Por André Kaminski

Tema escolhido por Ronaldo Rodrigues

Com Daniel Benedetti, Davi Pascale, Fernando Bueno e Mairon Machado

André: Seguimos com mais uma edição do Consultoria Recomenda sempre alternada com uma do Ouve Isso Aqui. O tema é excelente e então bora ouvir o que os consultores recomendaram para nós!

Ronaldo: Creio particularmente que há uma lacuna em nosso site ao não tratar tão maciçamente dos primeiros dias do nosso venerado rock n’ roll. Vejo que muitas pessoas tem dificuldade de entender a evolução do estilo ao fazer comparações diretas entre o rock do fim dos anos 50 com algo do hard rock dos anos 80 ou o grunge dos 90. As conexões foram ficando mais sutis na medida em que as décadas se passaram, mas isso longe de mostrar que o estilo seria mais “atitude” do que música, mostra a riqueza das possibilidades musicais que existem dentro do rock. Essa lista de indicações busca trazer luz para os pioneiros, os que lançaram as fundações dessa grande construção chamada rock.


Jerry Lee Lewis – Jerry Lee’s Greatest [1961]

Por Ronaldo Rodrigues

Jerry Lee Lewis é um dos grandes nomes do piano no rock. Além de sua capacidade de também ser agressivo e intenso, Lewis trazia consigo uma malandragem dos pianistas de bar. Seu som traz alguns temperos rítmicos que o diferenciavam de outros pares e sempre havia algum momento da música em que seu piano vinham para o primeiro plano, não apenas seu vocal e as letras das músicas. O caldeirão de Lewis trazia referências de muitas variantes de blues, de country e até de swing-jazz, flavorizadas com sua atitude rebelde e seu talento ao piano. Outro clássico do rock n’ roll está aqui registrado – “Great Balls of Fire” – que além do piano eletrizante, tem uma batida irresistível.

André: Grande época! Jerry tem uma voz incrível para o estilo e suas canções são sempre dançantes e cativantes. O piano e o baixo são sempre fantásticos. “What’d I Say” é a minha favorita com Lewis debulhando o piano. O que mais me surpreende é que, concordando plenamente com a escolha do Ronaldo quanto ao tema e nossa falta quanto a isso, quando fui criar esta matéria foi perceber que ainda não havia uma tag salva por nós do Jerry Lee Lewis. Lamentável, precisamos todos nós aqui urgentemente ouvi-lo mais.

Daniel: Greatest! é o segundo álbum de Jerry Lee Lewis pelo selo Sun Records. O disco é um exemplo fiel do talento de Jerry Lee, um dos pioneiros do Rockabilly, em faixas vibrantes, com musicalidade frenética e interpretações apaixonantes. Um ótimo exemplo disto é a elétrica “Hillbilly Fever”. Outra boa indicação!

Davi: Sempre adorei o trabalho de Jerry Lee Lewis. Excelente cantor, pianista brilhante, aquele tipo de artista que te cria um fascínio. O rapaz teve um início de carreira avassalador e foi meio que ofuscado após ter vindo a publico a notícia de que ele havia se casado com sua prima Myra. Uma garota de, até então, 13 anos. Musicalmente falando, o cara era um gênio. Adoro aquelas levadas velozes que ele faz no piano, em músicas como “As Long As I Live” e “Hillbilly Fever”, para ficar dentro dos exemplos desse disco. Jerry Lee´s Greatest é seu segundo álbum pela Sun e, apresenta todas as facetas que marcaram a sonoridade clássica de ‘the killer’; a influencia do blues (“Hello, Hello, Baby”), do country (“Cold, Cold, Heart”), os solos velozes, a levada rockabilly. A música mais conhecida daqui, obviamente, é o hino “Great Balls of Fire”. Ótimo álbum, conforme já esperado.

Fernando: O disco começa com “Money” e te ganha por transmitir a vontade de todos, afinal “I need money, that´s what I want”. Porém no restante do álbum o que eu ouvi foram só rock and roll padrão sem nada que chamasse muito atenção até chegar “Great Ball of Fire”, outro clássico imortal do período.

Mairon: Esse é fera; Jerry Lee Lewis era a frente de seu tempo. Seu gênio impetuoso abalou as estruturas da sociedade careta norte-americana do início dos anos 60. Ele era rock ‘n’ roll na veia. Adoro o estilo de cantar de Lewis (“As Long As I Live”, “Breakup” e “Let’s Talk About Us”) e de tocar piano também (“Frankie And Johnny”, “Hello Josephine”  e “Money”). Não é nenhum virtuose, mas faz o chão pegar fogo. O disco vive do grande sucesso “Great Balls a Fire”, que acaba eclipsando uma baita coletânea de ótimas músicas para se divertir. Por exemplo, o solo de guitarra em “Country Music Is Here To Stay (Hillbilly Fever)” ou o fraseado de “Home” são avançadíssimos para 1961. Que swingue ouvimos em “What I’d Say”, sonzeira. O solo de piano em “Hello, Hello Baby” é muito legal também. A inspiração country de “Cold Cold Heart”, faixa de Hank Williams, seria um precursor do country rock? Muita malícia e muita diversão de um gigante. Baita recomendação.


The Outlaws – Dream of the West [1961]

Por André Kaminski

Sempre que há a oportunidade, gosto de indicar uns discos mais diferentes e desconhecidos nessas nossas sessões de recomendações. Um belíssimo disco instrumental com aquele rock típico de filmes de “bang bang” que parece ter vindo direto da produção de algum filme do John Wayne ou do Clint Eastwood. Dedilhados de guitarra, castanholas, sons de tiroteios… várias referências ao Velho Oeste por aqui. É vestir as botas, carregar o revólver, subir no cavalo e se dirigir ao saloon para tomar aquele whisky quente.

Daniel: Este eu nunca havia ouvido. Álbum totalmente instrumental em que, em diversas passagens, pareceu-me uma trilha sonora de algum filme de faroeste. A musicalidade é agradável e antecipa sonoridades que me remeteram ao Beach Boys. Minhas favoritas foram “Husky Team” e “Ambush”. Gostei da audição, foi bem agradável, mas não sei se retornarei.

Davi: Único álbum dessa lista que eu não conhecia. A banda aposta em uma sonoridade instrumental, mas diferente da pegada do The Shadows e do The Ventures. A sonoridade deles tem bastante daquela influência western, me lembrou um pouco aquele som “Ghost Riders In The Sky” nos arranjos. Trabalho interessante, mas minhas preferidas são mesmos as mais baladinhas tipo “Smoke Signals” ou “Spring Is Near”. Não é meu som, mas até que foi divertido ouvir.

Fernando: Certamente fui influenciado pela capa, mas tive a impressão de que o som do The Outlaws é uma trilha sonora de algum filme de western, mesmo sendo uma banda britânica. Talvez seja o disco mais diferente dessa lista, totalmente instrumental e o que mais curti de ouvir. A curiosidade é que em 1962 o conjunto teve em suas fileiras um jovem guitarrista que respondia pelo nome de Ritchie Blackmore.

Mairon: The Outlaws é um precursor do country rock, por assim dizer. O estilo suave de suas faixas instrumentais, lideradas pela guitarra melodiosa de Billy Kuy, são para relaxar ao lado de um bom uísque e um pedaço de carne assado na esperteza. A faixa-título é o maior símbolo disso, assim como “Homeward Bound” e “Rodeo” . O embalo da guitarra e o ritmo do conjunto por vezes parece uma polca, mas com todo o swingue do rock ‘n’ roll. Mas os caras também surfam pela surf music (“Barbecue” e “The Outlaws”), baladinhas (“Spring Is Near” e “Western Sunset”) e pelas trilhas de faroeste, ou Bang Bang, “Ambush”, “Husky Team”, “Indian Brave”, “Smoke Signals” e “Tune For Short Cowboys”, sempre com uma pegada country e/ou com temáticas indígenas. É um disquinho curto, para curtir de boas, mas nada de sensacional como os colegas de mesmo ano aqui recomendados.

Ronaldo: Grupo inglês instrumental que adotava a fleuma dos filmes western, tão em voga na época. O som tem marcante participação do violão fazendo as bases para a guitarra solo e também a presença de instrumentos de percussão diversificados (boa parte das músicas desse álbum não é tocada com um kit de bateria convencional). As influências do country norte-americano são mais visíveis aqui, bem como da música italiana e espanhola tradicional, além é claro da raiz fincada no blues rural. Há muitas melodias marcantes no disco todo, cortesia do guitarrista Billy Kuy, cuja cadeira depois viria a ser ocupada por Ritchie Blackmore. Outro músico que tem relação com a grande árvore genealógica do Deep Purple fez parte de uma das muitas formações do Outlaws – o baterista Mick Underwood, que tocou no Episode Six e com Ian Gillan em sua carreira solo.


The Crickets – The “Chirping” Crickets [1957]

Por Daniel Benedetti

O álbum de estreia do The Crickets e o único com Buddy Holly como vocalista e guitarrista, The “Chirping” Crickets é um álbum que ouço constantemente e o tenho em alta conta. Contém o single número um do grupo, a ótima “That’ll Be the Day”, seu hit “Oh, Boy!” e outros clássicos como “Not Fade Away”, “Maybe Baby” e “I’m Looking for Someone to Love”. Enfim, todas estão entre as melhores canções de Rock & Roll dos anos 1950, tornando este um dos álbuns de estreia mais significativos na história do Rock.

André: Não faz 1 mês que me dediquei a ouvir vários discos de vários cantores ou bandas do chamado doo-wop. E felizmente, tenho mais uma banda aqui indicada para ir atrás de ouvir mais. Eu adoro a forma como as vozes são usadas ao melhor estilo doo-wop. Agora acho que peguei a referência de Robert Plant ao incluir aquelas “pausadinhas vocais” em músicas como “Black Dog”. Deve ter sido dos Crickets, do Holly ou de alguma banda similar. Buddy Holly é o principal destaque mas toda a banda aqui tem um desempenho fantástico, com um som divertido e empolgante.

Davi: Realmente, adoro esse período inicial do rock ‘n’ roll. Gene Vincent, Eddie Cochran, Carl Perkins, Ritchie Valens, e é claro, Buddy Holly. Esse disco é o primeiro álbum da curtíssima carreira do músico. Visualmente falando, Buddy Holly era a antítese do rock ‘n’ roll. Um sujeito tímido, com um óculos que lhe dava um visual meio nerd, mas sonoramente, esse cara foi uma das peças fundamentais do estilo. Esse LP é meio que discoteca básica e traz clássicos absolutos como “Oh Boy”, “That I´ll Be The Day”, “Not Fade Away” (mais tarde regravada pelo Rolling Stones), além de outras músicas deliciosíssimas como “You´ve Got Love” e “Send Me Some Lovin´”. Ótima escolha.

Fernando: Toda vez que e alguém fala que gosta de rock eu penso nela ouvindo esses grupos do final dos anos 50. Claro que nem sempre é isso que a pessoa está querendo dizer, mas o rock and roll padrão é o que ouvimos aqui. Músicas curtas, bastante curtas – o disco todo tem pouco mais de 25 minutos. O que mais chama atenção aqui é a presença e Buddy Holly que depois foi fazer uma bem sucedida carreira solo. No mais, nada a acrescentar ao repertório musical que ouço normalmente.

Mairon: A banda de Buddy Holly fazendo história na música. Mais um grande nome do rock raiz, aquele de festas, brilhantina, três acordes e vocais de apoio cheios de harmonia e melodia. Vou ser honesto, acho os arranjos fraquinhos. “Not Fade Away”, por exemplo, ganha muito mais força com os Stones. Falta uma potência nos vocais como a de Little Richard, vide “An Empty Cup (And A Broken Date)”, “Last Night” e “Tell Me How”. A guitarra soa sem tesão por diversas vezes (“Maybe Baby”, “Oh, Boy!”). Mas tem momentos divertidos, como o rockabilly de “You’ve Got Love”, a baladinha “Send Me Some Lovin'”, que com Elvis seria muito mais sacana, o clima gospel de “That’ll Be The Day”, a própria guitarra em “I’m Lookin’ For Someone To Love”, e as clássicas  “Rock Me My Baby” e “It’s Too Late”. É um disco um tanto quanto infantil, mas importante para toda a história que viria depois.

Ronaldo: Aqui é possível ver claramente que o rock surgiu como música para dançar. Na época desse lançamento a guitarra também não era ainda o instrumento preponderante no rock, já que seu protagonismo era dividido com o piano e o saxofone. Mas Buddy Holly era guitarrista e, nesse caso, sim a guitarra é quem dá as cartas. Há momentos em que se percebe o fraseado blues acelerado e incrementado; em outros, novas construções harmônicas começam a aparecer, as mesmas que seriam trabalhadas à exaustão pelos Beatles. Outro ponto interessante é a presença dos vocais de apoio quase que como um instrumento na formação da banda, fazendo os vocais conhecidos como doo-wop. No geral, é uma delícia ouvir o misto de rebeldia-ingenuidade sacolejante do rock dessa época, da qual Buddy é um dos seus principais ícones.


Little Richard – Here’s Little Richard [1957]

Por Davi Pascale

Esse foi um dos primeiros nomes que me veio à mente quando o tema foi lançado. Little Richard é uma figura fundamental desse período. Influência direta na carreira de gigantes como Paul McCartney, Robert Plant e até mesmo dentro do heavy metal, pasmem. Lembro quando entrevistei a Doro Pesch e perguntei sobre os primeiros artistas que ouviu, suas primeiras influências e de cara, ela citou: Little Richard. Veja até onde vai a influência do cara. O disco que abre com a voz poderosa de Little Richard gritando “Uah-Bap-Lu-Lah-Bein-Bum” é uma verdadeira aula de rock n roll. Som simples, honesto, contagiante. Excelente trabalho vocal, instrumental afiado. Embora seja seu primeiro LP, o repertório é quase uma coletânea. Das 12 músicas gravadas aqui, 9 são consideradas clássicos do rock. Entre elas: “Tutti-Frutti”, “Slippin and Sliddin”, “Long Tall Sally”, “Rip It Up”, “Ready Teddy” e “She´s Got It”. Disco obrigatório na coleção de qualquer colecionador que se preze.

André: Vixe, não creio que exista um disco mais com cara de rock ‘n’ roll do que esse. A palavra clássico é pouco para o que ele representa. Sempre simpático e carismático, o Ricardinho nos entrega interpretações de cair o queixo por aqui. Não há muito o que falar aqui a não ser dizer que é o disco supremo do rock ‘n’ roll.

Daniel: Este disco é simplesmente sensacional. A forma como Richard canta e interpreta as canções é a combinação perfeita para uma sonoridade insana para seus dias, em um dos grandes discos de todos os tempos.  Somente as presenças de clássicos como “Tutti Frutti” e “Long Tall Sally” já seriam avalistas do material, mas outras canções incríveis como “Ready Teddy”, “Jenny, Jenny” e “Baby” só reforçam seu conteúdo. Em suma: ouça-o!

Fernando: A capa icônica já chama atenção logo de cara e “Tutti Frutti”, talvez o maior clássico desse rock feito por esses pioneiros, arrebenta e coloca as expectativas lá em cima. Outro desses clássicos imortais também está presente, “Long Tall Sally”. Gostei também do blues “Can´t Believe You Wanna Leave”.

Mairon: “Uah-Bap-Luh-Bah-Lah-Bein-Bum”!”. E assim nascia o rock ‘n’ roll de vez, conquistando os jovens americanos, e por que não ingleses, através da potente voz de Little Richard em “Tutti Frutti”. Here’s Little Richard foi o primeiro disco que me veio à mente para indicar, mas tinha certeza que alguém indicaria, e não errei. Little Richard dá uma aula de energia, mexendo com a velocidade do blues e empregando seu vozeirão soul para criar faixas dançantes e perfeitas para os bailinhos de domingo (os famosos merengues), tais como “Ready Teddy”, “Rip It Up”, “She’s Got It”, “Slippin’ And Slidin'” e “True, Fine Mama”, trazendo hinos do tamanho da já citada “Tutti Frutti”, e “Long Tall Sally”, ou baladaças como “Can’t Believe You Wanna Leave”. No meio de campo, as linhas bluesy de “Baby”, “Jenny Jenny”, “Miss Ann” e “Oh Why?”. Little Richard merece muito mais reconhecimento do que já tem. Saxofone, piano, vocalizações bem encaixadas, tudo o que a british invasion pegou para si anos depois, mas colocando a guitarra na posição de destaque. Discaço!

Ronaldo: Little Richard é um dos artistas mais incendiários do período e sua importância para o desenvolvimento do rock é inquestionável. A garra com que ele se entregava aos vocais e ao piano fazia com que os músicos que o acompanhassem também oferecessem o máximo para o som ser intenso, agitado, contagiante. A faixa que abre o trabalho, Tutti-Frutti, é um dos maiores clássicos do rock de todos os tempos (e não tem guitarra!). O vocal de Richard faz jus a tradição dos gospel-singers, que botavam os bofes para fora para cantar nas igrejas americanas, ou dos blueseiros que queriam ser ouvidos pela plateia dos bares ou que cantavam nas ruas barulhentas das grandes cidades. O disco tem velocidade e intensidade; o peso no rock viria nos anos seguintes com avanços técnicos em amplificação e na eletrificação dos instrumentos (esse disco, por exemplo, foi gravado inteiramente com instrumentos acústicos). Mas toda a base para o rock ser pesado já estava fundamentada desde aqui.


The Shadows – The Shadows [1961]

Por Fernando Bueno

Quando procurei uma banda para indicar aqui para a nossa sessão pensei em trazer uma banda inglesa, pois imaginava que todos os outros consultores acabariam trazendo somente artistas americanos para as nossas audições. No fim das contas Apareceu também o The Outlaws que tinha uma proposta muito parecida com o The Shadows. Também são um grupo instrumental (nos anos seguintes viriam a ser a banda de Cliff Richard) mas o enfoque não tem tanto aquele clima de filmes de “bang bang”.

André: Tudo bem que o instrumental é bom pacas, mas não entendo o motivo dos caras terem poucas canções com vocais. Os três caras que cantam tem bons vocais. Independente disso, se notam influências claras de country norte-americano, blues e aquele tipo de temas mais acústicos (mas feitos na guitarra) de música latina/espanhola/mexicana. E os caras são britânicos. O instrumental não me cansou de nenhuma maneira e os lindos dedilhados de guitarra como em “Blue Star” já garantiram a minha simpatia pelo disco todo.

Daniel: Álbum predominantemente instrumental, com o destaque para o guitarrista Hank Marvin, o qual ilustra possibilidades até então pouco exploradas da guitarra e que influenciariam nomes como Jimmy Page e Eric Clapton, por exemplo. Um álbum muito bom, extremamente interessante, e no qual aponto “Nivram”, “Stand Up and Say That” e “Gonzales” como as favoritas.

Davi: O The Shadows teve dois auges. Um como a banda de apoio do cantor Cliff Richard e outro como grupo de rock instrumental. Esse é o primeiro LP deles longe do cantor. A figura principal aqui era o guitarrista Hank Marvin, que tinha um estilo bem próprio e acabou influenciando uma tonelada de músicos. A influencia chegou até mesmo no Brasil. Grupos como The Jordans, por exemplo, bebiam bastante na fonte deles. Nesse primeiro LP, destacam-se os clássicos “Blue Star” e “Sleepwalk” (que muitos devem conhecer pela trilha do filme La Bamba). Também gosto muito de “Stand Up and Say That” e a faixa de abertura “Shadoogie”.

Mairon: O The Shadows talvez tenha sido a primeira grande banda de rock da história. Os caras, liderados pela guitarra de Hank Marvin, alcançaram número 1 no Reino Unido em uma época onde só o Pop barato conseguia tal status. E isso com um som quase todo instrumental, uma guitarra sem distorção, mas com embalo para agitar a gurizada da Terra da Rainha. As únicas com vocais são “All My Sorrows”, com seu fantástico arranjo vocal,  “Baby Me Heart”, típico embalinho pop rock dos anos 60, com um ótimo solo por Marvin, e a delicada “That’s My Desire”, onde os vocais arrasam calcinhas. Nas instrumentais, a guitarra parece cantar aos ouvidos, um espetáculo! Ouça “All My Sorrows”, “Big Boy”, “Find Me A Golden Street”, “Gonzales” ou “Shadoogie” e entenda o que quero dizer. Os caras não foram revolucionários só na guitarra. “See You In My Drums” talvez seja o primeiro solo de bateria registrado na história do rock, e um solo bem legal por sinal. E recriam Little Richard ao piano de “Stand Up and Say That”. Ainda temos baladinhas lindas, como “All My Sorrows”, “Blue Star” (que melodia encantadora), “My Resistance Is Low” e “Sleepwalk”, a sapequice de “”Nivram” e “Theme From A Filleted Place”, com seus solos de guitarras oitavadas igualmente revolucionários, enfim. Um disco revolucionário, simples e direto!

Ronaldo: Os Shadows eram um grupo inglês majoritariamente instrumental, que assim como muitos outros pares na época e posteriormente, tentava emular o som dos grupos norte-americanos e eventualmente até os superava (!). São contados entre os pioneiros do chamado surf-rock, uma variante do rock com um vínculo não tão explícito ao blues, que buscava traduzir toda a energia daquela nova prática esportiva. Mas ressalte-se que não existia (e nem existe até hoje) uma cultura de surf na gelada e nublada ilha britânica. Nem tudo dos Shadows faz menção ao surf e é possível conectar a música deles com outros estilos da época, entre o rock mais adocicado de Buddy Holly, reminiscências do country e do blues com piano e até mesmo influências de música espanhola. Tudo isso lido como boa qualidade instrumental. Outros dois detalhes interessantes de se notar – a nitidez do baixo elétrico na gravação, algo raro em gravações da mesma época devido a limitação dos amplificadores e gravadores da época, e também o solo de bateria em “See You in my Drums”, algo incomum para o rock no período.


Ike & Tina Turner – River Deep Mountain High [1966]

Por Mairon Machado

O mundo não estava preparado para Ike Turner. Quando ele surgiu em 1951 com “Rocket 88”, e seus Kings of Rhythm, a revolução sonora que ele propôs através da sua guitarra era inexplicável. Tanto que muitos historiadores cravam a faixa como sendo a primeira gravação de rock da história. Ao se unir com Tina Turner, a partir de 1957, Ike trouxe ao mundo as performances de palco mais sexy e encantadoras que o mundo jamais havia visto. A potência vocal de Tina com o talento de compositor e manda-chuva de Ike mudaram a arte da música como ninguém havia feito antes. Em 1966, o casal já era O casal da música mundial, e se deram ao luxo de unir forças com o produtor Phil Spector e sua Wall of Sound precursora de muitas produções desde o final dos anos 50. Daí a coisa foi longe demais. Tu colocas o disco pra rodar e vem a destruidora “River Deep-Mountain High”, que arranjo. Falando em arranjo, Spector se destaca criando pérolas românticas orquestrais do porte de “A Love Like Yours (Don’t Come Knocking Every Day)”, “Every Day I Have To Cry”, “Save The Last Dance For Me” ou estourando alto falantes com “Hold On Baby”, “It’s Gonna Work Out Fine”, “Oh Baby! (Things Ain’t What They Used To Be)” e “You’re So Fine”, uma monstruosidade impactante para a época. As canções de Ike são as que mais me amarro. “I Idolize You” é tão sensual que até uma lombriga embriagada se apaixona. “A Fool In Love” é um blues safado onde os backing vocals das Ikettes são magníficos, e Tina arrasa! Os vocais de Ike e Tina se combinam em “Make ‘Em Wait”, rockzinho perfeito para dançar com brilhantina na cabeça e as meninas de saias rodadas. “Such A Fool For You” é uma faixa típica da mente de Ike, embalada, com ótimos vocais de apoio e um naipe de metais que gruda na nossa mente. Um disco para consolidar a carreira dos gigantes americanos Ike e Tina diante de toda a British Invasion.

André: Eu nunca ouvi muito as músicas da Tina Turner, mas reconheço que a voz dela deve estar entre as 5 melhores da história da música. Essa mulher canta demais. Entretanto, eu gostei desse disco. Tem rocks bem legais tais como “Am I a Fool in Love” e “Hold on Baby”. Vejo que eu deveria dar atenção maior à Tina e procurar melhor seus trabalhos visto que o pouco que conheço dela é daquela fase mais pop/soul oitentista do que essa mais rock ‘n’ roll. Ike também foi um grande músico e compositor, mas é só isso também visto que Tina sofreu um tanto nas mãos dele.

Davi: Adoro esse álbum, amo a Tina Turner, e talvez esteja até errado, mas vejo esse LP mais como um precursor da soul music do que do rock. O LP, contudo, é brilhante. A produção de Phil Spector é certeira. Tina Turner já tinha uma voz fora do comum. Transpirava emoção, além de um alcance invejável. O repertório é espetacular. Além da faixa-título, que todos já devem conhecer, gosto muito de faixas como “Idolize You”, “Make ´Em Wait” e “Such a Fool For You”. De todo modo, é um disco clássico e foi bacana reescutá-lo.

Daniel: Os talentos de Tina Turner como intérprete dispensam maiores comentários. River Deep Mountain High é um disco muito bom de R&B, contando com uma coleção de faixas hipnotizantes como a sensacional “I Idolize You” ou a excelente “A Fool in Love”. Não sei se é um “Pioneiro do Rock”, mas é um baita trabalho!

Fernando: O único álbum da lista que eu já tinha ouvido (nem mesmo o que eu escolhi eu conhecia). É o álbum caçula dessa lista e para mim é o melhor disparado. Talvez o motivo dessa minha preferência é que aqui os parâmetros do rock que eu gosto já estavam muito mais estabelecidos. Já se tinham Beatles, Rolling Stones, The Who, Yardbirds, Beach Boys e mais um monte de outras bandas moldando o estilo e guiando para um universo muito mais amplo do que os pioneiros que foram apresentados aqui faziam. Uma pena que toda vez que vejo essa capa fico triste por tudo o que veio a acontecer entre os dois.

Ronaldo: Apesar desse disco ter sido lançado quando Beatles e Rolling Stones já davam as cartas no mundo do rock e até mesmo das primeiras experiências psicodélicas dentro do rock, o casal Turner já estava na ativa desde o fim dos anos 50 e traz de lá toda sua bagagem de pioneirismo. Aqui temos mais clara a importância de outras variantes da música negra (não apenas o blues) para o rock, especialmente a tradição trazida de dentro das igrejas protestantes norte-americanas e das músicas de trabalho dos agricultores. Tudo isso foi vitaminado pela guitarra esperta de Ike Turner e os vocais fantásticos de Tina, a então sofrida esposa de um canalha. O disco é pura energia do rock, mas vejo que ao longo do tempo dialogou mais com a galera que desenvolveu o soul/funk/r&b do que com o rock. A produção de Phil Spector dá um tom mais épico ao assunto, inserindo aquele som cavernoso e orquestrações luxuosas.

2 comentários

  1. Ronaldo

    Ficou ótimo o texto, galera! Tanto as indicações quanto as resenhas. Parabéns pra todos!

    Responder
    • Davi Pascale

      Valeu, Ronaldo! Tema bem legal!!! Estava fazendo falta uma moçada dessa época aqui no site…

      Responder

Deixar comentário

Seu email NÃO será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.