Por Ronaldo Rodrigues

Todos que colecionam discos acabam também acumulando histórias para contar. O material para isto é farto – as buscas por um determinado disco desejado, as loucuras financeiras, a relação com os lojistas e outros colecionadores, opiniões que mudam ao longo dos anos, ou até mesmo tragédias como a perda de um item ou de coleções inteiras. Essa nossa nova seção traz histórias reais (com diferentes graus de adaptação) ocorridas entre nós redatores, mas sob a alcunha de um personagem fictício, o Eurico.

Eurico é um cara próximo dos 40 anos que começou a comprar discos na adolescência. Seus familiares não criam tanto caso com sua coleção, mas não compreendem o tanto de amor e dedicação que Eurico dispensa para as bolachas. LPs, CDs, fita K7 e até mp3 – Eurico não dispensa nada que toque música que ele gosta. Ele é um cara eclético, ouve rock e relacionados de todas as épocas, mas tem lá suas predileções e contradições, como todo bom colecionador de discos. Nos bons tempos das lojas de disco, Eurico tinha alguns lugares cativos para comprar discos, mas nunca foi exclusivista. Ele gostava (ainda gosta, na real) de um bom garimpo. E pelo garimpo, vale procurar discos na internet, feiras, sebos e todo tipo de pocilga onde possa existir discos. Eurico já viajou para fora do Brasil algumas vezes e a internet sempre o ajudou em encontrar alguma loja de disco nos lugares que visitou. Eurico não se contenta só em ouvir e ser fã de música – ele procura vorazmente por informações sobre as bandas e os discos e é capaz de ir às vias de fato para defender suas bandas favoritas de alguma heresia musical proferida por um leigo ou por outro colecionador.

Dias atrás, Eurico estava sentado no sofá, tomando uma gelada e ouvindo música. Um ritual rotineiro em seus fins de semana. Olhando para sua coleção, começou a se perguntar se seria de capaz de lembrar a história de como conseguiu cada um de seus discos. Depois de passar os olhos apenas pela vasta letra “A” de sua coleção organizada por ordem alfabética, viu que a missão não seria nada fácil. Afinal, já se foram mais de 20 anos comprando (ou, ao menos, tentando comprar) discos. Mas entre um gole e outro, Eurico aproveitou para ir ouvindo discos dos quais ele se lembrava das histórias envolvidas. O primeiro que ele passou os olhos e lembrou a origem foi da banda Dust, o primeiro disco de 1971. Eurico tinha ido a uma loja de discos que tinha um sistema de som espetacular. Eram caixas de som enormes e o local tinha uma ótima acústica. Foi lá que Eurico viu o álbum do Dust pela primeira vez. Eurico evita ao máximo comprar discos “no escuro”, sem ouvir antes. Então, ele sempre perturba os lojistas para conseguir ouvir uma amostra dos discos que não conhece antes de comprar.

Curiosamente, Eurico não se impressionou muito com aquela paulada sonora e preferiu comprar outro disco na ocasião. Eurico era apenas um pobre universitário custeado pelos pais naquela época, e tinha que fazer a triste decisão de levar apenas um disco. Eurico ouvira vários álbuns antes de decidir pelo que comprar e acabou levando o segundo álbum dos americanos de Josefus, também de 1971. Os timbres agressivos da guitarra e o baixo potente o impressionaram ao serem tocados na loja; contudo, qual não foi sua decepção ao colocar o disco para rolar no precário aparelhinho de som que ele tinha em sua casa. 80% do encanto havia se perdido. O disco do Dust, contudo, só foi comprado muitos anos depois, mas Eurico ainda não entende muito como preteriu esse disco (que hoje é um de seus favoritos daquela época) pelo disco do Josefus.

Estando na letra “J” de sua coleção, Eurico se lembrou de outra história ocorrida naquela mesma loja. Era uma época em que ele estava fissurado por bandas obscuras do início dos anos 70 e procurava ardentemente esse tipo de material. Ele ouviu de canto de ouvido um blues-rock da pesada, com guitarras à lá Steppenwolf e vocal rasgado. Mas depois de ter ouvido tanta coisa interessante na loja e não ter comprado nada, já que ele costumava também ir apenas para dar um “passeio” e ouvir som naqueles tempos de vacas magras, não se fixou nem na capa do disco nem no nome da banda. Passados alguns dias, aquele fragmento de som não lhe saía da cabeça. Ele só voltou naquela loja um bom tempo depois, e não conseguia descrever com precisão como era o som que tinha ouvido para o lojista, que não conseguiu ajudá-lo a descobrir de que banda/disco se tratava. Aquilo ficou em sua cabeça durante tanto tempo que ele quase havia desistido de encontrar informações sobre aquele disco, aquela banda e aquela música. Uns dois anos depois do ocorrido, Eurico fez amizade com um outro colecionador muito mais experiente que ele, e a partir dessa amizade, conheceu outro colecionador da área que era um garimpador de mão cheia. Um dia, Eurico e seu amigo foram visitá-lo e a quantidade de itens raros impressionava ambos. Havia ali muita coisa que Eurico, um ainda neófito em matéria de rock setentista, nunca tinha ouvido falar. Começaram a pinçar discos a partir dos nomes das bandas e das capas até que o mistério finalmente foi revelado. Eurico pegou o álbum do Jamul, obscura banda norte-americana que gravou apenas um único disco em 1970. Colocaram para rolar e logo de cara Eurico ficou eufórico com “Tobbaco Road”, a tal música que ele havia ouvido na loja e não sabia de quem era. Depois desse episódio, Eurico passou a andar com um caderninho para lhe ajudar nos garimpos de discos.

Eurico já havia tomado várias cervejas e começou a se embaralhar no meio de tantas histórias; começou a se perguntar se colecionadores que tem 5.000, 10.000 discos se lembram de como conseguiram todos seus discos. Como sua cabeça começou a ferver, ele preferiu relaxar, pegar outros discos aleatoriamente e deixar rolar.

6 comentários

  1. Mairon

    Pô, quem dera lembrar de cada disco que comprei. Anoto os que compro há algum tempo, mas cara, a maioria lembro não. Eurico chegou chegando hehehe

    Responder
    • Ronaldo Rodrigues

      Falou tudo, cara! É bem isso mesmo!
      Eurico vai também comentar sobre alguns discos que comprou repetido e que ganhou de presente. Valeu pelos comentários, pessoal!

      Responder
  2. Micael

    Bah, eu estou na mesma do Alessandro: sequer lembro tudo o que tenho (já comprei repetidos mais de uma vez), quanto mais onde adquiri aqueles que ainda recordo ter!

    Gosto do Eurico, sujeito bacana… tenho certeza que conheço algumas histórias do cara que podem ser contadas aqui…

    Responder
    • Ronaldo Rodrigues

      O Eurico tem história! muita história! ehehehehe…
      Abraços!

      Responder

Deixar comentário para Mairon Cancelar resposta

Seu email NÃO será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.