Impressões sobre The Future Past Tour

Impressões sobre The Future Past Tour

Por Fernando Bueno

Desde que o Iron Maiden anunciou a turnê The Future Past Tour ainda no final do ano de 2022 os fãs ficaram ansiosos e as especulações começaram. Os repertórios das turnês do Iron Maiden sempre são um ponto de polêmica. Muita reclamação sobre as músicas que faltaram, muita reclamação sobre o que entrou e muito corre-corre pelos ingressos. Ou seja, independente do que a banda toca o público nunca deixou de ir. Isso é muito cômodo para o Iron Maiden pois acaba dando tranquilidade para fazer o que quiserem, afinal ninguém vai deixar de comprar seus ingressos e ir aos shows.

O Iron Maiden já havia feito turnês comemorativas antes. Essas turnês especiais não são focadas nos repertórios dos discos recém-lançados, existem turnês específicas para esse fim, assim eles criaram uma dinâmica interessante para quem acompanha a banda. Quando um novo álbum é lançado, faz-se a turnê com as músicas desse disco e intercalando um álbum e outro uma turnê temática. Porém por conta da pandemia Senjutsu foi lançado durante um período em que não era possível fazer turnês e muitas datas da The Legacy of the Beast, a turnê anterior, tiveram que ser adiadas. Aí quando os shows foram retomados essas datas remarcadas foram cumpridas sob o nome de Legacy of the Beast II um pouco adaptado com a inclusão de apenas três músicas de Senjutsu abrindo os shows.

E é aí que as coisas se misturaram. The Future Past Tour combina o conceito de turnê de divulgação de um álbum – Senjutsu agora sim estaria sendo bem representado –, com a turnê temática sendo que o resgate agora é o repertório lá dos anos de 1986 e 1987 da Somewhere On Tour. Não sei se muita gente se atentou a isso, mas essa mistura de material de Somewhere in Time e Senjutsu tem um outro ingrediente curioso. Claro que o nome desse novo giro pelo mnundo num primeiro momento é tirado da música “Days of Future Past” de seu último álbum, mas queria analisar outros aspectos. A parte “future” do título refere-se ao material de Senjutsu, já que quando avaliamos a história da banda como um todo, o último álbum, mesmo tendo sido lançado no nosso presente, estaria no futuro de sua cronologia e tem como inspiração vários temas que tratam do passado histórico da humanidade: cultura oriental japonesa, história bíblica, guerreiros celtas, etc.. Já a parte do “past” refere-se ao material do passado da banda, no caso do álbum Somewhere in Time que tem como temática principal o futurismo muito inspirado em Blade Runner (o tema do filme, composto por Vangelis abre os shows). Mas aí, quando vamos entrar no detalhe lembramos que o principal assunto que surgia quando se falava desse álbum é a falta uma de suas músicas nos repertórios, “Alexander the Great”, que é justamente uma faixa que nos leva lá para a Grécia antiga, para o passado. Então acredito que o casamento acabou sendo perfeito.

Outra grande característica dessa turnê foi a retirada de músicas que imaginávamos que nunca sairiam do repertório, como “The Number of the Beast” e “Two Minutes to Midnight”. A banda ousou bastante com a ausência dessas músicas e a inclusão de “The Prisoner” e da quase esquecida “Can I Play With Madness”. Fosse eu teria ousado um pouquinho mais e colocado no lugar dessa última “Infinite Dreams”. Porém algumas faixas não saem do set de maneira alguma como “Fear of the Dark” e “The Trooper”. Será que podemos dizer que a banda as considera seus dois maiores clássicos? Mesmo com uma parte dos fãs reclamando que estão enjoados, em shows não tem um que não cante com todas as forças os “ôôôôôô” presentes em ambas as músicas.

Desde o lançamento de Senjutsu em 2021, principalmente com a divulgação de seu primeiro single “The Writing On The Wall” tenho me surpreendido com a grande recepção que essa música teve. Fiquei mais surpreso ainda no show do Rock in Rio quando enquanto cantava palavra por palavra do refrão da música junto da banda notei que que praticamente todo mundo ali, pelo menos uma parcela grande, estava fazendo o mesmo. Lembro de ter pensado naquele momento que ela já tinha se tornado um clássico. E tive a impressão que isso aumentou. Não sei se vocês têm essa noção, mas se isso se mantiver estamos diante do maior clássico da banda em 30 anos. Do set list atual, considerando somente músicas de 2000 para cá, acredito que já é a música de maior apelo da banda. Claro que nos últimos seis discos tem diversas grandes músicas, mas não consigo imaginar outra com o mesmo efeito no público como essa. Podemos até discutir esse assunto. Na sua opinião, qual música lançada de 2000 para cá é o maior clássico da banda? Responda nos comentários do texto. Das músicas que vieram na cabeça “Brave New World” poderia ter ficado maior se não fosse a insistência da banda em favorecer “Blood Brothers”.

As outras faixas escolhidas para representarem o último lançamento fazem juz à escolhas. “Stratego”, outro single, e “Days of Future Past” são as faixas um pouco mais rápidas e enérgicas, “The Time Machine” e “Hell on Earth” caiu nas graças dos fãs das músicas mais longas da banda. Só estranhei que a faixa título tenha sido deixada de lado já que ela estava entre aquelas três tocadas no fim da última turnê, preferiram “Death of the Celts” no lugar dela.

Das músicas de outros álbuns além das já citadas “The Prisoner”, “Can I Play With Madness”, “Fear of The Dark” e “The Trooper” somente “Iron Maiden” representando o período pré-Bruce Dickinson. Eu imaginava que essa seria limada também. Novamente, fosse eu fazendo o set list teria dado espaço para “Murders in the Rue Morgue”. Afinal, sonhar não custa nada!

Já falei acima que os shows são antecedidos pelo tema do filme Blade Runner, achei bastante adequada para abrir o show, mas não sei se gostei de terem mantido “Doctor Doctor”, pois ficam duas introduções, sendo que uma não conversa com a outra. Essa música do UFO abrindo os shows é uma tradição histórica do grupo, mas sinceramente não iria fazer falta. Lembrei da turnê do The Final Frontier em que a introdução da faixa título parecia interminável por conta da ansiedade do fã em ver a banda.

“Caught Somewhere in Time” abre os shows, o que não acontecia desde 1987. É incrível a quantidade de ótimas músicas que ficam escondidas dos repertórios dos shows. Isso mostra a grandeza do Iron Maiden. Já “Stranger in A Strange Land”, uma das músicas favoritas desse escriba, foi tocada pela última vez em 1999 na curta turnê dos retornos do Bruce e Adrian, The Ed Hunter Tour. Até hoje me lembro do impacto que essa música teve para mim quando vi uma velha fita VHS, que deve ter sido gravada e regravada diversas vezes, com o video de 12 Wasted Years, o público pulando, o Eddie inflável saindo de trás da bateria, aquela marcação de baixo inconfundível. Impossível não virar fã instantaneamente. “Heaven Can Wait” e “Wasted Years” tinham presenças pontuais nesses últimos anos, mas vamos falar sobre o que todo mundo que veio ler esse texto aqui quer mesmo saber: “Alexander the Great”.

É incrível como cresceu ao longo dos anos a esperança que os fãs nutriam de ver essa música ao vivo. Não sei exatamente como isso surgiu, mas nenhuma outra música do repertório do Iron Maiden tinha ou tem essa aura de pérola perdida. Muita gente sonhava, muita gente pedia só para ter o que reclamar e muita gente também já tinha perdido as esperanças. Assisti alguns shows que estão disponíveis no youtube (o do dia 04/06 de 2023 em Tampere, Finlândia, tem um ótimo som e imagem) e achei muito boa a performance dessa música. Sobre a performance em geral eu comento daqui a pouco, pois queria fazer um outro parênteses. Vi dois shows completos que foram gravados pelo público esse da Finlândia e o primeiro que foi feito na Eslovênia. Eu acho péssimo quando vejo alguém gravando o show ao invés de curtir o momento, fiquei com um sentimento dúbio quando via esses shows pelo youtube. Eu critico, acho uma falta de respeito com as pessoas que estão próximas, mas me diverti assistindo essas gravações. Porém pelo que pude ver essas duas gravações não foram feitas por pessoas no meio do público. A firmeza da imagem sugere que o equipamento estava em um pedestal ou algum outro tipo de suporte. Entretanto não deixa de ser uma divulgação não autorizada. Você que grava o show todo com o braço levantado, atrapalhando as pessoas atrás de você para fazer uma gravação que nunca vai ver de novo saiba que isso é errado!

Voltando… “Alexander the Great”… Porque a banda demorou tanto para tocar? Nem mesmo na turnê original. Lembrei da opinião de muita gente que diz que “Halloweed Be Thy Name” é a música que melhor representa o Iron Maiden. Tem climas épicos e emocionantes, tem o tradicional baixo galopante, solos melódicos que identificam que é a banda com poucos segundos, mudanças de andamento, refrão para todo mundo cantar junto, ou seja, tudo o que “Alexander the Great” também tem. E convenhamos, é uma grande música! A meu ver, essa faixa evoluiu de um sonho de ser vista ao vivo para uma presença essencial nos shows. Sei que há tempos o Iron Maiden já não se importa com singles, mas para fechar com chave de ouro poderia sair um com uma versão ao vivo dela.

Queria falar um pouco para não deixar passar sobre a performance da banda nesses primeiros shows. É nítido que o entrosamento entre eles ainda não está perfeito. Ainda mais quando se tem tantas músicas que pouco ou nunca tinham sido tocadas. Isso não é nem uma crítica e acho bastante natural. Passados alguns shows certamente tudo vai se acertar. Inclusive o fato da banda iniciar sua turnê longe dos grande centros e dos principais festivais certamente tem a ver com isso. Vejam o descompasso entre os instrumentos em “Wasted Years” no show desse link a partir de 1:51:00. Entretanto os relatos de quem foi aos shows mais recentes já dizem que as coisas estão se ajeitando.

Para finalizar um detalhe que talvez poucos pegaram. Na música “The Time Machine” uma imagem aparece no fundo do palco parecida com a capa do single de “Wasted Years”. A diferença é que na tela da imagem está o Eddie do Senjutsu incorporado com o do Somewhere in Time e na parte de baixo no painel estão 3 datas: 25/12/1975 que marca o nascimento da banda naquele histórico show de natal, 03/09/2021, data de lançamento de Senjutsu e 29/09/1986 que é a data de lançamento de Somewhere in Time.

Depois de tudo isso agora é esperar a oportunidade de assistir à esses shows. As datas dos shows no Brasil ainda não foram divulgadas, mas é certo que em algum momento de 2024 isso vá acontecer. Agora fica a dúvida: qual vai ser a próxima música que os fãs vão encher o saco para a banda finalmente tocar? Tenho algumas ideias, mas se fosse para falar uma seria “To Tame a Land”. E aí, está ansioso para quando esses shows passarem aqui pelo Brasil? Comente aqui embaixo sobre o que achou do set list e o que acha que vai acontecer no futuro da banda. Será essa a última turnê?

 

13 comentários sobre “Impressões sobre The Future Past Tour

  1. Sem dúvidas um set list de respeito. É claro que gostaria de ver a dobradinha (ou ao menos uma delas) Powerslave/Rime of the Ancient Mariner, mas não dá para colocar todos os clássicos juntos, não é mesmo. Na torcida para se lembrarem do Brasil “em algum lugar” (pegue a referência) de 2024. Belo texto!

    1. Bem…Powerslave/Rime of the Anciente Mariner já tiveram juntas em algumas oportunidades. Não acredito que voltem mais. O Iron Maiden tem material para fazer 3-4 set lists de respeito sem repetir nenhuma música. Certamente teremos shows aqui no Brasil em 2024. Estou na expectativa.

  2. Conforme falamos por esses dias, realmente essa turnê está bem interessante sob aspecto de setlist. Como pude comprovar no último show do dia 19 de Junho em Zurique-Suíça, a banda tocou bem redondinha e com muita empolgação. Eles encontraram um melhor encaixe das músicas e elas estão funcionando muito bem ao vivo, principalmente a “Death of the Celts” e a “Hell on Earth”.
    É impressionante como o Senjutsu está sendo bem explorado pela banda, pois nada mais, nada menos, foram duas turnês tocando ao todo 7 músicas desse novo álbum, marca essa que se torna impressionante, pois, se não me falha a memória, foi alcançada somente na turnê do “The Matter of Life and Death”, onde as músicas foram executadas na íntegra e claro, com reclamações.
    Alé da TWOW ainda acrescentaria a “Hell on Earth” nessa lista de clássicos e tenho quase certeza que será executada em uma próxima turnê de um novo álbum. O jogo de pirotecnia adicionado nessa faixa, foi sensacional e algo memorável.
    Quem sabe em uma nova turnê, possamos ver algo do tipo “Infinite Dreams”, “Deja-Vu” ou mesmo a esquecida e não menos clássica “Bring Your Daughter To The Slaughter”, quem sabe…

    1. Vou fazer esse levantamento. Tem que tirar o AMOLAD e fazer a ressalva que o primeiro que foi tocado inteiro muitas vezes quando a banda só tinha esse disco….

  3. Acredito que essa tour, mais que uma grande realização do sonhos de muitos fãs, é a oportunidade de poderem ouvir e ver ao vivo clássicos do Somewhere in time e poder apreciar o Senjutsu que é um álbum fantástico, muitos estarão vendo a banda pela primeira vez e acredito que será inesquecível. Por outro lado também acredito que seja uma grande realização pessoal para Steve Harris que nunca escondeu o desapontamento por não terem registrado a Tour de 1986, agora é torcer para que seja lançado em Blu-ray/DVD além dos outros formatos, para eternizar esse momento.

    1. Não acredito que eles lancem um blu/ray. Quem sabe se fizerem um earbook no estilo que o Marillion fez talvez saia, mas não sei. Obrigado por chamar a minha atenção à um erro do texto que passou batido mesmo eu tendo lido trocentas vezes para editá-lo. A música Stratego não faz parte dessa turnÊ. Foi tocada na segunda parte da Legacy of the Beast e não está presente agora. Devo ter lembrado dela por conta da memória da turnê anterior e deixei passar. Muitas vezes eu vou escrevendo de qualquer jeito e só depois volto arrumando e é um erro que deixei passar.

  4. Mais uma turnê da donzela de ferro… Porém eu tiraria essa chatice do “Fear of the Dark” desse novo setlist e colocaria “The Duellists” no lugar dela (essa canção de 1984 foi feita para levantar a galera nos shows e a própria banda não reconhece… que pena!). Mas fico feliz que o Iron Maiden finalmente está revisitando depois de tanto tempo quase todo o Somewhere in Time (1986) ao vivo nessa nova turnê, já que este para mim foi o último disco realmente deles nos anos 80 – doa a quem doer, mas é a mais pura e sincera verdade. Up the Irons para todos os consultores!

    1. Sua opinião sobre a carreira da banda já é conhecida Igor. Ainda bem que é a SUA, não é? Sobre The Duellists eu fiquei pensado. Fosse ser outra música eu escolheria Flash of the Blade. Gosto mais dela do que The Duellists desde que conheci o disco. Do Powerslave só Back to the Village que acho mais fraca. Spbre Fear of the Dark estou cada vez mais convencido que tirar ela seria como tirar Smoke on the Water de um show do Deep Purple.

      1. Também gosto de “Flash on the Blade”, Fernandão… É outra que eu também curto muito da banda, e que gostaria de ver sendo tocada nessa nova turnê substituindo talvez a “Can I Play with Madness” (gravada naquele disco da donzela do qual já disse aqui inúmeras vezes que eu NÃO GOSTO – acho que você já sabe qual). Concordo também que “Back in the Village” seja a mais fraca do Powerslave, meio deslocada, mas muito boa de qualquer modo. Para dizer a verdade, creio eu que você já sabe que eu simplesmente AMO todo o disco Powerslave (gosto mais dele do que o The Number of the Beast), marco de 1984 do Maiden, que disputa com Selling England by the Pound (Genesis) o posto de “melhor álbum de todos os tempos” do meu top 10.
        E quanto ao Deep Purple, digo-lhe que “Smoke on the Water” já encheu a paciência de muita gente incluindo a minha (nem a própria banda aguenta mais!), e já passou da hora mesmo da banda retirar esta canção de seus setlists de shows atuais em favor de outras…

    2. Correção: “já que este para mim foi o último disco realmente BOM deles nos anos 80 – doa a quem doer, mas é a mais pura e sincera verdade”.

  5. Eu sou fã do Iron Maiden desde 1985, quando comprei o “Live After Death” – ainda o melhor álbum ao vivo lançado na década de 80, na minha opinião – e, embora tenha passado algum tempo sem comprar os discos novos, completei minha coleção alguns anos atrás. E nunca fui assistir um show deles, por uma única razão: todas as vezes que eles vieram ao Brasil e poderia ter ido, os setlists não me interessavam. Agora, nessa atual turnê, eu tenho vontade de assistir ao show. Cada fã do Iron Maiden tem sua setlist dos sonhos, e na atual tem muita coisa que não faz parte da minha, mas pela primeira vez em muito tempo o grupo está ousando algo diferente. E para falar a verdade, a única música que tiraria do setlist atual seria a já citada “Fear of the Dark”, que substituiria de bom grado por “Powerslave”.

  6. Setlist bem bacana, mas realmente “Fear of The Dark” já cansou um pouco. Colocaria no lugar dela “Rime Of The Ancient Mariner” ou “Die With Your Boots On”.

  7. Não dá para dizer que a banda resolveu “pregar para convertidos”, tocando só aquelas mesma 12 ou 14 músicas de sempre, incluindo uma ou outra música do disco novo. Há alguma ousadia nesse setlist. Mesmo assim, é um reflexo dos últimos 15 anos da banda, que lançou discos chatíssimos, com músicas intermináveis, supostamente “progressivas”, mas que não chegam a lugar algum. Aí, o jeito é recorrer aos clássicos, ainda que existam algumas surpresas. Como os últimos 4 discos da banda são tão esquecíveis que eu duvido que os próprios integrantes sejam capazes de citar 3 músicas de cada um deles, é natural recorrer à melhor época da banda para continuar se mantendo relevante. O Iron Maiden ainda é uma banda importante e vou ficar bem triste quando eles pararem de excursionar. Mas, sinceramente, não aguento mais discos duplos com meia dúzia de músicas com 10 minutos cada uma.

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