Por André Kaminski

Tema Escolhido por Marco Gaspari

Com Davi Pascale, Diogo Bizotto, Fernando Bueno, Mairon Machado, Marco Gaspari, Ronaldo Rodrigues e Ulisses Macedo

Um belo tema escolhido, os duos do rock nada mais são do que bandas ou projetos criados por apenas dois membros que se responsabilizam por todos os instrumentos e vocais. Escolhemos oito discos de várias épocas. O que acharam de nossas escolhas?

Nota: esta matéria é um resgate de uma mais antiga que queríamos voltar a publicar. Entretanto, a matéria original foi engolida pelos problemas que tivemos com o UOL Host em 2015. Consegui recuperar todos os comentários, exceto os meus próprios. Então, meus comentários foram refeitos com a minha visão de hoje, que podem diferir caso alguém se lembre deles ou tenha salvo a matéria original. (André Kaminski)


Rodrigo y Gabriela – 9 Dead Alive [2014]

Por André Kaminski

Adoro esta dupla de violonistas que fazem um trabalho fantástico com solos e melodias usando apenas dois violões. Enquanto Rodrigo se foca nos solos e melodias, Gabriela é responsável pelas bases, ritmo e percussão batendo com as mãos no violão. A musicalidade é uma mistura de rock e flamenco e que demonstra o que apenas dois instrumentos comuns nas mãos de dois músicos brilhantes é capaz de fazer.

Davi: Rodrigo Sanchez e Gabriela Quintero são dois mexicaninhos que fazem música instrumental. Porém, usando apenas violão. As batidas com cara de percussão que você ouve aqui são realizadas por Gabriela no corpo do instrumento. Russo teria orgulho! Os arranjos misturam elementos de música clássica, rock e até mesmo heavy metal (aquela passagem aos 2 minutos de “Somnium”, por exemplo, faria Steve Harris ter orgasmos). Há um ‘q’ latino também, mas de leve (pelo que li parece que os trabalhos anteriores deixavam essa influência mais acentuada, mas ainda não ouvi os discos antigos para constatar). Os dois são excelentes instrumentistas, vale uma audição. Trabalho, no mínimo, criativo. Arriba!

Diogo: Surpreendente a audição deste álbum. “The Soundmaker” abre-o em grande estilo, mostrando que a dupla mexicana de violonistas constrói uma linguagem eclética, sem se prender às amarras de um gênero muito específico, impressão reforçada no decorrer do tracklist. Ao mesmo tempo em que solam muito bem, Rodrigo e Gabriela também exploram seus instrumentos de maneira quase percussiva, mostrando uma agressividade incomum para artistas desse gênero. “Misty Moses”, por exemplo, tem riffs que poderiam tranquilamente dar origem a uma canção thrash metal. Quem espera um álbum flamenco vai quebrar a cara, e levando em consideração o conteúdo de 9 Dead Alive, isso é muito bom!

Fernando: Legal a interação entre os dois violões. Estamos mais acostumados a ouvir as guitarras gêmeas, mas nunca twin acoustic guitars. Também é legal o uso de efeitos no violão, algo que não é tão comum. Mas é um tipo de som que se torna maçante com o passar do tempo, mesmo sendo extremamente bem tocado e perceptivelmente de alta qualidade.

Mairon: Mas que disco espetacular!! Adoro violão clássico, e o que esses dois fazem é muito belo. Nada sobrenatural como um Larry Coryell & Phillip Catherine (minha segunda opção era Splendid, mas achei que o Ronaldo ia pegar) ou o trabalho do mesmo Larry Coryell com Kazuhito Yamashita em As Quatro Estações, mas mesmo assim, de alto nível. O principal mérito para a dupla mexicana é que todas as canções foram criadas apenas por eles, e não se prendem só ao clássico, mas também navegam pelo heavy metal (“Soundmaker” e “Misty Moses”), blues (“Torito”), hard rock (“Russian Messenger”), ao mesmo tempo que a elegância de “La Salle des pas Perdus”, o ritmo alucinante de “FRAM”, os harmônicos de “Somnium” e a beleza singela de “Megalopolis” fazem de ambas obras para ficarem eternizadas na história do violão erudito. Ótima surpresa, de músicos fantásticos, que acredito ser a melhor das indicações de hoje, e já estou indo atrás de outros álbuns dessa dupla mexicana.

Marco: O ignorante aqui não conhecia. E adorei.  Tanto que fui correndo na wikipedia saber se eram casados. Explico: diferente do Edgar e da Gazelle, o casal do Jucifer, esses dois levam todo o jeito de serem felizes na cama.

Ronaldo: Ao utilizar seus violões de forma pouco convencional e com elementos percussivos, essa dupla vai além do que espera de meros violonistas. Excelentes composições, performances fortes e intensas, a dupla mexicana surpreende no território da música instrumental. E o maior mérito para qualquer duo é conseguir suprir na música a ausência de outros instrumentos. Vi (e ouvi) que Rodrigo y Gabriela podem fazer isso até com os violões nas costas.

Ulisses: Incrível o virtuosismo deste duo de violonistas, unindo rock, metal e ritmos latinos de forma impressionante, criando sons que eu não imaginava que pudessem surgir do violão. E procurar vídeos da dupla no YouTube só pra entender a magia percussiva da Gabriela não tem preço!


 

Agridoce – Agridoce [2011]

Por Davi Pascale

Volto mais uma vez causando polêmica. Sei que muitos participantes dessa série não morrem de amores pela roqueira baiana. Entretanto, esse é um trabalho que me chamou a atenção. Afinal, ela entregou exatamente o contrario daquilo que se espera dela. As letras cheias de mensagens positivas deram espaço à letras mais introspectivas. A influência do grunge saiu fora e veio a influencia do folk. O vocal acelerado deu espaço à um vocal mais melódico, mais suave. Optaram por gravar o material em uma casa afastada e não em um mega estúdio hiper equipado. Seu companheiro Martin, sempre demonstrou ser um bom músico desde os tempos de Cascadura. A dupla funcionou bem e entregou um trabalho intimista, envolvente e bem amarrado. Não é necessário ser fã de Pitty para curtir esse disco. Ansioso para ver os comentários dos demais consultores.

André: Não lembro exatamente o que escrevi na época, mas o que posso dizer é que os discos solo da Pity nunca me agradaram, por isso, achei esse projeto Agridoce até com uma boa qualidade se fosse levar em consideração tudo aquilo que a baiana já produziu. Ela canta em tons bem afinados, tem uma pegada meio folk minimalista que até me agradam. Não é lá um grande disco, mas até que desceu melhor do que eu esperava.

Diogo: Uma das coisas que mais abomino no cenário rock brasileiro mainstream de uns 15 anos pra cá é a cantora Pitty. Sua incapacidade para unir boas melodias vocais a letras ao menos medianas me leva a perguntar como ela conseguiu fazer tanto sucesso. Em Agridoce, álbum lançado com o guitarrista Martin Mendonça, essa característica foi um pouco atenuada muito em fato de se tratar de um disco acústico e as canções pedirem interpretações menos incisivas. Mesmo assim, Pitty “briga” com as músicas em vários momentos, especialmente quando inventa de cantar em outros idiomas. Se a intenção do disco era, como li por aí, soar folk da maneira que Leonard Cohen, Nick Drake e Jeff Buckley soavam, o objetivo, definitivamente, não foi atingido. Pra não dizer que não gostei de nada, a faixa “O Porto” tem bons arranjos.

Fernando: Não sei se foi a baixíssima expectativa que eu tinha antes de ouvir o Agridoce, mas até que surpreendeu. A Pitty tocando piano também surpreendeu. Mas é o tipo de coisa que eu não ouviria em casa nem que faltasse opções.

Mairon: Disco bem bonitinho e surpreendente, ainda mais se sabendo que a vocalista é a Pitty, uma cantora que não tenho grande apreço, e que tem um sotaque inglês bem irritantezinho nos ouvidos, e pior ainda foi aturar um francês mais bisonho que uma performance clássica de G. G. Allin. Me agradei mais das músicas em português, como “Dançando”, “O Porto” e “20 Passos”, essa a melhor, disparada, mas não é um disco que me cativou. Pergunta: quem toca bateria e as cordas no álbum?

Marco: Dizer o quê? Sempre gostei da Priscila. E esse projeto com o Mendonça deixou um gostinho de quero mais. Pois é, quero mais.

Ronaldo: Disco bem harmonioso e com boas ideias. Mas falta “elã” pra desenvolver essas ideias e o disco padece de muitas repetições dentro das músicas. Essas boas ideias são espremidas até a hora em que se enjoa delas. As partes vocais são bem construídas e bem tratadas em estúdio. Da parte instrumental, um trabalho honesto, sem destaques. Porém, o disco não supera um pop insosso com melodias que já ouvimos em outras esquinas. Pitty tem talento e atitude para ser muito mais do que ela já é. Se eu a encontrasse na rua um dia, lhe diria: surpreenda-me.

Ulisses: Eu não conhecia esse lado folk da cantora. Delicado, sereno e melódico, o disco inteiro tem um clima intimista e contagiante. Vale a pena conferir!


 

Darkthrone – The Underground Resistance [2013]

Por Diogo Bizotto

O Darkthrone notabilizou-se como uma das principais forças do black metal legitimamente norueguês através de discos como A Blaze in the Northern Sky (1992) e Under a Funeral Moon (1993), mas a verdade é que Nocturno Culto (vocais, guitarra, baixo) e Fenriz (bateria e baixo) foram além. Do death metal de Soulside Journey (1991) a uma guinada rica em influências crust punk na segunda metade da década passada, o Darkthrone incorporou elementos mais tradicionais à sua sonoridade, cuja culminância encontra-se em The Underground Resistance, um verdadeiro compêndio de heavy metal forjado na década de 1980. Fortes influências de Celtic Frost antigo (ouçam “Dead Early”) e de outros grupos totalmente “lado B”, além de uma pitada de NWOBHM, mesclam-se em um trabalho que revisita até o falecido speed metal, culminando na longa “Leave No Cross Unturned”, que ao mesmo tempo remete ao Slayer dos primórdios, ao lado mais épico do Bathory e até aos vocais de King Diamond no Mercyful Fate. Quem verdadeiramente gosta de heavy metal oitentista tem a obrigação de conferir este álbum. A dupla pode não esmerilhar em seus instrumentos, mas tem garra de sobra.

André: Esse estilo de metal é muito mais ao meu gosto do que a tradicional guitarra “zumbido de abelhas” de grande parte das bandas de black metal. Aqui vejo que a banda usa mais como base o death e o heavy tradicional, com a parte “black” muito mais como um tempero estético e lírico do que musical, o que conta pontos comigo. O surpreendente é saber que só dois caras gravaram tudo, se produziram e ainda por cima tocam bem todos os instrumentos. Uma ótima recomendação para quem curte sons extremos.

Davi: Não conheço muito a carreira do Darkthrone. Sei, pelo que li, que eles começaram em uma pegada black metal. Um gênero que nunca morri de amores. Se para alguns, Mayhem e Emperor são deuses, pra mim são uns tontos metidos à revoltadinhos. Escutando aqui, encontro bastante influencia de thrash e até mesmo de punk. Dois estilos vocais diferentes. Um mais vomitado, outro bem limpo, mas bem chatinho. Instrumental bem tocadinho, mas as composições são muito chatas. Não curti.

Fernando: A maior surpresa da lista. Esperava algo naquela linha de tosquera das bandas norueguesas do início de suas carreiras, mas o álbum se não é um primor de produção tem uma sonoridade muito boa se comparados ao A Blaze in the Northern Sky, por exemplo. Achei uma mistura de Tryptikon com o que o Bathory está fazendo nos seus discos mais épicos. Gostei também da voz de Fenriz que vai desde o gutural até o mais heavy metal dos agudos.

Mairon: Gostei dessa dupla. Death Metal bem feito e bem tocado. Assim como quase todas as bandas aqui citadas, desconhecia a mesma. Gostei de “Valkyrie” e das duas longas: ” Come Warfare, the Entire Doom” e  “Leave No Cross Unturned”, essa com agudos na introdução que me lembraram o saudoso Massacration, em uma faixa de 13 minutos com muitas variações. Também não é um álbum que eu vá comprar ou ouvir diariamente, mas valeu a experiência.

Marco: Sei lá que porra é essa. Jamais vou conseguir emitir opinião sobre bandas assim. Mas é gostoso de ouvir enquanto se engraxa o coturno.

Ronaldo: Um som realmente pesado e pelo que pude ler a respeito, tratava-se de uma banda completa e esse trabalho foi gravado como dupla, mas soa como banda, porque ambos se dividem na gravação do baixo. Algumas convenções de bateria são de entortar a cabeça e alguns solos conseguem fugir do convencional desses estilos mais extremos, especialmente pelo uso de efeitos incomuns no gênero. Como era de se esperar, o clima épico e fatal se faz presente. Quem não é fã do estilo, precisa de fôlego pra tanta distorção, mas a dupla é até capaz de agradar o ouvinte de rock em geral, pelo conteúdo musical e energia da performance. Porém, a necessidade de sempre soar pesado limita a experiência com esse tipo de banda.

Ulisses: Não sou um expert em black metal, mas considerando que é Darkthrone, esperava algo bem “tr00 kvlt from hell”. Mas me parece mais algo punk, com um pouco de thrash, black e até heavy tradicional. O disco até que é agradável, especialmente as duas últimas faixas – aliás, é adequada a duração do disco, distribuída em apenas seis faixas, sem delongar-se. Mas não fez a minha cabeça.


 

Fripp & Eno – No Pussyfooting [1973]

Por Fernando Bueno

Um marco na carreira dos dois músicos. Fripp usou os equipamentos eletrônicos criados por Eno e criou seu próprio sistema chamado Frippertronics. Já Eno acabou se tornando um mestre da música ambiente e também desenvolveu habilidades no estúdio que o fizeram se tornar um grande produtor. O interessante é que Eno cunhou o termo música ambiente apenas alguns anos depois. O som é basicamente uma evolução de loops de guitarras com algumas inserções de teclados de fundo e sons espaciais. Quem conhece Fripp nos disco do King Crimson acostumou-se com guitarras ativas e virtuosas, mas certamente ficará surpreso com a sutiliza de sons desse projeto. Um disco com apenas duas longas faixas instrumentais com essas características pode parece esquisito, não usual e de difícil defesa, mas se o ouvinte romper a barreira que te impede de ouví-lo vai encontrar composições de uma beleza ímpar e totalmente únicas.

André: Não é uma audição fácil, mas eu costumo gostar dessas viagens sonoras, caso desse álbum aqui. Com Eno nos sintetizadores e Fripp “guitarreando”, deu de curtir legal esse disco, um dos pioneiros da chamada “música ambient”.

Davi: Jesus! Que troço chato. Não dá pra aguentar isso até o final nem tomando Eno!

Diogo: Quando o tema desta edição foi levantado, tive certeza que este disco estaria entre os citados, afinal, trata-se de uma dupla soberana entre tantas outras, não em termos de sucesso comercial, mas de criatividade e capacidade de surpreender os ouvintes. Para mim, que ouvi a “trilogia Berlim” de David Bowie antes deste álbum, fica bem claro em que tipo de sonoridade o cantor captou boa parte de suas inspirações para essas grandes obras. Robert Fripp, que já vinha mostrando-se um “paisagista sonoro” eficiente ao lado de seus colegas de King Crimson, encontrou um ótimo parceiro em Brian Eno, deslizando suas guitarras incomuns sobre uma base sonora formada pelas experiências levadas a cabo por Eno manipulando decks de fitas. Mesmo sendo um apreciador de estruturas tradicionais, gosto da audição de No Pussyfooting, mesmo quando parece haver discordância entre os elementos que compõem suas duas faixas.

Mairon: Brian Eno cria camadas de teclados e sintetizadores que servem como colchão para as orgias virtuoses de Robert Fripp, que usa e abusa de escalas furiosas no mais tradicional schizoid guitar, isso é No Pussyfooting. Foi o primeiro disco que me veio à mente quando foi sugerido esse Consultoria Recomenda, mas não quis citá-lo por que temi sobre a receptividade do mesmo. Afinal, é um álbum muito complexo, com duas longas e viajantes faixas que, ocupando cada uma um lado do vinil, praticamente inauguraram o movimento New Wave, trazendo aquele clima zen muito viajante, mas com boas pitadas de esquizofrenia e alucinações. Ótimo disco, mas para poucos.

Marco: Na capa do disco, lá embaixo, dá pra ver as cartas das Estratégias Oblíquas criadas pelo Eno e pelo artista plástico Peter Schmidt. A possibilidade de se ouvir o resultado das cartas em ação ajuda a digerir e a viajar nas texturas do frippertronics. Evening Star, o outro disco da dupla, também vale muito a pena.

Ronaldo: As orelhas flutuam ao se ouvir coisas dessa natureza. Robert Fripp e Brian Eno foram dois caras importantíssimos para a música dos anos 70 e dos anos seguintes, justamente pelo pioneirismo que mostraram em trabalhos como este disco lançado em 1973. Diferentemente dos músicos alemães, que muitas vezes experimentaram com parafernálias eletrônicas centrados apenas no som, estes dois músicos ingleses não deixaram de produzir música, apesar da abstração e artificialidade de tanto aparato. O resultado aqui é único e icônico.

Ulisses: Não sou lá grande admirador de música ambiente. Mesmo contando com dois músicos geniais criando uma atmosfera etérea, saí da audição do mesmo jeito que entrei.


 

Whitesnake – Starkers in Tokyo [1997]

Por Mairon Machado

David Coverdale e Adrian Vanderberg sozinhos, posam sob o grande nome de Whitesnake, e apenas com violão e voz, detonam e fazem os farofeiros de plantão chorarem com versões perfeitas para “Sailing Ships”, “Love Ain’t No Stranger”, “Give Me All Your Love” e as clássicas “Here I Go Again” e “Is This Love”, que apresentadas na sequência, facilmente irão agilizar a noite de amor com a companheira, além de apresentar aos fãs as novatas “Too Many Tears”, “Can’t Go On” e “Don’t Fade Away”, bem como resgatar do renegado Slip of Tongue versões melhores que as originais para “Sailing Ships” e “The Deeper the Love”. O play encerra-se de forma MAGNÍFICA, com letras garrafais, com a dupla, ou melhor, o Whitesnake  surpreendendo em uma emocionante versão para “Soldier of Fortune”. Um grande violonista e um grande vocalista, provando que boa música e clássicos não precisam serem construídos com bateria, baixo e teclados. Talento é a palavra que melhor define esse discaço.

André: Não tem jeito, quando tem qualquer bolacha com o título “Whitesnake” já fico todo alegrinho sabendo que vou ouvir músicas melosas e cheias de amor. Vandenberg no violão e Coverdale no vocal, aí é a receita de fazer o cabeludo aqui abrir um sorriso de felicidade.

Davi: Esse eu já conhecia! Comprei na época. Apresentação com voz e violão, apenas. O lendário David Coverdale e o espetacular Adrian Vanderberg realizaram essa apresentação no Japão, como o nome entrega, para um grupo seleto de fãs. O show intimista focava nas baladas do conjunto, contando ainda com uma versão matadora de “Soldier Of Fortune” (vinda dos seus tempos de Purple). Coverdale fez linhas vocais mais sutis, sem apostar em gritos, cantando várias notas para baixo, o que jogou à seu favor. (Embora estivesse com uma voz bem mais forte do que hoje, já apresentava algum cansaço nas cordas vocais). Os arranjos são bem resolvidos. Afinal, Adrian Vanderberg é um músico espetacular. Junta isso com composições pra lá de bacanudas e o resultado não poderia ser outro: uma audição super envolvente.

Diogo: Sendo um grande fã do Whitesnake, posso dizer que Starkers in Tokyo é uma experiência bastante diferente do habitual. Neste acústico consistindo apenas da voz de David Coverdale e do violão de Adrian Vandenberg, o hard rock “pra cima” do grupo toma contornos melancólicos, causando até um pouco de estranhamento ver como funciona a adaptação de músicas como “Here I Go Again” e “Give Me All Your Love”. No fim das contas, são justamente aquelas canções mais melancólicas e reflexivas em seu formato original que se revelam os grandes destaques, caso de “Can’t Go On” e “Soldier of Fortune”, esta última emocionante como se tivesse sido registrada pela primeira vez.

Fernando: Quando escolhi o Fripp & Eno fiquei pensando se não me acusariam de apelar para satisfazer o tema da matéria, mas depois que vi esse disco aqui fiquei tranqüilo. Isso aqui, sim, foi apelação! Afinal essa foi uma apresentação em dupla do chefe Coverdale e o ótimo Adrian Vanderberg. Pegando uma carona no hype da época em fazer shows “acústicos”, coisa que começou com o Bon Jovi ainda no começo da década e chegou a seu auge com os discos do Kiss, do Alice in Chains e do Nirvana. Gostei do resultado, mas não acho que seja adequado aqui.

Marco: Tudo muito bonito, mas bonito demais. Passou da conta. Na terceira música já estou precisando tomar um banho de arruda pra ver se o encosto de doçura sai deste corpo. Vade retro Coverdale.

Ronaldo: Independentemente do valor musical, esse disco deveria estar em uma futura lista da “Consultoria Recomenda: voz e violão”.

Ulisses: Uma performance acústica e ao vivo de Coverdale e Vandenberg, que interpretam as canções com bom gosto. “Sailing Ships” e “Don’t Fade Away” estão de arrepiar. Muito agradável a recomendação.


 

Tractor – Tractor [1972]

Por Marco Gaspari

Não basta ter peso. Tem que ter neurônios. Tractor foi uma banda inglesa com dois neurônios de peso, sendo que o Tico era o guitarrista e vocalista Jim Milne e o Teco o baterista Steve Clayton. Eles eram ingleses e montaram o Tractor quando a banda beat The Way We Live acabou. Quem adorou o som e apostou na dupla foi John Peel que tratou logo de contratá-los para seu selo Dandelion Records. O primeiro disco dos dois ainda veio no nome da antiga banda, mas no próximo assumiram o nome Tractor e arregaçaram uma das sonoridades mais impiedosas do rock inglês do começo dos anos 70. Com o tempo, novos membros foram recheando a banda e novos lançamentos foram coroando uma carreira de nível surpreendente. Mas vamos concentrar os ouvidos nestes dois tratores aqui e nos render definitivamente à máxima de que “menos é mais”.

André: As vezes surgem umas viajadas instrumentais parecidas com o krautrock alemão que o Marco tanto ama, mas este é um disco muito bom com sua mistura do peso do hard rock com psicodelia. O baixo de “Ravenscroft 13 Bar Boogie” é muito bom, as linhas de guitarras muito empolgantes. Infelizmente, a produção pobre deixou o som da bateria meio magro e as vezes até oculto. Uma pena que esses dois ótimos músicos ficaram só neste disco.

Davi: Um dos mais interessantes dessa leva. Duo inglês que fazia um interessante cruzamento entre o folk (perceptível em faixas como “Everytime It Happens” e “Watcher”), o hard rock e uma boa dose de psicodelia. Para a época, tinha uma sonoridade pesadinha. O trabalho de guitarra é excelente e o vocal bem agradável. Disco bacana de ouvir.

Diogo: Este álbum inicia deixando uma boa impressão pelas linhas vocais de Jim Milne em “All Ends Up” e de arranjos que aproximam a banda do progressivo sem necessariamente enquadrá-la, algo que se nota na pegada folk do início de “Little Girl in Yellow”, antes de mergulhar mais fundo no estilo supracitado. Isso é sentido ainda com mais força em “The Watcher”, acústica na totalidade e dotada de um acento psicodélico. De resto, há alternância de momentos mais ou menos memoráveis e outros sem grande atratividade, mostrando que a primeira faixa, em especial, é mesmo a mais interessante. Audição até agradável, mas que não me marcou muito.

Fernando: Vi que a banda gravou esse disco como dupla e depois de um tempo adicionou um baixista e anos e anos depois voltaram como um quarteto inclusive com um tecladista. O som me pareceu um Blue Cheer menos pesado e mais folk. O que me lembrou do Blue Cheer foi a distorção meio tosca, tão tosca que deixou o som bem magrinho quando eles partem para partes que deveriam soar pesadas. As viagens sonoras como acontecem em “Everytime It Happens” E “Make the Journey” já me agradaram mais.

Mairon: A vida nos propicia várias surpresas, e em termos de música, somos invadidos praticamente diariamente por uma novidade que nos perguntamos: “Como eu não ouvi isso antes?”. Não entendo como um grupo tão bom quanto o Tractor não fez sucesso. A guitarra de Jim Mine, carregada de distorção, é a grande atração em faixas que nos trazem toda a essência do hard setentista. Destaque para os solos ácidos da longa “Make the Yourney”, a viagem alucinante de “Little Girl in Yellow” e o ritmo acústico de “Everytime it Happens”. O CD que peguei na internet vem com três bônus, destacando a linda “Overture”. Baita banda, e mais um disco raro para eu catar (ainda querem que eu perca tempo ouvindo bandas novas que fazem mais do mesmo ….).

Ronaldo: Dupla britânica apadrinhada pelo lendário John Peel, da rádio BBC. As composições se ligam muito mais ao rock psicodélico dos anos 60, mas com a pegada e a performance da década seguinte. Muito fuzz e ótimos momentos, dá até pra esquecer a falta que um contrabaixo faz. Coisas como “Shubunkin” fazem a vida de um ouvinte valer a pena.

Ulisses: Pô, ótimo álbum de rock com uma boa dose de psicodelia. A dinâmica entre Milne e Clayton é certeira e o disco é coeso, variando entre o pesado e o “viajadão” na medida certa, com destaques para “The Watcher” e “Hope in Flavour”, e até remetendo ao Black Sabbath em “All Ends Up”.


 

Sixty Nine – Circle of Crayfish [1972]

Por Ronaldo Rodrigues

Nos anos 50 e 60, o órgão Hammond era usado em formações com bateria e guitarra apenas. Nessa seara, surgiram os maiores mestres do instrumento, como Jimmy Smith, Larry Young e Lonnie Smith. Estes caras tratavam o baixo no próprio teclado (utilizando pedais com notas graves) e faziam estrago. Em fins dos anos 60, com o caminho aberto por Keith Emerson e The Nice para o rock sem guitarra, alguns tecladistas se aventuraram a eliminar os dois elementos – baixo e guitarra. Esse duo alemão faz, com bastante proeminência, essa experiência e se sai bem, pelo apoio de boas composição no estilo progressivo e uma boa dose de virtuosismo.

André: Depois que o Ronaldo os apresentou este disco, lá em 2015, posso dizer que já o ouvi outras vezes e sempre me surpreendo com a fúria do uso do Hammond  por parte desses alemães. Se a banda tivesse ido mais adiante, Keith Emerson teria um rival e tanto para se preocupar. Excelente disco, para quem curte Emerson, Lake & Palmer e afins.

Davi: Dupla alemã formada por Armin Stöwe e Roland Schupp. Os dois rapazes são responsáveis por gravar todos os instrumentos do disco. Os caras fazem um cruzamento de hard com prog rock. O que mais me chamou a atenção durante a audição foi o teclado de Armin que, em alguns momentos, me remeteu ao saudoso Jon Lord. A maior parte do play é instrumental. Ainda bem, porque achei o trabalho vocal bem fraquinho. Disco interessante, mas não morri de amores.

Diogo: A imediata associação que fiz ao dar o play na primeira faixa deste disco foi com o Emerson, Lake & Palmer, pois a performance de Armin Stöwe ao órgão não nega influência de Keith Emerson. O baterista Roland Schupp pode não ser um Carl Palmer, mas tempera com muito jazz o prog sinfônico da dupla, como pode ser ouvido em “Kolibri”. Quando Armin resolve abrir a boca, as coisas não melhoram, mas instrumentalmente o álbum é muito interessante. Não gostei tanto assim de sua tentativa de soar mais grandiloquente, caso da longa “Paradise Lost”, e acho que a dupla se sai melhor em canções mais compactas, como “Crayfish”, que fecha o álbum lembrando um pouco o Atomic Rooster, algo que acontece mais vezes durante os 43 minutos de Circle of the Crayfish.

Fernando: Estranho eu não ter chego no Sixty Nine quando estava na fissura por coisas como ELP, Triumvirat e bandas do tipo. Não sei como é ao vivo, mas eles nem parecem como um duo, já que há várias camadas sonoras que apenas em estúdio seria possível. Lendo sobre a banda, no pouco material que consegui encontrar, descobri que Armin Stöwe cometeu suicídio há alguns anos atrás. Triste!

Mairon: Outro disco fantástico!! Teclados e bateria (Armin Stöwe e Roland Schupp respectivamente) construindo canções fabulosas, que passeiam soberanamente pelo jazz (“Kolibri”), hard rock (“Journey”) e o progressivo tradicional (“Crayfish” e “Ballast”), com o auge sendo a insana “Paradise Lost”, uma viagem musical de mais de quinze minutos, com barulhos espaciais e a exploração singular dos teclados e percussão, transformando-se em uma canção animada e com um interessante vocal, vocal aliás que é o único pequeno deslize em “Becoming Older”, que é uma balada bonitinha, mas destoante do resto do disco. Ouvidos desatentos irão diversas vezes confundir-se com Atomic Rooster e Emerson Lake & Palmer, mas na verdade, é uma dupla incrível da Alemanha, que só nos mostra mais uma vez como os anos 70 e 60 foram inspirados. Sonzeira!!!

Marco: Não é das minhas sonoridades alemãs preferidas (o que não quer dizer que eu não goste, muito pelo contrário), mas é um belo exemplo do tipo de banda que eu tinha em mente quando sugeri esse tema. O disco ao vivo deles também é muito bom.

Ulisses: Um prog embasado nos teclados/sintetizadores/orgão de Stöwe e na bateria sólida de Schupp. Grande parte do disco é instrumental, mas o duo tem criatividade para manter as coisas interessantes na maior parte do tempo. É uma boa recomendação para os aficionados em prog.


 

Jucifer – Throned in Blood [2010]

Por Ulisses Macedo

O tema, desta vez, foi um pouco complicado pra mim. Seja no rock, no folk, no pós-punk ou no alternativo, existem várias duplas que todo mundo já ouviu falar – algumas que eu cogitei devem figurar por aqui – mas, das que eu conheço, nenhuma que eu realmente quisesse indicar para alguém. Exceto este estranho casal aqui, que eu ouvi há algum tempo e consegui lembrar: marido e mulher que têm uma queda por música suja, lenta, pesadíssima, com ocasionais espasmos de velocidade guiados por blast beats e riffs super distorcidos. A fórmula é esta, mas cada CD traz uma surpresa diferente. Em Throned in Blood, primeiro do selo próprio do casal (Nomadic Fortress), Livengood e Valentine falam sobre guerra e desolação, como Auschwitz (“Work Will Make Us Free”), o massacre dos nativos norte-americanos (“Return of the Native”) e o uso de bombas nucleares (“Hiroshima” – puro sludge!). As pérolas da vez ficaram para o final, com a épica “Spoils to the Conqueror” e a inesperada “Armageddon”, que fecha o disco com voz e banjo melancólicos.

André: O problema do álbum é que ele tem uma cara de coisa amadora gravada na garagem que não tem muito como elogiar. Sem baixo ainda, rock/metal sem baixo é o mesmo que comer lasanha sem queijo. Nem lembrava que já tinha ouvido esse disco. E pelo jeito, vou me esquecer de novo…

Davi: Dupla norte-americana formada por Edgar Livengood na bateria e sua esposa Gazelle Amber Valentine nas guitarras/vocais. Metal agressivo com vocal feminino gutural/vomitado. Não me agradou muito. Nunca fui fã numero 1 desse estilo de vocalização e sem a presença do baixo me dá a impressão de estar ouvindo uma demo tape. Falta aquele gravão predominante nos estilos mais agressivos. A falta de solos de guitarra ajuda a fortalecer minha opinião de sonoridade inacabada. Valeu pela curiosidade, mas não compraria.

Diogo: Tendo começado a realmente gostar de música com o Black Sabbath, é natural que sonoridades pesadas e arrastadas tenham destaque em meu cardápio musical. O Jucifer, porém, não caiu muito no meu gosto. Curto doom metal, até algo mais drone, mas essa turma do sludge não é muito minha praia. Quando o grupo aposta em lances mais minimalistas, como em “Disciples of an Expanding Sun”, até que a coisa fica mais interessante, mas em geral o disco não me envolveu. Faltam bons riffs e climas soturnos, algo que julgo essencial em um trabalho desse tipo. Quando a dupla aposta em algo mais “podrão”, puxando para o grind, as coisas dão ainda menos certo. É, não rolou.

Fernando: Não consegui ouvir esse disco completo e em ordem. Não achei para baixá-lo e fui pegando coisas aleatórias no Youtube. A primeira música que ouvi foi “Armaggedon” que me preparou para algo totalmente diferente da desgraceira do restante do disco. Ouvir mulheres nesse tipo de som extremo é interessante, mas nem sempre bom. A impressão é que eles gravaram o disco em um gravador na garagem da casa deles em um tipo de gravação que os indies gostam de chamar lo-fi. Em tempo, a capa é muito legal!

Mairon: Pataqueoparéu, que disco barulhento hein? Não gostei mesmo. A voz é horrível, a guitarra é de uma distorção suja e ensurdecedora, o baterista parece que só conhece o pedal do bumbo e os pratos, quando não martela a caixa alucinadamente que nem em “Contempt”, as músicas não parecem se encaixar em nenhum andamento, enfim, agressivo demais para meus ouvidos sensíveis (ui, que meigo). A melhorzinha é “Good Provider”, não por que é  boa, mas por que dura menos de um minuto (é já é um pavor!). To brincando, “Armageddon” é a que se salva, por que é só violão e voz. Ouvir “Hiroshima” e “Return of the Native” foi de uma tortura apavorante, a prova de que até eu podia ter montado uma banda tamanha a infrutífera sensação que essa “música” passa. Não conseguiu atrair-me em nada, me desculpe.

Marco: Já ouvi chuva de granizo no telhado mais agradável do que isso. Mas estou beirando a melhor idade: sou suspeito.

Ronaldo: Distorções e gritos. O que comentar de um disco rotulado como “noise-rock”?

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