Por Micael Machado

Durante pouco mais de dois anos entre 1976 e 1978, os Sex Pistols escandalizaram a Grã-Bretanha falando palavrões ao vivo na televisão, criticando a monarquia, proclamando que “não havia futuro” para a juventude inglesa, sendo presos algumas vezes, literalmente cuspindo na cara da sociedade e chocando por diversas vezes os conservadores cidadãos da ilha. Após uma bem sucedida (e cheia de confusões) turnê pelos Estados Unidos, o quarteto se separou, com seus membros originais seguindo carreiras mais (no caso do vocalista Johnny Rotten, “rebatizado” John Lydon após sair da banda) ou menos (no caso do guitarrista Steve Jones, do baixista Glen Matlock e do baterista Paul Cook) bem sucedidas no ramo da música, mas conquistando novos fãs a cada geração surgida após os anos 1970, além do profundo impacto no mundo da música que causaram não só naqueles que os viram ao vivo em sua curta primeira era de atividades, mas também naqueles que ouviram seu único disco de estúdio (Never Mind the Bollocks, Here’s the Sex Pistols, de 1977) durante os anos de inatividade do grupo. Um boato de reunião da turma era levantado vez por outra na imprensa, mas Lydon sempre deixou claro que não tinha interesse em um retorno, a não ser que muita grana fosse paga aos membros ainda vivos dos Pistols (isso porque, como é sabido, o carismático baixista Sid Vicious, que substituiu Matlock em 1977, morreu de overdose no começo de 1979).

E a grana oferecida aos músicos deve ter sido realmente boa, pois os “quatro cavaleiros” originais do punk britânico acabaram se unindo para uma turnê mundial de seis meses em 1996, passando por quatro continentes em 78 datas, na excursão “Filthy Lucre Tour” (ou “Turnê do Lucro Sujo”, em tradução livre), com Lydon berrando aos quatro ventos que a digressão aconteceria apenas pelo dinheiro que cada um ganharia (reportagens da época falavam em 1,2 milhão de dólares para cada um), excursão esta que inclusive chegou a passar pelo Brasil (com shows no Rio de Janeiro e em São Paulo em novembro daquele ano), e deixou para a posteridade o álbum Filthy Lucre Live, gravado em um festival no Finsbury Park de Londres a 23 de Junho de 1996, no primeiro concerto dos Pistols em sua terra natal em dezoito anos, o qual atraiu mais de trinta mil fãs, segundo reportagens da época – as quais, é claro, consideraram esta volta meramente pela grana como um mero pastiche, onde a banda estaria “envergonhando seu passado”, algo do qual discordo, pelo menos na parte musical da coisa toda.

 Os Sex Pistols no palco em Finsbury Park: Glen Matlock, Paul Cook, Johnny Rotten e Steve Jones

Afinal, como alguém escreveu certa vez, os músicos dos Pistols realmente parecem ter aprendido a tocar seus instrumentos durante o período em que ficaram separados, pois comparar os pouco mais de cinquenta minutos de Filthy Lucre Live a qualquer um dos muitos bootlegs do grupo em sua primeira encarnação chega a ser covardia, visto que, se a fúria, a garra, o espírito ofensivo juvenil e o “sangue nos olhos” dos garotos de 1977 já não existem nos “senhores” de 1996, o profissionalismo, o nítido ganho em termos de experiência nos palcos e a segurança nas execuções dos temas (todas as músicas de Never Mind the Bollocks, mais dois B-Sides do disco e uma faixa de The Great Rock ‘n’ Roll Swindle, a trilha sonora do amalucado filme imaginado e concebido pelo ex-empresário Malcolm McLaren, o verdadeiro cérebro por trás da formação do grupo ainda no final de 1975) compensam com sobras a falta de “agressividade punk” da primeira encarnação da banda. Temas como “God Save the Queen“, “EMI”, “Anarchy in the U.K.” e “Pretty Vacant” são interpretados de forma honesta e empolgante – e talvez um pouco “corretos” demais para uma banda punk, mas, ainda assim, conseguindo cativar a quem os escuta neste disco. Mesmo canções “menores” como “Seventeen” (onde Lydon atrasa sua entrada, aparentemente para ficar apenas curtindo o pessoal cantar os primeiros versos), “Did You No Wrong”, a cover para “(I’m Not Your) Steppin’ Stone” ou a “lenta” “Submission” (uma de minhas favoritas na curta discografia do grupo) são executadas com respeito e dedicação às suas versões originais (algo do qual o punk nunca precisou ou se importou, mas que é legal de ouvir em uma banda aparentemente movida apenas por motivações financeiras para tocar junta), além de umas poucas mudanças de arranjo aqui e ali, que só fazem mostrar a evolução técnica dos músicos nos quase vinte anos em que estiveram separados.

Contracapa de Filthy Lucre Live

O show foi transmitido à época pela BBC britânica, podendo ser encontrado por aí em algumas versões bootlegs (as quais possuem a encore “No Fun”, por alguma razão desconhecida para mim não incluída neste CD, além de, dizem as más línguas, não contar com tantas “edições de estúdio” quanto a versão oficial, algo que não posso confirmar), e, após o término da excursão, cada membro voltou a seguir seu próprio caminho musical, reunindo-se ainda vez por outra para alguma ocasião especial (e, certamente, para encher ainda mais os bolsos de grana, suja ou não), sendo que as últimas aparições públicas do quarteto, pelo menos por enquanto, foram em uma série de festivais europeus em 2008. Mas, sabem como é, se a crise apertar ou se a grana jorrar, certamente os “punks ingleses originais” não irão se negar a sair de suas jacuzzis e subir em um palco para trazer alegria, diversão e boa música aos fãs dos Pistols.

Esses itens, certamente, você encontrará em Filthy Lucre Live, um belo registro de uma volta aos palcos que, mesmo tendo acontecido apenas por razões comerciais (e quantas outras não foram exatamente assim nos últimos anos, embora não de forma tão escancarada?), com certeza conseguiu agradar a quem pôde participar de alguma de suas escalas (alguém que os viu no Rio ou em Sampa pode confirmar nos comentários?). Infelizmente, eu não tive esta oportunidade na época, então, me contento apenas com a audição deste belo registro, que, segundo o Discogs, ainda saiu em uma rara versão “box”, contendo um CD extra com cinco faixas do álbum Never Mind the Bollocks e alguns itens exclusivos, como uma garrafinha de água, uma camiseta e uma nota assinada por Lydon, mas da qual nunca tive a chance de encontrar.

Track List:

01. Bodies
02. Seventeen
03. New York
04. No Feelings
05. Did You No Wrong
06. God Save The Queen
07. Liar!
08. Satellite
09. (I’m Not Your) Steppin Stone
10. Holidays In The Sun
11. Submission
12. Pretty Vacant
13. EMI
14. Anarchy In The Uk
15. Problems

2 comentários

  1. Rodrigo

    Esse artigo muito bacana me traz uma série de lembranças… Aqui em São Paulo esse show dos Pistols foi atração principal do extinto festival Close-Up Planet, na Pista de atletismo do Ibirapuera. Houve muita coisa interessante naquela noite: Mark Ramone & the Intruders, Bad Religion, Silverchair (cara, eles ainda eram muito moleques – mas o Daniel cantava pra caramba ao vivo) e Inocentes são as que me marcaram mais e que me lembro bem. Inacreditavelmente também no meio teve um show do Cypress Hill e foi uma marofa danada; nunca fumei tanta maconha por tabela quanto naquele dia hahahahahaha (ainda mais quando inflaram um Buda gigante no palco segurando uma folha da erva). E também lembro do show de uma banda chamada Spacehog pelo fato de ter sido extremamente chato.
    Lembro que o ingresso para estudantes (eu tinha 15 anos na época) foi de 14 ou 15 Reais. Estava um clima nublado de chuva vai e vem.
    O show dos Pistols foi isso aí mesmo: com o Lydon daquele jeito pirado muito particular e parecendo estar de pijamas. Estava todo mundo esperando uma celebração muito muito bacana pra todo mundo ali tanto punks como não punks. Mas, particularmente, tenho a lembrança de ter sido um show bem mais ou menos e também lembro do pobo estar bem mais animado em quase todos os outros shows do que no dos Pistols. Mas acho que é o tipo de coisa que deve-se ouvir mais gente que estava naquela noite para relembrar e confirmar ou não.
    Tenho lembrança de alguns shows no Brasil com muito carinho na memória e esse festival é um deles. Aliás, no ano seguinte teve outra edição super especial que até show do David Bowie teve. Não me lembro de ele ter vindo ao Brasil em outra ocasião depois disso.

    Bobagem extra: estava com minha camiseta do White Zombie do álbum Astro-Creep 2000 nesse show. Até hoje adoro esse álbum e naquele ano ouvia praticamente todos os dias.

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    • Micael

      Puxa, Rodrigo, muito bacana o seu relato! O cast desse festival foi matador, não é mesmo? Tomara que esta situação atual passe de uma vez e possamos voltar a ter memórias nossas em shows marcantes outra vez! Valeu por dividir suas recordações! Abração!

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