Nove Bons Motivos Para Não Odiar o Can

Por Marco Gaspari
Dentre todos os temores que assombram o ser humano, o medo do desconhecido é o que encabeça a lista. É uma sensação desconfortável, extrema e por vezes incontrolável. Ninguém se sente à vontade diante dele e faz de tudo para evitá-lo. Mas eu faço questão de nas próximas linhas confrontar o leitor com um belo exemplo do desconhecido: a banda alemã Can. Pouca gente admite gostar do Can. E o motivo disso, claro, é que pouca gente conhece realmente a banda. Ouviu uma ou outra música, estranhou a sonoridade e a deixou de lado, com uma terrível, precipitada e definitiva conclusão: não gosto.
Admito que o Can não seja o que podemos chamar de convencional, uma banda de rock que ao lançar seu disco de estreia já tinha três de seus músicos acima dos 30 anos. Irmin Schmidt, o tecladista, e Holger Czukay, o baixista, foram alunos do rígido e genial músico de vanguarda Karlheinz Stockhausen, o compositor que simplesmente revolucionou a percepção de ritmo, melodia e harmonia na música contemporânea. Também tiveram aulas com Luciano Berio e Gyorgy Ligerti. Jaki Liebezeit, o baterista, vinha da escola do jazz e seu estilo foi todo influenciado e moldado pelo maior mestre dos compassos rítmicos: o metrônomo. Sobrou o guitarrista, Michael Karoli, de apenas 20 anos e ex-aluno de Czukay. Foi ele quem apresentou os trintões ao rock e, através dos Beatles, mostrou toda a capacidade que o rock tinha de absorver os vários gêneros musicais, principalmente a vanguarda. O Can ainda teve dois vocalistas entre 68 e 74: o americano Malcolm Mooney, que acabou saindo pouco mais de um ano depois com sérios problemas psicológicos devido à pressão criativa imposta pelo grupo e o japonês maluco Damo Suzuki, que cantou em verso, prosa e haicais toda a glória dos melhores discos da banda.
Formado em 1968 e baseado no hoje mitológico Inner Space, estúdio que o grupo adaptou dentro do Schloss Norvenich, um palácio situado em um bairro da cidade de Cologne, o Can contava ainda com uma certa assistência extra-sensorial, a telepatia. Irmin Schmidt explica melhor: “Nada é planejado, nem no estúdio nem ao vivo. Cada membro do grupo é um telepata e não há nada especialmente misterioso sobre a telepatia – é algo que acontece com todo mundo todos os dias. Como tudo o mais, ela requer treino: você tem um certo grau de telepatia e precisa atingir o próximo nível. É aquilo que eu chamo de ponto de crise – essa é a base da criatividade, a crise.”
Bom, vamos ver abaixo alguns exemplos de como a improvisação ajudou os telepatas do Can a transformar crise em arte. E que eu espero sejam os nove bons motivos para fazer alguém conhecer e gostar da banda:
01 – “LITTLE STAR OF BETHLEHEM” (do álbum Delay 1968 [1981])
As músicas relacionadas aqui deveriam seguir uma ordem cronológica, mas eu começo pela última música de um disco lançado em 1981.Delay 1968, como a data diz, seria uma compilação de alguns dos materiais mais antigos do Can, gravados no Inner Space. As músicas desse disco, na realidade, foram reunidas em 1968 para ser o primeiro disco oficial do Can, antes ainda de Monster Movie, com o título Prepared to Meet Thy Pnoom. Como o resultado final parecia muito estranho na época e nenhuma gravadora se mostrou interessada por ele, as fitas foram engavetadas e a banda se pôs a gravar um novo material que acabou se tornando o Monster Movie. Esse disco também aparece aqui em primeiro lugar como um pretexto para falar um pouco do primeiro vocalista do Can: Malcolm Mooney. Mooney não era um cantor, mas sim um artista plástico americano que Hildegard Schmidt, esposa de Irmin e uma espécie de gerente da banda, conheceu em Paris e disse que seu marido estava formando uma banda e que tinha um estúdio. Mooney entendeu se tratar de um estúdio de pintura e, ao chegar em Cologne, foi surpreendido por um estúdio de gravação. Esse cantor bissexto negro intoxicado de soul music e de jazz (e que arriscava algumas notas no saxofone) a partir do momento em que abriu a boca para cantar no Castelo Norvenich, fez as experimentações do Can transpirarem rock por todos os poros. Basta ouvir “Uphill“ e mesmo “The Thief”, mais tarde transformada em cover ao vivo do Radiohead. Mooney ficou apenas 14 meses com a banda. Esgotado pelo ritmo massacrante de ensaios do grupo, com saudades da família em Nova Iorque e sérios problemas emocionais, ele finalmente surtou e abandonou o grupo rumo à América logo após o lançamento de Monster Movie.
02 – “YOU DOO RIGHT” (do álbum Monster Movie [1969])
Monster Movie, o primeiro disco da discografia do Can, foi lançado primeiramente numa pequena tiragem de 500 cópias pelo selo Music Factory, de Munique. A edição foi totalmente vendida em duas semanas, mas algumas cópias serviram de cartão de visita da banda para as gravadoras. Quem se interessou foi a United Artists que logo depois relançou o álbum, com outra capa, para o mercado tradicional. O Can nessa época praticava em seu som a ideia da Restrição, onde cada integrante, que já tinha provado ser músico em algum gênero específico, procurava se despir de tudo e se restringir a quase nada para, a partir daí, achar alguma coisa que fosse comum a todos. Esse talvez fosse o grande segredo da comunicação telepática conseguida pelo grupo em suas improvisações. Segundo Holger Czukay, a Restrição criava a tensão necessária para a banda evoluir um tema. “You Doo Right” é um belo exemplo disso: seus pouco mais de 20 minutos no lado dois do Monster Movie foram editados de duas longas performances dessa mesma música que eles tocaram ao vivo em seu estúdio improvisado no Castelo Norvenich no dia 25 de julho de 1969. Mesmo com dois amplificadores estourados no meio do concerto, eles foram em frente, mostrando que o som do grupo se adaptava a qualquer circunstância e que eles sabiam sim tirar proveito das tais restrições. O resultado que aparece no disco mostra a banda bem distante de qualquer influência dos grupos da moda e muito atenta, embora não comprometida, ao sentido de repetição presente nas ideias de músicos como Terry Riley. Uma admiração confessa era o Velvet Underground, que Czukay e companhia achavam ter uma relação completamente nova e pouco convencional com seus instrumentos. Para o Can, repetição era se comportar como uma máquina e, como todo alemão, eles adoravam as máquinas. Na ficha técnica da edição limitada do Monster Movie pelo selo Music Factory eles se apresentavam assim: Irmin Schmidt (adminaspace co-ordinator & organ laser), Jack Liebezeit (propulsion engineer & mystic space chart reader), Holger Czukay (hot from Vietnam; technical laboratory chief & red armed bass); Michael Karoli (sonar & radared guitar pilot), Malcolm Mooney (linguistic space communicator).
03 – “MOTHER SKY” (do álbum Soundtracks[1970])
O lp Soundtracks, segundo na discografia do Can, foi uma espécie de tapa buraco. Na realidade, o segundo disco oficial seria Tago Mago, mas as gravações desse álbum duplo estavam tomando mais tempo do que era previsto e eles precisavam colocar alguma coisa na rua para ganhar tempo. Como a banda nessa época não podia se dar ao luxo de viver de shows ao vivo, encontraram nas trilhas sonoras para a fervilhante cena dos novos diretores alemães uma forma de garantir um troco. E bota troco nisso, pois já li reclamações de outras bandas alemãs, como o Amon Duul II, pelo fato do Can roubar mercado cobrando qualquer dinheiro por uma trilha sonora. Esse disco também marca a saída de Malcolm Mooney e a chegada de Damo Suzuki, descoberto por Czukay e Liebezeit certa manhã cantando na rua. Holger perguntou a Damo se ele toparia participar de um concerto naquela mesma noite na discoteca The Blowup e foi uma espécie de prova de fogo para o japa. Foi uma apresentação furiosa. Damo se comportou a princípio de forma muito concentrada, encarando a plateia pacificamente enquanto o som corria solto ao fundo. Mas eis que de repente, num acesso dramático, tomou o microfone nas mãos e, como um samurai ensandecido, passou a berrar para o público. A reação da audiência migrou do espanto para o nervosismo, com gente se estranhando e até brigando, abandonando o local a seguir. Apenas três dezenas de alemães e americanos permaneceram fiéis e entusiasticamente até o fim do show, entre eles o ator hollywoodiano David Niven, que com certeza presenciou o maior pesadelo sonoro de sua vida. Voltando ao Soundtracks, ele contém duas músicas cantadas por Mooney, a linda e sonolenta “She Brings The Rain” e o teste para pastilhas Valda “Soul Desert“, onde o cantor negro prova que poderia ser um Damo Suzuki se quisesse. As outras músicas são todas na voz do novo cantor, sendo “Don’t Turn The Light, Leave Me Alone” a primeira gravação de Suzuki no grupo. “Mother Sky”, a música escolhida aqui, é uma road trip de mais de 14 minutos e que serviu de trilha para o filme Deep End, do cineasta Jercy Skolimovsky (vi o filme e achei a música subaproveitada). “Mother Sky” é uma das peças mais intensas já gravadas pelo Can e vale a pena destacar a acachapante guitarra de Michael Karoli, tido por alguns entendidos, e não registro isso para provocar ninguém, como o maior guitarrista psicodélico da história do rock.
04 – “PAPERHOUSE” (do álbum Tago Mago[1971])
Tago Mago acabou de ser gravado em fevereiro de 1971. Um álbum duplo, com o segundo disco contendo peças experimentais. É um disco mágico em vários sentidos, não apenas no nome que evoca um mago (na realidade uma ilha próxima a Ibiza) ou na fórmula mágica implícita no mantra “Aumgn” (primeira música do segundo disco) ou ainda no sugestivo nome da música “Mushroom” . É mágico porque enfeitiçou Deus e o mundo, tornando-se um sucesso absoluto de crítica e apresentando ao mundo o rock extremo de uma banda que influenciaria gerações. Apesar de ser o primeiro álbum totalmente gravado com Damo Suki nos vocais, o grande personagem do disco, para mim, é o baterista Jaki Liebezeit. Se o Can queria soar como uma máquina, Jaki era o motor, ou melhor, o pistão que dependendo da velocidade com que subia e descia imprimia cadência ou vertigem no ritmo hipnótico da banda. Sua ambição era fazer jus ao apelido de Human Metronome, em torno do qual toda a improvisação de seus companheiros era construída. Suzuki, por outro lado, era o anti-vocalista, soando em alguns momentos mais experimentais como um pasteleiro maluco que frita seus pastéis no óleo de efeitos que escorre dos teclados de Schmidt. Damo já havia imposto seu estilo único de misturar inglês, japonês e fonemas no álbum Soundtracks, mas em alguns momentos de Tago Mago essa sua “Linguagem da Idade da Pedra” (como ele a chamava) é responsável pela aura de encantamentos do disco. Tago Mago é perfeito, não apenas na performance de todos os envolvidos, mas também por ser o oposto, como escreveu o crítico Paul Alessandrini nas páginas da revista francesa Rock & Folk, de todos os conceitos classe média que afetavam o rock na época.
05 – “SPOON” (do álbum Ege Bamyasi (Okraschoten) [1972])
Para os padrões experimentais do Can, Ege Bamyasi (Okraschoten) foi o disco mais pop e acessível gravado pela banda e seu maior sucesso comercial até então. Vendeu 10 mil cópias no primeiro mês em todos os países onde foi lançado e o single “Spoon”, usado como trilha sonora de um popular seriado de gangster na Alemanha, levou o Can ao top 10 das paradas. O dinheiro deste single chegou em boa hora e ajudou a banda a mudar seu estúdio para um novo endereço, bem mais de acordo com as necessidades do grupo do que o já decadente Castelo Norvenich. Essa mudança de certa forma inspirou o clima mais light das músicas presentes no Ege Bamyasi (Okraschoten) e a capa do disco, uma espécie de brincadeira visual enlatada, surgiu por acidente quando a banda estava em um restaurante na Turquia. Essa lata de quiabo não só existia como era um produto de uma companhia de Istambul chamada Can. Outras músicas de destaque no disco são “Pinch”, “Sing Swan Song” e “Vitamin C”. Feita em cima da hora por necessidade de fechar o disco, a faixa “Soup”, que soa mais como um out take do Tago Mago, é um ótimo exemplo da espontaneidade coletiva e capacidade de improvisação da banda.
06 – “FUTURE DAYS” (do álbum Future Days[1973])
Li em algum lugar que Damo Suzuki teria abandonado o grupo após este álbum de 1973 por se sentir alienado pelos novos rumos que o Can estaria trilhando. Não creio. Acredito mais na versão oficial de que ele saíra para abraçar a religião de sua jovem esposa e se tornar Testemunha de Jeová. O Can nunca foi uma banda de seguir caminhos, mas sim de apontá-los e, uma vez numa estrada, optaria sempre por sair dela no primeiro desvio. Future Days foi o primeiro e único álbum do grupo a sair no Brasil e não levou nem seis meses para figurar nas baciadas de encalhes das boas lojas do ramo. Tremenda injustiça. A faixa título é um delicioso exercício de futurismo tecnológico nos fazendo crer que se um dia o mundo acabasse, terminaria em bossa nova. Outra música emblemática é a que pega todo o lado dois do disco, “Bel Air” , um esforço coletivo de improvisação sobre um tema intuído por Michael Karoli enquanto de férias na costa de Portugal, observando as nuvens, ouvindo os sons do vento e do mar e registrando tudo no único gravador que tinha à disposição: sua cabeça. Liebezeit achou o disco muito sinfônico e Czukay adorou tê-lo gravado justamente por causa disso.
07 – “DIZZY DIZZY” ( do álbum Soon Over Babaluma [1974])
Damo Suzuki foi embora. Tim Hardin até que tentou mostrar sua competência para assumir os vocais da banda, mas o Can preferiu ser um quarteto e improvisar (como sempre) Karoli e Schmidt nos vocais. O guitarrista resolve também assumir seu lado violinista e “Dizzy Dizzy” , a música que abre o lp Soon Over Babaluma, de 1974, se revela uma das primeiras adaptações do reggae ao rock. A letra é um texto do escritor britânico e fã incondicional Duncan Fallowell, que confessou poucos anos atrás ter sido sondado na época para substituir Suzuki. Duncan também é o comentarista, junto com Rob Young, de todos os discos do grupo no livro Can Box: Book, lançado em 1998. Também nos anos 90, Schmidt colaborou com Duncan, musicando um libreto seu que virou a ópera Gormenghast. Soon Over Babaluma tem outras pérolas babalumescas: o cha cha chá teutônico, que Czukay prefere chamar de tango hipnótico, de “Come Sta, La Luna”, o tablado high speed construído por Jaki Liebezeit para os 15 minutos da música “Chain Reaction” e sobre o qual Schmidt improvisa golpes de karatê em seu teclado, e “Quantum Physics”, uma das primeiras peças de música ambiente com características techno, novamente com Liebezeit lubrificando o motor de sua bateria com Bardahl B12 e Schmidt ressuscitando um velho sintetizador Alpha77. Talvez esse seja o último grande disco do Can.
08 – “GOMORRHA” ( do álbum Limited Edition [1974])
Em 1974 o Can lançou uma coletânea de sobras de estúdio, porralouquices e devaneios sonoros chamada Limited Edition. A pinkfloydiana “Gomorrha” abre o disco e mostra que emular banda inglesa é fácil, mas a recíproca não é verdadeira. A banda por essa época era muito comparada ao Pink Floyd e fez até mesmo uma piada em um programa da TV britânica, The Old Grey Whistle Test, nomeando sua apresentação de Set The Controls For The Art Of The Sun. O único paralelo entre as duas bandas, porém, está no fato de que seus dois cantores originais atingiram extremos e enlouqueceram: Malcolm Mooney de forma temporária e Syd Barrett infelizmente não. Em Limited Edition encontramos também alguns exemplos das Ethnological Forgery Series, as EFS, que eram tentativas conscientes, embora improvisadas, de imitar várias formas de world music. Do jeitinho Can, é claro. “Mother Upduff” é outra curiosidade deliciosa: gravada em 69 e tendo Mooney nos vocais, ela é toda baseada em uma lenda urbana que conta a história de uma família em férias cuja matriarca morre e é amarrada envolvida em cobertor no teto do carro. E o carro é roubado, levando o corpo junto. Ouvir o cantor narrar essa história é uma experiência e tanto. O disco foi batizado de Limited Edition e uma tiragem de apenas 15 mil exemplares. Dois anos depois, em 1976, ele foi relançado em bases normais e no formato álbum duplo, com o segundo disco repleto de inéditas e o apropriado nome deUnlimited Edition.
09 – “I WANT MORE” (do álbum Flow Motion [1976])
Segundo Czukay, o disco Flow Motionmostrou o quanto o Can foi influenciado pelo reggae. Gostaria imensamente, no entanto, que alguém me apontasse um único reggae nesse álbum, pois procuro isso há anos. Em algumas entrevistas, o baixista afirma o quanto ficou impressionado a primeira vez que viu um show de Bob Marley, principalmente com as batidas, o baixo e o desenho das notas de guitarra que emanavam da banda jamaicana. Isso explica muita coisa, menos o fato de que a música “I Want More”, o maior sucesso comercial do CAN, era uma disco music e “Cascade Waltz” , outra faixa emblemática, era forrada de guitarras havaianas. “I Want More” cometeu até mesmo a façanha de colocar o grupo nas paradas inglesas e provou que, entre todas as bandas alemãs que se aventuraram nos ditames hedonisticos da onda disco, o Can foi a que menos vergonha passou. Flow Motion, apesar de todo o sucesso de seu single, foi um disco menor na discografia do Can, assim como o anteriorLanded e os próximos Saw Delight e Can. Como tudo que existe caminha para um fim, o CAN resolveu encerrar a conta no começo dos anos 80, com seus músicos tocando carreiras e projetos solo e reunindo-se mais uma vez em 1987 para satisfazer a vontade de Malcolm Mooney de voltar a cantar com a banda. O resultado disso foi Rite Time, uma espécie de Wish You Were Here com todos os desejos realizados.