Cinco Álbuns do Yes em 2026

Cinco Álbuns do Yes em 2026

Por Marcello Zapelini

Os veteranos não estão dando descanso aos fãs neste ano de 2026. Deep Purple, Rolling Stones, Paul McCartney, Peter Frampton, por exemplo, lançaram bons discos de inéditas entre janeiro e julho deste ano, Tony Iommi está com disco solo pronto para lançamento agora em outubro, e no plano dos relançamentos, Jethro Tull saiu-se com duas boxes (para Under Wraps e J-Tull Dot Com), o Thin Lizzy revisitou seu primeiro álbum, The Beatles e The Who já têm as suas prontas para lançamento (Rubber Soul e The Who By Numbers) e até a Sensational Alex Harvey Band já tem uma na praça (com 21 discos ao vivo!) e outra (com todos os discos dos anos 70, até mesmo Fourplay – creditado à Sensational Alex Harvey Band Without Alex) prevista para novembro.

Por enquanto, ninguém está batendo o Yes, pois temos nada menos do que CINCO novos álbuns e boxes disponíveis no mercado, um deles de material inédito gravado sob a batuta de Steve Howe, outro contendo o primeiro lançamento oficial de um show de 1976, um terceiro expandindo o EP From a Page, uma reedição CD+Blu Ray do último disco ao vivo contemporaneamente lançado com Jon Anderson nos vocais (Symphonic Live) e, por fim, a box set com a Super Deluxe Edition do clássico Tales from Topographic Oceans. Cinco álbuns, cinco formações diferentes, e apenas Howe em comum em todos eles (há dois Wakemans diferentes!), o que sem dúvida faz com que o fã tenha que pensar um bocado antes de tomar uma decisão. Este artigo pretende comentar esses cinco lançamentos, discutindo os prós e os contras de se abrir a carteira para cada um deles.


Symphonic Live (original de 2002)

Em 2000 o Yes foi reduzido a um quarteto (Jon Anderson, Steve Howe, Chris Squire e Alan White) depois de ter demitido o tecladista russo Igor Khoroshev por assédio sexual. A banda gravou o bom álbum Magnification (cujo 25º aniversário foi comemorado pelo Mairon Machado aqui) com o apoio de uma orquestra, e saiu em turnê para divulgá-lo. Um show em Amsterdam foi filmado e gravado profissionalmente para lançamento de um DVD e um CD duplo ao vivo, em que a banda tinha como convidado Tom Brislin (teclados) e The Chamber Orchestra of Europe, regida por Wilhelm Keitel.

Em janeiro de 2026, um relançamento trouxe num só digipack os CDs e um Blu-Ray, além de um livreto, um pôster e cinco cartões com a arte criada para o disco. Não encontrei informações sobre o áudio ter sido remasterizado ou não. Entretanto, não há bônus algum em relação ao original. O show é muito bom, trazendo três épicos da banda (“Close to the Edge”, “Ritual” e “The Gates of Delirium”), bem como três músicas de Magnification (“Don’t Go”, “In The Presence Of” e a faixa-título). O álbum se completa com as “suspeitas de sempre” (“Roundabout”, “I’ve Seen All Good People”, “Owner of a Lonely Heart”, “Starship Trooper” e “And You And I”), e o solo de Steve Howe, além de uma abertura orquestral. O som é de muito boa qualidade, os músicos estão perfeitos como sempre e os arranjos orquestrais engrandecem e embelezam as músicas originais – a introdução de “The Gates of Delirium”, em que os teclados “líquidos” de Patrick Moraz são substituídos pela orquestra tocando, é um belo exemplo disso. Os teclados de Brislin são bastante discretos na maior parte do tempo, deixando claro que a intenção era realmente destacar a interação entre o quarteto original e a orquestra. Sobre o registro em vídeo, não posso comentar nada porque não o tenho; além das 14 músicas do show, há um documentário e o clip para “Don’t Go”, que foi o single de Magnification.

O Yes é uma banda bem servida de álbuns ao vivo (especialmente depois da saída de Jon), mas este é especial: não somente temos a presença da orquestra, mas as músicas de Magnification não foram tocadas ao vivo muitas vezes depois da turnê, e ainda se tem o fato de este álbum ser o último que Jon Anderson gravou com a banda (“hey, Steve, don’t be such an arse and bring Jon back ASAP!”), e ele se despediu em alto nível (afinal, um bom disco de estúdio e um dos melhores lives da banda não são para qualquer um…).

Yes em 1974: Chris Squire, Jon Anderson, Rick Wakeman, Alan White e Steve Howe

Tales from Topographic Oceans Super Deluxe Edition (original de 1973)
Em 1973, o Yes tinha completado a turnê de lançamento de um álbum quase unanimemente apontado não só como sua obra-prima, mas também como o maior álbum do progressivo: Close to the Edge. A turnê rendeu o ambicioso triplo ao vivo Yessongs – mesmo título dado a um filme-concerto que só ficaria pronto para exibição dois anos depois – e esse disco ao vivo deu ao grupo tempo para se dedicar a um novo projeto: “Close to the Edge”, a música, ocupava um lado inteiro do LP e expandia as ideias da banda a limites até então inéditos. Anderson e Howe começaram a trabalhar numa longa suíte que se dividiria em quatro músicas, uma para cada lado de um vinil duplo. As sessões foram difíceis e demoradas, em especial porque ninguém entendia direito o conceito por trás da suíte, e porque Rick Wakeman rapidamente se desinteressou. Além disso, a banda estreava Alan White, que só tinha aparecido em Yessongs.

O resultado sairia em dezembro de 1973 sob o título Tales from Topographic Oceans, embalado na mais bela capa que Roger Dean pintou, em minha opinião. As quatro músicas – “The Revealing Science of God (Dance of the Dawn)”, “The Remembering (High is the Memory)”, “The Ancient (Giants Under the Sun)” e “Ritual (Nous Sommes du Soleil)” – dividem fãs até hoje, mas não seria injusto dizer que o disco tem mais detratores do que defensores. Eu estou entre os últimos; para mim, tomado como obra global, é a melhor coisa que o Yes já fez, e a Super Deluxe Edition (lançada em fevereiro deste ano) é a grande responsável por colocá-lo no topo, acima de The Yes Album, que era meu favorito até recentemente.

Além do álbum original em vinil e CD duplos, essa edição traz as músicas no remix de Steven Wilson em mais 4 CDs (dois deles dedicados a versões instrumentais dos quatro movimentos originais – e que revelam nuances até então pouco percebidas nas músicas), outros 3 CDs com single edits para trechos das músicas, run throughs, versões alternativas e ainda incompletas das quatro músicas. Finalmente, há mais 3 CDs com gravações ao vivo, de qualidade sonora variável, em que cada uma das músicas originais é apresentada pelo menos uma vez (embora nem sempre em versões completas), sendo que o show de Zurich em 1974 (o mais próximo de estar completo) traz ainda o álbum Close to the Edge na íntegra. Em suma, 12 CDs e 2 LPs, um livreto com fotos e a história do disco – com destaque para as tretas com Rick Wakeman – e um Blu-Ray com mais mixagens alternativas. É uma verdadeira overdose de Tales…, mas não sou eu quem vai reclamar (pelo contrário).

Meu veredito é que, se você é fã do Yes e gosta do álbum, precisa ter a box set. As versões instrumentais revelam detalhes até então ocultos no disco original (cuja qualidade de gravação sempre me perturbou um pouco), as gravações ao vivo confirmam a monstruosidade do talento de Anderson, Howe, Squire, Wakeman e White, e as versões alternativas, ainda que não sejam tão diferentes, mostram como a banda progrediu até chegar às músicas definitivas, tornando ouvir as várias versões em sequência um exercício cansativo, mas compensador. É verdade que, para quem nunca deu muita bola para Tales…, a box não vai mudar a opinião; mas, para quem sempre gostou (como eu), ela é simplesmente essencial.

Yes entre 2008 e 2011: Oliver Wakeman, Chris Squire, David Benoit, Alan White e Steve Howe

From a Page – Expanded and Remastered (original de 2019)

Entre 2008 e 2011, Oliver Wakeman fez parte de uma das múltiplas encarnações do Yes ao lado dos veteranos Chris Squire, Steve Howe e Alan White, numa formação que se completava com o canadense Benoit David no vocal. A banda registrou algumas músicas novas, mas, ao decidir retomar o trabalho numa suíte que ficara inédita quando o quinteto que gravou Drama se esfacelou, o resultado foi o bom disco Fly From Here (2011), único registro com David, e o tecladista Geoff Downes no lugar de Oliver. Em 2019 o Wakeman mais jovem lançou quatro músicas registradas no seu tempo no Yes como um mini-álbum acompanhando o ao vivo In The Present – Live from Lyon.

Sete anos depois, essas quatro músicas se juntam a outras gravações para formar uma mini box set com dois CDs. Três das composições originais (“To the Moment”, “Words on a Page” e “Turn of a Card”) são creditadas exclusivamente a Oliver Wakeman, ao passo que “The Gift of Love”, a todos os cinco músicos. Há ainda versões alternativas para a bela balada “The Man You Always Wanted Me To Be”, “Into the Storm” e “Hour of Need”, músicas presentes em Fly From Here, em que se percebe que o trabalho de Oliver é muito mais destacado do que o de Geoff Downes. “Aliens”, gravada por Chris Squire em parceria com Steve Hackett, é outra versão alternativa reconstituída por Oliver a partir das gravações que dispunha. A single mix de “To the Moment”, que só saíra na edição em vinil de 2019 também está disponível na nova box, e há demos para “Words on a Page”, “The Man…”, “To the Moment”, “The Gift of Love”, “Don’t Take No For an Answer” (que aparece em Fly From Here – Return Trip com Steve cantando) e “Updraft” (que se tornou parte de “Into the Storm”). Em suma, o CD 1 seria o “álbum perdido” da formação David/Howe/Squire/Wakeman/White, e o CD 2 seria o bônus com as demos e versões alternativas. A caixinha se completa com um belo livreto, incluindo as letras das músicas e uma exaustiva descrição do projeto feita por Oliver, bem como quatro cartões com reproduções das artes de Roger Dean e um pôster.

Em meu ponto de vista, From a Page é um belo lançamento que acrescenta bons momentos ao cânone do Yes. Não é indispensável, mas o fã pode tê-lo sem medo, pois as músicas são boas e essa formação do Yes tinha potencial elevado que acabou não se realizando, afinal, Howe, Squire e White queriam trabalhar a suíte inacabada da época de Drama, o que trouxe Geoff Downes de volta. Mas acho que a banda fica melhor quando os teclados têm sabor Wakeman (se não dá para ser o pai, ao menos o filho faz um belo trabalho). No cômputo geral, penso que o disco é bom, mas os fãs mais radicais provavelmente não encontrarão muita coisa de seu interesse, e, embora muito bem feitas, as versões aqui presentes foram reconstruídas pelo tecladista a partir de seus arquivos, portanto, não sabemos como teriam ficado se Howe, White e Squire tivessem se envolvido na produção (o guitarrista e as viúvas dos outros dois aprovaram, entretanto). Oliver Wakeman está promovendo o disco com uma turnê com sua banda, e eu gostaria mais de assistir esse show do que o do Yes atual, para ser honesto.


Aurora (2026)

Após Mirror in the Sky, o Yes atual (Steve Howe, Geoff Downes, Billy Sherwood, Jon Davidson e Jay Schellen) volta com novo disco de inéditas, e não seria exagero dizer que ele segue o padrão iniciado em 2021 com The Quest. O 24º álbum de estúdio do grupo (terceiro em cinco anos, algo que a banda não fazia desde o começo do século) foi gravado ao longo de sessões em 2024-25 e produzido por Steve Howe. Como tradicional, o disco veio embalado numa capa de Roger Dean – e essa está simplesmente linda, uma das melhores do mestre. Embora Howe e Jon Davidson dominem as composições, cada músico tem pelo menos uma coautoria, algo que não ocorrera nos discos da banda desde Fly From Here.

A faixa-título abre os trabalhos com o piano de Downes (que, aliás, mesmo que faça poucos solos, tem mais destaque aqui do que nos dois anteriores), que leva à Orquestra Sinfônica Nacional Tcheca, que contribui com a melodia da canção. “Aurora” é uma boa música no estilo do Yes do século XXI e um destaque do álbum. “Turnaround Situation” não se saiu tão bem, com a repetição do título na letra. “Love Lies Dreaming” é bem melhor, com longa introdução instrumental, belo trabalho de guitarras e Davidson contribuindo nos teclados. “Countermovement” é o épico do disco, com mais de 13 minutos divididos em quatro partes e participação de todos os músicos na composição. Mais uma vez chama a atenção o belo desempenho de Steve Howe nas guitarras (um dos trechos instrumentais remete a “I’ve Seen All Good People”, aliás).

Ele e Sherwood também contribuem nos vocais, e o baixista se encarrega de uma das guitarras na terceira parte. A música termina a capella, e a grandiloquente introdução orquestral de “Ariadne” mantém o álbum em bom nível e a música tem variação o bastante para soar como uma mini-suíte, sendo outro destaque. “All Hands of Deck” traz um riff pesado de Steve, que também se encarrega do vocal em dueto com Jon; a música é boa, mas não desenvolve seu potencial, com pouco mais de 3 minutos. “Outside the Box” é uma semi-instrumental, com vocalizações de Jon, Steve e Billy, bastante interessante, mas um tanto curta; gostaria de ouvi-la ao vivo em versões estendidas. “Emotional Intelligence” é quase uma faixa-solo de Jon Davidson, que toca violão e órgão nela; uma balada leve e despretensiosa que encerraria bem o disco – mas há dois bônus: “Jambustin'”, uma forte candidata ao título de pior música da história do Yes (ao menos é a pior desde “Arriving UFO” ou “Circus of Heaven”), e a bem melhor “Watching the River Roll”, de Billy Sherwood.

Aurora é um disco agradável de ouvir, mas não desafia o ouvinte – e o Yes fez isso com maestria nos anos 70. O álbum é bom, mas o grupo acostumou seus fãs à excelência (ainda que há tempos não entregue nada novo que mereça o adjetivo). É injusto comparar a máquina prog de 50 anos atrás com a banda atual, mas, sabendo-se que Jon Anderson e Rick Wakeman andam por aí e não diriam “não” a tocar como Yes, é impossível não ficar um pouco amargo com a insistência de Steve Howe em querer tocar o barco sozinho. Um colecionador precisa ter o álbum, lógico – mas um fã ocasional faria melhor se comprasse o último disco resenhado neste artigo.

Yes na formação que durou de 74 a 76: Steve Howe, Jon Anderson, Chris Squire, Alan White e Patrick Moraz

Live at Roosevelt Stadium, Jersey City, 17 June 1976 (gravado em 1976)

Se você planeja comprar apenas um dos álbuns resenhados aqui, este CD duplo (cerca de 113 minutos) é a minha recomendação. Gravado ao vivo por uma rádio americana na turnê que ficou conhecida como “The Solo Albums Tour”, Live at Roosevelt Stadium... é uma oportunidade de ouvir o Yes ainda no auge, com Patrick Moraz nos teclados (pouco depois, Rick Wakeman voltaria pela primeira vez ao ninho), o que permite ouvir um repertório poucas vezes disponibilizado nos álbuns ao vivo oficiais do Yes.

Após a introdução com “Apocalypse” (trecho de “And You And I”), tem-se a banda a toda em “Siberian Kathru” – é interessante ouvir o ataque percussivo de Alan White, massacrando os pratos, e as influências mais jazzísticas dos teclados de Moraz. Na sequência, duas músicas de Relayer: “Sound Chaser” e “The Gates of Delirium” – se esta já aparecera em versão ao vivo em Yesshows, a outra só era conhecida de quem comprou os piratas; as versões têm pouca variação em relação às originais, mas sempre se percebe uma diferença aqui e ali. A versão de “Ritual” não é tão gigantesca quanto a de Yesshows (apenas 26 minutos!), mas isso não é motivo para reclamação, pois aqui ela está excelente.

Os cavalos de batalha aparecem: “I’ve Seen All Good People” é apresentada em versão mais ou menos fiel à original, “Roundabout” traz uma introdução diferente, mais curta do que a de Yessongs, e “Heart of the Sunrise” traz um pouco de eco no vocal de Anderson (mas nada que prejudique), e em todas Moraz dá seu toque pessoal sempre que possível. Mas “Long Distance Runaround” é apresentada em versão semiacústica e resumida, e surpreende o ouvinte, mostrando-se bem diferente da que estamos acostumados desde Fragile e Yessongs. Trechos de “The Story of I” e “Olias of Sunhillow” são os solos de Moraz e Anderson (tocando harpa), ao passo que Steve Howe preferiu confiar em “The Clap”. Chris Squire e Alan White não têm solos individuais, mas ambos têm seus momentos durante “Ritual”. O bis é com “I’m Down”, velho rock’n’roll dos Beatles que a banda tocava no bis e que os fãs já conheciam da (fantástica) box set Yesyears (1991) – a qualidade sonora dessa nova versão parece um pouco melhor. É engraçado ouvir Jon Anderson se esganiçando para cantar como Paul McCartney, mas a versão como um todo é boa.

O álbum veio embalado numa capa tradicional de Roger Dean, sempre bela, menos intrigante dessa vez, mas, infelizmente, a produção ficou bastante pobre, pois não há fotos nem textos, apenas os créditos. Não posso falar nada da versão em LP triplo, pois não compro discos de vinil. A falta de um livreto com informações sobre o show, fotos da banda ao vivo e do palco (muito bonito, pelo que pude ver em outros lugares) não diminui a importância deste lançamento, mas é uma pena que não tenhamos adicionais em relação ao som (afinal, como diz Phil Aston, do Now Spinning Magazine, a gente ouve música com os ouvidos, mas a consome também com os olhos). Apesar disso, se você gosta do Yes, não deixe de incluir este álbum na sua coleção – vale cada centavo, e mais um pouco.


Resumindo…
Como alguém que coleciona o Yes – mas nunca completou a coleção – posso afirmar o seguinte:
Live at the Roosevelt Stadium: indispensável!
From a Page: vale muito a pena, se o orçamento permitir, não deixe de comprar.
Tales from Topographic Oceans: idem – mas precisa de mais orçamento…
Aurora: se você gostou dos dois álbuns anteriores, compre sem medo. Mas pelo menos ouça!
Symphonic Live: se você não tem o CD ou o DVD originais, adquira o seu, porque vale muito. Mas se já tiver, das duas uma: ou compre para manter a coleção completa ou por causa do pôster e dos cartões.

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