Lucifer Was – Underground and Beyond [1997]

15 de março, 2011 | por Fernando Bueno
Diversos
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Por Fernando Bueno

Nós que gostamos de garimpar bandas esquecidas dos anos 60, 70 e 80 temos diversos exemplos de grupos que não tiveram o devido reconhecimento ou até mesmo não tiveram reconhecimento nenhum. Isso se deve a inúmeros fatores, como falta de grana, escolhas erradas, má gestão ou simplesmente falta de sorte. Muitas dessas bandas surgiram, tocaram, compuseram músicas e nunca sequer conseguiram gravar um disco. Esse é o caso do Lucifer Was.
Para aqueles que ficaram curiosos de como eles chegaram nesse nome incomum para batizar a banda vou tentar resumir a história. No início a banda se chamava Ezra West, nome retirado da literatura inglesa do mesmo modo que aconteceu com Jethro Tull e Uriah Heep. Porém a pronúncia do nome sempre confundia as pessoas e isso os aborrecia bastante. Cansados de tentar explicar a origem desse nome trocaram-o para Lucifer. Independentemente das pessoas acharem esse nome adequado ou não para uma banda já haviam algumas (!) com o mesmo nome nos EUA e na Alemanha e isso também causava confusão. Sem decidir por um nome definitivo, enquanto não pensavam em outro, e tendo em mente que Lucifer não seria mais utilizado, a resposta que começaram a dar para a pergunta “qual o nome da banda?” era a mesma: “era lúcifer”, ou, em inglês, Lucifer Was. Assim acabaram adotando esse nome.
O Lucifer Was tocou junto por anos no início da década de 70 em seu país de origem, a Noruega. Chegaram a participar de alguns festivais e tiveram um relativo sucesso no underground do norte da Europa. Tocavam tanto por lá que Jan Ødegård, tecladista, ficou cansado e resolveu sair, ocasionando precocemente o fim da banda.
Durante essa época, entre 1970 e 1974, eles apenas gravaram algumas fitas demo que eram apresentadas para gravadoras, produtores e empresários, porém elas foram, durante um bom tempo, apenas recordações de bons momentos e nostalgia para seus componentes. Um dia, em meados dos anos 90, Einar Bruu, baixista, voltou a ouvir aquelas fitas e se surpreendeu com a qualidade das canções. Depois disso ele contatou todos os antigos companheiros para fazerem alguns shows em bares e ensaiar para bancar a gravação de um disco. Todos toparam menos Jan Ødegård. Assim a formação que gravou Underground and Beyond foi: Thore Engen (guitarras e voz), Dag Stenseng (flauta e voz), Anders Sevaldson (flauta e backing vocals), Einar Bruu (baixo) e Kai Frilseth (bateria).
Foto do Lucifer Was na década de 70
É difícil rotular o som do Lucifer Was. Eles constam em listas de bandas prog, hard e até heavy metal. Notem que a banda possui dois flautistas, ocasionando talvez a única banda a contar com duelo de flautas, a exemplo do que faziam as bandas de hard rock setentista e metal dos anos oitenta com as guitarras. Em muitos casos as flautas e guitarras se revezam na melodia da canção o que também faz com a banda tenha uma sonoridade única, como é o caso de canções como as pesadas “Scrubby Maid” e “Teddy’s Sorrow”.
Em “Song for Rings”, novamente as guitarras dividem a melodia com as flautas folks, que por sinal é o estilo adotado para esse instrumento em praticamente todas as suas intervenções.
Vale lembrar que as músicas foram compostas durante o início dos anos 70 e a gravação ocorreu em 1997. Assim a sonoridade é um pouco diferente das bandas setentistas devido aos instrumentos, efeitos e gravações modernas que foram utilizadas, mas o clima da época das composições está todo lá. Seria interessante que as fitas demo que foram guardadas por Einar Bruu fossem lançadas à critério de curiosidade como bônus do disco.
“Out of the Blue” tem uma levada bem cadenciada e a melodia de flautas com acompanhamento da guitarra casou perfeitamente. No Lucifer Was não é comum a utilização de uma base de guitarra para acompanhar a principal, mas o expediente foi utilizado nessa canção, como também em “Light My Cigarette”. As músicas no geral são curtas, fugindo um pouco das característica da época. A mais longa é “The Green Pearl” com seus pouco mais de seis minutos. É Black Sabbath puro. Basta você imaginar que Tony Iommi está sendo acompanhado por Ian Anderson – fato que já aconteceu em um curto período em que Iommi abandonou o Sabbath e se juntou ao Jethro Tull. Tem como introdução a sequência de acordes de “The Hall of the Moutain King” do compositor clássico Edvard Hagerup Grieg, que por sinal é conterrâneo dos músicos do Lucifer Was.
Seguindo, temos a sombria “Tarabas” que lembra novamente o Black Sabbath, principalmente no riff após o solo. Também em “Tarabas” Thore Engen canta de uma forma que poderia ser definido como um pré-gutural, diferente do modo que cantou em outras do álbum. Com “Fandango” voltamos ao clima que todo fã de classic rock e hard rock setentista adora, o mesmo acontecendo em “Asterix”, que fecha o álbum. “Fandango” tem a guitarra sem distorção apenas acompanhando as vozes, que por sinal fazem um ótimo trabalho nessa canção tanto nas estrofes quanto no excelente refrão. Temos também dois solos de flautas que caracterizam os duelos citados anteriormente. Forte candidata a melhor do álbum.
O peso volta em “The Meaning of the Life” com um riff pegajoso e um acompanhamento bem simples nas estrofes. O riff é acompanhado nota por nota pela flauta dando uma sonoridade bem característica para a banda. “In The Park” tem um início que parece alguma banda da NWOBHM ou até mesmo de uma banda de thrash metal da Bay Area, mas depois volta para o habitual, apenas mantendo o peso da guitarra em um ótimo riff sabbathiano. Para essa música o solo de flauta é acompanhado por uma guitarra sem distorção, apenas com um pouco de efeito. Porém, quando a guitarra faz o solo, a distorção volta com tudo.
Foto atual da banda

A capa sinistra de Underground and Beyond não é clara, mas parece um anjo à frente da entrada de um túnel. Lembra muito as imagens de capas e fotos atuais das bandas de black metal norueguesas.

Depois do relativo sucesso do lançamento desse disco eles fecharam contrato com a Record Heaven e gravaram em 2000 o segundo álbum chamado In Anadi’s Bower, porém com Anders Sevaldson deixando a banda durante as gravações. Quatro anos depois foi a vez de Dag Stenseng abandonar o barco durante as gravações de um álbum, o terceiro, chamado Blues From Hellah, que foi seguido por The Divine Tree em 2007 e The Crown of Creation em 2010.
Na ordem: In Anadi’s Bower, Blues Frem Hellah, The Divine Tree e The Crown Creation
A formação desde 1997 sofreu diversas mudanças e hoje excursiona com nove integrantes (quatro deles convidados), sendo apenas Thore Engen e Einar Bruu remanescentes. A partir do segundo disco a voz ficou a cargo de Jon Ruder, um vocalista com mais recursos que Thore Engen. Essa adição de vários músicos, inclusive de Jon Ruder, ampliou os horizontes dessa banda que no início poderia ser definida apenas como uma mistura de Black Sabbath com Jethro Tull, hoje é bem mais difícil definir. The Crown of Creation, por exemplo, tem adição de mellotron, violinos, teclados marcantes e até uma orquestra completa utilizada em estúdio (a Kristiansand Symphony Orchestra), que faz juz à opinião daqueles que os definem como uma banda de progressivo. Assim, com cinco discos gravados até então, temos uma discografia completa gravada durante os últimos treze/quatorze anos de uma banda que ficou hibernada no severo inverno norueguês durante mais de vinte anos.
Vale muita a pena ir atrás….



8 Comentarios

  1. Rafael "CP" disse:

    Nossa , nunca pensei que alguém além de mim tivesse esse play hahuahuahua.

    è fantastico , é uma especie de Black Sabbath com Flautas , a musicalidade é incrivel , não sei como algo tão sensacional caiu no esquecimento e só veio a ser editado tantos anos depois.

    Parabéns pelo desenterro

  2. Poxa, mais um post sobre o demônio?! xD
    Brincadeira.
    Belíssimo texto!
    Quanto às disputas de flautas, pelo menos uma vez o Gentle Giant fez algo nessa linha, em "Excerpts from Octopus", do ao vivo Playing the Fool. Por sinal, ficou muito foda! Mas a verdade é que no Gentle Giant é tudo arranjadinho, fazendo contraponto, não chega a ser uma disputa de fato..
    Parabéns, Bueno!

  3. fernandobueno disse:

    É KCarão…segundo o Raul Seixas "o Demo é pai do rock"…

  4. fernandobueno disse:

    Mas vc chegou a ouvir? Os links pelo menos…

  5. Fábio RT disse:

    Existem várias bandas antigas que estão se tornando "populares" devido a internet… somado a esta aí temos o TOAD e o PATTO….o tempo e a era digital fazendo justiça

  6. Claro que ouvi os links, Bueno, na medida do possível..
    Impressionante como esse povo adora "Hall of the Mountain King"! Ao menos eles aí são conterrâneos do Grieg, pelo q vc disse..

  7. Mister disse:

    Muito legal seu texto, Bueno.
    Fico até orgulhoso quando a molecada descobre bandas perdidas da década de 70. Elas surgiam que nem erva daninha e infelizmente muitas não chegaram nem a registrar uma demo. In the hall of mountain king teve várias versões, inclusive nos anos 60. O Nice gravou em 67, o Who sei lá quando, mas eu gosto mesmo é da versão da banda americana SRC gravada em 69 e que pode ser conferida aqui: http://www.youtube.com/watch?v=L9jn764Wh7g&feature=related
    Vale a pena. O SRC era ótimo.

  8. Baita texto. Não conheço o grupo, mas estou salivando enquanto faço o download de Underground

    Patto é muito bom! In the hall of the Mountain King e Promenade (pictures) são dois classicos que foram regravados por muita gente!

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