Por Bernardo Brum

Em cada lugar, o funk teve uma leitura toda própria e no Brasil não foi diferente, exceto que aqui armaram uma covardia daquela – o país tem alguns dos nomes de soul/funk mais surpreendentes, inusitados e singulares. Mais uma opção no restaurante que é o grande encontro de ritmos promovido nas últimas décadas por luminares da nossa música, o funk brasileiro tornou-se notório por ganhar o ritmo de samba, a estilística de ritmos nordestinos, as cordas da música popular brasileira… Sendo uma tarefa realmente hercúlea escolher cinco álbuns representativos, deixando de fora verdadeiros craques que brilharam nos singles, como Cassiano, Hyldon, Banda Black Rio, Tony Bizarro, Toni Tornado, entre outros. Pois bem: cá está o funk de verde e amarelo.


tim_maia_racional-300x300Tim Maia – Racional Vol. 1 [1975]

Tim Maia é um mito gigantesco da nossa música, tão maldito quanto sagrado, tão popular quanto cult. Como qualquer mito, não está isento de ser circundado por histórias inusitadas, bizarras e inacreditáveis. Eis que nesse caso, a bizarrice do mito tenha dado origem ao seu grande disco. A sua adesão à seita Cultura Racional, religião com raízes na umbanda criada por Manoel Jacinto Coelho na década de trinta com forte inclinação a divulgar ideias de paz, amor e fraternidade. Apesar do interesse e frustração de Tim durarem um curto período de tempo, a série Racional é o mais belo fruto dessa época. Longe do álcool e das drogas, Tim conseguiu usar sua potente voz com toda a plenitude. Com músicas previamente compostas tendo letra e título alteradas, Sebastião Rodrigues Maia promoveu uma verdadeira viagem soul espiritual, cravando clássicos como “Imunização Racional (Que Beleza)” e “Bom Senso”, onde os refrões fortes, o ritmo cadenciado hipnótico e o clima místico dá direito a linhas de baixo suculentas, solos de metais delirantes e perfomances vocais de cair o queixo. Pouca coisa é mais impressionante que o encerramento de doze minutos “Rational Culture”, onde Tim fechava com chave de ouro o primeiro disco da série e fazia uma bela propaganda da seita, o que deve ter deixado “O Grão Mestre Varonil” Manoel feliz da vida com o proselitismo mais delicioso de se ouvir já gravado. O funk-mantra de Tim arrasta quem ouve junto para sempre.

Tim Maia (vocais, composições e letras) e Banda Seroma.

1. Imunização Racional (Que Beleza)
2. O Grão Mestre Varonil
3. Bom Senso
4. Energia Racional
5. Leia o Livro Universo em Desencanto
6. Contato com o Mundo Racional
7. Universo em Desencanto
8. You Don’t Know What I Know
9. Rational Culture


africa-brasilJorge Ben – África Brasil [1976]

Jorge elétrico. Jorge alquímico. Jorge funk. O Jorge Ben dos anos setenta dava aqui seu tratado definitivo e maduro, completando a transição da MPB levada pelo violão por uma mistura estilística de samba e ijexá com soul/funk, somando guitarra, baixo, bateria e metais com pandeiros, cuícas, surdos e atabaques, dando origem a uma música cíclica e pesada, com suingue de ritmo intenso e punch “arrasa-quarteirão”, como dá para ver na abertura “Ponta de Lança Africano (Umbabarauma)”, levada por um inflamado riff de guitarra e desemboca em um interlúdio rítmico que faz qualquer pé bater no chão de forma incessante. O Senhor Simpatia promovia também um encontro de culturas nos temas que escolhia tratar com sua concepção originalíssima de som: tem a construção mitológica do país através do esporte em músicas como a abertura e “Camisa 10 da Gávea”, misticismo e antiguidade em “Hermes Trismegisto Escreveu” e “Taj Mahal”, com seu toque árabe que criava um padrão pop fora dos parâmetros estadunidense/europeus; e há o empoderamento através da música de figuras da história brasileira, “Xica da Silva”, tema da novela homônima com Zezé Motta embalada como um soul cadenciado cuja versos de ares aristocráticos grudam à primeira audição; e “África Brasil (Zumbi)”, onde o líder dos Palmares é alçado a herói de conto épico em uma paulada gritada, visceral e intensa – com um punch que a torna o momento mais rockeiro da carreira de Jorge, com a sessão percussiva atropelando quem estiver no caminho. Obra-prima da nossa música, Jorge Ben juntou tudo o que era interessante à época e fez um disco só, multifacetado e fluido, com um poder conceitual mais do que singular casado com uma estética musical transformador. Disco que não se ouve todo dia.

Jorge Ben Jor (vocal e guitarra), João Roberto Vandaluz (piano), Dadi Carvalho (baixo), Gustavo Schroeter (bateria), Joãozinho Pereira, Djalma Côrrea, Hermes e Ariovaldo (Percussão), Pedrinho e Wilson das Neves (bateria e timbales), José Roberto Betrami (teclados), Luna (surdo), Neném (cuíca), Oberdan Magalhães e Márcio Montarroyos (metais)

1. Ponta de Lança Africano (Umbabarauma)
2. Hermes Trismegisto Escreveu
3. O Filósofo
4. Meus Filhos, Meu Tesouro
5. O Plebeu
6. Xica da Silva
7. A História de Jorge
8. Camisa 10 da Gávea
9. Cavaleiro do Cavalo Imaculado
10. África Brasil (Zumbi)


Di-Melo-1975-300x300Di Melo – Di Melo [1975]

Auto-declarado “O Imorrível”, Di Melo é um daqueles casos impossíveis de se entender: músico de um disco só que só fez relativo sucesso em sua época e tornou-se objeto de culto mais de vinte anos depois. O caso impossível de se entender é como aquela geração deixou uma pérola desse quilate passar. O pernambucano, compositor de mão cheia, teve um acompanhamento de luxo, com participações de Hermeto Pascoal e Heraldo do Monte, criando um funk/soul cheio de texturas, como dá pra ver no ritmo ardido e irresistível da abertura “Kilariô”, os refrões inusitados e explosivos de “A Vida em Seus Métodos Diz Calma” e “Se o Mundo Acabasse em Mel”, a psicodelia tensa de “Aceito Tudo” e o “tango-soul” de letra crítica e poética “Conformópolis”, acompanhado de um acordeon sombrio que torna essa a mais “etérea” e “fantasmagórica” do álbum, e talvez o ápice do disco e sua loucura dançante-sofisticada. Passeando por melodias, ritmos, cordas e percussões, Di Melo faz de seu primeiro e único disco algo que ainda assusta quem ouve pelo ineditismo, diversificação e cuidado com as composições, com uma arquitetura sonora pensada para arrebatar quem ouve do coração aos pés.

Di Melo (voz e composições), Cláudio Bertrame (baixo), Bolão (saxofone), Capitão (trompete), Ubirajara (sintetizador), Eloá (backing vocal), Luiz Melo (teclados), Geraldo Vespar (maestro, arranjos e violão), José Briamonte (Maestro), Waldemar Marchette (arranjos).

1. Kilariô
2. A Vida Em Seus Métodos Diz Calma
3. Aceito Tudo
4. Conformópolis
5. Má-lida
6. Sementes
7. Pernalonga
8. Minha Estrela
9. Se o Mundo Acabasse em Mel
10. Alma Gêmea
11. João
12. Indecisão


dom-salvador-300x298Dom Salvador & Abolição – Som, Sangue e Raça [1972]

Figura fundamental no soul/funk brasileiro, Dom Salvador começou a vida como pianista em orquestra em Rio Claro/SP, logo mudando para o Rio de Janeiro e passando a acompanhar figuras de destaque da nossa música como Edu Lobo e Elza Soares, e fazendo amizade em excursões internacionais com gênios como Thelonious Monk. Quando retornou ao Brasil, passou uma fase como produtor musical e em 1970 tornou-se o homem de frente da banda Abolição, que agregando músicos de outras bandas como Cry Babies e Impacto 8, criou o germe que mais tarde daria origem a Banda Black Rio. Seu grande disco, “Sangue, Suor e Raça” já traz faixas como a abertura “Uma Vida” e “Ei Você” mostrando uma apimentada fusão de funk, samba e ritmos nordestinos – baixo e sopros funky casam perfeitamente com as cuícas, acordeons e apitos em uma mistura frenética e dançante que mostra um grupo afinadíssimo e criativo, conduzindo uma verdadeira orgia sonora com muita fluidez e vibração, como no folk com cuíca de “Folia de Reis” e o funk que vira samba “O Rio”. As ideias de pioneiros como Jorge e Tim, de fazer os ritmos dançantes de lá encontrarem os ritmos pulsantes daqui, mostravam-se concretos com uma geração de músicos que, sem medo, chamavam todas as tribos para a mesma festa.

Dom Salvador (piano), Oberdan Magalhães (saxofone e flauta), Luiz Carlos Santos (bateria), Rubão Sabino (baixo), José Carlos (guitarra), Getúlio Cortês e Mariá (vocais), Darcy (trompete), Serginho (trombone) e Nelsinho (percussão e vocal)

1. Uma Vida
2. Guanabara
3. Hei! Você
4. Som, Sangue e Raça
5. Tema pro Gaguinho
6. O Rio
7. Evo
8. Number One
9. Folia de Reis
10. Moeda, Reza e Cor
11. Samba do Malandrinho
12. Tio Macrô


sintoniza-la-300x300B Negão & Os Seletores de Frequência – Sintoniza Lá [2012]

Famoso pela mistura explosiva de rap e hardcore no Planet Hemp, B Negão sempre teve uma vibe funk pra lá de acentuada, como dá para ver no primeiro disco de sua banda em 2003, “Enxugando Gelo”, graças a músicas como “(Funk) Até o Caroço”. Nove anos depois, o cara conseguiu afinar mais ainda as misturas entre rock, funk, rap, dub e reggae, com um instrumental viajante capaz de cair em repetições estilísticas dançantes, andamentos chapados encorpados por sopros funkeiros, o vocal entre o declamado e o suingado e a temática sincrética botando política, cotidiano, urbanismo e dança no mesmo caldeirão, soando em forte em músicas como “O Mundo – Panela de Pressão”, “Chega Pra Somar No Groove” e a excepcional “Essa é Pra Tocar No Baile”, capaz de botar fogo em qualquer espaço com seres humanos que ainda tenham o coração batendo. “Bernardo Negrón”, como assina no Facebook, tem uma criatividade que parece não ter limites; sua música é tanta coisa, mas ao mesmo tempo parece tão singular, tão natural, que quase parece fácil. Basta ligar e dançar.

B Negão (voz), Pedro Selector (trompete e voz), Fábio Kalunga (baixo), Robson Riva (bateria e voz), Fabiano Moreno (guitarra e voz)

1. Alteração (ÊA!)
2. O Mundo (Panela de Pressão)
3. Reação (Panela II)
4. Proceder/Caminhar
5. Vamo!
6. Essa É Pra Tocar no Baile
7. Subconsciente
8. Na Traquila
9. Chega Pra Somar no Groove
10. Bass do Tambô
11. Sintoniza Lá

2 comentários

  1. Rilmar da Rocha Moreira

    Excelente! Claro que outros mestres e outras pérolas poderiam ter sido incluídas: Cassiano (Cuban Soul), Hyldon (Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda), Carlos Dafé (Pra Que Vou Recordar), Robson Jorge & Lincoln Olivetti, Banda Black Rio (Maria Fumaça)… Mas, a seleção e os comentários apresentados são excelentes. Uma pequena correção: Xica da Silva foi composta pro filme de Cacá Diegues, com Zezé Motta no papel titulo; a novela (com Taís Araújo no mesmo papel), veio bem depois.

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  2. Eudes Baima

    Excelente “5 Discos…”. Parabéns! Apenas uma correção: Chica da Silva foi tema do filme homônimo, com Zezé Mota, e não de uma novela. De fato, muitos anos depois, houve uma novela, acho que com Tais Araujo no papel título, mas não sei se a canção foi usada como tema.

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