Por Diogo Bizotto

A carreira de Glenn Hughes após a dissolução do Deep Purple, em 1976, foi uma grande sucessão de eventos malogrados. Poucos discos, escassas turnês e muito abuso de substâncias lícitas e ilícitas deram a tônica da trajetória do baixista e vocalista, especialmente durante os anos 1980. Mesmo trabalhos artisticamente bem articulados, como o álbum lançado ao lado do guitarrista Pat Thrall, Hughes/Thrall (1982), e o disco feito com um desfalcado Black Sabbath, Seventh Star (1986), não tiveram representatividade suficiente para lhe conferir o mesmo sucesso experimentado em meados da década de 1970. Muito disso se deveu à sua incapacidade de honrar compromissos e realizar turnês para divulgar esses lançamentos, graças à sua frágil saúde, debilitada por seus maus hábitos.

Foi somente nos primórdios dos anos 1990 que Hughes acordou de um “coma” que já durava 15 anos e conseguiu dar um rumo não apenas para sua carreira artística, mas para sua própria existência, adotando um estilo de vida mais saudável e evitando os vícios de outrora. O primeiro grande empurrão para botar novamente seu nome na boca do povo partiu de uma participação sua cantando no single America: What Time Is Love (1991), da dupla eletrônica inglesa The KLF. A música chegou ao 4º posto no Reino Unido e foi um hit em diversos outros países, ajudando a colocar Hughes em evidência e, segundo o próprio, salvando sua vida.

A obra que “salvou a vida” de Glenn Hughes

A obra que “salvou a vida” de Glenn Hughes

Superior a seu primeiro álbum solo, Play Me Out, lançado no longínquo ano de 1977, Blues tem muita qualidade e foi mais um importante passo no restabelecimento de Hughes como uma força a ser levada a sério. Sua voz, apesar dos anos de abusos, permanecia intacta, mas ainda mais madura, fazendo jus ao título de “voice of rock”. Foi o disco seguinte, porém, tema deste artigo, que mostrou como nenhum outro o valor do baixista e vocalista e ajudou a impulsionar sua carreira de vez, rendendo uma sequência enorme de lançamentos nos últimos 20 anos. Além disso, From Now On…é especialmente lembrado por aqueles que, como eu, têm especial afeição por sua pegada mais AOR, bem produzida e tocada, mas com um ar nitidamente europeu, cortesia não só do próprio Hughes, mas do line-up responsável por registrar essa obra em estúdio.Com as coisas entrando nos eixos, o músico pôde dar um rumo mais sólido para sua carreira. Ainda em 1991, reuniu-se com os colegas da formação original do Trapeze, banda que o revelou, Mel Galley (guitarra, ex-Whitesnake e Phenomena) e Dave Holland (bateria, ex-Judas Priest), com a adição do tecladista Geoffrey Downes (ex-Yes, Asia e The Buggles). Além disso, em 1992, também participou ativamente do processo de criação deFace the Truth, segundo álbum solo do guitarrista norueguês John Norum (Europe), cantando e coescrevendo diversas canções. No mesmo ano, Hughes finalmente retomou sua carreira solo através do disco L.A. Blues Authority Volume II: Glenn Hughes – Blues. O projeto, levado a cabo com o guitarrista norte-americano Craig Erickson, que tocou todas as bases do instrumento e compôs o material ao lado do vocalista e baixista, consiste, como o nome entrega, em uma obra mais voltada ao blues, mas em sua faceta mais elétrica e roqueira possível. Além disso, conta com diversas participações especiais, como os guitarristas Warren De Martini (Ratt), Mick Mars (Mötley Crüe), Mark Kendall (Great White) e Richie Kotzen (Poison, Mr. Big), além de John Norum.

Gravado na Suécia, From Now On… contou com o acompanhamento de músicos locais, alguns de fama então já consolidada, caso de Mic Michaeli, tecladista do Europe, e John Levén, baixista da mesma banda. Sim, dessa vez Hughes deixou o baixo no case e se encarregou apenas de caprichar na performance vocal. Além dos citados, completam o line-up os guitarristas Thomas Larsson e Eric Bojfeldt, e o baterista Hempo Hillden, músicos de projeção apenas local. A produção ficou a cargo do norte-americano Bruce Gowdy, que já acumulava experiência no gênero também como guitarrista e compositor, especialmente ao lado da banda Unruly Child, que contava com o/a vocalista Mark/Marcie Free.

Quem esperava um Glenn Hughes soando como em sua época mais conhecida, explorando influências funk e soul e inserindo-as em um contexto rock ‘n’ roll, deve ter se decepcionado, pois não há nada muito semelhante a canções como “Getting Tighter” e “You Keep on Moving” (Deep Purple) ou “Medusa” e “Coast to Coast” (Trapeze) emFrom Now On…. A faixa de abertura,Pickin’ Up the Pieces, é um hard rock bem direto, mostrando que o protagonismo dos teclados no álbum é tão importante quanto o das guitarras, especialmente o Hammond C3, acompanhando o tempo todo, não apenas através de meras intervenções. Vocalmente, destaca-se a capacidade de Hughes prover seus próprios backing vocals, trabalhando maravilhosamente esse recurso que a natureza lhe deu e que o próprio soube aperfeiçoar no decorrer dos anos. O recado da canção é claro: Hughes juntou os cacos e estava pronto para dar a volta por cima. Inclusive, mensagens do tipo estão presentes até no encarte do disco, com a clara intenção de mostrar para seus admiradores o renascimento de um artista disposto a colocar sua paixão pela vida e pela música em primeiro lugar.

“Espero que vocês apreciem a audição deste álbum tanto quanto eu apreciei escrever, cantar e tocá-lo. Agradeço a deus por me dar o dom de fazer música.”

“Espero que vocês apreciem a audição deste álbum tanto quanto eu apreciei escrever, cantar e tocá-lo. Agradeço a deus por me dar o dom de fazer música.”

Quer mais? Que tal uma música no mesmo nível logo em seguida? Pois é isso mesmo que é Why Don’t You Stay, uma baladaça daquelas de fazer o cidadão se perguntar sobre como ela não foi um sucesso massivo. Quem conhece Glenn Hughes sabe quão bom o vocalista é na interpretação de músicas desse tipo, e, pode ter certeza, não foi dessa vez que ele decepcionou, garantindo que o trabalho não descambe para a melacuequice pura. Mic Michaeli aparece à frente, introduzindo a música com seu piano, mas os guitarristas também pontuam a canção de maneira delicada e providencial. Só que, meu amigo, é claro que quem dá as cartas na história toda é a absurda interpretação vocal de Hughes, mais maduro do que nunca, mostrando de vez, pra quem ainda duvidava, que o longo período de incertezas em sua carreira havia encerrado. Inclusive, é em momentos como este que percebo quão limitado é meu vocabulário como pretenso crítico musical, e a falta que faz o conhecimento mais técnico a fim de julgar as obras que me disponho a resenhar. Neste caso, em especial, quisera ter a capacidade de descrever a performance vocal de Hughes em termos mais técnicos, dada sua capacidade assombrosa de sempre nos surpreender.“Lay My Body Down” é mais cadenciada e tem belas melodias vocais, além de um bom solo de guitarra, mas é a terceira canção, The Only One, que se revela o primeiro grande destaque do álbum. Introduzida de mansinho pela voz de Hughes, a música é construída passo a passo, da primeira estrofe à ponte e culminando em um refrão simples e delicioso. Cada intervenção sutil das guitarras, o leve tempero da bateria, a levada econômica do baixo, pequenos detalhes aos teclados… Tudo funciona bem demais na canção, que ainda por cima tem dois memoráveis solos de guitarra e apresenta Hughes com inspiração em alta, desde os sussurros iniciais aos agudos mais potentes.

“Walkin’ on the Water”, preferida do próprio, traz um pouco do Hughes mais soul em sua performance vocal, dando um tempero especial a uma canção bastante única no track list de From Now On…. “The Liar”, por sua vez, é mais descaradamente AOR, e isso fica mais evidente ainda quando nos damos conta de que ela foi coescrita por Jean Beauvoir, vocalista e multi-instrumentista que já deu uma mão para muitos artistas tocando e compondo, variando de Ramones a N’Sync, mas que também teve importante passagem pelo The Plasmatics e lançou vários discos solo, além de liderar a banda Crown of Thorns, sempre com uma notável sensibilidade pop. A seguinte, Into the Void, certamente constitui outro grande êxito, demonstrando um pouco mais de complexidade e variação em relação ao restante do repertório através de seus seis minutos e meio, empolgando o tempo todo.

Glenn Hughes nos proporciona também viagens ao seu passado através de duas canções em especial: “You Were Always There” e “Devil in You”, coescritas com seu parceiro de empreitada falida nos anos 1980: Pat Thrall. A primeira é uma semibalada com uma inegável aura oitentista, que não economiza em teclados, enquanto a segunda parece ser alguma sobra das sessões para a gravação de Hughes/Thrall, isso se realmente não é! A verdade é que as informações sobre um longo período da carreira do músico são escassas, tornando difícil a tarefa de fazer afirmações mais categóricas a respeito de certos aspectos. E já que estamos falando de mergulhos no passado, outro bastante evidente é a ótima Homeland, composta ao lado do velho parceiro de Trapeze Mel Galley, provável fruto de sessões realizadas em 1991, conforme uma gravação demo que conheço há muitos anos. A aura oitentista nesta é ainda mais nítida, assim como a pegada AOR que chega a lembrar o Phenomena, que inclusive já abordei na Consultoria do Rock, projeto levado a cabo por Mel, seu irmão Tom e o fundador da revista Metal Hammer, Wilfried Rimensberger, para o qual Hughes havia emprestado sua voz em mais de uma oportunidade.

Contracapa de From Now On…

Contracapa de From Now On…

Outra das favoritas do próprio Hughes é a balada “If You Don’t Want Me to”, leve e atmosférica, dando espaço para que sua voz apresente seu lado mais soul e sentimental. A faixa conta ainda com os vocais de apoio da cantora sueca Meja, na época ainda relativamente novata, mas que construiria uma carreira sólida pouco tempo depois, com especial êxito no Japão. Aliás, vale lembrar que From Now On…, lançado primeiramente na Suécia e no Japão, só foi receber uma prensagem norte-americana em 1996 – acrescida dos mesmos bônus da versão japonesa, “Burn” e “You Keep on Moving”, ambas ao vivo –, talvez pela dificuldade que o tipo de música levada a cabo por Hughes encontrava para penetrar em um mercado que já vivia uma espécie de segunda onda grunge em se tratando do mainstream roqueiro.

O fechamento do disco se dá com a faixa-título, mais uma a engrossar o rol de excelentes canções presentes em From Now On…. O início calmo dá a ideia de que se trata de uma balada simplória, mas a música cresce e ganha contornos mais ambiciosos através da interpretação de Hughes, transbordando da verdade que o músico vivenciava na época, tendo encontrado, como ele mesmo se refere no encarte do álbum e até hoje, seu “poder maior”. Um fechamento magnífico para um álbum que, por mais que não seja a única obra solo do baixista e vocalista digna de efusivos elogios – o setentista Songs in the Key of Rock (2003) talvez seja o que melhor rivalize com ele –, se faz presente na memória afetiva de muitos fãs e é tido por uma grande parcela de seus admiradores como um de seus lançamentos de maior qualidade. Talvez ainda mais importante, serviu para dar confiança a Hughes na decisão definitiva de tocar sua carreira solo a todo vapor, rendendo mais oito álbuns de inéditas em um período de menos de vinte anos, sem falar nos inúmeros projetos diversos e quase incontáveis participações especiais.

O mais impressionante de tudo, além da enorme quantidade de material com o nome de Glenn Hughes produzido nas duas últimas décadas, seja em carreira solo, seja em bandas como Black Country Communion e o California Breed, além de múltiplos projetos, é quão brilhante segue sua capacidade vocal. Já tive a oportunidade de presenciar uma apresentação sua que contou com problemas técnicos e, durante muito tempo, Hughes manteve a plateia em suas mãos através de apenas demonstrações da elasticidade de sua voz. Do alto de seus 61 anos, o baixista e vocalista continua impressionando fãs ao redor do mundo, e um dos capítulos mais decisivos para que a realidade de hoje pudesse ser concretizada está registrado com classe e talento emFrom Now On….

Track list:

1. Pickin’ Up the Pieces
2. Lay My Body Down
3. The Only One
4. Why Don’t You Stay
5. Walkin’ on the Water
6. The Liar
7. Into the Void
8. You Were Always There
9. If You Don’t Want Me To (Allyson’s Song)
10. Devil in You
11. Homeland
12. From Now On…

1 comentário

  1. Marcello

    O lançamento original no Brasil traz a releitura de Burn como bônus, numa versão muito boa, mas depois tornada desnecessária pela gravação ao vivo no Japão.

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