Discos Que Parece Que Só Eu Gosto: Syrius – Széttört Álmok [1976]

Discos Que Parece Que Só Eu Gosto: Syrius – Széttört Álmok [1976]

Por Mairon Machado

Um dos mais importantes grupos da música húngara e que é muito desconhecido no resto do mundo é o Syrius. Com uma sonoridade muito particular, o Syrius se destacou na década de 70 do outro lado da Cortina de Ferro, e conquistou fãs por países como Polônia, Bulgária, Iugoslávia, URSS e Tchecoslováquia, além de terem feito sucesso na Austrália, tocando um jazz rock inspirado no progressivo e com elementos do blues. Já contei a história da banda neste post, e venho hoje trazer aqui a história e as músicas que envolvem o segundo disco do grupo.

A Syrius em sua fase embrionária, ainda como Syrius Baronits
A fabulosa estreia dos húngaros

Indo direto ao assunto, após a estreia dos húngaros, Az Ördög Álarcosbálja, lançado em 1972 na Hungria, enquanto em 1971, foi lançado sob o nome Syrius na Austrália, onde o grupo havia passado uma temporada, a banda fez uma série de concertos pela Hungria, participando também de festivais, onde foram eleitos o melhor grupo no Ljubjlana Jazz Festival daquele ano. A formação clássica contava com o líder e fundador Zsolt Baronits no saxofone tenor, Jackie Miklós Orszáczky no vocal e baixo, Mihály Ráduly na flauta e saxofone, László Pataki nos teclados, András Veszelinov na bateria, além de Tibor Tátrai na guitarra.

O atemporal álbum é um dos melhores discos da história, e “É algo incrivelmente bem pensado, organizado, musicalmente refletido e que forma uma unidade do começo ao fim. Você não consegue tirar uma faixa e dizer: ‘isso é o Syrius’. Não é. O álbum inteiro é a maior e mais decisiva parte da obra do Syrius”, afirma o músico húngaro János Bródy. Porém, o grupo acabou se dissolvendo no final de 1973, com Ráduly indo morar nos Estados Unidos e Jackie voltando para a Austrália, onde formou o grupo experimental Bakery (esse merece um espaço por aqui hein?).

Zsolt Baronits, Paraki Lásló, András Veszelinov, Tátrai Tibor e Ráduly Mihály. Syrius “presos” em 1972

Mas ainda existia um disco a ser lançado, já que o contrato com a Pepita Records previa 2 LPs, e então, em 1975, o grupo retornou, na formação tendo quatro instrumentos de sopro que se tornariam uma continuação digna do segundo capítulo do Syrius. Os arranjos dos sopros, a principal marca registrada do Syrius, foram feitos por Ákos Molnár (saxofone alto), adaptando-se perfeitamente ao estilo dos outros instrumentistas (Endre Sipos e Rudolf Tomsits no trompete, Károly Friedrich no baixo e trombone, e o velho Zsolt Baronits). András Veszelinov e Tibor Tátrai seguiam na bateria e guitarra respectivamente, e agora, a presença de Ottó Schöck nos teclados, junto de Endre Sipos (baixo, trompete), além dos vocais e percussão de Tamás Turai.

Após a saída de Jackie, Turai (vindo do grupo Non Stop) foi o único capaz de fazer o público esquecê-lo, pois sabia que devia ser ele mesmo, ao invés de tentar imitar o ídolo da banda. Em junho já estavam com um material exaustivamente ensaiado em concertos e tocado com grande sucesso. “Széttört Álmok” correspondia a uma suíte de quase 40 minutos. No estúdio tudo corria bem, mas apenas até o momento em que o supervisor do estúdio encontrou as letras da suíte e achou-as muito sombrias e pessimistas. O supervisor era nada mais que Péter Erdős, executivo da gravadora Pepita, que empacou o trabalho, dizendo: “ou gravamos outras canções, ou encerramos tudo”. Coube a Schöck reescrever rapidamente Széttört Álmok e, talvez sob pressão e por rebeldia, nasceu um disco totalmente diferente, coeso, mas absolutamente digno e à altura do Syrius.

Syrius como octeto, em 1975

Em comparação ao seu antecessor, Széttört Álmok traz uma sonoridade mais moderna, principalmente pela entrada de Tátrai e Turai, e é totalmente cantado em húngaro (a suíte era toda em inglês). A bateria apresenta o ritmo de “Hajnali Ének” (Song at Dawn), trazendo os teclados, guitarra e baixo, explodindo no saxofone que comanda uma canção dançante, a qual eu facilmente comparo com os bons rocks de Rita Lee na época Tutti Frutti. Claro que os vocais em húngaro soam estranhos a priori, mas a faixa é muito boa, com uma ótima percussão, e com o saxofone sendo o instrumento central, além de um ótimo solo de guitarra. A abertura de “Hol Az Az Ember” (Where Is The Man), com o naipe de metais estourando as caixas de som, me lembra muito Chicago, mas com os vocais, o som ganha mais ritmo, bem dançante e de difícil definição, assim como é difícil ficar parado com o ritmo avassalador da guitarra de Tátrai, que faz um solo espetacular. Baita música, com um arranjo de metais sensacional, e o baixão estourando as caixas de som. O vocal de Baronits me lembra muito o de Derek Shulman (Gentle Giant) em diversos momentos, e aqui mais que nunca.

A bela balada “Mint Április” (Like April) capricha no piano elétrico e no hammond, relembrando as belas faixas românticas de grupos como Bee Gees e Supertramp, seguindo com “A Láz” (The Fever), faixa que como o nome sugere, está diretamente associada à febre disco que tomava conta do planeta em 1976. O ritmo percussivo, o riff pegajoso da guitarra e baixo, e o estrondoso naipe de metais, fazem desta faixa outra forte candidata a melhor do álbum, ainda mais pelo ótimo arranjo da mesma, e pelo sensacional solo de piano elétrico, além de outro bom solo de guitarra. Bota sonzeira o que esses caras fazem aqui. O lado A encerra com a faixa-título, com o baixão e a percussão trazendo uma faixa em ritmo muito dançante, onde novamente os metais lembram Chicago, e cara, impossível ficar parado com outra canção contagiante, que mesmo sem saber húngaro, saímos cantarolando o empolgante refrão que entoa no nome da canção, a qual não tem nada a ver com a suíte, como falarei mais adiante.

A bateria e percussão abrem o lado B com a estonteante “Kinyújtom Kezem” (I’m Stretching Out My Arms), com o naipezão de metais comandando a pegada dançante, e destaque para o baixo carregado de efeitos aqui. Prepare-se para o solo de trompete, pois Sipos está matador, o cara manda ver, e também para o sensacional solo de piano elétrico. Demais! “Hová Mehetnék” (Where Could I Go?) mantém o ritmo incansável da Syrius, com o naipe de metais em alta mais uma vez, e o trompete de novo sendo o centro das atenções com outro grandioso solo. Atente-se também para a participação do baixo aqui, e claro, para o incansável batera Veszelinov.

É ele quem faz o solo de introdução para “Igen, Szép Volt” (Yeah, That Was Nice), faixa que certamente deixou o Herbie Hancock de 1975 felicíssimo. Um jazz-funk sacolejante, com boas passagens de guitarra, baixão retumbante e os metais marcando presença. O trompete de Sipos mais uma vez toma conta durante o magnífico solo, mas preste a atenção nas linhas de baixo e nos fraseados e solos de guitarra aqui. E para melhorar tudo, temos um solo de sax soprano simplesmente demais. Que ritmo, que pancadaria, que coisa mais linda!

“Széparcú Idegen” (The Stranger Of Nice Face) encerra o disco com uma faixa mais amena, bastante leve com um ritmo percussivo cadenciado, que lembra as belas baladas do Santana, fazendo a poeira levantada durante todo o lado B baixar de forma sublime, com o lindo solo de saxofone tenor.

Após o lançamento de Széttört Álmok, o qual teve edições somente na Hungria, cada integrante saiu para fazer carreira de alguma outra forma. Da formação clássica que gravou o primeiro álbum, Veszelinov foi trabalhar no grupo Apostol, com quem lançou o álbum 2 em 1980. Jackie seguiu como músico na Austrália, lançando discos regularmente e vindo a falecer em 2008. Já Miháli retornou para a Václav Zahradník And His East All Stars Band, com quem gravou o disco Interjazz 2 em 1974 (Mihály já havia participado do álbum Interjazz de 1971).

Mas e a suíte “Széttört Álmok”, o que deu? Aqui é necessário voltar no tempo e explicar como chegamos aos sonhos quebrados da Syrius. Em 1970, foi trasmitido via rádio Kossuth, às 21:20 do dia 8 de outubro, uma obra musical em que surgiam imagens do inferno, de um homem abatido e torturado pela vida, divida em cinco movimentos, alguns deles tensos e extremamente completos, com vocais declamados a la os poemas mais assustadores de Edgar Allan Poe. No final da obra, o homem, apesar da ausência do sol, descobre que ainda há seu brilho, e tenta de alguma forma sobreviver. Essa era a suíte “Széttört Álmok” , que a banda nunca pôde lançar oficialmente. Ela foi a primeira composição autoral do Syrius. A transmissão foi felizmente gravada pelos ouvintes, e em 1994 lançada oficialmente como parte do disco Most, Múlt, Lesz, contendo 35 minutos.

“Széttört Álmok” é uma obra muito mais profunda e complexa do que Az Ördög Álarcosbálja, cujas faixas, digamos assim, são mais populares. As gravações da transmissão de rádio de 1970 são as únicas de “Széttört Álmok” em húngaro que estão acessíveis no mundo atualmente. Em 1971, ainda na Austrália, gravaram a versão em inglês (“Shattered Dreams”), e alguns de seus movimentos ainda podem ser encontrados no Youtube. Após o retorno do Syrius da Austrália, é provável que a suíte completa nunca mais tenha sido tocada ao vivo em húngaro, já que Jackie só cantava em inglês (vários bootlegs guardam vestígios disso).

Os dois primeiros movimentos da suíte voltaram a ser tocados pelo Syrius em 2001, no festival Margitszigeti Szabadtéri Színpad de Budapeste, em 7 de setembro de 2001. Nessa ocasião o Syrius se reuniu novamente, infelizmente sem Zsolt Baronits, que faleceu em 3 de agosto de 1999. Jackie cantou de forma bem interessante, misturando idiomas, ora em húngaro, ora em inglês, e a gravação do concerto, organizado por Károly Csonkics e Gergely Böszörményi, foi lançada em 2008 com o título The Last Concert. Em 2012, a companhia Szegedi Kortárs Balett interpretou a história da obra de forma muito peculiar, com acompanhamento da Frank Zappa-Syrius Emlékzenekar. Em dezembro de 2016, na apresentação Hommage à Syrius, Iván Vitáris cantou em inglês, com sua banda Ivan & Parazol.

Em 24 de outubro de 2017, o Syrius Legacy apresentou a suíte completa no Festival Színház, tendo como músico convidado Tibor Tátrai. Aqui vale um depoimento de Benkó Akós, líder, baterista e vocalista da Syrius Legacy: “Quando ouvi o Syrius pela primeira vez, sabe o que achei estranho? Em todos os cantores, no Deep Purple, Led Zeppelin ou Colosseum, toda melodia vocal parece ser composta pelas notas de uma escala. Com Jackie eu sempre sinto que a melodia nunca vem das notas fundamentais de uma escala, mas sempre de alguma nota de blues. Tive que trabalhar separadamente as melodias, porque tem intervalos muito difíceis. As três primeiras notas da escala menor estão separadas por semitons — para cima, para baixo. É incrivelmente difícil e genial. Até hoje não ouço nada parecido na Hungria, de alguém estar nesse nível, não só no timbre, mas também na melodia, tão a par e tão original, sem ter gosto e cheiro de teoria musical. Tento fazer as pessoas entenderem a mensagem: gente, ouçam que melodias são essas aqui.

Voltando então a história da Syrius, em 1995, chegou às lojas Rock Koncertek A Magyar Rádió Archivumából I: Syrius, 1975, que como o nome diz, trata-se de uma apresentação em uma rádio húngara em 1975. Em 2009 saiu a compilação tripla Anno Live, trazendo diversos registros ao vivos totalmente inéditos do grupo entre 1971 e 1973. Todos estes registros são impecáveis, mas tenho que certeza que aqui, poucos ouviram falar da Syrius, e por isso afirmo que Széttört Álmok (e os demais) é um disco que parece que só eu gosto. Você conhece a Syrius?

Contra-capa de Széttört Álmok

Track list

1. Hajnali Ének

2. Hol Az Az Ember

3 Mint Április

4. A Láz

5. Széttört Álmok

6. Kinyújtom Kezem

7. Hová Mehetnék

8. Igen, Szép Volt

9. Széparcú Idegen

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