O que é o stoner? Bom, para mim é um estilo musical que nunca foi minha área, principalmente pela – perdoem os fãs – “NADA A VER” comparação com o Black Sabbath, mas fiquei curioso ao ver o CD duplo Sucking the 70’s, lançado em 2002, com diversas bandas do estilo dando cara nova para vários clássicos dos anos 70. Já adianto que não conheço nenhuma banda que está no CD, e portanto não vou discutir formações ou histórias das mesmas (até por que é uma galera que participa), porém conheço a maioria das canções interpretadas, então a resenha vai de quem está realmente ouvindo tudo com “ineditez”. Além disso, eu não sou muito adepto a covers, a menos no caso de quando bem feitas, mas como o que eu tinha lido sobre esse CD falava que as versões da maioria das canções estava muito diferente, e algumas até melhor, me sujeitei a encarar o desafio de ouvir um CD só com covers de bandas que eu gosto feito por bandas de um estilo que eu não gosto.

Tudo começa com Five Horse Johnson interpretando “Never In My Life” (Mountain), com destaque para o belo solo de gaita na linha Yardbirds, apesar da bateria anos 90 soar forte, o que para mim não agrada, mas de forma geral o som é muito massa, passando por Throttlerood, com “Black Betty” (Ram Jam), onde os riffs de guitarra soam fortes e grudentos na cabeça do ouvinte, além dos vocais serem bem destorcidos, e com a pauleira pegando no solo de guitarra. Essa faixa aumentou os pontos positivos adquiridos com a canção do Mountain principalmente pela parte instrumental.

Dixie Witch

A Dixie Witch apresenta “On The Hunt” (Lynyrd Skynyrd). Essa é para eu entender o que é o estilo stoner. Um peso do caral*#**@, com um vocal imitando o grande Ronnie Van Zant, em uma faixa muito similar a original, apesar de bem mais pesada, e que é seguida pela estupidez sonora de “Cross Eyed Mary” (Jethro Tull), gravada pelo Clutch, com vocais parecendo de um fantasma saindo do túmulo, e com um solo de guitarra que não me agradou, mas para quem aprecia o estilo parece ser o ideal.

“T. V. Eye” (The Stooges), gravada por The Glasspack, é outra canção pesadíssima. Se Iggy Pop mostrou ao mundo como ser louco no fantástico LP Funhouse, deve ter ficado mais doido com o que o vocalista do The Glasspack faz aqui. A guitarra cheia de efeitos e o baixão estourando os alto falantes são o principal destaque. O grupo The Last Vegas manda ver em “Free for All” (Ted Nugent), com a melodia muito similar a original, mas bem mais pesada, onde os riffs de guitarra são os pontos altos. A essas alturas já da pra garantir que o segredo das bandas de stoner está nas guitarras sujas e no volume altíssimo do baixo.

Halfway To Gone

O grupo Halfway To Gone ameniza os ouvidos com violões e uma gaitinha manhosa na balada “Can’t You See” (The Marshall Tucker Band), onde inclusive um divino órgão hammond se faz presente. Uma espécie de balada farofa com baladas zeppelianas é a definição que posso dar.

Agora se você quer entender por que falam que stoner tem a ver com Black Sabbath, ouçam os Suplecs tocando “Working Man” (Rush). PQP! Que peso. Parece o Iommi tocando, não dá pra negar. Se não fossem os vocais gritados demais, era o próprio Sabbath em ação num dos maiores hits do Rush. O solo de guitarra é incrivelmente fantástico. Duas guitarras detonando com arpejos, wah-wahs, bends e muita distorção. Arrepios surgem só de lembrar do que está registrado ali, e a viajante sessão após os solos é digna das grandes viagens lisérgicas das bandas progressivas dos anos 70. Parabéns ao grupo pela criatividade e pelo talento de pegar um clássico e deixá-lo tão bom quanto o original, mesmo com uma cara totalmente nova, o que é raro no mundo da música.

A Puny Human faz um divertido medley juntando as clássicas “Travellin’ Band/Suzy Is a Headbanger” (Creedence Clearwater Revival / Ramones) em uma única canção. Um rockzão pesado com vocais a la John Fogerty. Tirem as crianças da sala e soltem as pernas, por que essa é a faixa perfeita para um bailão à moda antiga, inclusive com a paradinha “head-ban-GER!!” estando presente para lembrar os bons tempos ao lado do meu irmão e do Gérson curtindo Ramones a tarde inteira de um sábado de verão.

O grupo Raging Slab manda ver na imortal “We’re An American Band” (Grand Funk Railroad), outra fiel a original, tendo o cowbell de frente para o ouvinte, com o único defeito do vocalista “gemer” demais para o meu gosto e umas vocalizações femininas que não tem nada a ver com a música.

Los Natas

Eis que surgem as surpresas. O grupo argentino Los Natas manda ver com a clássica “Brainstorm” (Hawkwind). 8 minutos e 24 segundos de muita doideira, na melhor faixa do CD 1. O baixo e a guitarra logo na introdução já são a prova de fogo para seus ouvidos. Basta a bateria entrar para o pau pegar, e então os vocais surgem, maquiados pelo peso instrumental, até virar uma psicodelia barretiana de tirar o fôlego, com guitarras alucinantes rasgando as caixas de som entre muita barulheira de sintetizadores, e apesar de não estar na íntegra dos onze minutos que Lemmy Kilminster registrou com o Hawkwind no ótimo DoReMi FaSol Latido (1972), é uma paulada que mantém o CD em alto nível.

Não menos surpreendente é a inclusão de “For Madmen Only”, faixa que abre o segundo e último LP da excelente banda britânica May Blitz, feita aqui com muita propriedade pelo grupo The Heads. Mais uma barulheira dos infernos.

A banda Lamont trás o boogiezão pesado de “Nasty Dogs & Funky Kings” (ZZ Top), e para os farofeiros de plantão, a Backdraft solta os riffs melados de “Child of Babylon” (Whitesnake), que diminui o ritmo da coisa, seguindo o rhythm & blues que é muuuuito melhor com Coverdale e cia.

Para fechar o CD 1, três pérolas: a primeira com Black Nasa interpretando “I Don’t Have to Hide” (Bachman-Turner Overdrive), com um ótimo e grudento trabalho vocal, além da velha guitarra manhosa mandando ver no riff principal da canção, o grupo Warped com a fantástica “Dog Eat Dog” (AC/DC), pesadíssima e irreconhecível até a entrada do refrão, e o Hangnail com a clássica “Bron-Y-Aur Stomp” (Led Zeppelin), onde o violão está mais lento do que o original, mas mesmo assim, a música continua um clássico animado e safado, muito igual a versão do Led.

O CD 1 acaba após 1 hora e 19 minutos de muita doidera, mas ainda tem o CD 2 para quem tiver pique. Então vamos lá, e tudo começa com a entrada no CD dentro do CD player e o tempo total anunciando 1 hora e 18 minutos. Coração e cabeça preparados, surge a primeira faixa com o grupo Roadsaw, fazendo uma versão bem moderna, quase que parecendo Lenny Kravitz, para “Vehicle”, do álbum de estreia do obscuro e interessantíssimo grupo The Ides of March.

Até Marc Bolan e seu T. Rex são relembrados pelo Novadriver, que em “20th Century Boy” usa todas as distorções possíveis de serem usadas logo nos dois primeiros acordes, tranformando o rock simples do T. Rex em um embalado e pesado rock setentista com muitas vocalizações. Quem não sair gritando “Twenty Century Toy I Wanna Be Your Boy!” é por que não tem coração.

Alabama Thunderpussy
O único grupo que eu já ouvi falar, Alabama Thunderpussy, solta o braço em mais um clássico do Jethro Tull, “Hymn 43”, com os vocais destorcidos que nem os de Ian Anderson, em mais uma ótima faixa com distorções na linha Iommi. O Led Zeppelin também ressurge, agora com o grupo Disengage mandando ver em “Communication Breakdown”, suja e rasgadíssima demais para um fã do Led, mas perfeita para o estilo.

Para quem gosta de viajar, o grupo Porn (The Men Of) faz isso em “Out On The Weekend” (Neil Young). Do pouco que eu lembro de Type O’ Negative, é a faixa que o grupo jamais gravou. 8 minutos de peso, lentidão, distorções, vocais guturais, tudo no estilo daquele discaço com as lésbicas se beijando, chamado Bloody Kisses.

A sequência que segue foram só de socos no estômago, tentando provar minha resistência contra as versões originais de bandas que estão entre as minhas favoritas, começando com o Milligram mandando ver em “Rumblin’ Man” (Cactus). Po#[email protected], que paulada! É como que uma bigorna de 1 tonelada caísse na cabeça. O baixo dessa faixa é algo, pesado e cheio de bends, além de uma distorção muito massa, e o vocalista arrasa com gritos ensurdecedores e agonizantes.

Fireball Ministry
Já o grupo Tummler exagera no peso para “Working For MCA” (Lynyrd Skynyrd), que apesar da mesma linha melódica, não ficou legal com as distorções das guitarras. Outra que não me agradou foi “Doctor Doctor” (UFO). Tá bom, todo mundo aqui sabe que eu sou fã incondicional de Phil Mogg e Pete Way, mas o Fireball Ministry mudou demais. A introdução ficou com uma distorção nada a ver, e o ritmo bem mais lento e sem o pique da original, além de um vocal que chega a dar sono. Pule essa e vá para mais uma surpresa.

O grupo Spirit Caravan resgata das tumbas a pérola do Black Sabbath “Wicked World”, gravada ao vivo em algum lugar do planeta. Apesar de mais lenta do que a versão original, a distorção está perfeitamente Iommi. É fechar os olhos e ver o velhinho com seu bigode e a Gibson SG em sua frente, principalmente na parte dos solos. Os vocais é que estragam a festa, mas nada que assombre.

The Mushroom River Band
Outro grande grupo que incentivou aos stoners aparece através do Lowrider, o qual homenageia o Leaf Hound através de “Freelance Fiend”, mais uma bela surpresa com uma cara bem moderna, assim como o The Mushroom River Band e “Walk Away” (James Gang), com um excelente trabalho de guitarra, baixo e bateria.

A excelente banda Sir Lord Baltimore surge com o grupo Broadsword, através da canção “Woman Tamer”. Para quem não conhece o Sir Lordão, destaco que a canção ficou igual a versão original. Os riffs de guitarra assombrando as caixas de som estão lá, bem como todos os solos. Até o vocal ficou muito similar ao original. O mesmo não pode se dizer de “Don’t Blow Your Mind” (Alice Cooper), feita pelo Doubleneck. Outra para passar batida, já que a versão com a Tia Alice é insuperável.

O grupo Lord Sterling surpreende em “Black To Comm” (MC5), também gravada ao vivo, com microfonias e distorções dentro de uma levada sensacional, e a maravilhosa “Till The Next Goodbye” (Rolling Stones) é apresentada pelo The Brought Low em uma gravação sensacional e criativa, onde o início parece que é apenas os Stones tocando, e devagar o The Brought Low vai aparecendo para mandar ver nesta baladaça. Destaque para os vocais muito iguais aos de Mick Jagger, fazendo desta a melhor faixa do CD 2.

Scott Reeder resgata “Don’t Call Us, We’ll Call You” (Sugarloaf), em uma embalada e dançante canção, e o Tectonic Break assombra com os fantasmas do Parish Hall na incrível balada “How Can You Win”, sem muita distorção e com o riffzão de guitarra duelando com os vocais durante toda a canção. O CD 2 encerra com Gideon Smith & The Dixie Damned interpretando “The Pusher” (Hoyt Axton, famosa com o Steppenwolf), recheado de efeitos e distorções e tendo ainda uma citação para “Cocaine” (Eric Clapton).

No total, são 35 petardos. Uma pauleira atrás da outra (com raras exceções) que se para mim, um cara que não é fã do estilo, valeu o investimento, apesar de alguns atentados que somente um fã-xiita como eu pode considerar de tal forma, imagina para quem curte. Altamente recomendável! DISCAÇO!!!!!!!!!

6 comentários

  1. diogobizotto

    Acredito que já tenha ouvido falar apenas de duas das bandas contidas na coletãnea: Alabama Thunderpussy e o Fireball Ministry. Quanto aos covers, bom, são váaaaarias as músicas conhecidas. Acho importante reforçar isso que o Mairon citou: é muito normal que associem o gênero stoner ao Black Sabbath quase que religiosamente na maioria do que se escreve por aí, quando na verdade o BS é apenas uma das influências dessas bandas, fato muito bem ilustrado pelo track lista desse álbum. Inclusive, sempre associei muito mais a sonoridade stoner como tendo origem mais forte em bandas norte-americanas do que em britânicas.

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  2. micaelmachado

    Conheço muitas das bandas, mas não conhecia esse disco inteiro!

    Sou muito fã de Stoner, então, suspeito para falar… Spiritual Beggars, Mushroom River Band, Alabama Thunderpussy, Orange Goblin, Monster Magnet, Nebula, são só alguns nomes que lembro agora e recomendo fortemente!

    Não se arrependerão!

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  3. fernandobueno

    cara…para falar a verdade eu não sei diferenciar muito o stoner de algumas bandas de classic rock. Mas acho que gosto…rs
    Afinal gostei do Spirutual Beggars e do Them Crooked Vultures… se falam que isso é stoner, então eu gosto..

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  4. Rafael

    Eu pessoalmente não gosto muito desse estilo , e acho esse excesso de rotulos do mundo da musica meio desnecessario . Ja pararam pra pensar quantos subgêneros sairam só oriundos do HArd e Heavy? Imagina em todos os estilos musicais? É uma salada da porra sem fundamento algum.

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  5. Stepping Stone

    Eu acho interessante essa onda Stoner, pq resgatou um estilo de hard que tinha ficado bem de canto no fim dos anos 70 e anos 80. Mas eu acho que o pessoal perde a mão na distorção e nas mixagens, como fica claro pelo texto do Mairon – fica tudo muito alto, gritado e isso resulta em pouca musicalidade e bastante barulho. No geral, eu até escuto com bom proveito essas bandas, mas acho cansativo, principalmente ouvir um CD duplo. Gosto principalmente das bandas dessa linha que capricham mais na sonoridade, como o Siena Root.
    Agora, o que é legal, são os covers pouco convencionais de May Blitz, Leaf Hound e Parish Hall, entre outros.
    Abraço!
    Ronaldo

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  6. micaelmachado

    Ainda não tinha ouvido esse disco, mas agora posso dizer: discaço! Altamente recomendável!

    Só que o atentado que fizeram com "Out On The Weekend" que é para matar os animais que o cometeram… destruíram a música, só isso…

    Mas o resto é muito, muito bom!

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