Por Mairon Machado

O novo álbum do Miasthenia, Sinfonia Ritual, é uma obra icônica e diferenciada. Apresentando releituras de músicas de seus álbuns anteriores, Supremacia Ancestral (2008), Legados do Inframundo (2014) e Antípodas (2017), com ritmos sinfônicos, Sinfonia Ritual cria uma atmosfera única e jamais feita por uma banda de metal em nosso país, realizando um sonho que vem praticamente desde o início da banda.

Com 25 anos de carreira, o grupo de Extreme Pagan Metal (nunca tinha ouvido falar desse gênero), canta em português letras com temática voltada para a história e mitologia pré-colombiana, as guerras de conquista da América no século XVI e a resistência ameríndia. Assim, com esse tom bastante imponente, uniu-se em maio de 2019 ao produtor Ifall para converter as canções em arranjos orquestrais, e promover o que chamam de “uma jornada épica por ritos ancestrais” através desse projeto idealizado pela Epic Music. A formação conta com Susane Hécate (vocalista e tecladista), Thormianak (guitarrista e baixista) e Nygrom (baterista, session member).

Totalmente instrumental, cada canção tem um determinado conceito relativo a esse período histórico. Sinfonia Ritual tem “Taqui Ongo” abrindo os trabalhos com um ritmo percussivo, seguido por teclados e orquestrações, em uma faixa que poderia se encaixar muito bem em trilhas de filmes como 1492 ou A Missão. Com certeza, a orquestração é a principal atração aqui, em um belo trabalho de teclados feito por Susane. No conceito, é a liberação das huacas (espíritos andinos) contra o cristianismo. “13 Ahau Katun”, o tempo marcado pela chegada dos colonizadores cristãos, segue a mesma linha instrumental, com a percussão sinfônica mais presente junto aos teclados, e então, começa a surgir aquela sensação incômoda de que estamos ouvindo a mesma coisa sempre.

“Kayanerehn Kowa” faz a celebração do fim das guerras em rituais que asseguram o equilíbrio e a harmonia entre os povos, em uma faixa onde a flauta se destaca sobre as orquestrações, teclados e ritmos tribais. Quando chegamos na faixa que homenageia as poderosas guerreiras do Rio Amazonas “Coyupuniaras”, a mistura sinfônica com teclados já se tornou muito cansativa. Essa particularmente achei a melhor canção do álbum, com uma melodia muito bonita, inserção de vocalizações, a interessante participação de sinos, e um belo trabalho de teclados, e a sua duração – a mais curta das canções do disco, com apenas 4 minutos – ajuda bastante a ela pontuar para a primeira colocação. Por fim “Deuses da Aurora Ancestral” não consegue fazer o álbum crescer, apesar de novamente termos um interessante arranjo orquestral, e após pouco mais de 30 minutos, fica a sensação de que algo não foi bem conduzido no trabalho.

Susane revelou os motivos que fizeram com que essas cinco músicas fossem escolhidas e como Sinfonia Ritual foi concebido: “Esse álbum traz cinco músicas que acreditamos que sintetizam o conceito que inspiram a temática do Miasthenia. Todas essas cinco foram escolhidas também, por terem linhas de teclados mais complexas e que juntas, retratam melhor a carga intelectual e conceitual do Miasthenia e essas faixas, já tinham uma gravação de teclados orquestrados. É importante dizer que esse álbum, Sinfonia Ritual, não é um álbum de Metal, é uma reedição e produzido com músicas da banda por um formato orquestrado. Isso era um sonho nosso desde a gravação dessas músicas, devido à complexidade das linhas melódicas e queríamos ver como isso iria soar de forma orquestrada e ritualística”.

Respondo eu então. O disco funciona na sua forma orquestrada, para quem curte esse tipo de som, certamente irá agradar. Mas, para um cara que nem eu, que não é um adepto a audições sinfônicas com tanta frequência, e que dentre essas audições acaba optando por obras mais conhecidas e tradicionais, fica o fato de que o disco está longe de ser ruim, mas carece de ritmo, ou de um riff, algo que chame a atenção e nos faz querer ouvi-lo de novo. É um álbum bastante épico, bastante inovador, mas bastante cansativo para quem não é iniciado na arte sinfônica. Creio que talvez eu precise amadurecer mais para poder apreciar a obra em sua integridade.

Foi lançado em versão física limitada de 500 cópias, e também no formato digital. Interessados em adquirir uma cópia, basta entrar em contato com as redes sociais da banda (Facebook ou site oficial) ou, pela loja virtual da Mutilation Records. E caso queria conferir digitalmente, Sinfonia Ritual, se encontra disponível para audição completa em todas as plataformas digitais.

Tracklist

1 Taqui Ongo

2 13 Ahau Katun

3 Kayanerehn Kowa

4 Coniupuyaras

5 Deuses da Aurora Ancestral

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