Por Leonardo Castro
Lançado em 1993, Edge Of Thorns era o disco que parecia marcar uma grande virada na carreira do Savatage. De fato, a virada aconteceu, mas infelizmente não da forma que todos esperavam. Mas o disco, recém relançado em um belíssimo digipack no Brasil, marca o fim de um capítulo importantíssimo da carreira da banda.
Em 1992, após anos seguidos de gravações e turnês, a voz de Jon Oliva, vocalista e fundador da banda junto com seu irmão, o guitarrista Criss Oliva, estava em frangalhos. Além disso, Jon estava convencido que o principal fator que impedia a banda de entrar na programação das rádios rock dos Estados Unidos era a sua voz, agressiva demais para os padrões da época. Sendo assim, e também para trabalhar em outros projetos que tinha em mente, Jon decidiu se afastar da banda, que se viu forçada a procurar por um novo vocalista.
E assim começou a história de Zachary Stevens no Savatage. Dono de uma voz bem mais suave que a de Jon, mas ainda assim forte e potente, Zak impressionou de cara os irmãos e o produtor Paul O’Neil, ganhando imediatamente a vaga. Assim, a banda, incluindo Jon nos teclados, retomou os trabalhos para o sucessor de Streets.
Em abril de 1993, Edge Of Thorns chegou às lojas, deixando todos com os queixos caídos. O som da banda havia mudado, é verdade, mas ao mesmo tempo em que se tornara mais acessível, continuava a ter a energia de seus trabalhos anteriores. E dois pontos brilhavam em especial: a voz de Zak Stevens, totalmente diferente da de seu anterior, mas que se encaixava perfeitamente ao novo som da banda; e a performance arrebatadora de Criss nas guitarras. Ainda que seu desempenho nos discos anteriores sempre tenha sido excelente, em Edge Of Thorns o guitarrista se superou, com um trabalho espetacular nos riffs, bases, e principalmente nos solos.
Steve Wacholz, Johnny Lee Middleton, Zachary Stevens e Criss Oliva
O disco já causava uma boa impressão antes mesmo de ser ouvido, graças à belíssima arte em sua capa. Gary Smith, responsável por outras capas da banda e pelas pinturas das guitarras de Criss, fez uma pintura mostrando o bem, representado pela esposa do guitarrista, Dawn Oliva, e o mal, através do rosto de Jon formado pelos galhos das árvores. Mas o melhor mesmo vinha ao se colocar o disco para rodar. A espetacular faixa-título mostrava de cara a nova sonoridade da banda, com o piano de Jon se mesclando perfeitamente à guitarra de Criss, soando acessível, mas ainda assim como Savatage. E o solo de guitarra da música é um dos melhores e mais marcantes da carreira do guitarrista.
“He Carves His Stone” seguia a linha adotada em Streets, mas a nova voz a deixava ainda mais envolvente. E, mais uma vez, o solo de Criss é inacreditável. Emotivo, rápido, técnico, esbanjando identidade, criatividade e bom gosto. Aliás, todo o bom gosto dos dois irmãos reaparece em “Labyrinths”, uma curta, porém linda introdução instrumental para uma das melhores faixas do disco e da carreira da banda, “Follow Me”. Mais cadenciada, carregada de emoção, e com uma belíssima interpretação de Zak, esta faixa mostra claramente como o Savatage podia alcançar um público maior sem sacrificar a qualidade do seu trabalho. E, mais uma vez, o trabalho de Criss nesta música beira o inacreditável, intercalando solos e riffs extremamente inspirados.
Uma das mais belas baladas da banda, “All That I Bleed” era toda conduzida pelo piano de Jon, com uma interpretação soberba de Zak. Isto até as guitarras de Criss entrarem na música e este roubar a cena com mais um solo inspiradíssimo. “Miles Away” é outra faixa que mostrava o novo som da banda, e é até difícil imaginá-la cantada por Jon Oliva, mas se encaixava perfeitamente à voz de Zak, e poderia ter ajudado a expandir o nome da banda ainda mais. O track list regular do disco se encerrava com mais uma balada, “Sleep”, conduzida totalmente pelo violão de Criss. Melancólica, a música terminava o disco e deixava o ouvinte com vontade de ouvir mais.
O disco obteve excelentes resenhas após seu lançamento, e a faixa-título passou a ser executada por diversas rádios nos EUA. Para a turnê, Jon escolheu Wes Garren para substituí-lo nos teclados e na guitarra base, e Steve Wacholz, baterista original da banda, indicou Andy James (Roxx Gang) para o seu lugar, uma vez que estava cansado das longas turnês. Com este line-up (Criss Oliva, Zachary Stevens, Johnny Lee Midleton, Andy James e Wes Garren) a banda iniciou uma turnê muito bem sucedida, onde diversos críticos atestaram que o conjunto nunca tinha soado tão bem em um palco.
Criss Oliva (1963-1993)
Entretanto, quando tudo parecia ir bem para a banda, e o sucesso tão almejado parecia estar a caminho, a tragédia ocorreu. Alguns dias antes de sair em uma nova turnê, desta vez com Vince Neil (Motley Crue), Criss e sua esposa estavam indo assistir a um show quando um caminhão que trafegava na contramão atingiu seu carro, matando o guitarrista imediatamente e ferindo gravemente a sua esposa. Ele tinha 30 anos.
Com isso, todos os planos para o futuro da banda foram alterados, mas Jon decidiu gravar mais um disco, convidando Alex Skolnick (Testament) para gravar as guitarras. E assim surgiu Handful of Rain, lançado em 1994. Em seguida, a banda decidiu seguir a carreira, e gravou mais alguns discos até que o projeto Trans Siberian Orchestra, de Paul O’Neil e Jon Oliva, mas contando com todos os integrantes da banda, passou a consumir demais o tempo dos músicos, e assim o Savatage foi ficando de lado, apesar de algumas músicas da banda serem tocadas no novo projeto.
A versão disponibilizada no mercado brasileiro tem diversos atrativos. O primeiro é a linda embalagem digipack, que valoriza ainda mais a arte de Gary Smith. O segundo é o longo texto de Clay Marshall, contando com citações de várias pessoas envolvidas na gravação do disco, de Paul O’Neil e Jon Oliva a Dan Campbell, técnico de guitarra de Criss que sugeriu que Zak se candidatasse ao posto de vocalista da banda. Por fim, há ainda 2 faixas bônus, versões acústicas para “All That I Bleed”, com Jon Oliva nos vocais,  e para “If I Go Away”, contando com os vocais de Zak.
Edge Of Thorns deveria ter sido o disco que faria o Savatage explodir, se tornando um dos grandes nomes do hard rock/heavy metal mundial. Mas, infelizmente, devido à tragédia, acabou se tornando o fim do primeiro capítulo da história da banda. Ainda assim, é um disco esplendoroso do início ao fim, com uma performance inacreditável de seu saudoso guitarrista. Item obrigatório na coleção de qualquer fã de boa música, ainda mais nesta nova versão, ainda mais bonita.

1 comentário

  1. diogobizotto

    Eu poderia dizer que "Edge of Thorns" é sacanagem, mas a moral é que a maioria dos discos do Savatage são pura sacanagem. É muito difícil escolher apenas um favorito, mas é certo que "Edge of Thorns" é candidato forte, um disco equilibradíssimo, nivelado por cima, diria até fora do tempo, levando em consideração o ano de lançamento. Adoro Jon Oliva, mas Zak Stevens tem um vozeirão que é algo.

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