Ouve Isso Aqui: O rock que veio do frio
Editado por André Kaminski
Tema escolhido por Marcelo Freire
Com Anderson Godinho, Davi Pascale, Mairon Machado e Marcello Zappelini
Neste mês, Marcelo Freire nos trouxe cinco discos de bandas escandinavas setentistas um tanto quanto obscuras, mas com sonoridades interessantíssimas. Conhece algumas delas? Tem outras para recomendar? Poste nos comentários!

November – En Ny Tid Är Här
Marcelo: O disco tem aquele peso inicial dos anos 70, ainda muito ligado ao blues e ao hard rock, mas cantado em sueco e com uma aspereza própria, como se o Cream, o Sabbath e o rock psicodélico tivessem sido filtrados por paisagens frias da Suécia. Há algo muito direto na forma como a banda toca: riffs fortes, cozinha seca, pouca frescura e uma sensação constante de que o peso ainda estava sendo inventado. Para começar a entender esse “rock que veio do frio”, En ny tid är här… é uma porta de entrada perfeita.
Anderson: November tem muito mérito em fundir o blues rock anglo-saxão com uma densidade sombria. Mesmo nas passagens mais psicodélicas, o November mantém os pés no chão, entregando um som que é ao mesmo tempo pesado e melancólico. A produção bem rudimentar aumenta a sensação de que aquela música foi gravada em um porão. Sonoridade setentista clássica, muito bom de ouvir. Destaque para o órgão de Hammond de Björn Inge e a guitarra de Christer Stålbrandt muito criativa. Richard Rolf não é excepcional, mas sustenta muito bem a proposta. Enfim, um hard rock, com uma levada bluseada, algo de psicodélico no meio e uma sonoridade muito satisfatória! Mount Everest é uma abertura perfeita e define bem o álbum. Gostei muito de En Annan Värld representando o lado mais rápido da banda. ‘Ta Ett Steg I Sagans Land’ e ‘Lek Att Du Är Barn Igen’ um tanto progressivas são muito interessantes, também.
André: Uma base psicodélica mas com altas doses de hard e blues rock muito bem tocado e bem arranjado. Vocal agradável, guitarras variadas, baterista criativo e linhas de baixo fora do feijão com arroz. Ùnico ponto negativo é em “Ta Ett Steg I Sagans Land”, em que a música começa bem legal mas no final uma criança sueca começa a falar por cima da gravação. Exageraram no LSD quando permitiram uma viagem dessas. Mas o disco tem muito mais méritos do que esse único defeito e qualquer um que goste de rock setentista pode ouví-lo sem próblemas.
Davi: Embora seja comum encontrarmos reportagens citando esse grupo como proto-metal, o que temos aqui é basicamente uma banda que cruzava hard rock com blues, algo que já fica explícito na faixa de abertura “Mount Everest”. Uma faixa que achei interessante foi “Lek Att Du Är Barn Igen”, uma balada blueseira, contando com uns licks meio Hendrix (andou ouvindo “Highway Chile”, né rapazinho?) e uma flauta meio Jethro Tull. Também curti “Ta Ett Steg I Sagans Lad”, que aponta em uma levada zeppeliana e “En Annan Värld”. Curiosamente, o som do contrabaixo está bem na cara, ainda que os grandes destaques sejam a guitarra e a bateria. Trabalho vocal diria que é correto apenas. De todo modo, foi um álbum que gostei de escutar.
Mairon: Os suecos do November eram fortemente influenciados pelo Blues Britânico, mas com um adendo, suas letras eram em sueco. Isso dá um charme e tanto para as ótimas canções do grupo, onde a gutiarra de Richard Rolf é o grande destaque. O disco todo é muito coeso, com ótimas músicas, nenhuma delas longa (a maior dura pouco mais de cinco minutos), que se é para destacar alguma, chamo atenção para o solo de ” En Annan Värld”, o riff e o wah-wah comendo solto em “Ta Ett Steg In I Sagans Land” e a agressividade de “Gröna Blad”. Elas trazem tudo o que você adora de um vigoroso power trio, ou seja guitarras e solos ácidos, baixão estourando e uma percussão espanca pescoços. Porém, é a presença da flauta em duas canções o que mais curto. Acho genial a introdução deste instrumento ao final de “Mount Everest” (única com letra em inglês), só que a presença jethrotulliana em “Lek Att Du Är Barn Igen” é ara mim o ponto máximo dessa raridade que conheci através da finada (?) Poeira Zine.
Marcello: Primeiro disco da lista que ouvi, começou com algo que me agrada: uma introdução de baixo em “Mount Everest” (boa música, aliás). Aliás, para minha alegria, o baixo se destaca bastante nas músicas. As músicas têm um quê de Black Sabbath em alguns momentos, e um detalhe curioso: uma flauta aparece aqui e ali, mas nada que se intrometa muito. Gostei do clima meio oriental da guitarra de Richard Rolf em “En Annan Värld”, e da flauta e do vocal feminino em “Lek Att Du Är Barn Igen”. Pena que depois de três boas músicas o disco diminuiu um pouco de qualidade, mas nada que comprometesse. “Gröna Blad”, com ótimo trabalho de guitarras, foi a que mais se destacou, muito bem construída. “Ta Ett Steg i Sagans Land” é outra música bem legal na parte final do disco, e me lembrou um pouco o Uriah Heep do “Very ‘Eavy Very ‘Umble”, ainda que sem o órgão e os backing vocals que caracterizavam a turma de Mick Box. Nunca tinha ouvido falar do November, depois vi que se tratava de um power trio. Os cidadãos (bons músicos, diga-se de passagem) cantam em sueco, mas, na verdade, se o fizessem em aramaico não teria feito a menor diferença; não teria entendido do mesmo jeito. Vi que tanto o baixista Christer Stalbrant quanto o baterista Bjorn Inge (que se destaca na introdução de “Attonde”) cantam, então, não sei quem é que tem a boa voz solo que aparece nas músicas. O disco é bem interessante, com aquele clima do hard rock do princípio dos anos 70, e provavelmente ouvirei novamente.

Culpeper´s Orchard – Culpeper´s Orchard
Marcelo: O debut dos dinamarqueses traz uma mistura muito saborosa de folk, blues, psicodelia e rock progressivo. É daqueles discos que parecem nascer de uma encruzilhada, sem se comprometer totalmente com um único caminho. Há momentos mais acústicos, passagens mais viajantes e, quando a banda resolve pesar a mão, o resultado vem com naturalidade. Talvez seja o álbum mais “ensolarado” da lista, o que é curioso para uma pauta chamada O Rock Que Veio do Frio, mas justamente por isso ele funciona tão bem: mostra que a Escandinávia setentista não produzia apenas gelo sonoro, mas também calor, cor e imaginação.
Anderson: Apesar de ter uma pegada bem progressiva e psicodélica, alguns elementos folk dão uma sonoridade distinta ao material. Não é a sonoridade que faz com que eu fique empolgado para caramba, um tanto maçante em muitos momentos, mas é inegável que chama muito a atenção considerando o som produzido e a época em que foi proposto. Remete a clássicos como Jethro Tull e Yes. Algumas coisas bem pesadas como passagens da dupla de Moutain Music (I e II) e outras passagens com melodias menos intensas, mas ainda assim muito bem construídas. O álbum apresenta uma coesão muito interessante, realmente há um todo maior que as partes aqui. Bem interessante.
André: Conheço esses dinamarqueses embora façam anos que não ouvia este disco por inteiro. Também cheios de influências, há hard rock, psicodélico, prog e folk. Com uma grande energia e composições vigorosas, lamentavelmente os caras provavelmente não devem ter saído muito dos toca-discos escandinavos em sua época de atividade. O que é uma pena. Destaco o primoroso trabalho de guitarras, com licks e solos de muito bom gosto.
Davi: Esse álbum de estreia do Culpeper´s Orchard é bem bacana e mostra que os rapazes estavam bem antenados com tudo que estava rolando na música naquele momento. O que temos aqui é um feliz cruzamento entre o hard rock (sentido no trabalho de guitarra de “Mountain Music Part 1), folk (escute “Hey You People” e tente não se lembrar de Crosby, Stills, Nash & Young), prog (acredito que “Teaparty For An Orchard” seja um bom exemplo) e rock psicodélico. As vocalizações trazem, por vezes, um acento pop que não tira a força das músicas. Trabalho agradável e bem resolvido.
Mairon: Dos cinco discos aqui indicados, este era um dos que não conhecia. Da Dinamarca, tenho apreço pelo Gasolin’ (que era uma das bandas que pensei que iriam surgir quando vi o tema), então, esperava algo na mesma linha, um rock mais simples com pequenas pitadas de progressivo aqui e ali. Mas não mesmo. O som é mais pesado do que imaginava, com um baixo muito interessante, a cargo de Michael Friis, um ótimo vocal (em inglês) e a guitarra repleta de distorção, que foi o que mais me chamou a atenção. Me lembrou algo do Family com Deep Purple Mark I, bastante pesado, e lógico que as duas partes de “Mountain Music” são o grande destaque do disco. As alternâncias sonoras, presença de instrumentos como harpsichord e violões, e grandes solos de guitarra, mostram como os anos 70 são um universo infinito a ser explorado de bandas boas. As duas ocupam quase 14 minutos de duração do disco, e este é outro ponto que chama atenção, pois seis das nove faixas ultrapassam os cinco minutos (e das outras três, duas são curtinhas, “Bajocul”, de 45 segundos, apenas com banjo e voz, e “Hey You People” , de pouco menos de dois minutos). Mas voltando ao som dos caras, o guitarrista Niels Henriksen é muito bom, solos ácidos, vigorosos, muitos bends, fera mesmo. Seu trabalho em “Your Song And Mine”, seja nos solos, seja no ritmo do violão, E ainda temos violões e flautas acústicas na introdução de “Ode to Resistance”, mais violões na suave “Blue Day’s Morning”, a mágica presença do órgão em ” Teaparty For An Orchard”, belíssima e viajante, com várias alternâncias sonoras, e a delicadeza do piano de “Gideon’s Trap”. Baita indicação Marcelo, curti muito conhecer esta banda.
Marcello: Essa banda eu conhecia de nome, mas nunca tinha ido atrás para ouvir. De cara tomei um susto com um banjo e uma voz meio esquisita, mas era só uma vinheta (“Banjocul”). “Mountain Music part 1” é bem mais interessante, um hard rock com bom riff de guitarra de Niels Henriksen e Cy Nicklin. Outra vinheta, “Hey You People” me lembrou Byrds antes da guinada para o country em Sweetheart of the Rodeo; “Teaparty for an Orchard” tem um quê de psicodelia, especialmente no trecho instrumental no meio da canção, antes do bom solo de guitarra de Henriksen – infelizmente, a música ficava melhor sem isso. “Ode to Resistance” começa suave e depois ganha um riff muito legal, que dá peso à parte instrumental da música. “Blue Day’s Morning” é uma baladinha semiacústica que investe pesado na harmonia vocal, e mais uma vez lembrou um pouco os Byrds. O álbum se encerra com “Mountain Music part 2”, um pouco menos interessante do que a primeira parte, mas ainda assim uma boa música (mas eu dispensava a volta do banjo ao final, ainda que entenda a lógica por trás disso). No todo, o álbum apresenta uma reunião de estilos diferentes; se você gosta de um deles, não vai gostar de muitas músicas, mas vale a pena conferir (e, nos casos mais radicais, ouvir pulando algumas faixas…). Em linhas gerais, a minha opinião é de que os músicos do Culpeper’s Orchard são bastante talentosos (o baixista Michael Friis se desdobra nos teclados e flauta!) e se mostraram capazes de compor boas músicas, mas o álbum acaba soando como se eles não se decidissem por um direcionamento musical e por isso atiravam para todas as direções. Às vezes isso funciona, às vezes não.

Samla Mamma´s Manna – Maltid
Marcelo: Aqui a coisa fica mais esquisita, no melhor sentido possível. O Samla Mammas Manna parece pegar o rock progressivo, desmontar as peças na mesa e remontar tudo de um jeito meio circense, meio jazzístico, meio Frank Zappa (alô, Mairon) perdido numa cozinha sueca. Måltid não é exatamente um disco fácil, mas numa seção chamada Ouve isso aqui é o disco mais importante da lista. Há virtuosismo, há humor, há mudanças inesperadas e uma recusa quase infantil, no bom sentido, de soar “sério” demais. Sempre que ouço esse disco, penso na liberdade com que a banda bagunça as expectativas.
Anderson: Creio que aqui o limite do que consigo discernir musicalmente foi extrapolado. Há um caos sonoro! Complexidade que faz com que eu não consiga gostar das músicas. As músicas são constantemente quebradas, com batidas que fogem totalmente a qualquer gênero específico de música. Há uma variedade de coisas acontecendo simultaneamente que deixa de fazer sentido estético, sonoro, melódico… tudo.
André: Infelizmente, esta banda entra naquela seara do prog em que pouca coisa me agrada: o tal do avant-prog. Que nada mais é do que pegar os ritmos já quebrados das bandas progressivas e estilhaçá-las ainda mais, fazendo um som estranho e pouco palatável. Umas vocalizaçõeszinhas medonhas e infantis, umas gritarias, pouca coesão instrumental, é aquela coisa de botar um pincel na mão de um macaco e depois chamar de arte moderna. Mesmo eu, que ando mais tolerante para esse tipo de som nos últimos anos, não consegui digerir bem esse disco. Maçante.
Davi: A jogada dessa banda sueca é fazer um rock progressivo, com altas influências de jazz fusion, muito improviso e muita experimentação com colagens de sons. A música, na maior parte do tempo, é instrumental. Se não me engano tem apenas uma que possui letra e uma outra que possui vocalizes. Os músicos, de fato, são muito bons, mas esse é o tipo de som que não me agrada. Não tenho faixa preferida aqui. Foi legal ouvir para conhecer, mas é um disco que não ouviria de novo.
Mairon: Essa conheço bem. Os malucos suecos entraram na minha vida quando eu tive a oportunidade de vasculhar blogs que permitiam downloads de músicas através dos famosos .rar e .zip da vida, ou torrents dos mais diversos, e certo dia entrei no mundo incrível desses caras. O segundo disco deles apresenta músicos mais maduros e com capacidade criativa incrível, misturando hard rock, blues e pitadas de progressivo, onde o pianista Lasse Hollmer e o guitarrista Coste Apetrea são as grandes atrações. As canções são repletas de variações e momentos complexos, que lembram um pouco os instrumentais do Zappa, vide “Dundrets Fröjder” – que magnífico solo de piano elétrico, entre viajantes acordes de mellotron e muita quebração ao fundo – e “Minareten” – preparem-se para os vocais mais doidos que você já ouviu – , as duas faixas mais longas do disco (e as melhores em disparado). As faixas mais curtas são até mais estranhas, onde os vocais em sueco causam uma sensação um tanto quanto desconfortável, só que o instrumental é fenomenal e viajante. Construções muito bem feitas, com percussões feitas em materiais aleatórios (vidros, portas, latões), vocalizações a la Focus e ótimos solos de teclado e guitarra, além de uma criatividade fantástica (o que é “Tärningen” se não uma mistura de Gentle Giant com Yes e Zappa nos seus melhores dias) fazem do Samla Mammas Manna uma bandaça que deve E MUITO ser conferida, e que ainda recomendo ouvir “Den Återupplivade Låten”, um resumo de tudo o que descrevi acima. Gosto mais do disco de estreia deles, um pouco mais cru, mas este aqui não fica atrás por muito não.
Marcello: Outra banda que conhecia de nome e nunca tinha ido atrás. Após os primeiros minutos de “Dundrets Fröjder”, percebi que não seria para mim. Depois dessa primeira música (com mais de 10 minutos), o que veio não mudou minha impressão. Após ouvir pela primeira vez, esperei alguns dias para ouvir a segunda, e concluí que a vida é curta demais para desperdiçar mais 40 minutos ouvindo a terceira. O tecladista Lasse Hollmer é muito bom, o guitarrista Coste Alpetrea, o baixista Lasse Krantz e o baterista Hasse Bruniusson seguram bem a onda, mas os vocais beiram o ridículo, o que me fez imaginar que as coisas seriam melhores se tivessem gravado um disco instrumental. De todas as músicas, apenas a parte inicial (até aproximadamente 2’30”) de “Den Aterupplivade Laten”, o interessante jazz-rock “Tärningen” e os primeiros dois minutos de “Minareten” (segunda música mais longa do álbum) me chamaram a atenção. A versão da Amazon Music trouxe três bônus, mas nenhuma delas melhorou o panorama. Para concluir, gosto não se discute; eu não gostei do Samla Mammas Manna.

Høst – På sterke vinger
Marcelo: Pensando a lista num viés de mostrar que o rock escandinavo dos anos 70 também sabia soar grande, pesado e emocional, eu escolhi o Høst. På sterke vinger tem aquele equilíbrio muito bonito entre hard rock e progressivo, com guitarras que avançam sem perder melodia e uma dramaticidade que combina perfeitamente com o norueguês cantado. O disco não soa como cópia dos ingleses, embora o parentesco com o hard prog da época seja evidente; há uma solenidade própria, uma espécie de peso de montanha, que dá identidade ao trabalho. É curto, direto e muito mais forte do que sua relativa obscuridade faria supor. Dos discos selecionados, é o meu favorito.
Anderson: O segundo que mais gostei da lista, apresenta um som pesado e sombrio. A banda cria uma atmosfera pesada durante o material todo, me lembrou um pouco o Blue Oyster Cult, enquanto a sonoridade me remeteu ao Wishbone Ash. Não é tão original quanto outras da lista, mas é uma das mais palatáveis, facilmente. ‘Fattig Men Fri’ abre super bem o material com algo bem clássico do progressivo, ‘I Ly Av Mørket’ é outra muito boa e que mantêm a intensidade, com teclados e guitarras se entrelaçando em arranjos densos. O ápice, para mim, é a faixa título ‘På Sterke Vinger’ que, com seus quase 10 minutos, soa como um resumo do todo. Muito boa a audição desse material que, apesar da língua, mostra muito valor sonoro.
André: Esse também eu já conhecia. Bom disco. Não se destaca perante vários outros hards setentistas, mas não fica feio na discografia de ninguém. O vocalista Geir Jahren tem um vocal esganiçado meio exagerado, mas se conseguir ignorá-lo, aproveitará bons solos e um instrumental bem arranjado.
Davi: Vi muitos críticos se dirigindo à esse grupo como uma banda de rock progressivo. Para mim, a sonoridade aqui é um hard rock com influência de prog, e não uma banda prog de fato. Se bem que não conheço os demais trabalhos. Não sei se eles se aprofundaram no gênero nos discos seguintes. De todo modo, o disco é bacana. “Fattig Men Fri” aposta em um hard com uma guitarra pesadinha (para a época) e um bom riff. “For Senr a Angre”, cuja linha de guitarra me lembrou “Badge” (Cream), aponta em uma sonoridade mais pop e é redondinha. Outra faixa que me chamou a atenção foi “Samhold”, com seus vocalizes àla Queen. Disco bem interessante, só não espere uma sonoridade muito viajandona…
Mairon: Outra banda que eu não tinha a mínima ideia qe existia. Noruega é um país que me lembro apenas do A-ha e da Anni-Frida como músicos em uma primeira passada na memória (Motorpsycho e Mayhem em uma segunda), e não sabia o que esperar do Høst O som dos caras é tipicamente anos 70, com boas guitarras, teclados, uma bateria forte e o baixão estourando, além de ótimos vocais. De alguma forma, me lembrou o Uriah Heep (“”Fattig Men Fri” e “Samhold”) em seus primeiros dias, com alguma coisa de Wishbone Ash (“I Ly Av Mørket” e “Dit Vi Må”), e o mais legal, como é cantado em norueguês, dá um gostinho extra a audição. O som tem suas originalidades, implementando piano, novos timbres para a guitarra, fazendo um bom uso do wah-wah em “Satans Skorpe”, e este vocal sensacional em norueguês. Grande destaque para os 10 minutos de “På Sterke Vinger”, a mais wishboniana das faixas, mas com vocais puramente Uriah Heep, com direito a guitarra gêmeas e tudo, e com a presença lindíssima de um hammond. Que baita trecho instrumental, que baita música e que baita surpresa ouvir estes caras. Obrigado Marcelo, por mais uma ótima indicação.
Marcello: Os noruegueses do Høst tiveram apenas três álbuns lançados, um deles ao vivo, e este é o primeiro. Bons riffs de guitarra alimentam “Fattig Men Fri”, “For Sent A Angre” e “Satans Skorpe” (ótimo wah-wah no início!), num belo trabalho de Svein Ronning (que também responde pelos teclados e vocais) e Lasse Nilssen. “I Live Av Morket” é levada no piano, e tem um ritmo mais lento do que as duas primeiras músicas, tendo me lembrado um pouco o Uriah Heep, não sei bem o porquê; “Samhold” tem vocais que se aproximam bastante do Uriah, mas a música em si não parece com nada que a banda tenha feito (talvez a versão original de “Bird of Prey”, de Salisbury, seja o paralelo mais próximo). “Dit Vi Ma” tem um ritmo meio funky e uns malabarismos vocais bem interessantes do cantor principal, Geir Morgan Jahren”, e mais uma vez as guitarras são os destaques da música – uma dupla bem afiada, essa formada por Ronning e Nilssen. O álbum (curtinho, infelizmente; pouco mais de 35 minutos) se encerra com a épica faixa-título, muito boa, por sinal, deixando uma boa impressão geral; não é nada de especial, mas um som bem agradável de se ouvir, com aquele sabor do começo dos anos 70. Gostaria de ter ouvido o grupo antes. Teria sido interessante ler as aventuras do detetive Harry Hole, do escritor norueguês Jo Nesbø, ao som deles.

Wigwam – Nuclear Nightclub
Marcelo: Nuclear Nightclub é provavelmente o disco mais elegante da lista, menos preocupado em soar pesado e mais interessado em combinar rock progressivo, pop refinado e uma musicalidade cheia de detalhes. A banda finlandesa já tinha estrada, mas aqui parece encontrar uma forma mais acessível sem abrir mão da inteligência instrumental. Tudo no álbum soa muito bem acabado: as melodias, os arranjos, os vocais, os teclados, a leveza quase pop que convive com a ambição progressiva. O Wigwam, dos 5 discos selecionados, é o que eu torço que tenha mais simpatia de meus colegas consultores.
Anderson: Para quem não é fã incondicional de progressivo, como meu caso, esse é o material mais tranquilo da lista. São músicas não muito extensas, flertando em vários momentos com um rock mais melódico e até pop. Há uma certa leveza em por todo o álbum e bons refrãos são desenvolvidos, como na própria música de abertura (apesar de um pouco ‘boba’) ou a boa ‘Do or Die”. Creio que as duas mais interessantes são ‘Bless your Lucky Stars’, com estruturas mais complexas que as demais, possui um peso e um ar mais sinistro. O teclado se destaca e algumas mudanças de andamento chamam a atenção. Enquanto a outra muito boa é ‘Pig Storm’, com destaque para a guitarra de Pekka Rechardt cheia de feeling, técnica e com um timbre que lembra os grandes guitarristas do rock dos anos 70. Esse sim, muito bom.
André: Já tinha ouvido falar mas nunca tirei um tempo para conhecer. Pelo que deu a entender, lembra aqueles progressivos de inclinação pop que bandas como Genesis e Yes estavam fazendo no final dos anos 70. Não é ruim, mas acho que falta um diferencial na banda, seja no vocal ou na instrumentação. Há muita harmonização vocal, mas sem um pingo da qualidade ou senso de um Crosby, Stills & Nash ou um Eagles. Vi que eles tem mais discos, talvez os antigos me agradem mais.
Davi: O que temos aqui é uma banda de prog caindo de cabeça na música pop. Já tivemos outros exemplos ao longo da história (Genesis, Yes e Camel para ficar nos exemplos mais óbvios). O resultado é um pop de excelência, com arranjos sofisticados e trabalhos vocais bem resolvidos. Ainda que não sejam tão bons compositores quanto aos artistas citados acima, a audição é bem satisfatória e entrega algumas pérolas como a faixa-título, além da pinkfloydiana “Save My Money & Name”. Legalzinho…
Mairon: O Wigwam conheci através do maravilhoso texto de Marco Gaspari para a Poeira Zine, e que depois foi publicado aqui. O som dos caras é algo mais próximo ao rock inglês do que os demais grupos aqui apresentados, que por um lado lembra um pouco Wings, Fleetwood Mac e outras bandas da segunda metade dos anos 70. Este álbum já é de um período comercial do grupo, pós-empresário Kim Fowley, e que não consegue ter a mesma força de seus dois primeiros e excelentes álbuns. As músicas são gostosas de ouvir, mas por se parecer tanto uma banda britânica, acaba não tendo o mesmo impacto. Gosto mais de Hard ‘n’ Horny, mas de qualquer forma, foi legal reescutar faixas como “Bless Your Lucky Stars”, talvez a melhor do álbum, principalmente pelo belo trabalho instrumental, junto da totalmente instrumental “Pig Storm”, “Do or Die” e seu ótimo trabalho de guitarras, cheias de efeitos, e o blues floydiano de ” Save My Money & Name”. Bom disco, mas o mais fraquinho desse Ouve Isso Aqui.
Marcello: A banda é finlandesa, com uma discografia até bem extensa, mas o vocalista tem um nome (pseudônimo?) anglo-saxão – Jim Pembroke. Como ele se encarrega das letras, as músicas são em inglês. O guitarrista Pekka Rechardt é o principal compositor das melodias suaves que formam o LP. As músicas são curtas e os integrantes da banda não se dão a muitos improvisos ou solos, e os teclados do convidado Esa Kotilainen ganham destaque em várias delas (o sujeito faz alguns solos de sintetizador, inclusive). O álbum é bem diferente dos outros escolhidos para essa seção: não tem o ecletismo do Culpeper’s Orchard, nem o peso do November e do Høst, nem (graças a Deus!!) a debilidade melódica do Samla Mammas Manna. Mas confesso que, embora não tenha visto problema algum no disco, também não me senti atraído por ele; a faixa-título, “Bless Your Lucky Stars” (essa traz um bom solo do guitarrista Pekka Rechardt), “Save my Money & Name” (agradavelmente pop) e “Pig Storm” – a banda deixou o melhor para o final, uma instrumental com bom desempenho de Rechardt – foram as músicas que mais gostei. Foi legal conhecer o Wigwam, mas diferentemente do Høst e do November, provavelmente não voltarei ao grupo (à exceção, talvez, de “Pig Storm”).

Das bandas citadas, já conhecia alguma coisa de Wigwam e tenho um especial apreço por Culpeper’s Orchard. “Gideon’s trap” e “Ode to resistance” são músicas que frequentam a minha vitrola digital. Assim como alguém falou, nunca digeri o Samla Mammas Manna. Para a consideração de quem quer conhecer um pouco mais o rock escandinavo dos anos 70, cito as bandas dinamarquesas Pan, Burnin’ Red Ivanhoe, Thors Hammer (que tem apenas um e sensacional álbum) e Ache (seu álbum “Green Man” é muito bom), a finlandesa Tasavallan Presidentti (do excelente guitarrista Jukka Tolonen), as suecas Trettioåriga Kriget e Kebnekajse, as norueguesas Prudence, Popol Ace e Ruphus e a finlandesa Trúbot. Espero ter contribuído.
Corrigindo: a banda filandesa Trúbrot.
Como imaginei, somente eu e o Mairon curtiríamos o Samla Mammas Manna… haheuahahahaha
Como não gosto de deixar o trabalho pela metade, fui ouvir o Samla pela terceira vez depois de ter mandado o comentário. Posso assegurar que é um dos melhores discos ruins que já ouvi!