Por Micael Machado
Heavy metal! Em um aspecto religioso, à qual religião ou seita este estilo é popularmente associado? Ao budismo, seus mantras e rituais de meditação? Imagine-se meditando ao som de Iron Maiden… Difícil, certo? Quem sabe a religiões e seitas que proíbem o uso de álcool, drogas e o sexo fora do casamento? Pense no estilo de vida popularizado pelos roqueiros e logo ficará claro que não. Qual forma de religião responde esta pergunta?

Parece-me óbvio que a resposta é “satanismo”. Mas é isto correto? E por que há essa associação? Responder estas perguntas é o objetivo deste texto, onde aqui apresentaremos a primeira de duas partes narrando a influência e a associação do heavy metal ao culto para com o demônio.

Desta forma, começamos com a seguinte pergunta: Quem é Satanás? Para respondê-la, recorremos à Bíblia Sagrada. Parece claro, de um ponto de vista religioso, que somente Deus não foi criado. Tudo mais que existe no universo e fora dele, incluindo o próprio universo, seriam crias de Deus. Portanto, parece-me certo afirmar que, se Satanás existe, teria sido também ele criado por Deus. E Satanás existe? Ora, a Bíblia o cita diversas vezes, portanto, para os que crêem na Bíblia, torna-se obrigatório acreditar na existência de Satanás.

Uma das várias visões sobre Satanás

Bem, então Satanás foi criado por Deus. Por quê? Para quê? A Bíblia cita diversas vezes criaturas que não são deste mundo, as quais, por falta de definição melhor, podemos chamar de “seres espirituais”. São anjos, arcanjos e outras formas de vida que, às vezes, vêm à Terra para avisar a humanidade de algo, para responder dúvidas dos fiéis, para proteger-nos, enfim, criaturas que têm algum tipo de função, de missão a cumprir, seja ela qual for. Não me parece errado considerar Satanás uma destas criaturas (não necessariamente um anjo, mas um ser com certeza espiritual, assim como eles). Qual seria, portanto a missão de Satanás?

“O nome ‘Satanás’ é uma tradução do hebraico ‘satan’, indicando um acusador no sentido legal, um queixoso que tem uma acusação a apresentar”. Para aqueles que assistiram ao filme “O Auto da Compadecida”, é exatamente nesta função que Satanás aparece: acusando os que morreram, mostrando as suas falhas, tentando afastá-los do Reino dos Céus, não permitindo a entrada deles no Paraíso. Portanto, a missão de Satanás é apontar as falhas das criaturas, mostrando seus erros e tentando provar que não são dignas de integrarem o Reino de Deus, na hora do julgamento de cada um (que, segundo crença católica, acontece ao morrermos). Satanás é descrito como alguém astuto, esperto, mas também preguiçoso. Na visão de um preguiçoso, o melhor trabalho a fazer é aquele fácil, que não exige esforço. Mas, se todos seguissem fielmente os ensinamentos e as orientações de Deus, muito difícil seria o trabalho de Satanás, pois como acusar alguém que sempre seguiu os preceitos corretos de que este não é digno de integrar o Reino de Deus? Para facilitar o seu próprio trabalho, que faz, portanto, Satanás? Tenta as pessoas, prometendo-lhes as mais diversas coisas, para que elas se afastem do caminho do bem (os ensinamentos de Deus). Assim, quando for a hora de julgá-las, é fácil para ele acusar estas pessoas de terem se desviado, não se levando em conta que foi ele quem as levou a desviar-se, pois alguém realmente merecedor não cairia nas tentações de Satanás, como o próprio Jesus não caiu.

Nesta visão, seria Satanás um inimigo de Deus? A princípio, não. Ele seria alguém que tentaria afastar as pessoas do caminho que leva a Deus, usando para isso artifícios os mais variados; alguém que tentaria impedir aqueles que não são merecedores de integrar o Reino dos Céus. Ele seria, com certeza, um inimigo dos homens de boa vontade, que crêem em Deus e em seus ensinamentos, que esperam um dia estar ao lado dele no Paraíso. Como todos somos filhos de Deus, e Ele nos quer a todos ao seu lado, então pode-se entender Satanás como um inimigo de Deus, por tentar impedir a vontade do Todo Poderoso de se cumprir.

Satanás, um anjo caído
Há uma crença de que Satanás seria um anjo que teria se voltado contra Deus, sendo, por isso, expulso do Céu. Ele teria caído na Terra, afundado, e só teria parado quando chegou ao centro da Terra, onde governa. Essa é uma visão errônea, baseada em uma interpretação do texto bíblico Ísaías 14:12-14, onde o profeta faz uma previsão sobre a queda do império babilônico, que dominava o Povo de Deus e tinha ídolos que não o próprio Deus, e cujo rei “certa vez pensou que era o maior do mundo, que tinha poder e autoridade igual à do próprio Deus.” A interpretação que transforma o reino da babilônia em Satanás (ou Lúcifer) foi feita pelos padres dos primeiros tempos da Igreja Católica, que buscavam nas escrituras uma forma de lidar com o mal, explicando-o aos católicos. Daí a crença de que Satanás governa o mundo inferior, para onde seriam mandados aqueles que não seguem os ensinamentos de Deus (que são acusados pelo próprio Satanás de não merecerem integrar o Paraíso, e julgados culpados de desviarem-se do caminho correto).

Pois, pensemos, para onde vão aqueles que não merecem estar junto a Deus? Estava então explicado: iriam para junto de Satanás, no centro da terra (no Inferno). Esta visão de Satanás foi amplamente divulgada durante a Idade Média, talvez a época da história mundial onde a Igreja Católica foi mais poderosa, mais rica e mais influente. Para que as pessoas não se afastassem dela (que não queria perder suas conquistas e privilégios), foi incentivada a crença do Paraíso onde tudo é bom e todos vivem em harmonia, para onde vão aqueles que seguem os ensinamentos da Igreja, e a crença do Inferno onde as pessoas sofreriam privações e sofrimentos eternos, por terem se afastado das orientações da mesma Igreja.

Aleister Crowley
Pense bem, para onde você preferia ir? Em termos de heavy metal, que, afinal, é sobre o que versa este trabalho, cabe citar duas personalidades: Aleister Crowley, que foi um filósofo inglês do século XIX, considerado por muitos um bruxo e satanista. Seu pensamento e pregação se resumiam basicamente no conteúdo da obra chamada “Livro da Lei” e na doutrina conhecida por “Thelema” (palavra grega que significa vontade) e que pode ser resumida em “Faz o que quiseres que tudo deve ser da lei. Todo homem é um indivíduo único e tem direito a viver como quiser”. Os princípios hedonistas de Crowley, com a pregação do aproveitamento dos prazeres terrenos, incluindo sexo e drogas, foram base para todas as doutrinas satanistas que se seguiram, embora Crowley não tenha de maneira clara em sua obra se declarado satanista, sendo mais apenas um anti-cristão, tendo tomado para si a denominação de “Número 666”. Por ser uma figura controversa, Aleister Crowley despertou muito interesse entre artistas de rock, em especial de heavy metal.

A outra personalidade é Anton LaVey. LaVey fundou o satanismo ao formar a Igreja de Satã (IS) em 1960, na Califórnia, e ao escrever a “Bíblia Satânica” (1969) e outros livros semelhantes. Sem dúvida, La Vey atraiu crenças existentes e afirmações sobre Satã e o satanismo. Mas o satanismo dele só pode ser confundido pelo descortino que veio a público, ou pela admissão da realidade de antigas fantasias e medos, por alguém que se recusou a ler o que LaVey escreveu, a escutar o que ele falou, e a observar o que sua igreja fez. Quase tudo o que a IS tem em comum com o que as pessoas devem esperar que o satanismo seja, é a máscara sinistra que seu fundador e seus membros gostam de apresentar aos ingênuos.

O satanismo de LaVey, por trás das máscaras, é algo mais: é uma religião do self, um culto a si próprio. Os preceitos desta igreja são bastante semelhantes aos de Crowley. Há uma valorização da vontade do indivíduo sobre a vontade de Deus ou da Igreja. Tudo passaria a ser permitido, desde que se tivesse vontade de fazê-lo. Não somente fazer ou causar o mal, mas também fazer ou causar o bem. Afinal, tudo dependeria apenas da vontade de cada um, e não de conceitos de “certo” ou “errado”. De acordo com LaVey, religiões representam poder sobre o povo, ganho quando as necessidades e desejos comuns são identificados com “pecado” ou “engano”, e a “solução” (salvação ou iluminação) é oferecida ao obediente. Satã é o questionador deste sistema. Satã encoraja cada pessoa a experimentar e descobrir se elas acham que estes desejos e necessidades são úteis ou não. Os pensamentos de Aleister Crowley e Anton La Vey iriam influenciar muitos músicos da década de 70 em diante, não só em termos de letras, mas também em termos de atitude e postura. 

Anton LaVey

Chegamos então à música. Há muito se associa música com religião, e, como não poderia deixar de ser, com o “bem” e com o “mal”. Na idade média, a escala de Lá maior (ou jônica) foi considerada herege pela Igreja Católica. Nesta escala, segundo a Igreja, o demônio aparecia no intervalo entre Fá e Si, um intervalo de três tons, ao qual chamaram “Diabolus In Musica”. Quem compusesse músicas utilizando este intervalo, ou quem as apreciasse, era ameaçado de ser queimado na fogueira, por estar apreciando algo no qual o demônio estava (aliás, nesta época, qualquer pensamento ou ação contrária aos desejos e vontades da Igreja Católica era normalmente punido com a queima na fogueira, sob a desculpa de o acusado ter pacto com o demônio – Satanás).

O violinista Niccolò Paganini, nascido em Gênova em 1782, foi acusado de ter um pacto com o demônio para aprender a tocar seu instrumento de forma imensamente superior aos músicos de sua época. Esta crença era tão forte e espalhada que, quando ele morreu, em 1840, a Igreja Católica recusou-se a enterrá-lo. Seu corpo só teve um enterro católico três anos depois, após vários pedidos de seu filho para que Roma intercedesse no seu caso, permitindo a cerimônia. Mesmo assim, diz uma lenda que o corpo foi transladado sete vezes, para livrá-lo da possessão.

O avô e primeira lenda do rock, Robert Johnson

Robert Johnson, considerado o pai do blues moderno (no século 20, década de 30), foi acusado de ter vendido a alma ao diabo para conseguir sucesso. De fato, até hoje várias lendas a seu respeito são contadas, não se sabendo mais o que é na verdade real e o que é ficção. O rock começou a surgir na década de 50, oriundo da mistura entre o blues e o rhythm and blues, dois estilos musicais tocados predominantemente pelos negros, até então. As famílias brancas da época (extremamente preconceituosas nos EUA) ficaram escandalizadas ao verem seus filhos dançando e cantando músicas “de negros”. A música negra era então considerada como música tribal, portanto pagã e diabólica. Vários pastores começam a criticar esta música (tem de ser levado em conta também a maneira de dançar e uma espécie de frenesi que tomava conta de músicos e fãs), agradando a pais preconceituosos. Em seus sermões, ameaçavam com a figura do diabo (Satanás) às pessoas que ouvissem tais músicas.

Vem daí a associação entre rock e satanismo. Raul Seixas canta em uma de suas músicas “o diabo é o pai do rock” (se bem que, se você prestar atenção à letra, verá que não é o demônio em si, mas sim uma entidade superior, que transmitiria conhecimentos ocultos aqueles que a procuram). Nas décadas de 50 e 60, vários artistas sofreram acusações diversas de associação com Satanás. Elvis Presley, os Rolling Stones, os Beatles e tantos outros foram, por um motivo ou outro, taxados de satanistas. Mas foi no final dos anos 60, mais precisamente em 1969, que estas acusações finalmente pareceram encontrar respaldo.

Jimmy Page, o mais associado ao satanismo no Led Zeppelin

Neste ano, surgem na Inglaterra duas bandas fundamentais para o que se tornaria o Heavy Metal: O Led Zeppelin, em Londres, e o Black Sabbath, em Birmingham. Junto ao Deep Purple, que já existia desde 1967, mas que a partir de 1970, passaria a fazer um estilo musical mais pesado, estas bandas são consideradas a “santíssima trindade” do heavy metal por seus fãs e seguidores. Àqueles que não entendem a associação como “fundadores” ou “membros principais” levando-a para um sentido religioso, este é mais um motivo para associá-los ao satanismo: “como podem três grupos musicais formar uma santíssima trindade? São hereges, satânicos, blá, blá, blá…” No caso do Led Zeppelin, realmente o guitarrista Jimmy Page era um grande estudioso da obra de Aleister Crowley, e suas letras tratavam de temas pagãos e da religião celta, mas daí a chamá-los de satanistas vai uma grande distância. Muitas lendas existem a respeito da banda e seus membros (mensagens satânicas gravadas ao contrário em seus discos, letras com mensagens cifradas, pactos com o demônio, orgias rituais entre seus membros e suas fãs, etc), mas todos os envolvidos juram até hoje que tudo não passa de invenção.

Já no caso do Black Sabbath, o nome da banda, tirado de um filme de terror de nomeação igual da década de 30, já bastou como começo de conversa. Um sabá é uma reunião de bruxas e feiticeiras, e o sabá negro seria o mais importante de todos, com a presença do próprio Satanás. Houve também associações ao shabat judaico, sendo o sabbath negro consagrado ao demônio, em vez de a Deus. A primeira música do primeiro disco da banda (lançado em uma sexta-feira, 13 de fevereiro de 1970 – mais uma associação com o mal), também chamada “Black Sabbath” tem por tema uma pessoa que presencia um sabá negro, e, apavorada, tenta fugir, sendo perseguida pelo próprio demônio. Pergunto então: se a intenção da banda fosse exaltar Satanás, por que o personagem fugiria, ao invés de juntar-se ao ritual?

Outras músicas do disco, como “N.I.B.” (na qual Satanás tenta fazer com que uma pessoa lhe entregue a alma) e “The Wizard” (que, como o título diz, trata de um mago com poderes sobrenaturais), bastaram para os músicos serem acusados de satanistas. A coisa chegou a um ponto que, no terceiro disco, o grupo gravou uma música chamada “After Forever”, com uma das letras mais cristãs que este que escreve já ouviu (nela está escrito, literalmente: “deixe-os criticá-lo, um dia eles irão perceber que Deus é a única forma de amor”). Não adiantou. Os que os acusavam disseram que aquilo era um disfarce, um subterfúgio para enganar os que não queriam ver a “verdade”.

Black Sabbath: nome em homenagem ao demônio?
O vocalista Ozzy Osbourne passou a recitar então trocentas vezes nos shows “God Bless You All! Love You!”, e outras mensagens pacifistas. Adiantou? Bem, até hoje Ozzy e seus comparsas são considerados uma das bandas mais satânicas da história… Ao longo da década de 70, qualquer grupo que investisse na música pesada era taxado, cedo ou tarde, de satanista. Judas Priest, Alice Cooper, Kiss, todos foram em algum momento acusados disso.

Na próxima edição, veremos como o satanismo foi associado à diversas bandas nas décadas de 80, 90 e nos anos atuais, começando pelo surgimento de uma banda que fazia jus a todas as acusações feita para o Heavy Metal.

12 comentários

  1. fernandobueno

    Na biografia do Led Zeppelin chamada "Qundo os Gigantes andavam pela Terra" há uma descrição bem legal (e extensa) dos ensinamentos de Aleister Crowley.

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  2. diogobizotto

    Micael, devias ter contado a história dos teus colegas de faculdade quando apresentaste teu trabalho a respeito do tema, heheheh…

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  3. Groucho KCarão

    Bem bacana o tópico. Interessantíssimo!
    Sugiro que pesquise também sobre Kenneth Anger, cineasta intimamente ligado ao ocultismo que manteve fortes relações com os Stones, Jimmy Page e Bobby Beausoleil [ex-guitarrista do Love].
    Tem até esse curta dele com 'trilha sonora' do Mick Jagger no youtube:
    http://www.youtube.com/watch?v=vBR8b6pCrXA
    Esquisitão! xD

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  4. Groucho KCarão

    Admito que já tentei dormir ouvindo King Diamond, mas após 3 músicas resolvi colocar otra coisa pra 'ninar'! xD
    Sei lá, pode não ser, mas soa bem sincero…

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  5. Mister

    Muito legal e interessante o seu artigo, Micael. Você que já tem nome de anjo.
    Swedenborg, em pleno século 18, também tinha uma visão interessante sobre o livre arbítrio: a de que ele não acabava com a morte. No que seria o purgatório, inquirido por um anjo (ou quem sabe um demônio?) a alma poderia escolher entre viver no céu ou no inferno. Se a alma tivesse pertencido a um homem bom em vida, lógico que ela escolheria o céu onde estaria junto aos virtuosos. Mas se fosse o contrário, já imaginou o tédio de um escroque ter que passar a eternidade entre os santinhos? Lógico que ele escolheria estar junto aos iguais no inferno e viver a eterna farra da malandragem, hehe… Sem culpa, sem penitência.

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  6. Roberto de Souza

    Prezado Micael,
    Sua descrição sobre a história do rock é muito interessante, porém creio que sua leitura bíblica precisa de maior profundidade, pois não há na Bíblia "aqueles que são merecedores de integrar o Reino dos Céus", porque ninguém é merecedor da salvação (Romanos 3:10), mas, mesmo assim, Deus em sua imensa misericórdia promete salvar aqueles que aceitarem Cristo como o único Salvador. Portanto este discurso de "se eu for bonzinho, ou se eu fizer coisas boas Deus vai me salvar" é argumento de que desconhece a Palavra de Deus, ou de quem quer enganar o outro (o que presumo, não é o seu caso), ninguém é bom (Lucas 18:19), só Deus é bom, e nossas boas obras são trapos de imundície diante de Deus (Isaías 64:6), porque nada mais são do que nossa humilde obrigação como filhos de Deus, portanto não há merecimento e sim misericórdia de Deus em nos aceitar apenas porque cremos no Seu Filho Jesus Cristo. Enquanto a humanidade não entender o que a Bíblia diz com muita clareza, vai ter muita gente boa e caridosa indo para o inferno, seja porque adorou ao deus errado ou porque se acha merecedor de ser salvo por causa das boas obras.

    Um abraço.

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  7. Anônimo

    Vocês vão dizer que não tem nada a ver.Mas quando eu ouvi o "Paranoid "do Sabbath,pela primeira vez,achei que aquelas músicas,tinham alguma coisa estranha,que eu não conseguia identificar.Macabras.E nesse álbum tem,eletric funeral,hand o doom e war pigs

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