Discos que Parece que Só Eu Gosto: Grand Funk Railroad – Good Singin’ Good Playin’ [1976]

2 de março, 2011 | por Mairon
Discos que Parece que Só Eu Gosto
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Por Mairon Machado
Depois da chuva de pedras que levei após comentar aqui nessa seção minha opinião à respeito de Hot Space do Queen, vim preparado com uma armadura fortalecida, afinal, esse é outro LP dos vários que conheço que certamente irá me fazer parar novamente no pronto socorro.
Porém, eu não vou me mixar, e sem medo nenhum, afirmo: Good Singin’, Good Playin’ é um dos melhores álbuns da carreira do Grand Funk Railroad.
Que chovam as pedras, mas assim como Hot Space, creio que muita gente malha esse álbum sem sequer ter ouvido. Quando lançado, em 1976, o Grand Funk Railroad estava entrando no processo de decadência que culminaria com o término do grupo meses depois. Dos álbuns iniciais, recheados de distorção nas guitarras de Mark Farner (que também tocava teclados) e no baixo de Mel Schacher, além de uma pegada vigorosa da bateria de Don Brewer, o Grand Funk passou a fazer canções cada vez mais simples, que desagradavam aos fãs antigos e faziam as vendas dos álbuns diminuirem drasticamente.
Mesmo com o sucesso de We’re An American Band (1973), o Grand Funk não conseguia  mais alcançar o topo das paradas. Um longo processo entre a banda e seu ex-empresário, Terry Knight, abalaram e muito as estruturas que o grupo construiu nos seus primeiros anos de estrada. Além disso, a entrada do tecladista Craig Frost havia mudado a forma de pensar do grupo, não vendo mais necessidade de um volume altíssimo para as canções ou de letras sacanas falando sobre farra, bebidas e mulheres. Isso resultou em discos mais fracos, como Shinin’ On (1974),  All the Girls in The World, Beware!!! (1974) e Born to Die (1975), que apesar de serem bons álbuns (principalmente Born to Die, outro que poderia facilmente estar nessa sessão), não agradaram nem a gregos nem a troianos.
Grand Funk e Frank Zappa. Mark, Don, Zappa, Craig e Mel
Foi então que o grupo resolveu recorrer a um antigo amigo, que havia algum tempo rondava o ambiente funkiano em busca de assinar um contrato para produzir o quarteto. Esse amigo era nada mais nada menos que o guitarrista Frank Zappa. A ideia de Zappa era resgatar a pegada rock’n’roll do Grand Funk, sem ter que adicionar distorções, apenas explorando a capacidade individual de cada membro, seja como cantor, seja como instrumentista.
Assim, o quarteto largou nas mãos de Deus (ou seja, de Zappa) toda a produção e mixagem do próximo álbum que seria lançado pela banda. Zappa limou distorções, deixando Mark usar apenas uma, que tornava a guitarra suja como no início de carreira. O baixo de Mel ficou apenas com as quatro cordas, sem nada adicional, assim como Craig ficou responsável por tocar piano elétrico e só. Nada de sintetizadores, mellotron ou hammonds, só o piano elétrico. A bateria de Don recebeu um tratamento especial, com os microfones colocados espalhados pela sala de gravação, mas não em cima do instrumento. Isso gerou uma sonoridade única, que faz das canções que ouvimos parecerem gravadas ao vivo, além de uma crueza e pureza de quem está assistindo um ensaio dentro de uma garagem.
Mark estava cada vez mais se encontrando espiritualmente, e passava por um doloroso processo de divórcio quando das gravações do novo álbum, o que gerou letras bastante voltadas para o lado religioso e pessoal. Em busca de um nome para o LP, Zappa batizou com uma parte da primeira frase que disse ao assinar contrato com a banda: “You are good singin’, you are good playin'”, e assim nascia Good Singin’, Good Playin’.
Compacto de “Just Coudn’t Wait”
Lançado em 2 de agosto de 1976, o LP abre com piano elétrico, bateria e baixo apresentando o riff inicial da balada sessentista “Just Coudn’t Wait”, com uma boa participação vocal de Don, e com Mark fazendo importantes intervenções. Mesmo não sendo uma canção pesada, vale pelo solo de Mark e também pela dançante levada da mesma.
Então, o piano puxa o riff da canção seguinte. A bateria surge, e um pequeno erro na entrada vocal de Mark atrasa o início da canção. Após o agudo de Mark, começa o rock’n’roll de “Can You Do It”, uma paulada que é impossível de te deixar parado, principalmente pela contagiante satisfação expressa pelos músicos através da risadas constantes, com um refrão grudento que fica na cabeça indicando cada “passo” a ser feito, e com as vocalizações de todos presentes em cada frase cantada por Mark. Excelente canção, que é a primeira a parecer ter sido registrada ao vivo nos estúdios!
O LP ganha mais uma leve canção, agora com “Pass it Around”, cantada por Don, onde o riff sujo da guitarra de Mark contrasta com as belas vocalizações arranjadas por Zappa. Mais um bom e grudento refrão para sair dançando pelo quarto enquanto toca sua air guitar.
Compacto de “Can You Do It”
“Don’t Let ‘em Take Your Gun” volta à linha de “Can You Do It”, com o piano seguido pelos vocais de Mark, já mostrando a tendência religiosa que ele teria posteriormente em sua carreira solo. Uma bonita mensagem pacifista em uma embalada canção que conta com outro refrão para ficar na memória, entoando o nome da canção, e com a presença de Mark fazendo o solo principal.
O lado A encerra-se com a balada “Miss My Baby”, onde a guitarra de Mark, acompanhada pelo piano e pela lenta cadência de bateria e baixo, fazem um ambiente emocionante para uma das melhores baladas do Grand Funk Railroad, com perfeitas vocalizações no refrão, lembrando muito “Loneliness”, do álbum E Pluribus Funk (1971), e com um show à parte de Mark fazendo vocalizações no final da canção.
O lado B abre também com vocalizações, agora na vinheta “Big Buns”, apenas com os 4 membros cantando sobre o andamento do piano e muitas risadas, para então surgir aquela que eu considero a melhor canção do grupo, “Out to Get You”. O eletrizante início com o piano e as marcações de Don já mostram o que vem pela frente. Mark faz dedilhados na guitarra enquanto Don executa algumas viradas. A canção vai aumentando o volume, e vocalizações aparecem, levando então ao acorde de Mark, e assim, a pauleira pega, com Mark cantando em falsete apenas o nome da canção, e Zappa começa a solar no seu estilo inconfundível, sobre o acompanhamento de baixo, guitarra, piano e bateria, aumentando o ritmo na segunda parte do solo. 
Após o término do solo de Zappa, os pianos elétricos de Mark e Craig tomam conta, e é a vez de Mark começar a solar. Os riffs rasgados iniciam um excelente e emocionante solo, com notas repletas da única distorção disponibilizada para ele, enquanto o andamento de Craig, Mel e Don vai alternando apenas entre dois acordes, e assim, Don solta um grande berro, que retoma o início da pauleira, com grandes viradas de Don, para todos começarem a cantar o nome do álbum, encerrando a letra dessa estrofe com um estrondoso “Grand Funk and Rock’n’Roll”, levando então para mais um solo de Zappa sobre vocalizações que entoam o nome da canção. Melhor que isso, na carreira do Grand Funk, honestamente, não existe! Só ela já vale o álbum!
Zappa durante a mixagem do LP
Saindo da paulada de “Out to Get You”, novamente parecendo que estamos presenciando um ensaio da banda, devido a crueza da bateria de Don, e entramos na excelente “Crossfire”, outra com temas religiosos, onde Mark faz uma belíssima interpretação vocal.
A guitarra distorcida de Mark, no melhor estilo hardão, apresenta o riff de “1976”, com Mark soltando vocalizações antes de começar a cantar sobre mais um andamento extremamente dançante. O refrão apresenta um maior destaque para o baixo de Mel, e é cantado sobre um solo de violão feito por Mark. Essa é a canção mais pesada do álbum, bem no estilo dos clássicos álbuns Grand Funk (1969) e Closer to Home (1970).
O rock’n’roll reaparece em “Release Your Love”, cantada por Don, mas que tem na introdução as vocalizações de Mark. Agitada, com boa participação de Don e com a presença marcante do piano elétrico de Craig, além de um belo solo de Mark, é uma ótima intermediária entre “1976” e a canção que encerra o álbum, “Goin for the Pastor”, onde finalmente Mark revela seu lado religioso, em mais uma interessante faixa, que começa com o solo de Mark acompanhado por piano elétrico e as viradas de Don. 
Então, segue-se um delicioso e pesado boogie, onde o destaque vai para o suingado refrão, repleto de vocalizações enquanto Mark traça linhas melódicas na guitarra que dão ainda mais tempero para essa boa faixa, que pode passar despercebida em uma primeira audição, mas acaba grudando em audições posteriores, principalmente pelo ótimo solo de encerramento feito por Mark, com Don marcando nos pratos os riffs feitos pela guitarra.
Zappa, Mel e Mark analisando as linhas de “Out to Get You”
Na época de lançamento, a imprensa especializada elogiou e muito o álbum, enquanto que os fãs torceram o nariz. Até aquele ano, esse era o maior fracasso comercial da carreira do grupo, alcançando apenas a posição 52 nas paradas de vendas, o que era muito longe de álbuns como E Pluribus Funk e We’re an American Band, que alcançaram a sexta e segunda posição respectivamente. 
O que os fãs alegaram era a falta de peso, as letras pacifistas e principalmente, a ausência de longos solos e improvisos. Tudo isso esta realmente presente nesse álbum, mas nem por isso faz dele um álbum ruim. De um modo geral, é o álbum mais conciso do Grand Funk, pois todas as canções tem o mesmo nível (apesar de “Out to Get You” estar bem a frente das demais) em termos de musicalidade, e também sem extrapolar com faixas mais longas e outras mais curtas, já que a média de duração de cada faixa é de 4 minutos. 
Sessão de ensaios de Good Singin’, Good Playin’
Além disso, por ter sido lançado no início da era disco, o álbum não conseguiu agradar a novos fãs americanos, que já buscavam as canções influenciadas pela Motown e não estavam mais interessados no “ultrapassado” rock’n’roll, o que torna a lenda de Good Singin’, Good Playin’ ser um álbum ruim ainda mais forte.
Pôster de divulgação do LP
O Grand Funk acabou em meados de 1977, retornando com uma nova formação para lançar dois discos no início dos anos 80, e depois, hibernar por muitos anos até ressucitar em 1997 para a gravação do CD ao vivo Bosnia. Hoje em dia, com uma formação bastante modificada, sem Mark nas guitarras, mas ainda com Don, Mel e Craig, o grupo excursiona fazendo apresentações pelos Estados Unidos, mantendo o nome de uma grande banda que um dia desbancou o Led Zeppelin em termos de apresentação musical e os Beatles em termos de vendas de ingressos.
Por fim, nas palavras de muitos que ouviram Good Singin’, Good Playin’ com atenção tanto na época como nos dias de hoje, é nele que está o que realmente era o Grand Funk Railroad. Zappa conseguiu o que queria, extraindo o melhor de cada músico tanto fazendo belos arranjos vocais como nos arranjos instrumentais. Pode não ser uma obra-prima como Closer to Home ou E Pluribus Funk, mas com certeza, afirmo novamente, é um dos melhores discos da carreira do Grand Funk Railroad. 
E você, conhece o álbum? Concorda comigo? Discorda? Se nunca ouviu, perca o preconceito e corra atrás. O que está guardado nos sulcos do vinil ou nas ranhuras do CD é um álbum de extrema qualidade musical e vocal.
Track list:
1. Just Couldn’t Wait
2. Can You Do It
3. Pass It Around
4. Don’t Let ‘Em Take Your Gun
5. Miss My Baby
6. Big Buns
7. Out To Get You
8. Crossfire
9. 1976
10. Release Your Love
11. Goin’ For The Pastor



14 Comentarios

  1. fernandobueno disse:

    Nesse caso já te adiante que não é só vc que gosta. Eu acho ese disco muito bom. Quando conheci a banda por indicação do Mago Merlinus eu peguei de cara o E Pluribus Funk, depois o We're A American Band e depois esse. Mas eu não tinha nenhuma informação de fãs sobre os discos. Apenas que os dois primeiros citados eram os melhores. Acabei ouvindo o album sem um conceito já pré-estabelecido. Talvez esse seja o motivo.
    Eu quero só ver alguém ter a coragem de falar sobre o Virtual VI e o St Anger aqui nessa seção do blog…hehehe

  2. Fábio RT disse:

    Eu acho este disco simplesmente maravilhoso…ele só é criticado pq tem sonoridade muito diferente dos primeiros discos do Grand Funk

  3. diogobizotto disse:

    Mairon, nesse caso tenho certeza que não vão te atirar pedras gratuitamente. Faz tempo que não escuto esse álbum, mas lembro que colocaste no mínimo uma música dele no podcast sobre o grupo, mas lembro bem desse não estar entre meus favoritos. Apesar disso, isso definitivamente não quer dizer que o disco seja fraco, ao contrário, é um bom disco, agradável.

    Apenas uma adição… não considero a letra de "Don't Let 'em Take Your Gun" pacifista de maneira alguma. Na verdade o que ela parece ser é um amnifesto a favor dos direitos individuais, em especial o de poder portar uma arma.

  4. Blz Diogo, na verdade eu fiz um bloco inteiro só com o good singin', hehehe

    Quanto a letra, em certo ponto eu concordo contigo, mas quando Mark canta frases como "this year is our anniversary. Two hundred years, people we've been free."

    e "I'm tellin' you we learned to fight for justice.
    We're willing to die for freedom."

    eu vejo uma ideia de pacifismo dentro dos Estados Unidos, para acabar com o fato de "só a guerra resolve". Também não vejo GUN como sendo uma ARMA FÍSICA (tipo uma metralhadora), mas como a capacidade de expressar-se.

    Enfim, posso estar errado completamente, e são apenas divagaçãoes, mas é para isso que servem os amigos.

    Abração

  5. diogobizotto disse:

    Mairon, acredito que, tendo em vista o background de Mark Farner e seus pensamentos mais conservadores em relação a alguns assuntos, ele quis se referir à liberdade de portar uma arma mesmo, mais como uma tradição enraizada na cultura local do que como um apoio à política bélica norte-americana.

  6. Rafael "CP" disse:

    Nossa, Grand Funk Railroad por aqui, que surpresa. Adoro eles e realmente,os unicos pontos que se pode citar como negativos seria mais relacionados á produção que era magérrima na época, como por exemplo na bateria que era um verdadeiro "solo de caixas de papelão" em Footstompin' Music

  7. Fábio RT disse:

    Acho justamente a produção tosca o charme dos primeiros discos…inclusive o baixo no talo

  8. Como eu disse no post do podcast, eu não entendo PORRA NENHUMA de Grand Funk, mas li o post e vou acrescentar esse à lista de novas aquisições, até pq tem Zappa na história!

  9. diogobizotto disse:

    Não dou nem bom dia pra quem não conhece "I'm Your Captain (Closer to Home)"!!!

  10. Mas o quê? O Bueno tá programando um Virtual VI e um St Anger?! xD

    P.S.: Boa noite, Diogo. =x

  11. OBDULAX disse:

    A Partir do album Shinin'On a sonoridade do Grand Funk ficou muito igual pois todos os discos passaram a serem gravados no estudio caseiro da fazenda de Mark Farner (THE SWAMP) e todos os albuns apesar de produtores diferentes seguiram a mesma linha de produção resultando numa sonoridade mais fraca do que os anteriores; um outro ponto é que a partir de Shinin'On a linha de frente passou a ser dividida entre Mark Farner e Don Brewer que assinava e cantava metade das canções, diferente do Phoenix e Moeda que toda a composição ficava a cargo do Mark Farner; o que resultou em numeros sofriveis como o lado B de Shinin'On. Como disse a revista Circus da epoca, a unica criação ambiciosa da dupla Brewer-Frost foi o bluesão GOOD & EVIL do album All The Girls, que ao contrario da fraqueza do disco, é uma faixa realmente sensacional, que consegue resgatar o Grand Funk dos velhos tempos.Possuo a discografia completa do GFR desde os tempos do vinil importado. Um Abraço!

  12. Rusty James disse:

    O Grand Funk do inicio ao seu final em 76 tem discos excelentes, com exceção do fraco All the Girls in the World Beware!. Mas Good Singin Good Playing é muito bom. Pesado, vigoroso e muito bem executado do inicio ao fim. Faixas melódicas como Just Couldnt Wait, Passing Around mostram a maestria do grupo na composição e na performance. O disco possui outros destaques como Out to Get You, uma faixa extremamente pesada e vibrante. Outro que falam mal é Born to Die, um disco mais soturno, mas mesmo assim carregado de faixas interessantes. Grand Funk é uma unanimidade, tendo discos muito bons. Já discos pós 76, não recomendo nem uma segunda audição.

    • maironmachado disse:

      Os piores discos para mim são o Lives e o What’s Funk, seguidos do All the Girls e do Phoenix.

  13. Eudes Baima disse:

    Não acho ruim, mas no conjunto da discografia da banda, que tem monumentos como E Pluribus Funk, estes discos da segunda metade dos 70 parecem alguns degraus abaixo.76 é também o ano do, este sim péssimo, Born to die.

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