Van der Graaf Generator: ALT [2012]
Por Fernando Bueno
Quando encontrei esse álbum, estava olhando as listas de CDs dos catálogos dos diversos sites que utilizo para fazer umas comprinhas. Eu nem sabia, na época, que o Van der Graaf Generator estava lançando material novo e tão rápido, já que em 2011 eles tinham nos brindado com A Groundin in Numbers, que chegou até a entrar na minha lista de melhores discos daquele ano. Desse modo não hesitei em colocá-lo no meu pedido.
Logo quando temos contato com o CD já temos a noção que alguma coisa está diferente. O subtítulo do álbum escrito na contracapa diz ALT – Instrumental Improvs & Experiments. Quando vi isso achei um pouco estranho. O Van der Graaf Generator tem como características nas suas décadas e décadas de carreira a utilização longas partes instrumentais e improvisos. Quem não se lembra da maravilhosa passagem de “A Plague of Lighthouse Keepers” em que temos os sons de dois navios que se aproximam e fatalmente se chocam. Esse tipo de experimentação é uma característica intrínseca do grupo, ou seja, deixar claro que isso está presente demonstra que existe alguma coisa diferente.

O início com “Earlybird” e seus sons de pássaros acompanhados de inserções de pratos e percussão dá a impressão que em qualquer momento teremos uma reviravolta na música, mas não, os quatro minutos da faixa é somente isso: pássaros e percussão. Totalmente desnecessário. A sequência, “Extractus”, com pouco mais de um minuto e meio também não apresenta nada animador. Uma guitarra tocada despretensiosamente acompanhada de bateria se diferenciando de “Sackbutt”, a terceira faixa, apenas pelo fato dessa última também ter um tímido teclado tocado em acompanhamento.
Até esse momento não tivemos nenhuma faixa sequer parecida com tantas outras já compostas pela banda e vendo que “Colossus”, a seguinte, possui mais de seis minutos esperamos que enfim o álbum vai deslanchar. Entretanto o que se escuta aqui é uma junção de improvisos que me remeteu à um início de uma jam de alguma banda de garagem que está se aventurando pelo jazz. Nesse momento percebi realmente o que realmente eles queriam dizer com Instrumental Improvs & Experiments.
Lembrei-me também de alguns discos do Tangerine Dream, e em “Batty Loop” isso é bem evidente, mas apesar de gostar de algumas coisas que os alemães fizeram não consigo gostar disso que o Van der Graaf Generator está entregando com ALT.

Um pouco de melodia, ou pelo menos traços de composição mais bem elaborada, aparecem em “Splendid”, mas nada marcante. Com “Repeat After Me” novamente fiquei na expectativa que as coisas melhorassem devido à duração da faixa. Porém após uma longa abertura de piano percebemos que não vamos ter nada mais do que ambientação, mesmo que o resultado da música não seja de todo ruim. O título da faixa resume bem a idéia. Provavelmente Peter Hammil disse “vou começar tocar e vocês me acompanham”. Em “Elsewhere” a velocidade aumenta um pouco no início e cai na mesmice depois da sua metade.
O resto do álbum é a mesma coisa, mas, para não falar que não gostei de nada, posso destacar as faixas “Midnite Or So” e “Tuesday, The Riff”, que são raros momentos que dá a impressão que eles sabiam o que estavam fazendo e não apenas testando equipamentos e efeitos de estúdio. Por fim, “Dronus”, um resumo de tudo o que foi mostrado em ALT com seus mais de dez minutos. Lembrou-me aqueles trinta minutos finais de 2001 Uma Odisséia no Espaço.
Na ficha técnica do álbum descobrimos que essas gravações foram feitas de 2006 até 2012. Mais um motivo de decepção. Isso quer dizer que além das músicas do disco não terem sido trabalhadas melhor, são resultados de um “catadão” de sobras de estúdio dos três últimos discos. Creio que se o resultado apresentado no disco estivesse em vídeo, como o bônus de um DVD qualquer, e servindo como demonstrativo de como trabalham em estúdio as críticas não seriam tão duras.
É chover no molhado dizer que os discos dos anos 70 são essenciais, mas mesmo os últimos discos são no mínimo dignos. Dizendo isso, na minha opinião, o grupo não deveria lançar algo que não vai acrescentar em nada em uma carreira até então inquestionável.

No fim das contas um pensamento, na verdade uma dúvida, veio à minha cabeça. Qual é a motivação dessas bandas progressivas clássicas que ainda vêm produzindo material novo. Existem algumas possibilidades: fazer músicas para os seus fãs de longa data, aqueles que os acompanham desde a época de ouro; mostrar material novo para fãs recentes, que os conheceram da década de 90 para cá; tentar manter-se em evidência; cumprir contratos com gravadoras; ou, simplesmente, satisfazer suas próprias ambições musicais. Nesse caso fico entre a questão da gravadora ou da ambição musical, mesmo achando que essa ambição tenha sido pouca.
Os músicos que participaram de ALT são: Peter Hammil (guitarra, piano e Teclados), Hugh Banton (teclados e baixo) e Guy Evans (bateria). Não posso deixar de lembrar que no dia 16 de janeiro desse ano Peter Hammil anunciou a morte de Nic Potter que participou como baixista de alguns discos do Van der Graaf Generator, principalmente no clássico H to He, Who Am the Only One de 1970. Descanse em paz…

Track list
1. Earlybird
2. Extractus
3. Sackbutt
4. Colossus
5. Batty Loop
6. Splendid
7. Repeat After Me
8. Elsewhere
9. Here’s one I Made Earlier
10. Midnite or So
11. D’Accord
12. Mackerel Ate Them
13. Tuesday, The Riff
14. Dronus

Acho ALT um disco muito bom, mas já o tive em mais alta cinta. Experimental pacas, com o Hugh Banton tocando muito, ele acaba pecando acho que na questão de duração. E tenho que concordar com o Fernando sobre o progressivo e suas bandas dos anos 70 ainda estarem lançando albuns. Quando ALT foi lançado, Yes e Jethro Tull estavam na ativa, e ainda hoje, só elas estão lançando discos regularmente, mas álbuns muito aquém do que podemos considerar “um clássico”. Tem bons momentos, tem, mas nada que irá consagrar a história da música. Ok que para bandas que gravaram músicas como “thick as a brick”, “close to the edge” ou “a plague of lighthouse keeper” é impossível repetir algo parecido depois de 50 anos, mas aí que vem de novo a pergunta, para que continuar lançando material e fazendo shows em marcha lenta? As novas bandas prog têm uma qualidade fantástica, mas nas sombras dos gigantes da década de 70, não conseguem vingar. Seria o prog atual uma espécie de representação da “The Trees”, onde os grupos progressivos dos anos 70 são os carvalhos e as bandas prog novas são os bordos?