Por Micael Machado

Arte por Pablo Ribeiro

O 20 de setembro de 1835 marca o início da Revolução Farroupilha, data até hoje lembrada e comemorada no Rio Grande do Sul. Com colaboradores gaúchos, e (afirmo pretensiosamente) centenas de leitores identificados com o estado, seja por afeição ou nascimento, este post vem trazer algumas novidades para aqueles que pensam que no RS apenas Engenheiros do Hawaii e Nenhum de Nós pegaram “em armas” durante a explosão do Rock Brasileiro nos anos 80 do século passado. Cinco discos (sendo três coletâneas, os famosos “paus-de-sebos” da época) que repassam bem o panorama da época, servindo de apresentação do rock gaúcho a quem não o conhece, e uma forma de relembrar os “bons tempos” para aqueles que viveram a época!

Quero também afirmar que este post não tem nenhuma intenção de ofender os outros estados da Nação ou seus habitantes, muito menos passar a ideia de que o Rio Grande do Sul seja de alguma forma melhor do que os outros. Aqui no Consultoria do Rock, sempre falamos de bandas de todas as partes do país (e de fora) com o mesmo respeito, pois acreditamos que exista apenas música boa e música ruim, independente do estilo ou de onde foi feita! Da mesma forma, ele serve como homenagem aos “gaúchos e gaúchas de todas as querências” (como diria um famoso apresentador da TV local) nesta data marcante, e para aqueles que gostam de rock “do bom”, independente de onde ele tenha sido composto!

Com vocês, cinco discos para conhecer o rock feito “Longe Demais das Capitais”!


Vôo Livre – Vôo Livre [1981]

Surgido no final dos anos 1970, este trio da cidade de Pelotas se mudou para Porto Alegre no começo da década seguinte, e lançou em 1981 este que é considerado o primeiro disco de rock totalmente gravado e produzido na capital gaúcha. Com muitas influências do rock setentista em suas seis faixas, destaco as longas instrumentais “PZ4429″ (que parece sintetizar as influências do grupo, com partes de fusionhard rock, progressivo e até blues) e “Viagem” (que tem cara de hard rock dos anos setenta), sendo que “Hey” e “Pôr Do Sol” lembram as faixas mais “roqueiras” do Terço e dos Mutantes em suas fases dedicadas ao rock progressivo. “Visão” tem traços mais progs, com um belo solo de guitarra ao final, e “Chuva Forte” equilibra os lados hard e prog do grupo. O vinil original virou uma raridade, mas a gravadora Editio Princeps lançou uma edição remasterizada em CD do mesmo em 2011, acrescendo duas faixas bônus resgatadas das sessões para o que seria o abortado segundo disco do trio em 1985 (“Vôo Livre” e “Chamada A Cobrar”), além de “Tempo Futuro”, música retirada da também rara coletânea Porto Alegre/Rock, lançada no mesmo ano de 1985.

Faixas:

1. Hey

2. Visão

3. Viagem

4. Chuva Forte

5. PZ4429

6. Pôr Do Sol

7. Vôo Livre [Faixa bônus na edição em CD]

8. Chamada A Cobrar [Faixa bônus na edição em CD]

9. Tempo Futuro [Faixa bônus na edição em CD]


Rock Garagem [1984] 

Produzida por Ricardo Barão, que era apresentador da então iniciante Rádio Ipanema FM (sem dúvidas a mais importante rádio rock da capital gaúcha), e sempre dava uma força para as bandas locais em seus programas, esta coletânea foi a primeira oportunidade de ter uma música gravada para dez grupos que se destacavam na cena de Porto Alegre, e traz uma interessante mistura de estilos, como o blues de Moreirinha e Seus Suspiram Blues, a new wave do Fluxo (com toques de pós-punk) e do Urubu Rei (que registrou aqui o clássico cult “Nega”, e tinha nos vocais Carlos Eduardo Miranda, que depois viraria crítico e empresário musical, sendo um dos responsáveis pelo lançamento dos Raimundos), o rock a la Stones dos Garotos da Rua e do Taranatiriça (que contava com os vocais de uma lenda do rock gaúcho, Alemão Ronaldo, ex-Bixo da Seda e futuro Bandaliera), o punk básico d’Os Replicantes e o heavy metal de Frutos da Crise, Valhala, Leviaethan (que, como todos os outros grupos presentes na bolachinha, tinha na época letras em português, mas depois passaria a cantar em inglês, e registraria dois dos melhores discos do metal gaúcho, Smile, de 1990, relançado em CD em 2012, e Disturbed Mind, de 1992) e Astaroth (que comparece com “Deuses Vencidos”, depois incluída no LP Na Luz da Conquista, do ano seguinte, clássico do heavy metal gaúcho, relançado em CD em 2011). Poucas bandas conseguiram manter uma carreira constante após este lançamento, mas ele é um marco por ter sido idealizado, produzido, gravado e lançado por uma rádio (a citada Ipanema FM) e uma gravadora (a ACIT) totalmente gaúchas, sem interferências e influências do centro do país. No ano seguinte, sairia o segundo volume, e, já nos anos 1990, um terceiro, este voltado para as bandas que estavam surgindo na época.

Faixas:

1. Rockinho (Taranatiriça)

2. Nega (Urubu Rei)

3. Levaram Ele (Garotos da Rua)

4. Nosso Amor Dançou (Fluxo)

5. Expresso dos Blues (Moreirinha e Seus Suspiram Blues)

6. Deuses Vencidos (Astaroth)

7. Satânica Viagem (Frutos da Crise)

8. Terra de Ninguém (Valhala)

9. Guerreiros das Ruas (Leviaethan)

10. Principio do Nada (Os Replicantes)


Rock Grande do Sul [1985]

Este é considerado o disco que possibilitou que o rock gaúcho atravessasse as fronteiras do estado em direção ao resto do país! Lançada em 1985 pela gravadora multinacional RCA, esta coletânea foi uma forma do selo testar a popularidade de alguns artistas gaúchos em que pensava investir. Assim, foram selecionados os novatos Engenheiros do Hawaii (que aqui comparecem com “Sopa de Letrinhas” e “Segurança”, em versões diferentes das presentes no disco de estreia, Longe Demais das Capitais, do ano seguinte), DeFalla (aqui mais próximos do rock inglês e do punk, sendo que o grupo seguiria diversas tendências ao longo da carreira, chegando a registrar de heavy metal funk carioca em sua discografia), TNT (com seu rock com toques de anos 50), Os Replicantes (com a primeira versão do hino “Surfista Calhorda”) e Garotos da Rua (com outro hino do rock gaúcho, “Tô de Saco Cheio”) – sendo que estas duas últimas também estavam presentes na coletânea citada acima. Com a repercussão e o sucesso do disco, todas as bandas acabaram tendo suas estreias “solo” lançadas pelo selo no ano seguinte (menos o Defalla e o TNT, que tiveram seus primeiros full lenghts lançados apenas em 1987), sendo que, inegavelmente, os Engenheiros foram os que conquistaram mais sucesso a nível nacional, embora as demais sejam cultuadas até hoje no Rio Grande do Sul!

Faixas:

1. Sopa de Letrinhas (Engenheiros do Hawaii)

2. Surfista Calhorda (Os Replicantes)

3. Entra Nessa (TNT)

4. Sozinho Outra Vez (Garotos da Rua)

5. Você Me Disse (DeFalla)

6. Tô de Saco Cheio (Garotos da Rua)

7. Segurança (Engenheiros do Hawaii )

8. Estou na Mão (TNT)

9. Instinto Sexual (DeFalla)

10. A Verdadeira Corrida Espacial (Os Replicantes)


Rio Grande do Rock [1988] 

Talvez a última coletânea realmente relevante lançada nesta década, este disco traz uma “segunda geração” do rock gaúcho, criada a partir do sucesso obtido pelas bandas presentes nos “paus-de-sebos” abordados acima. Com a presença do estilo totalmente particular de Julio Reny & Expresso Oriente, a estreia do rock safado d’Os Cascavelletes, a new wave da Prize e o pós-punk do Apartheid (cujas duas faixas lembram muito o The Cure pré-1985) e da Justa Causa (que depois penderia mais para o hard rock em suas músicas), serviu para mostrar que as sementes plantadas três ou quatro anos antes começavam a dar frutos, e que o rock gaúcho já tinha condições de gerar e manter bandas de muita qualidade, fato que só continuou nos anos e décadas seguintes!

Faixas:

1. Expresso Oriente (Julio Reny & Expresso Oriente)

2. Roleta Russa (Apartheid)

3. Forças do Interesse (Prize)

4. Exilados (Justa Causa)

5. Estou Amando Uma Mulher (Os Cascavelletes)

6. Morte Por Tesão (Os Cascavelletes)

7. Status (Justa Causa)

8. Críticos (Apartheid)

9. Anita (Julio Reny & Expresso Oriente)

10. Brasil (Prize)


Bandaliera – Ao Vivo [1991]

Apesar de formada nos anos 1980, a Bandaliera teve apenas um EP com quatro faixas lançado naquela década, sendo que este é seu primeiro full lenght. Registrado na lendária Taj Mahal (famosa casa de shows da época na capital gaúcha), Bandaliera – Ao Vivo é considerado o primeiro disco ao vivo de rock gravado e produzido no RS (o Engenheiros já havia lançado Alívio Imediato em 1989, mas o álbum foi gravado no Rio de Janeiro), e traz clássicos do porte de “Campo Minado” e “Nosso Lado Animal” (única do primeiro EP a comparecer na bolachinha). O hard rock com toques de Stones perpetrado pelo grupo aparece bem na mais pesada “Via A Sua Imagem”, em “Arreda” e “Nova América” (que conta até com linhas de sax em seu arranjo), além de o disco ainda ter espaço para a balada “Viva a Nossa Vontade”, que chegou a ser bem executada nas rádios gaúchas. A versão em CD conta com uma faixa escondida, na verdade um solo de quase quatro minutos do saudoso guitarrista Marcinho Ramos, falecido em 1994. Com diversas formações, mas sempre com o lendário Alemão Ronaldo à frente, o grupo seguiu uma carreira constante ao longo da última década do século passado, com o cantor depois partindo para uma carreira solo, sem nunca esquecer de executar em seus shows os grandes hits de sua mais importante criação!

Faixas:

1. Via A Sua Imagem

2. Tempo Feiticeiro

3. Erosão

4. Viva a Nossa Vontade

5. Caminhos e Algo Mais

6. Arreda

7. Nova América

8. Nosso Lado Animal

9. Campo Minado

Ao longo da década de 1990 e de todo o século XXI, o Rio Grande do Sul seguiu produzindo rock de qualidade, em diversos estilos. Grupos como Apocalypse, Poços e Nuvens, Van Züllath, Raiz de Pedra, Panic, Krisiun, Hangar, Sceleratta, Tequila Baby, Procurado Vulgo, Reação em Cadeia, Pata de Elefante, Ultramen, Cidadão Quem, Maria do Relento, Papas da Língua, Comunidade Nin-Jitsu e infindáveis outros deram sequência a uma estrada iniciada lá atrás pelo Liverpool e o Bixo da Seda, e que ainda hoje é trilhada por muitos gauchinhos iniciantes em seus instrumentos, dispostos a atravessar as fronteiras do estado “detonando o rock and roll“, como dizia o hino da Bandaliera! Força a todos eles!

Estamos longe demais das capitais!

3 comentários

  1. Mairon

    O Rock gaucho dos anos 80 é o mais conhecido no país, mas não o melhor. Prefiro a década de 70, com bandas que souberam utilizar o conteúdo lisérgico da época de uma forma brilhante. Essas coletâneas são realmente essenciais aqui no Sul.

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  2. André Kaminski

    Rio Grande do Sul tem uma das minhas cenas preferidas em termos de bandas de qualidade. Mairon, aproveitando a dica que deu acima, recomende algumas bandas gaúchas setentistas para darmos aquela pesquisada básica

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    • Mairon

      Cara, banda gaúcha dos anos 70 realmente vou ficar devendo. Quando citei acima falei no âmbito geral do país, não aqui no RS (talvez minha escrita tenha dado uma interpretação equivocada). Mas claro, dá para citar o Almôndegas, de onde saíram Kleiton & Kledir, Os Tápes, que usavam muito a sonoridade do pampa em suas músicas, e também a Liverpool (que virou o Bixo da Seda),

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