Por Fernando Bueno

Todo mundo que gosta de Metallica deve conhecer o nome de Brian Slagel, proprietário da gravadora Metal Blade Records. Ele foi o responsável pelo lançamento de grupos como Steeler (de Yngwie Malmsteeen), Ratt, Malice e o próprio Metallica. À exemplo de Lars Ulrich, Slagel era um fanático pelo que as, então estreantes, bandas inglesas estavam começando a produzir no que se convencionou a se chamar de NWOBHM. Ele encontrou no Warlord, uma banda americana iniciante, como um espelho das inglesas dessa época e viu uma boa possibilidade de aposta.

Brian Slagel começou a produzir coletâneas de bandas recém formadas em uma série de discos, hoje clássicas, chamada Metal Massacre. Metallica e Cirith Ungol, as já citadas Steeler, Malice e Ratt e outras mais desconhecidas como Demon Fignt e Bitch, apareceram pela primeira vez em disco nessas coletâneas. A primeira edição da Metal Massacre saiu no início de 1982 e a segunda saiu alguns meses depois com bandas como Armored Saint, Savage Grace e o Trauma (que ainda tinha Cliff Burton como baixista). O Warlord estreou em disco nessa segunda edição com “Lucifer´s Hammer”. A banda ainda iria aparecer ainda na terceira edição com “Mrs Victoria”. Segundo o guitarrista Tsamis o Warlord foi a primeira banda a ser contratada para essas coletâneas,mas a falta de um vocalista na época os impediu de participar logo da primeira edição. Ao todo o Metal Massacre tem quinze edições, sendo a última lançada em 2021. Todos esses volumes são itens de colecionadores.

Sendo uma banda de Los Angeles, o Warlord tinha receio de ser classificada como mais um grupo da crescente onda de hard rock californiano que ficou conhecido na história como hair metal ou glam metal. Seus integrantes usavam pseudônimos como Destroyer, Thunder Child, Damien King, The Raven e Sentinel e queriam manter uma aura de mistério em torno de seu nome. Ainda em 1983 lançam Deliver Us, um EP de seis faixas que chamou atenção de muita gente, inclusive de publicações como a Kerrang.

Porém, em uma atitude muito diferente do que todas as bandas da época tomaram, resolveram se lançar ao mercado, apresentando-se como um produto, sem ter um full lenght ou outro registro de disco. Alugaram um teatro e prepararam um show, sem audiência, onde apresentariam algumas músicas do EP mais faixas inéditas de singles recentes em um VHS que serviria como uma espécie de cartão de vistas. A ideia era aproveitar as excelentes críticas de seu EP de estreia, se apresentar visualmente para o mercado, vender a banda como uma nova aspirante ao topo do metal mundial e, claro, conseguir um bom contrato com alguma gravadora. Cabe aqui dizer que a formação mudou depois de Deliver Us com a saída de Jack Rucker (Damien King) e a entrada de Rick Cunningham (Daniel King II) nos vocais. Em tempo, o Warlord de And the Cannons of Destruction Have Begun tinha o já citado Rick Cunningham (Damien King II) nos vocais, Mark Zonder (Thinder Child) na bateria, Dave Watry (Archangel) no baixo, Diane Kornarens (Sentinel) nos teclados e o líder William J Tsamis (Destroyer) na guitarra.

Temos que lembrar que em 1984 a MTV já tinha se estabelecido como um excelente canal de divulgação para as bandas iniciantes ou não. Então ter vídeos profissionais da sua banda era algo até obrigatório. Para a empreitada foram convidados alguns alunos de cinema da Universidade de Los Angeles, que aproveitariam a oportunidade para ganhar horas de experiência para seus currículos.

Mas por que não fazer um show ao vivo com plateia e gravá-lo? A razão para isso foi a inexperiência da equipe de alunos responsável pela parte técnica que não sabiam como instalar todo o equipamento de filmagens e captação de som. A banda apostou que a equipe saberia o que estava fazendo, mas no momento que tudo começou todos perceberam que as coisas não sairiam do jeito que estavam imaginando. Foram necessárias quatorze horas para concluírem a filmagem de todas as músicas. Muita gente que assistiu na época ainda imaginou que tudo foi feito em uma tomada só. As gravações, no final, ficaram todas irregulares. Quando não era uma câmera que faltou em uma música toda, foi o som que sumiu em outra, uma bagunça só. Não podemos deixar de citar que Tsamis já comentou que a gravação não foi ao vivo de fato por que, segundo ele, o vocalista da época não segurar o show todo. A verdade é que mesmo o público não estava acostumado a ter um material desses em mãos, então, quem viu e ouviu tudo na época não sabia nem mesmo avaliar tudo isso. A curiosidade fica por conta da máquina de fumaça que foi emprestada pelo Slayer.

Capa alternativa lançada em 2015

O material gravado foi basicamente o set list completo do EP Deliver Us com o acréscimo de “Lost and Lonely Days”, “Soliloquy” e “MCMLXXXIV”. Por muito tempo só era possível ouvir esse material e essas novas músicas por esse VHS, só algum bom tempo depois isso saiu em disco e mesmo assim com a capa trazendo a informação “Video Soundtrack”. É interessante ouvir tudo na sequência e perceber a diferença entre os timbres dos vocalistas e notar que ambos se encaixavam muito bem no som do Warlord, apesar de eu ter uma preferência pela versão do EP.

Imagino que se esse material tivesse tido algum tipo de sucesso eles poderiam estar sendo considerados como pioneiros, mas a falta de experiência de todos envolvidos prejudicou muito o resultado final e acabou praticamente determinando o fim das atividades do Warlord. Fosse no poker poderíamos dizer que foi uma aposta all in que não deu certo. Anos depois William J Tsamis reformulou a banda com Joacins Cans (Hammerfall) nos vocais e o resultados foi o ótimo Rising Out of the Ashes (2002), mas essa formação não durou muito tempo e um novo hiato na carreira foi imposto ao conjunto. O Warlord não tem uma discografia muito extensa. Se contarmos And The Cannons of Destruction Have Begun como um álbum, seriam 4 discos de estúdio, um EP e um disco ao vivo gravado em 2018. Porém tudo o que eles fizeram é digno de atenção.

2 comentários

  1. CLEIBSOM CARLOS ALVES CABRAL

    Detalhes comerciais à parte, para mim inegavelmente o WARLORD é um dos pais do POWER METAL. A banda fez antes, e com mais competência, o que dizem que o HELLOWEEN criou.

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    • Fernando Bueno

      Acho que podem ter influenciado, mas não consigo colocá-los no mesmo patamar que o Helloween. Até pq eles tinham um problema sério com os vocalistas que não paravam na banda e também pelo fato de terem produzido pouco material antes de se separarem.

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