Psycho Circus acho um disco que se não é destaque na discografia, não faz feio. A faixa título é sensacional. Só ela já vale o disco…

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  2. diogobizotto

    Certamente é um tanto decepcionante saber que a "reunião" foi digna de todas as aspas possíveis, mas em se tratando de Kiss não é algo que cause surpresa, vide o que ocorreu muitas vezes no final dos anos 70 e início dos anos 80, quando o trabalho de Criss e Frehley era realizado por outros em diversas oportunidades.

    Bom, pelo menos o disco, mesmo não estando entre os melhores do grupo, é digno de carregar o legado, e conta com algumas músicas muito boas, como a faixa-título, "Into the Void" e "Raise Your Glasses". E o Pablo está de sacanagem… foi complacente com a forçadíssima "I Finally Found Someone" e rotulou "We Are One" como "fraquinha"… bah, lá em Vacaria "We Are One" é hit da gurizada e tá na ponta da língua! Quanto a "Dreamin'", há sim uma certa semelhança com "I'm Eighteen", mas nada que eu julgue motivador de tanta polêmica…

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  3. Mairon Machado

    Caraca, nao sabia dos detalhes da gravação do disco. Para mim o maior mérito de Psycho Circus foi eles terem se reunido para fazer uma tour, e ter vindo a POrto Alegre fazer o melhor show da minha vida.

    O disco é muito bom (tirando We Are oNe, que tocou até esgotar na Atlantida (radio tradicional aqui do RS), e foi um dos melhores momentos do show quando o Kiss NÂO tocou o que a atlantida tocava)

    A minha versão é a holografica. Ainda saiu uma versão dupla, se não me engano com o segundo CD gravado ao vivo …

    Parabens pela boa destrinchada

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