Por Fernando Bueno

Em 1981 o Motörhead já era tratado como banda veterana. Seu álbum de estreia tinha sido lançado há 4 anos e desde então já havia 5 álbuns enfileirados – aqui eu considero o On Parole, lançado oficialmente em 1979, nessa conta. As coisas aconteciam muito mais rápidas no mundo da música nas décadas de 70 e 80. Não podemos esquecer que o próprio Lemmy já tinha uma bagagem anterior por ter participado do Hawkwind antes de sua própria banda.

É comum no mundo corporativo, no esporte ou em algum hobby um veterano agir como uma espécie de tutor para um novato e as bandas de abertura nem sempre têm a sorte de acompanhar um artista mais solícito. Porém foi exatamente o que o Girlschool encontrou na banda de Lemmy Kilmister. Lemmy tomou conhecimento da banda logo após o lançamento do primeiro single das garotas, “Take It All Away” (1978). O interesse levou Lemmy e seu agente a ver um show delas e ambos ficaram surpresos. Acertaram para que elas participarem de alguns shows da turnê de Overkill (1979) e Doug Smith, o agente, assinou com a banda.

Eddie Clarke, Kim McAuliffe, Phil Taylor, Denise Dufort, Enid Williams, Lemmy e Kelly Johnson

A New Wave Of British Heavy Metal estava em início de ebulição e foi o momento perfeito para que uma banda somente de mulheres fosse uma adição perfeita para o movimento. Demolition (1980), seu álbum de estreia, saiu ainda em 1980, um ano mágico para o heavy metal inglês. Se você não lembra, procure os discos que foram lançados nesse ano na ilha do Reino Unido e surpreenda-se.

O encontro das duas bandas em estúdio foi sugerido por Vic Maile, um produtor já bastante rodado e experiente. Aproveitou-se que o baterista Phil Taylor estava afastado por conta de uma lesão no pescoço e impedido de tocar. O Girlschool estava em estúdio para gravar seu segundo disco, Hit and Run (1981), que pode ser considerado o principal disco da carreira das meninas. Já o Motorhead estava em turnê do principal disco de sua história, Ace of Spades (1980). Maile propôs a gravação de um EP em que a baterista Denise Duford faria todas as partes de seu instrumento. Uma faixa seria tocada pelo conjunto das duas bandas, “Please Don’t Touch” uma música de Johnny Kidd & The Pirates, gravada em 1959, e um dos clássicos do rock preferido de Lemmy. E sabe quem foi o produtor que ajudou a lançar a versão original de “Please Don’t Touch”? Sim, a resposta é Vic maile. Junto disso cada uma das bandas gravou um cover da outra. O Motorhead gravou “Emergency”, faixa do lado B do disco de estreia do Gilrschool, já elas ficaram com o clássico “Bomber”, faixa título do terceiro disco dos veteranos.

O EP saiu em fevereiro de 1981 com o nome de St. Valentine’s Day Massacre e foi um sucesso. Atingiu o número 5 das paradas e foi lançado tanto em 7”, quanto em 10”. Chegaram a participar do Top of the Pops tocando essa música em 19 de fevereiro de 1981. A curiosidade é que Eddie Clarke foi o cantor principal e não o Lemmy no cover que o Motorhead gravou e Phil Taylor, que não podia tocar foi creditado pela inspiração e insultos. Recentemente uma versão Picture em 10” foi disponibilizada em uma edição da Record Store Day.

O mais interessante desse material feito em conjunto é notar que o tipo de som das duas bandas era muito similar. A raiva, a simplicidade e a energia eram as mesmas. Quando você ouve uma música de uma banda tocada pela outra imagina perfeitamente ela presente em um de seus discos se encaixando perfeitamente ao repertório. Claro que o fator de maior diferença entre o som é a da voz única de Lemmy com o vocal bem agudo das moças – no início elas se revezavam na função.

Muito é especulado do que aconteceu nessa turnê das duas bandas. O possível relacionamento deles com as moças é até um clichê de ser imaginado, mas de efetivo mesmo temos notícia da grande parceria entre todos os envolvidos nas mesas dos bares e o curto envolvimento entre Lemmy e a guitarrista e vocalista Kelly Johnson. Lemmy, inclusive, elogia muito a guitarrista e disse que em alguns momentos ela chegava a lembrar Jeff Beck, uma baita honra para qualquer guitarrista. Claro que o Motorhead não apenas ajudou as integrantes do Girlschool, pois a influência que Lemmy teve sobre as garotas também foi de alguma forma maléfica já que foi o mesmo que as apresentou ao speed e a cocaína.

Para os interessados existe um outro lançamento creditado às duas bandas. Aliás, muitas vezes as coisas ficam bem confusas aqui pois em alguns sites relacionam essa parceria como Motorhead/Girschool, outros como Motorheadgirlschool e até mesmo como Motorschool ou Headgirl – em um conhecido bootleg ao vivo gravado em um dos shows dessa turnê é creditado como Headgirl. Mas na discografia do Motorhead temos um single, lançado somente na Holanda em 12” com duas versões em vinil preto e em vinil vermelho (raríssimo), para “Stay Clean” em uma versão ao vivo tocada pelas duas bandas, contendo “Please Don’t Touch”, em uma performada somente pelo Motorhead e “Demolition Boys” tocada pelo Gilschool no lado B. A piada é e presença de Phil Taylor em ambas as capas vestido com um colar cervical e gravata borboleta.

O Motorhead já tinha feito uma turnê com o Saxon algum tempo antes dessa em questão. O clima de camaradagem e tutoria é algo que Byff Byford nunca deixou de relembrar. Isso mostra um pouco do motivo do Motorhead ser tratado com tanto respeito não só pelos fãs, mas também entre os músicos provando que eram pessoas diferenciadas no meio.

Pelas fotos do single o leitor mais atento pode notar que todos estão vestidos como gangsters com ternos e metralhadoras. Poucos sabem que esse visual tem faz referencia ao Massacre do Dia de São Valentin, que aconteceu em Chicago no dia 14 de fevereiro de 1929 – o single foi lançado exatamente nesse dia em 1981. Sete pessoas foram assassinadas e todas faziam parte da gangue rival à de Al Capone, porém este nunca foi acusado formalmente pelo crime. As autoridades não conseguiram relacioná-lo por conta de um forte álibi que ele apresentou. Esse é considerado um dos maiores crimes não solucionados na histórias das gangues.

5 comentários

  1. Reginaldo Santos

    Meu hall the bandas é limitado, mas só pelo Jeff Beck, deu uma “vontadinha” de ouvir um pouco de Girlschool.

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    • Anselmo Cavalcante

      MINHA BANDA DO CORAÇÃO, MOTÖRHEAD!
      CARREGAREI ATÉ O FIM DOS MEUS DIAS UM PROFUNDO ARREPENDIMENTO DE NÃO TER IDO VER UM SHOW DA BANDA!

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      • Fernando Bueno

        Eu vi no Monsters de 1995…
        Mas na época eu nem conhecia tanto a banda.

  2. Marcello

    Conheci duas das músicas (“Please Don’t Touch” e “Emergency”) por meio da coletânea “No Remorse” – ainda a melhor introdução ao Motörhead disponível por aí! – e sempre curti muito as duas bandas juntas na faixa-título. Girlschool é uma banda muito legal, especialmente nos primeiros discos (“Demolition” e “Hit and Run”), que ainda está na ativa, mesmo tendo perdido Kelly Johnson.

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    • Fernando Bueno

      Recentemente foram lançados aqui no Brasil os 4 primeiros discos do Girlschool. É uma excelente aquisição que (quase) mata o que de melhor a banda fez.

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