Por Leonardo Castro
Enquanto aguardamos ansiosamente a confirmação oficial do show do Mötley Crüe no Brasil este ano, vamos relembrar a inesquecível primeira passagem da banda pela América do Sul. Em 2008, coube ao grupo encerrar em grande estilo a penúltima noite do Pepsi Music, um festival estilo Rock in Rio, com vários dias de shows, e que teve entre os headliners bandas como Nine Inch Nails, The Cult e Stone Temple Pilots, além do próprio Mötley Crüe.
Primeiramente, vale ressaltar que viajar para fora do Brasil para ver um show é uma experiência fantástica. Além de ver o show, você pode conhecer outra cidade e outra cultura, e, no caso de Buenos Aires, a deliciosa carne argentina. Também é interessante notar a camaradagem entre os fãs de rock, que supera com folga a rivalidade entre brasileiros e argentinos, e em diversos momentos obtive ajuda espontânea de alguns fãs hermanos apenas por estar usando uma camiseta da banda.
Cheguei em Buenos Aires com a minha esposa alguns dias antes do show e encontramos com alguns amigos por lá. Nesses dias, nos comportamos como típicos turistas na capital argentina, passeando pela Calle Florida, por El Caminito, visitando o estádio do Boca Juniors, os restaurantes de Porto Madero, assistindo a shows de tango… O tempo estava ótimo em todos estes dias, então pudemos aproveitar nossa estada ao máximo.
No sábado, dia do show, o dia amanheceu nublado, e uma chuva ameaçava cair a qualquer momento.  Fomos para o show preocupados, mas até o cair da noite não havia chovido. Pensamos que havíamos escapado da chuva, e seria muito azar chover exatamente no dia do show depois de dias tão quentes.
Apesar do nome, o Club Ciudad é uma arena a céu aberto, e o projeto do festival foi bem parecido com o do Rock in Rio 3, com um palco principal, palcos menores para bandas locais e vários stands de merchandising e alimentação. Tudo muito bem organizado, sem muitas filas em nenhum dos stands.
 
Às 19:45, sem atraso, o Rata Blanca subiu ao palco principal. Com um set baseado no seu último CD, El Reino Olvidado (excelente, por sinal), a banda fez um show impecável. Com roupas de couro no melhor estilo Judas Priest, a banda executou o seu Heavy Metal muito influenciado por Yngwie Malmsteen e pela fase Dio do Rainbow. Das 10 músicas tocadas, 6 foram do novo disco, o que deixou alguns dos fãs mais antigos um pouco insatisfeitos. Entretanto, quando executaram clássicos como “La Llave de la Puerta Secreta” e “Volviendo a Casa”, e principalmente no fim do show com “Chico Callejero” e “La Leyenda del Hada y el Mago”, o público argentino foi à loucura, cantando em uníssono com a banda. Impossível não destacar o vocalista Adrián Barilari, com seu timbre a la Bruce Dickinson, e o guitarrista Walter Giardino, muito influenciado por Ritchie Blackmore e criador de riffs e solos excelentes. Após aproximadamente 1 hora de show, o Rata Blanca deixou o palco sob as primeiras gotas da chuva que desde cedo ameaçava cair. Um show memorável, que deixou o público mais do que animado para a atração principal.
Rata Blanca
Enquanto a equipe técnica preparava o palco para o Mötley Crüe, a chuva caiu. E que chuva. Uma tempestade, com direito a relâmpagos e muito vento, que fez a temperatura cair e muita gente sair da pista e procurar abrigo nas tendas de merchandising, comida ou até mesmo dentro dos banheiros químicos. Os poucos ponchos (capas de chuva) à venda sumiram em segundos. E a chuva continuou a cair durante toda a montagem do palco, o que atrasou um pouco o começo  do show e fez eu me perder de todos os meus amigos, ficando apenas com a minha esposa sob o guarda-chuvas que ela sabiamente havia colocado na bolsa.
 
Contudo, quando o som mecânico começou a tocar “Hells Bells”, do AC/DC, a chuva miraculosamente parou. E eis que surge no palco o guitarrista Mick Mars, dando início ao show com o riff de “Kickstart My Heart”. A essa altura, as pessoas que tinham saído da pista para procurar abrigo já tinham voltado, e o público se espremia na frente do palco para ver Tommy Lee, Nikki Sixx, Mick Mars e Vince Neil em ação. Tommy girava suas baquetas como de costume, Vince corria por todo o palco, Nikki tocava fazendo caras e bocas e apenas Mick ficava mais parado, devido a sua condição física. É impossível descrever a emoção de ver ao vivo, na sua frente, músicos que você idolatra há mais de 15 anos e que sempre julgou ser impossível ver em um show.
Vince Neil

A banda seguiu com “Wild Side”, “Shout at the Devil” e a primeira do recém–lançado disco, a faixa-título “Saints of Los Angeles”. No telão eram projetadas imagens relacionadas às músicas, inclusive fotos de George W. Bush durante “Shout at the Devil”. Depois dessa seqüência, Mick Mars começou um pequeno solo, com uma citação a “Voodoo Child”, quando a chuva voltou, ainda mais forte do que antes. Mas quem pensou que o público ia se dispersar estava muito enganado. Todos continuaram pulando e cantando, deixando até a banda surpresa. Seguiram com “Live Wire”, quando a chuva virou realmente uma tempestade, deixando não só o público, mas toda a banda ensopada. Mas o que poderia estragar o show parece ter unido ainda mais a banda e o público. Era visível no rosto dos músicos a satisfação de estar tocando ali, para uma plateia que se negava a sair ou deixar de cantar mesmo sob uma tempestade daquelas. E mesmo molhados, Nikki e Vince continuavam correndo e deslizando pelo palco, com sorrisos para todos os lados. A recente “Sick Love Song” e a clássica “Louder than Hell” vieram na seqüência. Então, Tommy saiu do seu kit para vir conversar com a público, mas devido à chuva, seu microfone não funcionou. Os argentinos cantavam como em estádios de futebol enquanto isso, deixando o músico visivelmente emocionado. Depois de algumas tentativas, ele finalmente conseguiu se fazer ouvir, e dizendo “Me gusta la fiesta!!” declarou que o público argentino era oficialmente o mais insano do mundo e como eles estavam felizes por estar ali. Dono de um carisma ímpar, o baterista voltou para o seu kit e começou a acompanhar uma gravação de uma torcida de futebol gritando “Argentina!”. Em questão de segundos todo o Club Ciudad estava gritando “Argentina!” a plenos pulmões. Com a plateia na mão, a banda seguiu com mais uma do novo disco, “Motherfucker of the Year”.

Vince Neil e Tommy Lee
A chuva continuava caindo com força, mas o público continuava agitando como loucos. “Don’t Go Away Mad (Just Go Away)”, com Vince empunhando um violão, deu início a uma seqüência de clássicos que foi até o fim do show. Devido à chuva, seu microfone falhou diversas vezes, mas a plateia continuava cantando a letra palavra por palavra, enquanto a banda continuava tocando com um prazer evidente, provavelmente espantada com a persistência e o vigor do público. Depois de “Same Ol’ Situation” foi a vez de Nikki Sixx se comunicar com a público, entrando no palco com uma enorme bandeira da Argentina e dizendo como aquela noite estava sendo especial para a banda. “Primal Scream” foi executada na seqüência, com toda a plateia gritando “Scream! Shout!” no refrão. “Red Hot”, “Looks That Kill” e “Girls Girls Girls” foram cantadas por todos os presentes, até que o show se encerrou com “Dr. Feelgood”, que levou os argentinos ao delírio.
Nikki Sixx

Alguns minutos depois, Tommy Lee voltou ao palco, mas desta vez ao piano, e tocou os primeiros acordes de “Home Sweet Home”. Vince apareceu com a camisa da seleção argentina, deixando os hermanos loucos. A banda executa a música enquanto imagens de toda a carreira da banda, do inesquecível videoclipe de “Live Wire” até o presente, eram projetadas nos telões. Um final perfeito para um show inesquecível. A banda se despede do público e some por trás do palco, deixando uma multidão atordoada com o que havia presenciado.

Com o fim do show, a volta para o hotel onde estava hospedado foi um pesadelo. Como disse, me perdi dos meus amigos, e o trânsito ao redor do estádio era caótico, a chuva continuava caindo com força e os táxis simplesmente não paravam. Após andar sem saber para onde por 30 minutos, encontramos um restaurante aberto, aproveitamos para jantar e pedir um táxi. Uma hora depois, conseguimos chegar ao hotel e descansar, pois no dia seguinte voltaríamos para o Brasil.
Apesar de todos os gastos, da chuva e dos problemas, assistir ao Mötley Crüe na Argentina foi uma das melhores experiências da minha vida. Buenos Aires é uma cidade linda, a carne argentina é maravilhosa e poucas vezes vi um show com uma interação tão grande entre banda e fãs. Existe um DVD bootleg desse show, e quem assisti-lo vai claramente perceber como esse show foi especial.
Agora é torcer para que o show no Brasil seja confirmado e para que seja tão memorável quanto!

6 comentários

  1. fernandobueno

    Leonardo…
    Para falar a verdaed não gostei nem um pouco do seu texto!!!!
    Não gostei porque fiquei com mais vontade ainda de ver o show que foi confirmado e, como sei que não vou, fiquei mais revoltado….rs
    Só de imaginar ver esses clássicos ao vivo já me deixava com uma enorme dor no coração de perder um show desses…
    Muito legal…assistir show em terras estrangeiras é realmente muito legal. Já vi três em dois países diferentes…foi muito legal…

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  2. diogobizotto

    O Mötley Crüe é a tal da banda com a qual já me acostumei com o fato de nunca poder ver ao vivo. Faço gosto que eles estejam juntos, ainda mais pois se trata da formação original, e todos, uns mais e outros menos, ainda conseguem cumprir suas tarefas no grupo. Tommy Lee é, em especial, além de um baita baterista, um ótimo performer, de maneira alguma se conformando a ficar escondido atrás de seu kit. Estava dando hoje uma ouvida em "Dr. Feelgood" e experimentando mais uma vez aquele monstruoso som registrado pela banda e capturado por Bob Rock, fantástico.

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  3. Rafael "CP"

    To com uma puta inveja saudável , adoraria ter ido á esse show , adorei o texto e me senti um pouquinho dentro do espetáculo.

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  4. Mairon Machado

    Essa é uma das poucas farofas que eu ainda gosto. Muito legal o relato do show. Realmente, assistir a um espetaculo desse porte em outro país é algo. Eu tenho um amigo q viu os stones em buenos aires, tb debaixo de um temporal, e segundo ele (e o bootleg q eu tenho do show confirma) os argentinos nao pararam um minuto. Crei oque seja o publico mais insano do mundo. Tudo que é banda grande la recebe um carinho descomunal. Nao adianta, o povo brasileiro ainda esta longe de agitar como os argentinos agitam, vide a passagem do ozzy, onde vergonhosamente o velhinho agitou mais que as plateias por onde ele passou.

    A carne argentina é sensacional, principalmente a de uma morena que eu conheci no bairro de San Telmo, hehehe

    Parabens por teres presenciado esse show Leonardo, e por ter nos compartilhado a historia de forma tao ilustrativa.

    Pergunta: tu sabes em que bairro fica o Club Ciudad?

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  5. diogobizotto

    Não são poucos os artistas que apontam o público argentino como o mais insano. Os caras transferem a demência que é um jogo de futebol por lá para as plateias dos shows.

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