Por Micael Machado

No ano de 2000, o bardo canadense Neil Young estava enfrentando alguns problemas com seu longínquo casamento junto à sua então esposa Pegi Young (os dois viriam, efetivamente, a se divorciar em 2014), quando levou o seu melhor grupo de apoio em todos os tempos, o Crazy Horse (formado à época por Frank “Poncho” Sampedro nas guitarras e backing vocals, Billy Talbot no baixo e backing vocals, e Ralph Molina na bateria e também nos backing vocals), para dentro do estúdio Toast, em San Fancisco, visando registrar um novo álbum de composições inéditas. Mas os problemas pessoais de Neil acabaram transparecendo tanto nas letras quanto nas músicas registradas nestas sessões, e nem uma pausa nas gravações para uma turnê pela América do Sul no começo do ano seguinte (onde, dentre outros concertos, o canadense e o Cavalo Doido se apresentariam pela primeira – e, até agora, única – vez no Brasil, no Rock in Rio 3 de 2001) animou muito as coisas para o cantor, que acabaria abandonando em seus arquivos as faixas gravadas ao lado de seus velhos comparsas, e iniciando um novo projeto ao lado do lendário grupo de soul music Booker T. & the M.G.’s, que viria a ser lançado em 2002 sob o nome Are You Passionate?, trazendo, em algumas faixas, novas versões para algumas das músicas trabalhadas com o Cavalo Doido no ano anterior, sendo que o maior destaque do álbum (ao menos para mim), a faixa “Goin’ Home”, foi registrada durante aquelas sessões, sendo, desta forma, a única do álbum citado a contar com a participação do Crazy Horse (ainda que Frank Sampedro também faça parte do time de músicos que gravou o restante do álbum de 2002).

Ao longo dos anos, Neil chegou a comentar algumas vezes sobre a possibilidade de lançar oficialmente aquelas gravações abandonadas registradas em San Francisco, sendo que a ideia ganhou mais força quando o canadense e seus fiéis aliados voltaram a se reunir em 2011 para as sessões que resultariam nos álbuns Americana (do mesmo ano) e Psychedelic Pill (de 2012). Mas, como tantas vezes aconteceu ao longo da extensa carreira de Young, o lançamento do disco acabou sendo adiado várias e várias vezes, sendo que apenas em 2022 Toast, o álbum oficial com aquelas faixas registradas em 2000, viria a ser lançado no mercado, nas versões CD, vinil duplo (com o quarto lado em branco, ou “etched”) e nas hoje obrigatórias plataformas digitais.

Neil Young e o Crazy Horse ao vivo no Rock In Rio 3 de 2001

Das sete faixas de Toast, apenas três não apareceram em versões diferentes em Are You Passionate?. Uma delas, a “suingada” “Gateway of Love” (e seus mais de dez minutos), até constou na contracapa daquele álbum, embora efetivamente não fizesse parte do disco. Esta música chegou a ser executada diversas vezes ao vivo por Young desde então, assim como a agitada “Standing in the Light of Love”, um dos grandes destaques de Toast, e da qual é possível encontrar várias versões ao vivo no youtube, inclusive uma apenas com a voz e o violão do bardo canadense, mas não menos interessante. Assim sendo, apenas o rockão “Timberline” (que me lembra algumas faixas de álbuns como Ragged Glory ou Broken Arrow) acaba sendo realmente “inédito” neste novo registro, sendo, as três, a melhor parte deste novo disco, ao lado de “Goin’ Home”, que reaparece aqui na mesma versão já disponibilizada antes no álbum de 2001.

Daquele disco, reaparecem “Quit” (em uma versão um pouco mais crua daquela que, para mim, é um “destaque menor” o registro de 2001, e que aqui perdeu o subtítulo “Don’t Say You Love Me”), “Mr. Disappointment” (rebatizada como “How Ya Doin’?”, com uma duração maior e alguns solos de guitarra adicionais) e “She’s a Healer” (que virou “Boom Boom Boom”, ganhou quase quatro minutos – passando, assim, dos treze ao total – e alguns solos de guitarra bastante interessantes, mas que ainda não fizeram com que ela se destacasse aos meus ouvidos).

Contracapa da versão em CD de Toast

Ao final da audição, fiquei com a impressão de que os pouco mais de cinquenta minutos de Toast acabam sendo válidos mesmo pelas três faixas “inéditas”, todas com destaque dentre tantas faixas medianas que o bardo canadense lançou ao longo deste século. Mas o mérito maior é colocar “Goin’ Home” ao lado de outras músicas do mesmo nível que ela, além de tornar praticamente dispensável a audição de Are You Passionate? daqui em diante (não fosse a presença de outra faixa interessante lá, a roqueiraça “Let’s Roll”, depois de conhecer estas “novas versões” para as músicas citadas certamente o álbum de 2001 não sairia tão cedo da prateleira para circular no meu CD player). Como já disse recentemente em uma resenha sobre o álbum Barn, Toast acaba sendo um disco “menor” na extensa carreira do bardo canadense, mas pode ser considerado um dos destaques dentre os lançamentos de Neil Young neste século. Confira!

Track List:

1. Quit

2. Standing In The Light Of Love

3. Goin’ Home

4. Timberline

5. Gateway Of Love

6. How Ya Doin’?

7. Boom Boom Boom

1 comentário

  1. Marcello

    Conclusão certeira: um disco bom para os padrões de Neil Young no século XX, mas apenas mediano se colocado contra os melhores de sua longa carreira. Mas, na verdade, só ouvi uma vez! E como o velhinho não para, acaba de ser anunciado mais um ao vivo, gravado com o Promise of the Real.

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