Ouve Isso Aqui: Glam Rock
Editado por André Kaminski
Tema escolhido por Marcello Zappelini
Com Davi Pascale, Fernando Bueno, Mairon Machado e Marcelo Freire
Um fenômeno tipicamente britânico, o Glam Rock varreu as paradas de sucesso no começo dos anos 70 – entre 1971 e 1973, poucos venderam tanto quanto os principais artistas do Glam. Muita maquiagem, androginia, cores por todo lado e um guarda-roupa espalhafatoso eram a fórmula do primeiro subgênero a dar atenção especial para o aspecto visual dos músicos. O som era básico, simples, derivado do rock dos anos 50 e começo dos 60, usualmente acompanhado por guitarras e baterias pesadas – o que, aliado ao visual escandaloso, era uma fórmula perfeita para apavorar os pais (e todo adolescente tem sua fase de querer perturbar e ultrajar os velhos).
Marc Bolan e seu T-Rex podem ser considerados os responsáveis pela explosão do Glam na Inglaterra, ainda em 1970 – e logo as paradas britânicas eram invadidas por artistas que seguiam sua fórmula, fossem novos, fossem veteranos: Paul Gadd, que tivera alguns singles nos anos 60, reinventou-se como Gary Glitter; David Bowie, que vinha de três discos excelentes entre 1969 e 71, mas de sucesso limitado, criou o extraterrestre Ziggy Stardust; Roy Wood, após deixar a Electric Light Orchestra, formou o Wizzard; o Mott The Hoople, após ser persuadido por Bowie a não acabar, finalmente encontrou sucesso em 1972 (e seria memoravelmente esculhambado por Steve Winwood na fantástica “The Low Spark of High-Heeled Boys”); o Slade, que começara como uma banda skinhead, embarcou na onda e vendeu como nunca. Novas bandas como Mud e Sweet colocavam single após single no Top 10, e mesmo as garotas aproveitaram o furor do Glam: a bela Suzi Quatro vestiu uma jumpsuit dourada e virou outra queridinha das paradas.
Nos EUA, o Glam Rock nunca criou raízes; o próprio rótulo não pegou na América, onde se preferia usar o termo Glitter Rock. David Bowie levou o veterano Lou Reed a adotar o estilo em Transformer – só para vê-lo renegar o glam em Berlin. Alice Cooper adotou alguns dos truques dos ingleses, mas sua vibe era antes assustar (a ponto de ser considerado o criador do Shock Rock) do que meramente brilhar. O Kiss levaria a fórmula de maquiagem pesada e guitarras hard ao extremo, embora nunca usasse cores berrantes em suas fantasias. E o New York Dolls adotaria a androginia como sua marca registrada, e, embora se tornasse uma banda influente nos anos seguintes, nunca chegou a um centésimo do sucesso que o Kiss e Alice Cooper atingiram. Assim, esta lista vai se concentrar em alguns dos principais lançamentos ingleses, ordenada cronologicamente. (Marcello Zappelini)

T-Rex – Electric Warrior
Marcello: O primeiro superstar do Glam Rock, o cantor e guitarrista Marc Feld vinha de um suspeito passado hippie com o Tyrannosaurus Rex, quando já atendia pelo nome de Marc Bolan (o sobrenome foi escolhido por ele porque “soava francês”). Em 1970, após a saída do percussionista Steve Peregrine Took, ele abreviou o nome da banda para T-Rex, começou a usar maquiagem pesada no rosto, roupas cheias de brilho e um casaco de pele que pegou da mãe da namorada. Em 1971 veio este álbum, considerado um dos melhores de sua carreira, com produção de Tony Visconti e recheado de singles de sucesso, como “Cosmic Dancer”, “Jeepster”, “Planet Queen”, “Life is a Gas” e “Get it On” (o único a fazer sucesso nos EUA, com o subtítulo “Bang a Gong” acrescentado). Além de Mickey Finn na percussão, o T-Rex incluía Steve Currie no baixo e Will Legend no baixo, e como convidados, os ilustres Howard Kaylan e Mark Vollman (ex-Turtles) nos backing vocals e Ian McDonald (ex-King Crimson!) no sax. Bolan criou uma onda de histeria que se tornou conhecida como T-Rextasy, e sozinho respondeu por 3,5% das vendas de discos na Inglaterra naquele ano. Os fãs maquiavam o rosto, colocavam glitter no cabelo e usavam roupas coloridas como o seu ídolo, e até mesmo Lennon e McCartney elogiavam o cara. O rock simples, com influências dos anos 50 e do boogie, o visual espalhafatoso e andrógino, a produção cuidadosa e a boa estratégia promocional fizeram de Bolan e do T-Rex superastros nas ilhas britânicas – mas só lá. No ano seguinte ele viveria o auge com shows lotados em Wembley e um filme (dirigido por Ringo Starr), mas Electric Warrior, com sua icônica capa com a silhueta de Bolan brilhando contra o amplificador e o fundo todo negro, é provavelmente a melhor e mais bem acabada expressão da sua música, feita exclusivamente para divertir fãs adolescentes. O álbum chegou ao primeiro lugar na Inglaterra, mas somente ao 32º nos EUA.
André: Equilíbrio é a palavra-chave aqui. Além de puro rock ‘n’ roll setentista, temos baladinhas lindas para dançar com a namorada, aquelas faixas grooveadas para acompanhar balançando o pescoço e algumas acústicas para admirar o belo dedilhado de uma guitarra ou um violão. Um disco muito gostoso de ouvir e faixas como “Monolith”, “Cosmic Dancer” e “The Motivator” agradam a qualquer um que goste de rock.
Davi: Electric Warrior marca a chegada do T-Rex clássico. A banda que havia começado com o nome de Tyranossaurus Rex, apostando em uma sonoridade mais acústica, já vinha demonstrando vontade de mudar desde o álbum anterior, onde encurtaram o nome do grupo e gravaram algumas músicas com uma sonoridade mais de banda: um pouco mais pop, um pouco mais rock. E essa é a tônica desse LP! Também ocorreram mais duas mudanças; as letras que abandonaram seu tom filosófico e a imagem de seu líder Marc Bolan, que começou a apostar cada vez mais em visual e performances extravagantes. Um dos maiores clássicos do grupo – “Get It On” – se faz presente aqui. Também gosto muito da divertida “Jeepster” e da inebriante “Lean Woman Blues”.
Fernando: Electric Warrior é frequentemente apontado como o disco que definiu o glam rock, combinando boogie rock, sensualidade pop e a estética brilhante que marcaria o início da década de 1970. Liderado pelo carisma e pela imaginação lírica de Marc Bolan (uma espécie de rival e ídolo de David Bowie), o álbum traz clássicos como “Get It On (Bang a Gong)” e “Jeepster”, caracterizados por riffs simples e hipnóticos, grooves dançantes e uma aura quase mística.
Mairon: Para muitos, esse é o primeiro e principal disco do estilo Glam Rock. Clássicos dos clássicos, principalmente pela faixa “Get It On”, Electric Warrior também é um choque para quem conhece o primeiro (e controverso) disco do T. Rex. Aqui, Marc Bolan e sua trupe unem o rock ‘n’ roll às maquiagens, laquê e muitas (mas muitas mesmo) drogas. Ok que Bowie sugou muito do que está aqui para construir seu Ziggy (poha, “Cosmic Dancer” e “Girl” são puro Ziggy estelar), mas há notáveis diferenças entre ambos, sendo a principal, com certeza, a destreza e técnica de Bolan com a guitarra, que comparado à Mick Ronson, é como querer comparar o Gabriel Bortoleto ao Ayrton Senna. Electric Warrior é um disco sem muitas firulas, cru no melhor sentido da palavra, e muito gostoso de ouvir. O álbum passa agradavelmente com rocks como “Jeepster”, “Mambo Sun” e “Rip Off”, o blues arrastado de “Lean Woman Blues”, e até com o soul de “Monolith”. Curiosidade final, quem faz o piano de “Get it On” é nada mais nada menos que Rick Wakeman. O cara estava perambulando por tudo até se consagrar como um dos maiores tecladistas do progressivo. Audição essencial!
Marcelo: Não sei em qual ordem os discos estarão nesta postagem, mas caso você, roqueiro leitor, queira fazer o exercício de ler os meus textos em sequência, faça como eu mesmo fiz: me preparei não para resenhar os 5 álbuns, mas para abordá-los em relação ao rótulo glam rock. Dessa forma, criei para cada um deles um rótulo próprio dentro do rótulo glam e segui na seguinte ordem (que não foi de preferência, verão que o melhor está em segundo na ordenação) e rotulação: 1º o Bowie (conceito de glam rock), em seguida o Sweet (a resolução musical do glam), Mott the Hoople em 3º lugar (o glam em sua mediação roqueira), seguido do Slade (a crise do rótulo glam rock) e, em 5º, o T. Rex (o marco zero do glam, sem necessidade de explicação). Assim, o Electric Warrior fica por último não como ápice, mas como o fundamento. Depois de passar pelos outros quatro discos, o discaço do T. Rex aparece quase como um retorno ao essencial. Não há crise aqui, tampouco tensão conceitual em torno do rótulo glam rock. O disco do T. Rex ocupa um lugar anterior a tudo isso: é onde o glam está presente como uma sensação. A começar pela icônica capa, uma das mais sensacionais de todo o universo do rock (da turma do estúdio britânico Hipgnosis, mantendo como sempre o seu apuro visual), que mostra Marc Bolan em um show em Nottingham, em 14 de maio de 1971, tirada por Kieron “Spud” Murphy. Bolan não constrói personagens no sentido teatral que Bowie desenvolveria depois, nem aposta no exagero coletivo que o Slade levaria ao extremo. Seu gesto é mais simples – e, por isso mesmo, mais decisivo. É quase minimalista, como a capa prenuncia. Em Electric Warrior, o glam se manifesta no corpo, no groove, no riff hipnótico e na sensualidade direta. Gosto de ouvir esse álbum com fones de ouvido e prestando atenção na guitarra da capa, que no som vira uma extensão de Marc Bolan: os riffs são mínimos, repetitivos, quase obsessivos. A base rítmica cria uma espécie de transe rock. Canções como “Bang a Gong (Get It On)”, “Cosmic Dancer” ou “Jeepster” não pedem análise detalhada: elas se impõem pela fisicalidade, pelo balanço e pelo clima que instauram desde os primeiros segundos. Nesse sentido, Electric Warrior ajuda a entender o glam não como um gênero fechado, mas como uma atitude incorporada ao som. O visual, a ambiguidade e o brilho existem, mas não comandam a música – orbitam ao redor dela. O que vem primeiro é o riff, o groove e a voz insinuante de Bolan, que transforma o rock em experiência sensorial antes de qualquer enquadramento estético. Colocado ao final desta lista, o álbum cumpre uma função quase misteriosa: ele mostra que, antes de o glam se tornar conceito, rótulo ou problema crítico graças à seleção do Zappellini, ele já existia como energia sensual e direta, profundamente ligada ao rock and roll. Se o Slade levou o glam ao ponto de ruptura pela força coletiva, o T. Rex revela sua origem íntima, quase primal. Talvez até sensual, como a capa sugere. Coloque “Get It On” para tocar enquanto observa a imagem de Marc Bolan. Não sugere?

David Bowie – The Rise and Fall of Ziggy Stardust and The Spiders From Mars
Marcello: David Bowie já tinha quatro discos nas costas, mas o sucesso comercial era muito aquém do que seu trabalho merecia, ainda que Hunky Dory tivesse chegado ao 3º lugar na Inglaterra. Após montar uma banda fantástica com Mick Ronson na guitarra, Trevor Bolder no baixo e Mick Woodmansey na bateria, ele se saiu com o álbum que o tornaria uma estrela, The Rise and Fall of Ziggy Stardust and The Spiders from Mars. Bowie se inspirou num maluco americano chamado Alvin Stardust – e no próprio Marc Bolan – para criar o rocker interplanetário, e a mistura da música com visual elaborado e comportamento ultrajante deu certo. Embora Ziggy… não seja meu disco favorito dele, não me surpreendo quando alguém o aponta como o melhor, pois só tem músicas excepcionais. O álbum começa com a marcação de bateria de “Five Years”, com sua letra amarga e pessimista, que destoa um pouco do disco, mas a sequência com “Soul Love”, “Moonage Daydream” (com solo memorável de Ronson) e “Starman” (espero que os infelizes que a transformaram em “O Astronauta de Mármore” ardam no inferno por sete eternidades!) impressiona – e isso porque o lado B do LP original é ainda melhor, engatando “Lady Stardust”, “Star”, “Hang on to Yourself”, “Ziggy Stardust” e “Sufragette City”, para tudo acabar com a bombástica “Rock’n’Roll Suicide”. Bowie cantava com uma voz frágil, perfeita para seu visual andrógino na época, os Spiders from Mars eram a melhor banda de apoio que ele podia desejar, no palco as músicas rendiam muito bem (ouça Santa Monica 72 e a trilha sonora do filme Ziggy Stardust and The Spiders from Mars), a imprensa destacava seu comportamento fora do comum e os fãs enlouqueceram; 1972 foi efetivamente o ano de David, e ele soube aproveitá-lo muito bem: nas décadas seguintes, David Bowie teve altos e baixos, mas nunca mais foi ignorado. Embora Ziggy… tenha chegado apenas ao 5º lugar da parada britânica, vendeu muito bem entre 1972 e 73, caatapultando Bowie para o estrelato.
André: Para mim, a grande obra prima de Bowie. Arranjos impecáveis, solos caprichados, as orquestrações, piano e saxofone dão um charme a mais às canções e um marciano que se entrega de corpo e alma às suas interpretações vocais. Clássico, brilhante, incrível. Em minha opinião, o melhor disco já lançado de todo esse gênero chamado glam rock.
Davi: Um dos álbuns mais celebrados da brilhante carreira de David Bowie e um verdadeiro marco da década de 70. E não é por menos. Em Ziggy Stardust, Bowie entregou um álbum que é conceitual, mas que ao mesmo tempo mantém o viés pop. Além de seus hipnóticos trabalhos vocais, vale também prestar atenção no belíssimo trabalho de guitarra. Não há como negar que Mick Ronson faz a diferença no LP. As duas primeiras faixas – “Five Years” e “Soul Love” – nunca fizeram minha cabeça, mas tudo muda a partir de “Moonage Daydream”. E dá-lhe clássico atrás de clássico: “Starman”, “Lady Stardust”, “Hang On To Yourself”, “Ziggy Stardust”, “Sufragette City”. Álbum simplesmente brilhante!
Fernando: Um dos discos mais emblemáticos da história do rock e o meu preferido do camaleão, The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars consolidou a persona alienígena e andrógina criada por Bowie para explorar temas de fama, decadência e identidade. Faixas como “Starman” (aquele cover do Nenhum de Nós) e “Suffragette City” ajudaram a transformar Bowie em ícone cultural, enquanto o conceito do personagem Ziggy Stardust redefiniu a relação entre música, performance e personagem no rock.
Mairon: Se o Glam Rock é comentado ainda hoje, se ele virou uma influência enorme nos anos 80, se David Bowie virou um dos maiores artistas de todos os tempos, se hoje estamos ouvindo esses cinco discos aqui, isso é tudo culpa de The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars. Longe de ser o melhor disco de Bowie, mas com certeza o mais importante de toda sua carreira. Comentei sobre ele aqui, e creio que não preciso dizer mais nada além da emblemática frase do jornal Creative Loafing: “The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars é para a década de 70 aquilo que Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band foi para a década de 60. Não o melhor disco de David Bowie, mas o mais importante e revolucionário. O mundo ainda vai ouvir falar e muito sobre ele.”
Marcelo: Falar de glam rock sem passar por Ziggy Stardust é praticamente impossível e, talvez por isso mesmo, o disco tenha sido colocado, ao longo das décadas, num pedestal que nem sempre favorece uma escuta mais honesta. Confesso que essa lista proposta pelo Marcello Zappellini foi realmente muito bem sacada, parabéns, meu amigo! E, ao ouvir a obra de David Bowie (eu vou confessar: meu favorito dele é o Hunky Dory, de 1971), minha audição seguiu o critério de pensá-lo dentro da proposta da seção, ou seja, como parte de um panteão do glam rock (mesmo parâmetro que usei com os demais). Nesse sentido, reconhecer sua importância histórica não exige, necessariamente, tratá-lo como a obra definitiva do gênero, tampouco como o disco mais prazeroso ou musicalmente resolvido dessa estética. The Rise and Fall of Ziggy Stardust and The Spiders from Mars é, antes de tudo, um dispositivo fundador: o álbum que torna o glam possível enquanto linguagem reconhecível, não aquele que esgota suas possibilidades. O grande gesto de Bowie aqui não está apenas nas canções, mas na decisão consciente de transformar o rock em performance, em teatro assumido. Ziggy não é um cantor, é um personagem, uma encenação cuidadosamente construída. Num momento em que o rock ainda flertava fortemente com a ideia de autenticidade – de que o artista “era” aquilo que cantava –, Bowie faz o movimento inverso: cria uma máscara, exagera traços, assume a artificialidade como força estética. Nesse sentido, o glam nasce menos como um som e mais como um gesto artístico – ponto para Bowie. Musicalmente, no entanto, o disco é mais contido do que sua fama glam sugere. Há ecos claros do rock dos anos 1950, do folk e até de um certo classicismo pop britânico que já estava presente em Hunky Dory. As canções funcionam bem, mas raramente são avassaladoras; o impacto não vem do peso, do riff ou da energia coletiva, mas da ideia que elas carregam. É um álbum mais cerebral do que visceral, mais simbólico do que físico – algo que, para muitos, é justamente sua maior virtude, mas que também explica por que outros discos do glam envelheceram melhor enquanto experiência puramente musical. The Rise and Fall… também introduz de forma decisiva a ambiguidade sexual e identitária como elemento central do rock mainstream. Mais um ponto para Bowie: não se trata apenas de choque visual ou provocação moral, o que Bowie faz aqui é escancarar a noção de que identidade pode ser construída, desmontada e performada. Esse ponto é crucial para o glam, mas curiosamente o próprio Bowie rapidamente se afastaria dessa estética, tratando Ziggy quase como um experimento encerrado, enquanto outros artistas levariam essa linguagem adiante com muito mais insistência e, arrisco dizer, com resultados mais sólidos no campo da música – e não apenas da atitude. Talvez seja esse o lugar mais justo de The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars na história: sem Ziggy, nada disso existiria; mas com Ziggy sozinho, o glam não teria ido tão longe. Ele abre a porta, aponta o caminho, mas não percorre toda a estrada. Os discos que realmente transformariam o glam em algo pulsante, popular e duradouro, com mais riffs, mais suor e mais corpo viriam logo depois, nas mãos de bandas que entenderam a encenação, mas não esqueceram da música. E isso, por si só, já é grande o suficiente. A tempo: a lindíssima “Starman” está nesse álbum, portanto ele já merece um lugar de respeito na sua discoteca. Mais um ponto para Bowie.

Mott The Hoople – All The Young Dudes
Marcello: O Mott The Hoople lançara quatro bons discos pelo selo Island sem fazer sucesso, e no começo de 1972 decidiu encerrar a carreira. Mas a banda contava com um fã que tinha se tornado poderoso na cena musical: David Bowie. Ele convenceu os rapazes (Ian Hunter, vocal, guitarra e piano; Mick Ralphs, guitarra, vocal; Pete Overend Watts, baixo, vocal; Verden Allen, órgão, sintetizador, vocais; Dale “Buffin” Griffin, bateria) a continuarem, deu-lhes uma música inédita, descolou um contrato com a CBS e ainda produziu o disco. E o resultado foi um dos melhores álbuns da banda: a versão (muito superior à original) de “Sweet Jane”, de Lou Reed, abre os trabalhos com grande qualidade; a segunda cover, a faixa-título, é indubitavelmente superior às versões ao vivo que Bowie gravaria nos anos seguintes; dois hard rocks mais próximos do começo da carreira da banda, “Jerkin’ Crocus” e “One of the Boys” (essa com uma longa coda feita especialmente para a banda – e Hunter – voar alto nos shows), mostram que o Mott The Hoople não perdia sua energia original. “Sucker” é divertida, “Momma’s Little Jewel” e “Soft Ground” (com vocal entusiasmado de Allen) são um pouco aquém das anteriores, mas de modo algum são músicas ruins. Claro, há também a maravilhosa “Ready for Love” (apaixonadamente cantada pelo seu autor Mick Ralphs e com o sax de Bowie dando umas floreadas) perde um pouco para a versão fantástica do Bad Co., mas neste álbum deve ter feito muito fã se emocionar; a coda instrumental, intitulada “After Lights”, é belíssima e poderia ter sido lançada como faixa independente. A coisa toda se encerra com “Sea Diver”, bonita balada que traz o melhor desempenho de Ian Hunter em todo o disco. Após esse disco, Verden Allen deixou a banda, que gravou seu sexto álbum (simplesmente intitulado Mott) como quarteto (e atingiu o 7º lugar na parada britânica, contra o 21º de All the Young Dudes), e, em 1974, lançaria The Hoople, com Ariel Bender no lugar de Ralphs, e Live, seu disco mais bem-sucedido nos EUA (23º posto na Billboard), após o qual Hunter saiu. O grupo ainda tentou continuar, e eventualmente se reuniria para shows, mas nunca superou All The Young Dudes.
André: Vergonhosamente, conheço quase nada do Mott the Hoople. Várias vezes me separava para conhecer alguns discos do grupo e sempre acabava adiando e depois esquecendo. Bowie novamente dá as caras na lista e, convenhamos, produziu e deixou o disco com a cara dele apenas com a guitarra sendo mais prevalente. Mas isso está longe de ser ruim, porque aqui temos um glam mais pesado e variado. “All the Young Dudes”, “Jerkin Crocus” e “One of the Boys” são exemplos de canções divertidas e empolgantes, puro suco de rock setentista.
Davi: E não foi apenas com Ziggy Stardust que o camaleão do rock marcou presença nessa lista. Afinal, ele está por trás desse grande clássico do Mott The Hoople, tendo escrito não apenas a (histórica) faixa-título, como produzindo o LP. Esse disco mudou todo o rumo do grupo inglês. Afinal, a banda de Ian Hunter estava para se separar quando surgiu a oportunidade de trabalhar com Bowie. Foi justamente com esse LP que eles deixaram de ser uma promessa para se tornarem uma grande estrela do rock, graças ao estrondoso sucesso da faixa-título. Outros momentos de destaque ficam com as rockers “Momma´s Little Jewel”, “Jerkin´ Crocus” e “One Of The Boys” (mais stones do que muita coisa gravada pelo grupo de Jagger/Richards). Também vale prestar a atenção em “Ready For Love”, que pouco depois seria regravada e imortalizada pelo Bad Company, bandaça que também contava com a presença do guitarrista Mick Ralphs. Ótimo álbum…
Fernando: Produzido por David Bowie e impulsionado pela faixa-título composta por ele, All the Young Dudes salvou o Mott the Hoople da do fim e o colocou no centro da cena glam rock. Fica a polêmica (?) de qual versão ficou melhor: a do compositor ou a da banda.
Mairon: Outro álbum fundamental do Glam Rock, mostrando a grandiosidade do Marcello em trazer só gigantes aqui, All The Young Dudes resgatou o Mott the Hoople do ostracismo para o qual estava mergulhando, e os fez um dos maiores nomes do estilo no início dos anos 70. Claro que muito disso vai para as mãos de Bowie e Mick Ronson, sendo o primeiro responsável por entregar a faixa-título para Ian Hunter imortalizar sua voz no hall dos clássicos do rock, e o segundo por arranjar e produzir – junto do camaleão, que era fã declarado do Hoople – um disco impecável. A versão de “Sweet Jane” aqui (original do Velvet Underground) para mim é a definitiva. Nunca a variação de acordes G, C e D foi tão influente para a música. No mais, são 40 minutos de rock ‘n’ roll na veia, que eternizou “All the Yound Dudes” e seu refrão grudento como uma das principais canções do século XX, além de pequenas joinhas – perdoem o trocadilho – como “Momma’s Little Jewel” e seu piano contagiante, a baladaça “Sea Driver”, e seu arrepiante arranjo orquestral,a sensacional “Ready for Love”, pesada na dosagem certa, e a tecladeira de “Soft Ground”. Mas minhas favoritas são “Sucker”, e aquele cowbell maroto, além do baixão de Pete Watts e o sax de Bowie se destacando, e a linda demais “One of the Boys”, onde a guitarra de Mick Ralphs, um dos guitarristas mais subestimados da música, simplesmente brilha por si só, fazendo ums dos melhores solos de sua carreira. Discaralhaço para se ouvir com muita energia!
Marcelo: All the Young Dudes ocupa um lugar curioso e bastante revelador dentro do universo do glam rock. Ele não é o disco que inventa a linguagem, tampouco aquele que a leva ao limite musical ou estético. Sua importância reside em outro ponto: o de funcionar como ponte, como tradução possível do glam para um público mais amplo, menos interessado em personagens extremos e mais disposto a abraçar canções e refrões ganchudos tanto para quem curte o gênero como para quem gosta de um bom rock com estilo. A história do disco – e da banda – (re)nasce sob a tutela direta de David Bowie, autor da faixa-título e peça fundamental no (re)posicionamento da banda. “All the Young Dudes” não apenas salvou o Mott the Hoople do fim precoce, como também ofereceu à juventude britânica um verdadeiro hino – menos ambíguo, menos teatral e menos provocador do que Ziggy Stardust, mas justamente por isso mais comunicável. A produção de Bowie, além de tudo, confere ao álbum uma sonoridade calorosa, equilibrada e extremamente prazerosa de se ouvir, daquelas que soavam naturais nas caixas de som e nos toca-discos dos anos 70, sem excessos conceituais ou artifícios que envelhecessem mal – você pode colocá-lo para tocar hoje, sem receios, e verá que ele ainda vale uma boa cerveja no fim de tarde. Musicalmente, o álbum permanece firmemente ancorado no rock de raízes clássicas, e aqui o papel de Mick Ralphs é absolutamente central. Sua guitarra sustenta as canções com riffs sólidos, frases bem construídas, antecipando inclusive o caminho que ele seguiria depois no Bad Company – algo que o roqueiro leitor mais experiente percebe imediatamente; e é exatamente o que permite ao disco transitar com naturalidade entre o glam emergente e o rock and roll tradicional. Mesmo quando flerta com a estética glam – seja na atitude vocal, seja em certos arranjos – o Mott the Hoople nunca abandona completamente a forma clássica das boas bandas de rock and roll. Nesse sentido, All the Young Dudes dialoga muito mais com o rock britânico de bandas como Faces, com o Rolling Stones do período de Exile on Main St., com o Humble Pie e, olhando um pouco adiante, com o Bad Company que Mick Ralphs ajudaria a fundar poucos anos depois (basta ouvir “Ready for Love / After Lights”). Meu ponto, para inseri-lo nesta lista que trata de glam rock, é que o tal glam, aqui, aparece menos como encenação e mais como identidade coletiva. All the Young Dudes fala de juventude, pertencimento, sobrevivência e continuidade – temas que dialogam diretamente com uma geração que buscava se reconhecer na música sem necessariamente abraçar o excesso performático ou a ambiguidade sexual como eixo central. O disco soa como um ponto de encontro entre o glam nascente e o rock de bar que, rapidamente, viraria de arena e que se consolidaria nos anos seguintes. Nesse sentido, o Mott the Hoople talvez represente o glam em seu estado mais “domesticado” – não no sentido pejorativo, mas se outros artistas levaram o gênero a territórios mais ousados, mais corporais ou mais extremos, All the Young Dudes foi fundamental para mostrar que aquela estética também poderia ser cantada em coro, apropriada por um público mais amplo e integrada ao vocabulário do rock britânico da época – rock and roll com verniz glam. Nesta seleção, All the Young Dudes talvez não seja o disco para o qual os outros apontam (mérito destinado ao do Sweet), mas é aquele sem o qual o glam dificilmente teria alcançado tamanha capilaridade cultural. Nesta lista de glam rock, ele não disputa posições de destaque; se esta fosse uma lista de rock and roll, provavelmente brigaria por pódio – talvez logo atrás do Slade, ou até à frente, quem sabe? Ouça em alto e bom som a trinca “Jerkin’ Crocus”, “One of the Boys” e “Soft Ground” e tenho certeza de que também ficaria na dúvida.

Slade – Slayed?
Marcello: Em março de 1972 o Slade alcançara o sucesso que o evitara nos álbuns anteriores com o apoteótico Slade Alive, chegando ao 2º lugar. A banda de Noddy Holder (guitarra/vocal), Dave Hill (guitarra), Jim Lea (baixo/violino) e Don Powell (bateria) vinha ralando desde o final dos anos 60, e agora conseguia chamar a atenção do público inglês (também, com as roupas que os rapazes começaram a usar nos palcos, até eu conseguirira). Primeiro disco do Slade a liderar a parada britânica, Slayed? é quase inteiramente cria de Holder e Lea, à exceção da (ótima) cover para “Move Over”, de Janis Joplin – e quem mais teria gogó para recriar uma música da grande Janis senão Noddy? – e do medley “Let the Good Times Roll/Feel So Fine” (que escancara o cinquentismo que influencia o Glam Rock). O álbum mostra seu cartão de visita com o riff monstruoso das guitarras de Noddy e Dave Hill em “How D’You Ride”, e daí em diante é um desfile de good time rock’n’roll, perfeito para você ouvir quando quer diversão, incluindo os hits “Gudbuy T’Jane” (com uma linha de baixo fantástica do subestimado Lea) e “Mama Weer All Crazee Now” (com seu final para fazer os fãs se esgoelarem nos shows). Esta última ganharia uma segunda vida numa versão do Quiet Riot nos anos 80, mas, francamente, prefiro a original. Entre 1971 e 1974, todos os singles do Slade atingiram pelo menos o 4º lugar na Inglaterra; a partir daí, as mudanças no cenário musical fariam a banda declinar bastante, até que nos anos 80 uma aparição no festival de Reading e o single “My Oh My” restabeleceram o apelo comercial do grupo. Em 1987 sairia o derradeiro LP da formação clássica, mas Dave Hill e Don Powell juntaram novos músicos e continuaram fazendo shows, gravando um disco em 1994; Powell se aposentou em 2020, e Hill mantém o Slade no circuito da nostalgia. Mas o legado do Slade já tinha ficado: nenhuma banda vendeu mais singles na Inglaterra em toda a década de 70. E quer coisa mais rock’n’roll do que ser criticado pelo Ministério da Educação por escrever errado os títulos das suas músicas?
André: “Maaaaaaammmaa weeer all crazeeeee nowwwwww”. Meu, essa música eu acho muito divertida. As vezes me esqueço que o rock também pode ser alegre e maluco. O Slade sempre me relembra disso. Mas o disco não são só faixas rápidas e festeiras. “Wonderin Y” é um exemplo daquelas baladas rockers setentistas de encher os olhos e “GudBuy T Jane” nos lembra que o rock pode ser dançante como no início dos anos 60. Excelente álbum do Slade, fazia tempo que não o ouvia.
Davi: Slayed? representa o auge do grupo de Herefordshire. O disco veio na sequência do celebrado Slade Alive, álbum que muitos críticos consideram como um dos grandes discos ao vivo da história do rock. Nesse terceiro trabalho de estúdio, o grupo apresenta um som vigoroso em um repertório bem consistente, onde vale um destaque para as festeiras “The Whole World´s Goin´ Crazee” e “How D´You Ride”, além do hino “Mama We´re All Crazee Now”. Vale prestar uma atenção nos poderosos vocais de Noddy Holder e se divertir ao som dos competentes covers de Janis Joplin (“Move Over”) e Alvin Lee (“Let The Good Times Roll / Feel So Fine”).
Fernando: Banda que não me desceu. Fui direto no clássico ao vivo da banda e, também, nesse. Nenhum me disse muita coisa. Normal isso acontecer. Paciência.
Mairon: Lançado meses depois do aclamado Alive!, Slayed? manteve em alta o nome do Slade, e creio que aqui no Brasil, em especial, tornou os britânicos uma das principais referências do Glam. Tive Slayed? em mãos por alguns anos (assim como Alive!, Till Deaf Do Us Part e On Stage), mas acabei passando todos adiante por que sempre achei que o som do Slade é muito mais rocker do que meus ouvidos realmente gostam, e os vocais esganiçados do Noddy Holder não são para mim. Claro que é um clássico, energia lá em cima, uma ótima versão de “Move Over”, interpretada agora do ponto de vista masculino, as grudentas “I Don’ Mind” e “Look at Last Nite”, e a mais que clássica “Mama Weer All Crazee Now”. Mas mesmo sendo um disco curtinho, para mim é o mais fraco da lista. Preferia ver o Jobriath aqui!
Marcelo: Essa lista do Marcello me deu um nó na cabeça e nos ouvidos… Se há um disco dentre os 5 selecionados que parece desafiar diretamente a própria ideia de glam rock, esse disco é Slayed?. Não porque lhe falte impacto, identidade ou importância histórica – muito pelo contrário –, mas porque ele escancara uma pergunta incômoda: até onde o rótulo “glam” ainda se sustenta quando a música passa a funcionar quase exclusivamente no campo da energia, do volume e da experiência física coletiva? O Slade sempre foi, antes de qualquer outra coisa, rock and roll em estado bruto. Guitarras altas, riffs simples e insistentes, refrões feitos para serem berrados em uníssono e uma relação direta, quase agressiva, com o público. Em Slayed?, isso atinge seu ponto máximo, quase em uma catarse (toda vez que eu o ouço, parece que estou num show deles!). É justamente aí que o glam entra? Como exagero de volume, de repetição, de atitude? Desafio você, caro leitor roqueiro, a definir com um único rótulo o petardo “Move Over”. O Slade até adota certos códigos visuais associados ao glam, mas eles funcionam mais como amplificadores de presença do que como construção de uma persona teatral. No som desses caras, o figurino é secundário; o que importa é o stomp, o coro, o grito coletivo. Musicalmente, Slayed? está muito mais próximo de uma linhagem direta de rock popular britânico do que de qualquer sofisticação estética. Há algo de quase primitivo em sua estrutura: riffs que se repetem até se tornarem um mantra, refrões que dispensam sutileza e uma produção que privilegia impacto em detrimento da nuance (a tal da sensação que tenho de estarem tocando ao vivo aqui na sala de casa). Isso aproxima o Slade menos do glam conceitual e mais de uma tradição que desembocaria no punk, no hard rock de arena e em todo tipo de rock baseado na força do coletivo. Nesse sentido, o disco funciona como um limite interno da própria lista. Se o Sweet mostrou como o glam podia se tornar música grande, bem resolvida e tecnicamente sofisticada, e se o Mott the Hoople revelou sua face mais comunicável e roqueira, o Slade tensiona o gênero para um território onde o rótulo começa a ter limites não muito claros. Ainda é glam rock? Ou já estamos diante de algo que apenas se apropriou de alguns de seus códigos para potencializar um rock and roll essencialmente físico e popular? Talvez a resposta esteja menos em definir o que Slayed? é e mais em reconhecer o que ele faz. O disco transforma o rock em experiência coletiva imediata, em rito quase tribal. E, nesse processo, ajuda a expandir os limites do que se convencionou chamar de glam rock. Ouça “Rip This Joint” do Rolling Stones, lançado 6 meses antes no Exile on Main St., e me diga se as músicas de Slayed? não são canções da mesma safra. Por isso, Slayed? ocupa um lugar específico nesta lista. O som roqueiro do álbum mostra que, quando levado ao extremo da energia e da repetição, o glam pode deixar de ser estilo para se tornar pura força. Se o rótulo ainda dá conta disso ou não, talvez seja menos importante do que reconhecer o impacto: poucos discos dos anos 70 soam tão vivos, tão catárticos e tão incontornáveis quanto este. Se é glam rock ou não, pouco importa: é rock and roll de primeira.

Sweet – Desolation Boulevard
André: Já o Sweet é uma banda menor dentre minhas audições, tendo ouvido alguma coisa com o passar dos anos, mas nada muito memorável. Já havia ouvido este disco há alguns anos, achei bonzinho mas nada que me impressionasse muito. Porém, hoje já penso diferente e é um álbum muito melhor do que eu esperava. Brian Connolly é excelente vocalista e o resto da banda fazem backings tão excelentes quanto. Este disco me incentivou a buscar mais coisas do grupo.
Davi: Existem alguns artistas que precisam ir conquistando o seu espaço aos poucos. E assim foi com o Sweet. Assim que eles assinaram o contrato com a RCA Records, os executivos os obrigaram a gravar uma série de canções de Mike Chapman e Nicky Chinn, dois nomes responsáveis por grandes hits da Suzi Quatro. Os músicos foram lutando para mudar a história e em Desolation Boulevard apenas 2 músicas da dupla foram gravadas: “The Six-Teens” e “Turn It Down”. Nesse terceiro LP, os músicos repetiam a fórmula de Fanny Addams, unindo a melodia pop com as guitarras distorcidas. Há até uma referência ao álbum no solo de bateria presente em “The Man With Golden Arm”, onde em determinado momento, Mick Tucker puxa a levada de “Ballroom Blitz”. A já citada “The Six-Teens” é um destaque com suas vocalizações no melhor estilo Queen. Outros grandes momentos ficam por conta de “Medusa” e do clássico “Fox On The Run”. Indiscutivelmente, Desolation Boulevard e Fanny Addams são os álbuns definitivos do Sweet.
Fernando: Desolation Boulevard apresenta o Sweet em um momento de transição entre o glam pop radiofônico e um rock mais pesado e sofisticado. Com riffs fortes, vocais marcantes de Brian Connolly e produção um pouco mais polida, o disco ajudou a ampliar os limites do glam rock, aproximando-o do hard rock que dominaria parte da década seguinte.
Mairon: Das bandas aqui apresentadas, o Sweet é a única que nunca figurou na minha coleção. Não que eu não curta a banda, mas é que os seus discos são difíceis de encontrar (ainda quero ter a versão original do Give Me Us A Wink!). No caso deste aqui, suas diferentes versões (entre a lançada nos EUA e Canadá e a lançada no Reino Unido) me faria colocar mais dois discos nas prateleiras, e edições que também não são tão simples assim de ver numa loja. Mesmo online, Sweet é algo que aparece pouco. Bom, de forma geral, apostando que o Marcello indicou a inglesa, já que a versão norte-americana traz canções do álbum antecessor a este, Sweet Fanny Adams, temos aqui um rock ‘n’ roll puro e simples, sem muita técnica, mas com muito feeling, e até um certo peso, bastante influenciado por The Who em seus melhores dias. Tanto que há uma ótima revisão para “My Generation”. Há canções realmente para cima, como o rockaço de “Turn it Down”, O Sweet diferenciava-se por sua capacidade de experimentar instrumentalmente, seja com efeitos nas guitarras e vocais, como em “Medusa” (e aqueles vocaizinhos agudos que o Roger Taylor amava copiar, ou seria o contrário?), ou em diferentes estilos, como em “Solid Gold Brass”, onde rola até um pequeno solinho de baixo e acordes jazzísticos na guitarra, e principalmente, na perfeita revisão de “The Man with the Golden Arm”, a famosa trilha do filme do 007, que ganhou 8 minutos de pura demonstração de técnica na ba bateria e no baixo (Steve Priest era um puta baixista, caralho, e o solo do Mick Tucker é igualmente de mandar tudo pro caralho). E se Bowie tinha sua “Lady Stardust”, o Sweet tinha sua “Lady Starlight”, linda balada levada ao violão. Das novidades na versão Norte-Americana, “Ballroom Blitz” é uma faixa bem agitada, apesar de eu achar que peca bastante no vocal, e prefiro a versão completa (britânica) de “Fox On The Run”, que na norte-americana, ficou mais curtinha e não tão pesada ao meu ver. Minhas preferidas são “The Six Teens”, algo que me lembra as Runaways, trazendo a frase que batiza o álbum, e com um vocal MUITO Bowie, e “Breakdown”, pancada direta no ouvido, puro rock pesado. Banda que merecia muito mais reconhecimento.
Marcelo: Amigo, este é o disco que tem “Ballroom Blitz”, e só isso já bastaria para ele figurar em qualquer lista minimamente honesta sobre glam rock! Se você não guarda memórias afetivas de uma infância ou adolescência em que “Ballroom Blitz” tocava sem cerimônia nas nossas festinhas, até furar o vinil nos toca-discos, e nas fitas-cassete tanto em casa quanto no carro, lamento: ou você nasceu depois, ou passou batido por uma canção obrigatória de seu tempo. Poderia encerrar o texto aqui, mas Desolation Boulevard segue com uma pérola divertida, enérgica e absurdamente bem resolvida atrás da outra: “The Six Teens”, “No You Don’t”, “A.C.D.C.” – não há uma faixa sequer que te faça ficar parado! E é justamente aqui que o Sweet assume um papel central na história do glam rock. Se Ziggy Stardust havia mostrado que o glam poderia existir como personagem, encenação e gesto artístico, Desolation Boulevard demonstra que ele também poderia se sustentar como música grande, feita de riffs memoráveis, harmonias vocais impecáveis, arranjos criativos e produção afiadíssima. O disco não depende de um conceito externo: ele se impõe pela força das canções. Os méritos musicais são evidentes. O Sweet tinha melodia, harmonia, ideias claras, instrumental de primeira e vocais extremamente bem trabalhados. Não é exagero dizer que qualquer artista da época – de Paul McCartney a Kiss, de AC/DC a Scorpions, de Elton John a Queen (consigo até ouvir Brian May nesse solo e Freddie Mercury arrebentando no refrão) – gostaria de ter escrito, por exemplo, “No You Don’t” e gravado essa música como ela é, em arranjos típicos de cada um desses artistas, porém sem mudar uma nota sequer. O equilíbrio entre peso e apelo pop que o Sweet atinge nessa faixa é algo raríssimo para o período. E é nesse ponto que as classificações começam a falhar. Desolation Boulevard pode ser facilmente entendido como um pilar do glam rock, mas reduzi-lo apenas a isso é insuficiente. O álbum também marca a transição definitiva do Sweet do bubblegum pop para um hard rock maduro, influente e tecnicamente sofisticado. Ouça “Fox on the Run” e “Set Me Free” e tente lembrar quem mais, naquele momento, fazia hits radiofônicos com guitarras tão cortantes, timbres tão bem definidos e refrões tão imediatos. Preste atenção especial na guitarra de “Set Me Free” e pergunte-se, com honestidade, quem estava tocando nesse nível dentro do circuito pop-rock britânico da época. Boa parte dessa identidade sonora passa, evidentemente, pela produção de Mike Chapman, que ao lado de Nicky Chinn ajudou a criar o chamado som Chinnichap – mais um rótulo, claro… Chapman soube como poucos unir guitarras afiadas, vocais açucarados e estrutura radiofônica sem diluir o impacto do rock. “Turn It Down” é um exemplo perfeito dessa equação: um som de guitarra que poderia soar natural em discos do Scorpions ou do Judas Priest, mas que aqui convive sem conflito com harmonias vocais tipicamente… Glam rock? Pop rock? Chinnichap? Difícil classificar essa pancada roqueira venenosa. Se você não os conhece visualmente e ao vivo, sugiro como cartão de visitas esse vídeo , com o Sweet interpretando “Turn It Down” no programa The Geordie Scene, em 30 de novembro de 1974, e apresentado pelo lendário DJ Dave Cash, um dos pioneiros das rádios piratas britânicas. Nessa versão, temo a formação original da banda: Brian Connolly (vocal), Andy Scott (guitarra e sintetizador), Steve Priest (baixo) e Mick Tucker (bateria). Sabe quem compôs a música? Mike Chapman e Nicky Chinn, eles mesmos, os produtores da Chinnichap que criaram uma sonoridade característica de grande sucesso na era glam rock. A parceria dos dois produziu hits e álbuns para bandas como Sweet, Mud, Smokie, Suzi Quatro, Racey e Blondie. Agora que viu o estilo glam rock no vídeo, perceberá que, em Desolation Boulevard, até a estética visual do disco reforça essa ideia de grandeza. A capa, criada pela sempre eficiente Hipgnosis, dialoga com o universo de bandas como Pink Floyd, Genesis e Led Zeppelin, deslocando o Sweet de qualquer leitura apressada como grupo descartável ou fabricado. Nada aqui é pequeno, raso ou casual. No fim das contas, Desolation Boulevard ocupa um lugar privilegiado nesta lista porque ele materializa aquilo que muitos discos do glam apenas insinuaram: a possibilidade de unir atitude, teatralidade e música de altíssimo nível num mesmo objeto artístico. Nesse álbum, o glam deixa de ser apenas encenação e se transforma em som robusto, influente e atemporal. Se há um disco para o qual os demais desta lista, em maior ou menor escala, apontam, é para esta obra-prima.
Marcello: Cria de Mike Chapman e Nicky Chinn, dois compositores e produtores especializados em bubblegum, o Sweet era formado por Brian Connolly (vocais), Andy Scott (guitarra, sintetizador e vocais), Steve Priest (vocais) e Mick Tucker (bateria, vocais), e provavelmente era a mais hard rock das bandas de Glam. O Sweet teve nada menos que 13 singles nas paradas britânicas, a maioria entre 1971 e 1975, e seu segundo LP era justamente uma coletânea de hits, mas curiosamente vendia poucos LPs por lá – nos EUA, os bolachões deles vendiam melhor do que na Inglaterra, e este especificamente chegou ao 25º lugar da Billboard (para ter uma ideia, “Ziggy…” atingiu apenas o 75º lugar em 1973 nessa parada). A edição americana traz várias músicas diferentes em relação à original, mas ficaremos na britânica: “The Six Teens”, “Turn it Down” e “Fox on the Run” são as músicas mais conhecidas, embora a última seja uma regravação (bem superior, na minha opinião) do single. Há uma cover bem fiel para “My Generation” e o arranjo de Tucker para “The Man With the Golden Arm”, gravada por Frank Sinatra para o filme do mesmo nome (embora não tenha sido usada na trilha sonora), em que ele interpreta um ex-viciado em morfina, e que servia de introdução para seu solo de bateria. Outras boas músicas são “Solid Gold Brass” (com bom solo de guitarra de Scott) e “Breakdown” (ambas composições da banda), e a baladinha “Lady Starlight” (a mais Glam do disco, escrita por Andy Scott), fazendo deste álbum, junto com o Sweet Fanny Adams (1973), a coletânea Strung Up (com um LP de estúdio e outro ao vivo) e o posterior Give Us a Wink (1976), a discoteca básica do Sweet. E para quem acha o Sweet mera baboseira comercial, é bom lembrar que um sujeito chato como Ritchie Blackmore os elogiava bastante.
