Por Davi Pascale

 

Depois de passar um bom tempo escutando lançamentos e relançamentos, resolvi tirar o pó de alguns discos que fizeram parte da minha formação musical. Diver Down, do Van Halen, está entre eles. Ok… Esse é um trabalho que divide opinião dos fãs e da crítica. Inclusive, os próprios integrantes não o tinham como um favorito. De todo modo, me recordo de ter escutado esse LP à exaustão na minha infância e sempre o considerei um clássico. E foi por isso que resolvi escrever sobre ele…

Para quem não sabe, esse LP não foi feito com toda a calma do mundo. Foi exatamente o contrário. A banda havia acabado de concluir a turnê do álbum Fair Warning e os músicos planejavam tirar alguns meses de férias antes de iniciar um novo projeto. David Lee Roth, vocalista do conjunto, fez então uma sugestão: “Por que não gravamos um single para que seja lançado durante nossas férias?”. A ideia era gravar uma única música, de maneira rápida, para manter o nome da banda rolando no mercado.

Em entrevista à revista Guitar Player, Eddie Van Halen relembrou a ocasião: “Dave chegou com a ideia: ‘por que não começamos o ano com o lançamento de um single?’ Ele queria gravar “Dancing In The Street” e me entregou uma fita de Martha Reeves & The Vandellas. Eu escutei e disse: ‘Não consigo pensar em um riff e você sabe como eu gosto de tocar. Eu gosto de usar riffs e não de ficar apenas tocando acordes e dedilhando. Se você quer fazer um cover, por que não fazemos “Pretty Woman?” A ideia foi acatada e os músicos entraram no Sunset Studios, em Los Angeles, para fazer o registro. A música foi gravada em um único dia. O que eles não contavam, contudo, é que a gravação se tornaria um grande sucesso e mudaria todo o quadro.

 

Michael Anthony, David Lee Roth e Eddie Van Halen, na turnê de Diver Down. Imagem de © Neal Preston/CORBIS

 

“Ela começou a subir nas paradas e a Warner Bros. começou a dizer: ‘Vocês têm um hit na mão, precisamos tê-la em um disco’. Nós dissemos: ‘Espere um minuto. Nós fizemos isso para nos manter na cena. As pessoas sabem que a banda está de pé´. Mas a pressão continuou e precisamos voltar ao trabalho sem ter tido tempo para descansar e parase recuperar da turnê. Gastamos 12 dias gravando o álbum”.

Eddie Van Halen não estava contente com a recepção de seu disco anterior. Ainda que tenha tido uma boa vendagem, Fair Warning não conseguiu um Top 40, algo de enorme importância para a Warner. Eddie imaginava que isso havia acontecido justamente por ele ter assumido controle total na produção do LP. E, dessa vez, resolveu fazer diferente. Resolveu dar mais espaço para David Lee Roth e Ted Templeman.

Como tiveram pouco tempo para criar o álbum, os músicos tinham pouco material inédito. A solução que Roth e Templeman enxergaram foi incluir mais alguns covers no LP. A ideia não agravada ao guitarrista. Principalmente a ideia de tentar, mais uma vez, uma nova versão de “Dancing In The Street”.

“Ed tinha um riff e eu disse: Por que não usamos em ‘Dancing In The Street’? Eu pensei: ‘vai ser demais! Vamos fazer esse som da Motown, vai funcionar, e ainda estamos no verão!’. Isso causou um problema entre Ed e eu. Todo mundo gostou, mas passou um ano e alguém me disse: ‘Você não deveria ter feito aquele cover’. E eu dizia: ‘Eles fizeram Pretty Woman antes’. O que acontece é que Ed não queria fazer, mas era nossa única escolha. Nós tínhamos que terminar o disco”, recorda Ted Templeman em entrevista à revista Rolling Stone.

 

Formação da época: Alex Van Halen (bateria), Michael Anthony (baixo), Eddie Van Halen (guitarra) e David Lee Roth (voz)

 

A verdade é que o guitarrista não gostava da música original e tinha um carinho especial pelo riff que o forçaram a usar na nova releitura. Ele pretendia utilizar aquela peça para criar uma nova canção, sentia que estava jogando uma ideia de ouro no lixo. Outro fator que o desagradava, como já foi dito, era justamente o fato de ter tantos covers em um mesmo LP. O Van Halen já havia gravado covers antes, é claro. Inclusive, um de seus grandes hits era justamente “You Really Got Me” (The Kinks). No entanto, nunca haviam feito tantas releituras em um mesmo LP.

Ao todo, 5 covers foram utilizados no disco – ainda que 2 sejam vistas pelos fãs como vinhetas, por conta de sua curta duração (“Happy Trails” e “Big Bad Bill”). Os grandes destaques, contudo, são a versão de “Where Have All The Good Times Gone”, mais uma releitura do grupo de Ray Davies, e a regravação de “Pretty Woman”. Embora a gravação de Roy Orbison seja perfeita, a versão do Van Halen não fica por baixo e deu uma nova vida à canção.

Nessa época, a MTV estava chegando com tudo nos Estados Unidos e os músicos decidiram criar um vídeo para a faixa. Esse clipe chegou a ser exibido aqui no Brasil em programas como o Som Pop, mas na terra do Tio Sam ele criou um grande alvoroço. Esse foi um dos primeiros vídeos a ser banido da programação da emissora. Tudo por conta da cena inicial, onde os anões assediam a garota (na verdade, uma drag queen). A emissora considerou o conteúdo muito violento.

O que muitos fãs não sabiam é que, apesar de todo o sucesso, dentro da banda, as primeiras rusgas começavam a surgir. David Lee Roth, certa vez, quando foi explicar a capa do disco, disse que queria passar a ideia de que existia algo que não podia ser visto na superfície, mas que estava ali, por baixo. Para quem não entendeu a referência, a bandeira escolhida para ilustrar a capa é, na verdade, uma bandeira da marinha, utilizada para avisar que há mergulhadores naquele trecho. Era um modo dele dizer que as coisas estavam começando a afundar. Na contracapa, contudo, não havia nada de polêmico. Haviam apenas imagens dos músicos se divertindo no palco, enquanto abriam um show para os Rolling Stones, em Orlando, em 1981.

 

Contracapa do LP

 

Agora… Verdade seja dita, nem tudo foi dor de cabeça. O próprio Eddie se referiu às gravações como ‘divertidas’, na entrevista à Guitar Player. E Ted Templeman relembrou um desses momentos na matéria da Rolling Stone: “Eu estava ouvindo as gravações que fizemos e eles estavam rindo em uma versão de “Happy Trails”. Ed dizia: “Ted, não nos faça rir”. Eu deitava no chão e eles não conseguiam me ver. E Ed dizia: “Onde está o Ted? Não nos faça rir, Ted”. É divertido. Você ouve todas essas coisas… Então eles começam a cantar e dar risada. Mesmo nessa época, estávamos tendo ótimos momentos”.

O disco conta ainda com pequenos instrumentais criados por Eddie Van Halen – onde vale prestar uma atenção especial na criativíssima intro de “Little Guitars”, além da impactante introdução criada para “Pretty Woman” – e 4 canções inéditas. Dentre elas, estão as geniais “Hang ´Em High” e “The Full Bug”. Definitivamente, quando ouvimos o LP, não imaginamos que foi algo criado em pouco tempo e nem que houve tensão entre eles. Os covers foram totalmente recriados, soando de fato como se fosse uma canção do Van Halen, as faixas inéditas são excelentes e a performance dos músicos é magistral. Um álbum mágico e divertido, como um bom álbum de rock ´n´ roll deve ser…

 

Faixas:

  • Where Have All The Good Times Gone
  • Hang ´Em High
  • Cathedral
  • Secrets
  • Intruder
  • (Oh) Pretty Woman
  • Dancing In The Streets
  • Little Guitars (Intro)
  • Little Guitars
  • Big Bad Bill (Is Sweet William Now)
  • The Full Bug
  • Happy Trails

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