Discos que Parece que Só Eu Gosto: Bon Jovi – 7800° Fahrenheit [1985]

21 de maio, 2011 | por Diogo Bizotto
Discos que Parece que Só Eu Gosto
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Por Diogo Bizotto
Ah, Bon Jovi… a banda que tantos amam odiar. Contando com uma legião de detratores quase tão ferrenha quanto a de fãs, o Bon Jovi trilha seu criticado porém vitorioso caminho desde 1983, graças a milhões de admiradores que sempre mantiveram a banda no topo desde 1986, quando do lançamento do terceiro disco, Slippery When Wet, que tomou de assalto as paradas da Billboard através de seus bem sucedidos singles, como “Livin’ on a Prayer”, “You Give Love a Bad Name” e “Wanted Dead or Alive”. Contudo, mesmo entre os fãs, naturalmente existem discos que passam longe de ser unanimidade, caso dos recentes The Circle (2009) e Lost Highway (2007). Mas nenhum desses recebe o desprezo da própria banda como os dois primeiros álbuns do grupo, em especial o segundo, 7800° Fahrenheit.
Estaria exagerando se dissesse que 7800° Fahrenheit está entre os melhores discos do Bon Jovi, mas não hesito em afirmar que o amante da boa farofa oitentista tem muito a descobrir no track list desse álbum que pode soar datado, mas continua fazendo brotar as mais primordiais emoções neste ouvinte. Até a recente turnê do álbum The Circle, nenhuma canção do disco era executada há 20 anos, com a exceção de “Tokyo Road”, tocada esporádica e especialmente no Japão.
Mais que razões racionais me fazem considerar 7800° Fahrenheit um álbum de meu agrado. Apesar de se tratar de um representante legítimo do pop metal oitentista, gênero famoso pelo tom festivo de suas canções e pelas vestes e cabelos um tanto espalhafatosos dos músicos, o disco apresenta, atrás de uma cortina de malícia e descontração, especialmente em “In and Out of Love” e “King of the Mountain”, uma aura um tanto triste e deprimida, não apenas em suas letras, mas na própria música, refletindo uma época de incertezas enfrentada pelo grupo. Não à toa, em dadas épocas de minha vida, me pego escutando esse álbum repetidamente, identificando-me com os lamentos cantados por Jon Bon Jovi, potencializados por um instrumental bem encaixado nessa proposta.
A primeira impressão para quem começa a ouvir o álbum é de que, não apenas a sonoridade, mas o tom “pra cima” do anterior, Bon Jovi (1984), seria mantido. A faixa que abre 7800° Fahrenheit, “In and Out of Love”, esbanja safadeza através de sua letra maliciosa e das vocalizações de Jon, em um pop metal carregado por um bom riff de guitarra. Apesar de, anos mais tarde, a música ter feito parte da coletânea Cross Road (1994), hoje em dia a banda declara passar longe de curtir a canção, além de seu cômico videoclipe. Bobagem. “In and Out of Love” pode não ser nenhuma maravilha, mas não faz feio frente ao que praticavam outros grupos de hard rock surgidos na época. O bom solo de guitarra do talentoso Richie Sambora não me deixa mentir.
Bon Jovi em 1985: Richie Sambora, Tico Torres, Jon Bon Jovi, Alec John Such e David Bryan
“The Price of Love”, introduzida pela bateria de Tico Torres em fade in, segue na mesma linha pop metal da anterior, mas já começa a dar mostras de que não continuaria em um tom tão festivo. Mais bem trabalhada que a anterior, alternando segmentos distintos e se baseando menos em riffs de guitarra e mais nas linhas vocais de Jon, a faixa traz mais um solo digno de nota de Sambora, guitarrista que recebe bastante reconhecimento mesmo daqueles que não gostam da música produzida pelo grupo. A balada “Only Lonely” é a primeira a apontar mais explicitamente para o direcionamento que descrevi no início deste artigo. Datada até não poder mais, trata-se de uma das poucas faixas coescritas pelo tecladista David Bryan, que contribui com timbragens que não permitem esconder a idade da canção. Mesmo sendo o maior destaque do disco na parada de singles na Billboard, a música atingiu apenas a 54ª posição, fraco desempenho se comparado com o sucesso gigantesco conquistado com os álbuns seguintes, fato que provavelmente se refletiu na pouca execução de músicas desse disco em turnês posteriores, até o quase completo esquecimento. No entanto, algumas faixas foram ressuscitadas na mais recente turnê, caso de “Only Lonely”, anunciada com relutante bom humor como um presente aos fanáticos pelo grupo (veja o vídeo ao vivo aqui). Apesar de admitir seu apelo sentimental um tanto brega, não posso esconder minha predileção por essa típica power ballad.
O primeiro ponto baixo do disco vem com “King of the Mountain”, que, apesar de uma tentativa de empolgar através dos vocais de Jon e dos bradados backing vocals, não é auxiliada pelo andamento quadrado impresso pelo instrumental. Segunda balada do disco, “Silent Night” mostra-se ainda mais brega que “Only Lonely”, investindo mais no caráter “ballad” do que no “power”, através da profusão de violões e de timbres plásticos de teclado. Trata-se de uma excelente mostra da precipitação que alguns têm ao declarar que gostam do Bon Jovi mais antigo, mas não curtem a profusão de baladas “mela-cueca” presente em discos mais recentes. Pois afirmo com a mais absoluta veracidade, de quem conhece o trabalho do grupo de cabo a rabo: desde o início o Bon Jovi sempre trouxe músicas assim em seus track lists, começando com “She Don’t Know Me” e “Love Lies”, presentes no primeiro álbum. Digo mais: o último disco lançado, The Circle, não conta com uma power ballad típica sequer, dessas de fazer com que o público acenda seus isqueiros (hoje em dia, seus odiosos telefones celulares) durante sua execução.
“Tokyo Road” é a tentativa de uma narrativa mais ambiciosa, incluindo uma introdução em japonês na voz de uma menina, logo interrompida pelos riffs de Richie Sambora, apresentando o hard rock mais vigoroso do álbum, fazendo a base para que Jon desenvolva sua história que, apesar de não ter conseguido confirmar, parece se referir a um jovem que, tendo ido lutar na Guerra do Vietnã, passou suas “férias” do conflito na capital do Japão, algo que lhe traz boas memórias. É importante lembrar que, após um certo tempo de combate, todos os soldados norte-americanos tinham direito a um período de descanso com despesas pagas em um país próximo, geralmente desenvolvendo turismo sexual. Japão, Tailândia e Filipinas eram os destinos mais usuais dos combatentes.
Richie Sambora e Jon Bon Jovi ao vivo
Minha favorita de 7800° Fahrenheit é “The Hardest Part Is the Night”, com sua letra refletindo a solidão de seu protagonista, bem interpretada por um Jon Bon Jovi que passava por problemas de relacionamento na época. Se pudesse escolher uma canção completamente obscura para que fosse executada ao vivo pelo grupo, não teria dúvidas quanto à escolha dessa faixa de memorável refrão, mezzo hard, mezzo power ballad. Sem medo de soar ridículo, seria motivo para encher de lágrimas os olhos desse dedicado fã.
Baseada mais em riffs de guitarra, “Always Run to You” segue uma linha próxima à de “In and Out of Love”, mas com um tom mais sério, sem a mesma malandragem, revelando-se a cada audição uma música melhor e de instrumental eficiente, sempre tendo Richie Sambora como destaque. O nível cai com a seguinte, “(I Don’t Wanna Fall) To the Fire”, candidata forte ao título de pior canção registrada pelo Bon Jovi. De refrão repetitivo e desagradável, poderia ter sido deixada de lado em favor da rifferama de “We Rule the Night”, gravada nas sessões para o disco, mas que nunca deixou o status de demo.
A faixa que encerra o álbum, “Secret Dreams”, traz uma curiosidade: trata-se da única a contar com créditos para o baterista Tico Torres como compositor. Um riff totalmente heavy metal a abre e conduz seu andamento, que, não fosse a produção e a profusão de teclados, poderia soar bem mais próximo do estilo citado. Escolha acertada para encerrar um disco que, mesmo contando com alguns pontos baixos, merece muito mais atenção do que usualmente recebe. Apesar de alguns exageros que causam a rejeição dos detratores e até de muitos fãs, 7800° Fahrenheit tem valor, especialmente se avaliado tendo em vista as circunstâncias da época e mantendo na mente que sim, trata-se de um disco de sonoridade datada. Talvez uma carga pessoal de sentimentos me faça ser mais complacente com suas faixas, mas continuarei defendendo-o e reforçando suas qualidades. Pior disco do Bon Jovi? De maneira alguma!

Track list:

1. In and Out of Love
2. The Price of Love
3. Only Lonely
4. King Of The Mountain
5. Silent Night
6. Tokyo Road
7. The Hardest Part Is the Night
8. Always Run to You
9. (I Don’t Wanna Fall) to the Fire
10. Secret Dreams



5 Comentarios

  1. Não curto muito esse disco, mas nem sabia que tinha essa má fama. O foda desses primeiros discos do Bon Jovi é que eu não suporto a sonoridade, então fica difícil até tentar dar uma chance às músicas..

  2. diogobizotto disse:

    É, os dois primeiros discos não estão em alta conta com os próprios músicos. Basta ver que a única presença constante nos shows nas últimas décadas sempre foi apenas "Runaway". Certamente não os renegam, mas não os vêem com os mesmos olhos que enxergam os posteriores. Ainda bem que algumas faixas vêm sendo ressuscitadas na mais recente turnê. Aliás, assistindo o vídeo de "Only Lonely" que linkei no artigo, ao menos para mim fica evidente que Richie Sambora parece feliz em executá-la após uma eternidade.

  3. Concordo contigo Diogo. Apesar de achar o melhor do Bon Kovi o Keep the Faith, esse album e bem interessante. Claro que o Blaze of Glory e o Slippery When Wet são melhores, mas perto de tanta coisa que foi lançada pós-keep the faith, o 7800 farenheit é bem passavel.

  4. diogobizotto disse:

    Pra mim não existem dúvidas que o "7800º Fahrenheit" é melhor que os dois mais recentes. O Bon Jovi está devendo um álbum empolgante desde "Have a Nice Day", de 2005, que pode não ser tão bom quanto um "Slippery When Wet" da vida, mas está cheio de músicas que eu adoro, caso de "Welcome to Wherever You Are", "Bells of Freedom", "Last Man Standing", "I Am" e da faixa-título.

    Ah, lembrando que "Blaze of Glory" não é um álbum do Bon Jovi, mas um disco solo de Jon, incluindo as mais que especiais participações de Jeff Beck e Elton John! Aliás, minha performance favorita de Jon está nesse disco, com a fodônica "Santa Fe"… impossível não querer berrar junto!

  5. gosto desse disco… bons tempos do BJ….

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