Por Ronaldo Rodrigues

A história toda começa com um jovem garoto do País de Gales, chamado Brian Godding. Como muitos de sua geração, Godding nasceu nos escombros da Segunda Guerra Mundial (seu pai era da força aérea britânica) e sua rotina de brincadeiras tinha como cenário os imóveis destruídos. Nesse contexto ele desenvolveu seu gosto por música e começou a tatear os primeiros instrumentos musicais. Na adolescência montou sua primeira banda, chamada de The Gravedigger, em 1962. Na banda faltava um baixista; Brian Belshaw era o vocalista, mas foi “escalado” para assumir também o baixo. Ele o fazia, mas mantendo o amplificador desligado, já que era incapaz na ocasião de cantar e tocar ao mesmo tempo. O baixo era mantido no palco apenas para dar uma aparência mais profissional ao grupo. A brincadeira começou a ficar mais séria quando a banda foi aprendendo a manejar melhor seus instrumentos e se rebatizaram como The Ingoes. Brian Godding se firmou na guitarra e nos vocais de apoio, Brian Belshaw no vocal e no baixo e Colin Martin na bateria. A banda teve também outro guitarrista além de Godding, posto ocupado por Eddie Lynch e depois por Jim Cregan.

Em 1965, o The Ingoes despertou a atenção do produtor Giorgio Gomelsky. Gomelsky era natural da Geórgia, mas havia sido criado na Suíça e posteriormente se baseou na Inglaterra, onde tornara-se empresário do entretenimento. Ele fundou o Crawdaddy Club em Londres, casa que teve os Rolling Stones como residentes. Mas quando os Rolling Stones ficaram grandes demais para o Crawdaddy, Gomelsky colocou em seu lugar ninguém menos que os Yardbirds, sendo manager da banda por algum tempo. Os negócios de Gomelsky cresceram a ponto dele se tornar produtor e fundar o próprio selo, a Marmalade Records.

Giorgio Gomelsky começou a investir no The Ingoes, enxergando o potencial dos garotos. O grupo começou a produzir material próprio e logo Gomelsky descolou a gravação de um compacto, lançado apenas na França e na Itália. A banda produziu mais material orientado a esses mercados, inclusive com músicas gravadas em francês, bem ao sabor do pop da época. Mas o mercado musical estava sofrendo drásticas alterações – os singles dando lugar aos álbuns, as experiências psicodélicas no rock, as novas tecnologias, etc. – e o produtor e a banda estavam atentos a isso. Com o início oficial das atividades da Marmalade Records, uma postura mais agressiva começou a ser adotada com as bandas. O selo fez o The Ingoes mudar o nome para Blossom Toes, a contragosto dos músicos. A formação do grupo já tinha se modificado um pouco na ocasião – Kevin Westlake assumiu a bateria. Godding, Cregan e Belshaw dividiam os vocais do grupo.

O Blossom Toes então, observando as tendências, embarcou nas pretensões de Giorgio Gomelsky, que visava colocar na praça um álbum que fizesse frente a Sgt. Peppers…, Pet Sounds, e outros trabalhos conceituais da época. Gomelsky jogo a banda em um ambiente cheio de músicos de estúdio e arranjadores profissionais. O ambiente pesou para a banda, que ainda era inexperiente em gravações. Os garotos se sentiram um bocado intimidados ao gerar o primeiro trabalho como Blossom Toes, em 1967. Brian Godding, contudo, rememorou em uma entrevista que apesar de tudo o processo de gravação de We are Ever so Clean (lançado em outubro de 67) foi muito emocionante para todos. O disco reflete bem a busca por um lugar ao sol naquele cenário exploratório que se abria para a música jovem. A revista Melody Maker resenhou o álbum e lhe deu a alcunha de “Giorgio Gomelsky‘s Lonely Hearts Club Band”. De fato, o álbum traz um pop psicodélico de muito respeito e muita pompa, com sua dose de ousadia e ingenuidade. O disco saiu na Inglaterra e na França pela Marmalade e na Alemanha foi lançado pela Polydor. Contudo, a Marmalade não tinha nem de longe a estrutura de promoção dos grandes selos, como Decca, Warner, EMI, RCA Victor, Atlantic, etc. Nisso, algumas boas resenhas surgiram na crítica especializada, mas nada de massivo aconteceu nem com o álbum, nem com os singles que o acompanharam – “What on Earth / Mrs. Murphy’s Budgerigar / Look at Me I’m You”.

O Blossom Toes saiu para alguns shows que se mostraram desastrosos, incluindo participações no Reading Jazz Festival, no festival Love In e uma curta temporada na Suécia. O motivo do mal desempenho é que a banda realmente não estava preparada para adaptar o conteúdo do disco para os palcos, considerando a farta orquestração e os elementos extra-banda que foram usados em We are Ever so Clean. O álbum em si nunca foi promovido ao vivo, porque a banda começou a inventar e reciclar material que pudesse ser tocado apropriadamente no palco.

Depois das experiências desagradáveis, o grupo se afastou dos tons berrantes do primeiro álbum e encaminhou seu som em uma direção mais eletrificada e sólida. Passado mais de um ano depois do primeiro álbum, a Marmalade sondou os garotos para um novo disco, que naquela altura já tinham mais identidade própria e clareza no som que buscavam. Giorgio Gomelsky, acreditando no potencial do Blossom Toes, deixou a banda livre de amarras no processo de criação e elaboração do novo álbum, que seria batizado de If Only for a Moment e lançado em julho de 1969. Na preparação para a gravação o baterista Kevin Westlake deixou a banda, sendo rapidamente substituído por John “Poli” Palmer.

A Marmalade lançou o disco na Inglaterra e conseguiu parcerias para colocar o novo disco do Blossom Toes em outros mercados fora da Europa – Canadá e Japão. Contudo, a falta de repercussão espontânea e a pequena estrutura da Marmalade para divulgação contribuiram para que o sucesso não viesse, nem para o álbum nem para os seus respectivos compactos (com as faixas “Peace Loving Man”/“Just Above my Hobby Horse’s Head” e “Listen to the Silence”/”Love Bomb”). O conteúdo musical, assim como do álbum anterior, trazia uma banda antenada e cheia de predicados. Dessa vez, o Blossom Toes fazia frente ao nascente rock progressivo, adicionando experimentação com mão pesada. As duas guitarras da banda (Godding e Cregam) faziam um belo trabalho juntas, explorando uma sonoridade cativante e ousada. A já citada “Peace Loving Man” tem um riff forte, berros guturais e um clima assustador à la King Crimson; “Kiss of Confusion” tem boas dobras de guitarra e variações instigantes e “Love Bomb” é longa, relaxada e bem melódica. O disco todo tem passagens memoráveis; é uma pena constatar que a banda não chegou até os ouvidos do grande público rockeiro da época.

Ainda que o sucesso do Blossom Toes fosse de modesto para baixo, algumas aparições da banda na TV ou em festivais encontram-se disponíveis, como a aparição deles no famoso Bilzen Jazz & Blues Festival, em agosto de 1969 (que também contou com Deep Purple, Humble Pie e vários outros – veja aqui) e no programa Bouton Rouge, da TV francesa (veja aqui). Como a história do fracasso do primeiro disco se repetiu, a Marmalade os dispensou e a dissolução do Blossom Toes era iminente. Em 1970 a banda já na existia mais. Mas a parceria entre Brian Godding e Brian Belshaw, que existia desde 1962, continuou. O novo projeto dos dois surgiu com o nome de B. B. Blunder. O que alimentou a continuidade da parceria foi que ambos participaram das insanas sessões de gravação do disco Septober Energy, do multi-instrumentista Keith Tippet e seu pretensioso projeto Centipede. Para o B. B. Blunder, Godding e Belshaw recrutaram novamente Kevin Westlake, primeiro baterista do Blossom Toes. Este novo projeto estava envolvido na elaboração de uma trilha sonora para um filme, que acabou não rolando. Porém, o material composto foi aproveitado para o primeiro (e infelizmente único) álbum do projeto, chamado Workers Playtime, de 1971. É possível notar uma espécie de continuidade do Blossom Toes de If Only for a Moment neste álbum, com bons ataques de guitarra e ideias muito bem encadeadas. O disco capta um pouco do progressivo viajante do Pink Floyd, mas é focado nas guitarras, tendo orquestrações e naipes de metais como temperos adicionais. O B. B. Blunder contou também com a parceria com Reg King nos palcos, vocalista ícone do underground britânico ex-membro do The Action.

Já Jim Cregan, o outro guitarrista do Blossom Toes, se uniu aos ex-membros do Taste – John Wilson e Charlie McCranken – e a um ex-membro do Animals e do Family – John Weider – para  formar o Stud, grupo de rock/country-rock que lançou um par de álbuns de sucesso mediano entre 1971 e 1972. Depois do fim precoce do Stud, Jim Cregan também tocou no Family, até o desmonte da banda em 1973. John Palmer, baterista da segunda formação do Blossom Toes,  foi outro que após o fim da banda, tocou no Family. Mas curiosamente ele entrou no Family não como baterista e sim como tecladista e flautista (ele já tocava esses instrumentos na época do Blossom Toes). Posteriormente, o Family se transformou no Streetwalkers, uma espécie de pseudo-supergrupo, que merece ser pauta dessa nossa seção (assim como várias das bandas citadas). Brian Godding continuou trabalhando na música após o fim do B. B. Blunder, e tocou com grupos progressivos e de jazz-rock como Solid Gold Cadilac, Mirage e contribuiu com o grupo francês Magma. Depois, esteve nos bastidores da produção musical e assim permaneceu ao longo das décadas seguintes.

Os discos do Blossom Toes foram relançados em CD e LP ao longo dos anos seguintes e, em 2009, a Sunbeam Records compilou material de arquivo com apresentações da banda em 1967 e 1969, lançando o álbum Love Bomb – Live 1967 – 1969. O material retrata as confusas apresentações que o grupo fez na Suécia, sessões para uma rádio britânica e a participação deles em um festival na Bélgica. Infelizmente, a qualidade de áudio do material é bastante irregular (foram captadas da plateia), mas mostram (ainda que precariamente) a qualidade dos rapazes empunhando seus instrumentos.

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