Por Fernando Bueno

Ouvi muita coisa nova nesse ano de 2019, entretanto não foi tanta coisa como nos últimos dois ou três anos. No geral acho que os lançamentos de 2019 foram mais fracos que os de 2018, para ficar só na comparação entre esses dois anos. Mas nós que gostamos de música não ouvimos só lançamentos. Nossa busca por novos sons acaba nos levando para grupos que nunca ouvimos antes. E não teve uma banda, daquelas que pouco tinha ouvido antes, que ouvi tanto quando o Moonspell. Eu tinha uma ideia de que a banda era só mais um grupo genérico de metal extremo e nunca tinha me interessado até ficar sabendo sobre esse disco aqui, 1755. Eu não sabia sequer que eles eram portugueses, então não fiz a correlação imediata da data com a história de Portugal. Mas foi a data que me chamou atenção. Tudo isso aconteceu no final de 2018, já em dezembro, tanto que coloquei o disco e a banda como “Descoberta do Ano” na minha lista de melhores do ano passado. Porém foi em 2019 que realmente me aprofundei na discografia da banda.

Gosto bastante de história e sabia que um disco com esse título certamente seria algo relacionado com algum fato histórico. Quando busquei mais informações foi uma bela surpresa. Na época eu estava lendo muito sobre o período das grandes navegações e sobre os primeiros séculos da colonização portuguesa em solo brasileiro. Esse período é muito rico e é uma pena que o sistema de ensino brasileiro tenha um método que afasta o interesse dos alunos sobre a história do Brasil. Mas essa questão pode ficar para outro dia.

1755 conta sobre a tragédia que ocorreu com o grande terremoto em Lisboa, ou Sismo de Lisboa, como é conhecido, ocorrido em novembro daquele ano. O terremoto causou um tsunami que deixou uma boa parte da cidade alagada e também acabou favorecendo incêndios em outras partes. Um desastre completo que acabou causando importantíssimos reflexos políticos e econômicos aqui no Brasil – lembram dos conselhos de Marques de Pombal ao rei em relação ao nosso país?. Ou seja, o tema do disco casava direitinho com o tema que eu estava me aprofundando na época e eu acabei criando um clima de “já gostei” antes mesmo de ouvir.

O disco já abre com uma curiosidade. A faixa “Em Nome do Medo” é uma regravação de uma música da própria banda que já tinha sido registrada dois discos antes, Alpha Noir (2012). A gravação original é bem mais metálica e o que se ouve aqui é uma versão orquestrada que aumentou ainda mais o clima que já era sombrio. Acredito que a intenção foi usar um tema que, mesmo não tendo sido composto para o disco, se encaixaria com o conceito. O medo pode se referir à eterna vigília que as pessoas, fervorosamente católicas, tinham em relação aos desejos de Deus. E o medo de um desastre, ou do juízo final, era algo constante e fico me imaginando se as pessoas lá no momento não pensaram que aquilo não se tratava do fim do mundo mesmo.

Área de ação do Sismo de 1755

Área de ação do Sismo de 1755

No geral as músicas transmitem uma tensão absurda, totalmente adequada com o que o disco precisava. A grandiosidade dos coros, geralmente em latim, faz aumentar ainda mais a sensação de pânico, desespero e tumulto que traduz o sentimento de se estar no meio de um acontecimento trágico como esse. A faixa título, que faz uma espécie de sinopse do que acontece ao longo do disco, e “In Tremor Dei” são bons exemplos disso. Essa última tem a participação do cantor de fado, de origem angolana, mas de nacionalidade portuguesa, Paulo Bragança. Ele empresta ao álbum a única passagem com voz limpa do disco. Só para deixar registrado a formação do Moonspell que gravou 1755 foi Fernando Ribeiro no vocal, Don Aires Pereira no baixo,  Ricardo Amorim na guitarra, Pedro Paixão nos teclados e Miguel Gaspar na bateria.

Em “Desastre” temos a letra que mais lembra os temas de black metal que estamos acostumados a ouvir em inglês. A revolta com deus – assim mesmo, com letra minúscula – que deixou acontecer um desastre como esse é só mais um exemplo do principal motivo dos anti-cristãos questionarem a existência Deus, afinal, Ele não deixaria coisas assim acontecerem. A mesma ideia é passada em “Evento” que diz “e fica quieto, que deus quis assim”. Nos faz lembrar que o black metal é muito mais do que ‘Hail Satan’.

Sabemos que, apesar do mesmo idioma, há diversas diferenças entre os portugueses e os brasileiros não só no sotaque, mas também no uso de algumas palavras. O nome da faixa “Abanão” acaba se tornando cômica para nós como sinônimo de ‘terremoto’. “Ruinas” tem um uma melodia meio oriental e tem o melhor solo do álbum.

Se o disco começa com uma curiosidade, termina com outra. A versão para “Lanterna dos Afogados” casou perfeitamente com o conceito do disco. Eles conseguiram imprimir um clima de incrível de desolação e, mesmo que a letra não seja exatamente sobre o tema, algumas frases se encaixam como uma luva ao assunto. O Moonspell colocou a tradução para o nome de todas as músicas para o inglês na contracapa do álbum e o título “Lighthouse for the Drowned” ficou bastante imponente. Fico imaginando o que o pessoal de fora do Brasil achou da música. Não existe brasileiro que não a conheça, mas o fã estrangeiro pode estranhar quando descobrir que Os Paralamas do Sucesso são uma banda de pop rock desprezada por uma parcela grande dos headbangers brasileiros. Cabe lembrar também que esse é o primeiro disco totalmente em português do grupo. Para nós brasileiros o fato de ser em português ajuda a entender, se familiarizar e aumentar nossa empatia com o conceito. Porém o disco tinha que ser em português por conta da carga emocional que a língua pátria traz ao narrar um fato tão importante de sua história.

Capa da versão em LP

Só me pergunto porque a capa da versão em LP não foi a usada no lançamento em CD também. A do CD é meio confusa com a silhueta de uma pessoa sobre a imagem de um mar revolto, chamas e uma cidade ao fundo. Já a capa do LP é linda mostrando o mar varrendo a cidade com tons de azul do mar e marrom da terra dividindo a imagem.

Sei que parte dos fãs mais antigos não gostaram os dois discos anteriores à 1755, Alpha Noir e Extinct (2015). Desse último até mais pois o uso de elementos sinfônicos tinha sido mais evidente até então. As raízes do black metal e do gothic rock ainda são reconhecíveis, mas elas funcionam aqui muito mais como um tempero do que como prato principal. 1755 é bem mais sinfônico dando a oportunidade de classificar a banda também na vertente do metal sinfônico. Claro que isso desagradou muito mais os fãs citados. Como eu comecei dele, fui voltando e não sou purista, não tenho ressalvas nenhuma ao comparar o repertório de diversas fases da banda. Mas aquele que já ouviu e não gostou muito, ou aquele que ainda vai ouvir tem que ter em mente que esse disco é um daqueles que cresce com o passar do tempo, portanto é bom ter paciência.

Track List

01. Em Nome do Medo (In the Name of Fear)
2. 1755
3. In Tremor Dei (In Fear of God)
4. Desastre (Disaster)
5. Abanão (Quake)
6. Evento (Event)
7. 1 de Novembro (November 1st)
8. Ruínas (Ruins)
9. Todos os Santos (All Saints)
10. Lanterna dos Afogados (Lighthouse For the Drowned)

2 comentários

  1. von draco

    O Moonspell sem dúvida é a melhor banda de Portugal no estilo de longe.Única.Também uma das pioneiras nesta fusão melancólica black-gothic.Irreligious e Wolfheart são obras primas.Darkness and Hope, Memorial, The Butterfly Effect e Extinct idem.A faixa DOMINA é uma de minhas prediletas.
    Os 2 últimos álbuns não consegui digerir.Falta riff, aquele clima melancólico apesar de ser o Moonspell.Foi como o 13 do Black Sabbath que detesto.Não consigo ouvir.A falta de “quimica” prejudica ambos.

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