A Little Respect: Ronnie Von – Ronnie Von [1972]

A Little Respect: Ronnie Von – Ronnie Von [1972]

Por Mairon Machado

De um fracasso retumbante no final dos anos 60 a um sucesso cult extraordinário anos depois, Ronnie Von foi obrigado a modificar sua carreira musical diversas vezes. E em uma delas, ele foi tão audacioso quanto sua Trilogia Psicodélica. Com produção de Arnaldo Saccomani, Ronnie Von é – mais um – disco revolucionário na carreira de Ronnie.

Ronnie em 1972. Tentando voltar ao sucesso?

Muito se fala da famosa Trilogia de Ronnie, a qual, no final dos anos 60, chocou os (e principalmente as) fãs do Pequeno Príncipe. Os discos Ronnie Von (1969), A Misteriosa Luta do Reino de Parassempre contra o Império de Nuncamais (1969) e A Máquina Voadora (1970) tornaram-se célebres álbuns cult dentro da discografia do niteroiense Ronaldo Lindenberg Von Schilgen Cintra Nogueira, o nosso querido aniversariante (completou ontem, 17 de julho, 82 anos) Ronnie Von, por mudar uma sonoridade ligada ao rock juvenil e ingênuo de seus três primeiros discos, e mostrar uma lisergia, rancor e raivas até então nunca antes ouvida em discos de grandes artistas nacionais.

A Trilogia Psicodélica levou Ronnie do sucesso ao ostracismo em apenas dois anos, vendendo quase nada e tornando os discos originais de época verdadeiras relíquias nas mãos de colecionadores com o passar dos anos, além de virar material de consulta para fãs e admiradores do rock nacional. As capas alucinógenas ajudaram ainda mais a afastar os conservadores seguidores de Ronnie, e hoje, felizmente, os três álbuns passaram a serem reconhecidos como alguns dos melhores lançamentos de rock nacional na história.

Não mesmo. Ronnie ainda desafiou os fãs com uma obra incrível e anti-católica

Mas, no início da década de 70, a pressão da gravadora Polydor para que ele voltasse a fabricar um disco que vendesse era enorme. Eis que em 1970, Ronnie teve um contato mais próximo com o espetacular músico Tony Osanah. O ex-líder dos Beat Boys, famoso por acompanhar Caetano Veloso no álbum de estreia solo do baiano (1967), estava envolvido com a cultura afro-brasileira, principalmente do ponto de vista religioso e a umbanda. Nela, ele conheceu a história de um orixá que cuidava das matas e do verde, Oxóssi, e que segundo o próprio Osanah, o inspirou para criar uma “canção que surgiu inesperadamente, ao dedilhar o violão e ter ela pronta em cinco minutos”.

“Minha Gente Amiga” (acima) e “Hei Amigo” (abaixo), compactos de Ronnie em 1971, indicando a sonoridade que iria vir em 1972

Ao longo de 1971, Ronnie pensava em como retomar a carreira, e para isso, lançou os compactos “Minha Gente Amiga”/”Segundo Motivo” (a mesma “Minha Gente Amiga” que foi regravada pelo Ira! em 1999) e “Hei Amigo”/”É Preciso Aprender”, as quatro canções compostas ao lado de Antonio Pedro, apelidado San Martin. Musicalmente, o som traz um Ronnie mais ligado à musica latina, que irá ser ampliado no trabalho de 1972. Estas canções trazem a presença marcante de percussões na linha de grupos como Santana, com apenas “Segundo Motivo” sendo uma balada lindíssima, que lembra os primeiros trabalhos do cantor. Destacam-se aqui os vocais rasgados de Ronnie, algo bem diferente do estilo que ele cantava em seus trabalhos anteriores, além da presença de guitarras lisérgicas/californianas e um hammond endiabrado nas quatro canções.

Cartaz de divulgação do filme (acima); Ronnie e Marlene França (abaixo), em cena de Janaína, A Virgem Proibida

Ao mesmo tempo que lançava os dois compactos, Ronnie investiu no cinema. Assim, no final do ano, e início do ano seguinte, participa como ator do filme Janaína, A Virgem Proibida, de Olivier Perroy. Lançado em 1972, nele Ronnie faz o papel de um artista de sucesso, Ricky Ricardo, o qual decide abandonar a carreira, atormentado pela vida desenfreada dos grandes centros e do convívio com os fãs. Assim, ele foge para as paradisíacas praias de Salvador. Lá, ele acaba se apaixonando por Janaína (Marlene França), uma linda mulher que no fundo é Yemanjá. O filme traz inspirações na cultura afro-brasileira, e uma das canções presentes na trilha do mesmo é “Cavaleiro de Aruanda”, a célebre canção de Tony Osanah.

Tony Osanah, o gênio por trás de “Cavaleiro de Aruanda”

A canção surgiu em fevereiro de 1972, quando Osanah teve um inesperado encontro na calçada em frente ao antigo prédio do Mappin, na Praça Ramos de Azevedo, centro de São Paulo. Naquele dia, ele esbarrou em um desconhecido, que “… olhou pra mim e falou que eu precisava de ajuda. Ele parecia um velho índio. Pediu para eu acompanhá-lo e disse que eu nem imaginaria o que ia acontecer na minha vida nos próximos meses“. O homem era um pai-de-santo, e levou Osanah para um terreiro. Lá, ele teve uma experiência que até hoje não consegue descrever, mas que quando o músico argentino voltou para casa, “recebeu” a letra e a melodia de “Cavaleiro de Aruanda”, sendo que ele afirma que “ela foi psicografada para mim

Enquanto Osanah tinha seus encontros espirituais, o produtor Arnaldo Saccomani sugeriu a Ronnie buscar auxílio em nomes como o de Tony, e no encontro dos dois, perguntando para Tony se ele poderia colaborar no próximo trabalho, a primeira música a ser apresentada foi “Cavaleiro de Aruanda”, que sai na trilha do filme, e também é lançada no raro compacto com . Começava ali a criação de outro disco fantástico na carreira do Pequeno Princípe.

Single de “Cavaleiro de Aruanda”

Ronnie Von chegou às lojas na segunda metade de 1972, e abre com “Cavaleiro de Aruanda”. O ritmo percussivo avassalador e a guitarra lisérgica de Osanah nos remetem fácil ao Santana de início de carreira. A bateria e as percussões comandam o ritmo, e Ronnie gasta sua voz, acompanhado por um excelente backing vocal feminino, enaltecendo o cavaleiro do mundo espiritual da umbanda. Quem esperava que Ronnie voltaria calmo, com canções românticas para reconquistar seus fãs, logo de cara vê mais um grande desafio e provocação para seu público com as religiões africanas, e por que não, afrontando aos católicos e seus preconceitos.

“Hare Krishna” é mais uma canção com temática religiosa, dessa vez, composta por Ronnie e San Martin. Ronnie estava influenciado por George Harrison, bem como as decepções do beatle com Maharishi, e obcecado lendo Baghavad Gita e O Livro dos Vedas. A letra também afronta o catolicismo “salve o mundo de muitos deuses“, e a canção traz os vocais femininos exageradamente gritados, baseada em apenas dois acordes, com um ritmo latino das percussões retomando “Minha Gente Amiga” e “Hei Amigo”, onde a guitarra de Osanah é o que brilha. As percussões também estão presentes em “Camping”, um rockaço no qual Ronnie está cantando com sua voz bastante rouca e rasgada, em um ritmo que lembra algo do Captain Beyond de Sufficiently Breathless.

Compacto angolano de “Aquela mesma Canção”

A dupla Ronnie e San Martin faz a baladinha “Aquela Mesma Canção”, essa fácil fácil a mais comercial do disco, que poderia estar nos primeiros discos de Ronnie, assim como “Tereza Cristina”, faixa de amor criada por Arnaldo Saccomani para sua namorada, recheada pelo arranjo orquestral de Briamonte. De Ronnie e San Martin temos também a jazzística “Eu Era Humano E Não Sabia”, outra com a orquestra sendo uma atração a parte, assim como a linha de baixo e o piano. Ronnie novamente está cantando muito, e a guitarra de Osanah brilha fazendo os acordes bases. “Roke Pros Meus Nervos (Nada Neste Mundo)” é uma faixa que me lembra muito o que O Peso faria anos depois no álbum Em Busca Do Tempo Perdido, com aquela pegada Stones no instrumental, e os vocais rasgados e roucos de Ronnie.

De Eduardo Araújo e Marcos Durães, Ronnie grava “Veja Com Olhos De Ver”, um rock com um riff pesado – sim, Eduardo Araújo também teve sua fase roqueira – onde a guitarra de Osanah e o baixo (seria de Willy Verdaguer?), fazem as bases para Ronnie soltar a voz. Essa faixa é carregada de emoção, seja pelos vocais arrebatadores de Ronnie, seja pelos vocais femininos, seja pelo refrão poderoso, pesadíssimo, ou seja pelo quarteto baixo, bateria, piano e guitarra. As alternâncias de andamento são fenomenais. Preste atenção no que Ronnie faz com sua voz na segunda parte, indo de graves à falsetes. E cara, que refrão massa. Uma das melhores canções registradas pelo cantor, cujo final me lembra muito o que o Deep Purple faria depois em “Mistreated”. Pena não saber quem é o baterista aqui, pois o cara demole!

Single de “Tempo de Acordar”

Outra que Ronnie está cantando pra caramba é na dolorida balada “E Essa Gente Passa Cantando”, uma fabulosa canção, com um arranjo orquestral fenomenal, um arrepiante vocal de apoio, e Ronnie cantando a la Joe Cocker, rasgando sua voz, em gritos dilacerantes. Que música! Retomando o lado comercial, Ronnie traz uma boa versão para “I’ll Cry My Heart Out For You”, batizada de “Tempo de Acordar”. A faixa, original de Neil Lancaster e Cliff Corbertt, destaca o piano e uma bela interpretação de Ronnie, além do fantástico arranjo orquestral de José Briamonte. Por fim, aprecie o lado zeppeliano dos violões e da flauta na lindíssima “Céu Vermelho”, e ainda, para fechar o álbum, tem mais um rockaço, “Ninguém Vai Me Segurar”, embaladão, com um ótimo ritmo de baixo e bateria, e o piano saltando nas caixas de som, lembrando algo de Chicago, porém sem naipe de metais.

Compacto português de “Aquela Mesma Canção”

Além de “Cavaleiro de Aruanda”, tendo “Tereza Cristina” no lado B e que saiu também em Portugal e no Uruguai, foram lançados os compactos de “Tempo de Acordar” (com “Aquela Mesma Sensação” no lado B), somente no Brasil, e em Portugal e Angola, o compacto “Aquela Mesma Canção”, com “Ninguém Vai Me Segurar” no lado B.

Ronnie Von foi um dos discos mais vendidos no Brasil em 1972 (estima-se que em torno de 100 mil cópias, algo que na época, era considerado um excelente número), puxado pelo sucesso de “Cavaleiro de Aruanda”, que acabou sendo lançada no ano seguinte também por Tony Osanah, mas não fazendo o mesmo sucesso. Já o disco de Ronnie acabou caindo no esquecimento com o passar do tempo. O álbum originalmente teria uma capa gatefold, mas acabou saindo em capa simples, com a imagem da gatefold original vindo em um pôster que acompanha o vinil (raríssimo hoje em dia).

Após Ronnie Von, a vida de Osanah sofreu uma reviravolta. Ele relata: “Eu vivia sempre tentando alguma coisa nas gravadoras. Era muito jovem, já casado e despreocupado“. Logo depois ele fez parte da banda de apoio dos Secos & Molhados, e então, fama e dinheiro entraram na vida do rapaz. Já Ronnie ainda lançaria mais um disco conturbado – e fantástico -, Ronnie Von (1973), antes de entrar de vez no mercado comercial de canções românticas e populares, indo então a naufragar sua carreira musical nos anos 80.

Ronnie em capa de revista de 1971 (acima) e O gênio Tony Osanah (abaixo)

Apesar do próprio Ronnie considerar um disco abaixo da trilogia psicodélica, eu discordo bastante. Ronnie Von tornou-se obscurecido pela grandiosidade e a busca pelo fenômeno cult de seus três antecessores, mas merece sim no mínimo (se não mais) o mesmo status que eles. Se você não conhece a obra de Ronnie Von entre 1969 e 1973, corra atrás para descobrir algo incrível e único lançado no país. Agora, se você nunca ouviu Ronnie Von, seja por preconceito, seja por puro desprezo, você não sabe o que está perdendo.

 

Pôster, com a imagem projetada para ser a capa gatefold (acima) e a Contra-capa do vinil (abaixo)

Track list

1. Cavaleiro De Aruanda

2. Tempo De Acordar (I’ll Cry My Heart Out For You)

3. Veja Com Olhos De Ver

4. Eu Era Humano E Não Sabia

5. Camping

6. Aquela Mesma Canção

7. E Essa Gente Passa Cantando

8. Hare Krishna

9. Tereza Christina

10. Rock Pros Meus Nervos (Nada Neste Mundo)

11. Céu Vermelho

12. Ninguém Vai Me Segurar

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