Por Micael Machado

A Biografia da banda inglesa Black Sabbath não é o primeiro livro do jornalista, radialista e escritor (também britânico) Mick Wall que eu leio, nem o primeiro a ser resenhado neste site. Mas, ao contrário do que acontece com o excelente Led Zeppelin: Quando os Gigantes Caminhavam sobre a Terra, desta vez a leitura das mais de 330 páginas da obra deixará um sabor quase agridoce ao fã que se aventurar por suas linhas.

Tendo entrevistado os membros do grupo (em suas várias encarnações) ao longo dos anos (fossem eles integrantes efetivos ou ex-colaboradores quando de suas conversas), assistido a diversos shows e inclusive trabalhado como relações públicas para a banda durante a primeira passagem do vocalista Ronnie James Dio pelo Sabbath (e depois durante a carreira solo do cantor, assim como exerceu a mesma função na carreira solo de Ozzy Osbourne a certa altura), Wall tinha tudo para escrever o compêndio definitivo sobre um dos grupos mais importantes do hard rock setentista, considerado um dos pais do heavy metal e um dos membros da Santíssima Trindade do rock pesado (ao lado do citado Led Zeppelin e dos também ingleses do Deep Purple). Mas, infelizmente, o jornalista resolveu dedicar atenção especial apenas às fases do grupo pela qual ele nutre um assumido apreço e interesse musical, dedicando apenas umas poucas linhas para os períodos que ele considerou como “de baixa” na história do quarteto (fases que, em geral, têm a mesma consideração também por parte dos fãs do grupo).

Algumas das fotos presentes no livro

Desta forma, se a infância/adolescência dos membros originais do Sabbath são destrinchadas quase que cirurgicamente pelo autor (assim como o período entre o primeiro disco e o álbum Sabbath Bloody Sabbath, de 1973), Mick Wall também dedica uma atenção especial à primeira fase de Dio com o grupo (à qual ele acompanhou “de dentro”, como citei), ao período em que o cantor Ian Gillan esteve à frente do quarteto (o que rendeu o lançamento do disco Born Again, em 1983) e ao retorno de Dio em 1992, bem como coloca em evidência a importância e a colaboração do eterno “tecladista escondido” Geoff Nicholls para o Sabbath (ele que, apesar de algumas críticas que sofre por parte do escritor, é citado como fundamental para que o grupo continuasse na ativa depois da saída de Ozzy, ajudando Iommi a compor e sempre apoiando o guitarrista durante as várias mudanças de formação que o grupo enfrentou durante a década de 1980). Estranhamente, há também várias páginas dedicadas à primeira fase da carreira solo de Ozzy, quando tinha ao seu lado o fantástico guitarrista Randy Rhoads, em trechos que, embora bastante interessantes (e até emocionantes por vezes), acabam soando um pouco deslocados, visto o livro ser sobre o Sabbath, não sobre seus membros (há também, para ser justo, várias referências à carreira solo de Dio, embora em menor número).

Porém, o período final da primeira fase com Ozzy (que rendeu dois discos considerados como “desastrosos” pelo autor, Technical Ecstasy e Never Say Die) rende páginas e mais páginas quase que apenas denegrindo a imagem do grupo (e de seu vocalista) na época. Já as fases com Glenn Hughes, Ray Gillen e Tony Martin ao microfone (sete anos e quatro discos, se considerarmos apenas a primeira passagem deste último pelo quarteto) ocupam apenas vinte e quatro páginas (os dois primeiros anos de Dio com o grupo renderam quarenta, para terem ideia), enquanto o período entre os shows gravados no disco Reunion (de 1998) e as gravações de 13, durante os anos de 2012 e 2013 (quando ocorreram várias turnês encabeçando o festival Ozzfest, e pelo menos duas tentativas de concluir um novo álbum de estúdio), também não chegam a despertar maiores interesses por parte do autor, e, apesar de bem catalogados e de não deixarem de trazer informações interessantes mesmo ao mais dedicado fã da banda, acabam deixando no leitor a impressão de que poderiam ter sido melhor explorados, ainda que, para isso, o número total de folhas do compêndio tivesse de ser aumentado em mais algumas dezenas de páginas.

Capa e contracapa da versão nacional de Black Sabbath – A Biografia

O livro se encerra quando do lançamento do álbum 13 (em 2013), e, mesmo com algumas (poucas) falhas, como as citadas, e um certo gosto de “quero mais” ao final da leitura, ainda consegue ser bastante recomendável, até porque o talento de Mick Wall como escritor é inegável (sua escrita é ágil e direta, proporcionando uma leitura bastante agradável), e a tradução para o português (a cargo de Marcelo Barbão) parece ter sido feita por quem “entende do riscado”, evitando vários equívocos que alguém “de fora” do meio musical comete frequentemente, como se vê em outras obras por aí. Black Sabbath – A Biografia (que ainda possui vinte e quatro páginas com fotos de diversas fases da carreira do grupo) pode não ser, ainda, a obra definitiva da história dos ingleses de Birmingham, mas está de bom tamanho para quem quiser saber um pouco mais sobre um dos mais importantes nomes do heavy metal de todos os tempos. Confira!

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