Por Micael Machado

(Fotos retiradas do site Sequela Coletiva)

Esse mês de novembro foi muito especial para mim. Afinal, completou-se vinte e cinco anos da única oportunidade que eu tive de assistir ao vivo minha banda favorita em todos os tempos, os americanos dos Ramones. No dia 09 de novembro de 1994, os “irmãos” novaiorquinos se apresentaram em Porto Alegre na turnê chamada “Acid Chaos”, ao lado dos grupos brasileiros Sepultura e Raimundos. Uma data que, mesmo passados tantos anos, ainda permanece viva na memória de quem esteve no Ginásio Gigantinho naquela noite mágica!

Anúncio do show nos jornais

Na época, eu era (ou tentava ser) cantor em uma banda amadora da cidade de Esteio, na região metropolitana da capital gaúcha. Depois de alguns finais de semana tocando pelos barzinhos da região, um dos meus colegas de grupo reuniu a grana que havíamos juntado e se dirigiu a Porto Alegre para comprar os ingressos alguns dias antes da data marcada para o show dos Ramones, banda da qual eu e meus amigos éramos fãs incondicionais. Ele escolheu comprar os ingressos para as cadeiras numeradas (por caríssimos, à época, vinte e cinco reais, contra vinte do valor para arquibancadas e pista), de onde teríamos uma melhor visão do show, segundo seu pensamento, algo que realmente veio a se confirmar, embora na época eu tenha ficado bastante chateado de estar tão longe do palco, e sentado, ainda por cima. Sei que os dias que antecederam aquela quarta feira foram de muita expectativa, ainda mais que seria o meu primeiro show envolvendo uma banda internacional (e apenas o quarto de uma banda “grande”). Na época, eu não tinha muita ideia da capacidade de público do Gigantinho (em torno de dezoito mil pessoas), mas lembro que fiquei chocado ao constatar que havia naquela noite menos pessoas do que no show da Legião Urbana que eu havia assistido alguns meses antes (segundo o jornal Zero Hora, oito mil espectadores assistiram ao concerto naquele novembro). Afinal, como era possível que os Ramones não lotassem o local, se a Legião havia feito isto?

Ingressos do show

A abertura da noite ficou a cargo dos Raimundos. Com a “clássica” formação de Rodolfo (vocais), Digão (guitarra), Canisso (baixo) e Fred (bateria), os brasilienses haviam lançado seu disco de estreia pouco tempo antes, e estavam “com todo o gás” na data em questão. Confesso que lembro muito pouco do show, exceto que curti bastante todas as músicas tocadas, as quais eu já conhecia de cor, visto que o álbum dos brasilienses já fazia parte da minha coleção há algumas semanas. Não sei ao certo o que tocaram (com certeza, nos trinta minutos a que tiveram direito – segundo a matéria da Zero Hora citada antes – rolaram “Puteiro Em João Pessoa” e “Nêga Jurema”, as primeiras canções de destaque do disco), mas lembro que o ginásio ainda estava bem vazio ao longo da apresentação do quarteto.

Cartaz de divulgação

Algo que mudaria radicalmente pouco antes do Sepultura entrar em cena. A pista ficou tomada por milhares de metalheads vindos sei lá de onde para curtir o som dos mineiros, que estavam em turnê de lançamento de Chaos AD, ainda hoje o meu disco favorito dos caras. Foi a única vez que tive a chance de ver o grupo com Max Cavalera nos vocais, ao lado de seu irmão Igor na bateria, de Andreas Kisser nas guitarras e de Paulo Jr. no baixo, e os caras não decepcionaram, despejando porrada após porrada (vinte, segundo o  texto do jornal) com sangue nos olhos. Também não lembro direito o que rolou (a Zero Hora fala em “Inner Self”, “Polícia” e “Orgasmatron”, além de uma participação dos Raimundos em “Kaiowas”), mas sei que conhecia tudo, e, em “Desperate Cry”, minha preferida em sua longa discografia, quase entrei em êxtase! Assisti ao grupo várias vezes depois disso, já com Derrick nos vocais (e algumas vezes sem Igor), e o impacto que o Sepultura me causou nunca foi nem perto do que aconteceu daquela primeira vez, vinte anos atrás!

Matérias no jornal antes do show

E então era chegada a hora tão esperada: meus heróis musicais estariam finalmente a poucos metros de distância de mim, e tocando as minhas canções preferidas! Para meu espanto, muita gente que havia entrado no ginásio para assistir ao Sepultura foi embora assim que a apresentação acabou, e a pista acabou ficando bem vazia, talvez com metade do público que havia no show dos mineiros. Mas isso não pareceu ser empecilho para Joey (vocais), Johnny (guitarra), CJ (baixo) e Marky, visto que, ao que consta, os talvez quatro mil espectadores que sobraram ainda eram muito mais do que as poucas centenas a que eles estavam acostumados a enfrentar em suas apresentações nos Estados Unidos. Só que, infelizmente, este já não era o melhor momento para ver o grupo em ação. Apesar de estarem divulgando o disco de covers Acid Eaters (e, se ninguém percebeu, o nome da turnê é a junção de parte dos nomes dos “novos discos” das duas bandas), o show foi muito parecido com o que se ouve no ao vivo Loco Live, com as músicas bem mais rápidas que as versões de estúdio, e o set inteiro durando pouco mais de uma hora. Apesar de eu vibrar como um doido, não deixei de perceber que o quarteto parecia cansado e burocrático (não foi à toa que se separariam apenas dois anos depois), tocando meio no “piloto automático”, sem tanta empolgação. Lembro de ter lido na época (se não me engano, na revista Bizz, uma das poucas fontes que tínhamos então, visto que não havia internet nem tanto acesso à informação quanto temos hoje) uma declaração de Joey de que os Ramones sempre pretendiam que você saísse de uma apresentação deles com a certeza de ter visto o melhor show de sua vida. Eu ainda era inexperiente nesse ramo, mas, já então, não foi o melhor concerto que eu havia presenciado. Mesmo assim, longe de mim falar que foi ruim, embora eu esperasse bem mais!

Matéria no jornal depois do show

Como eu disse, vi Andreas, Paulo e Igor algumas vezes depois disso, assim como os Raimundos com e sem Rodolfo à sua frente (ou Fred nas baquetas). Também pude assistir Marky outras três vezes desde então (com o Intruders em 2000 no Bar Opinião, em uma participação especial no show do Pearl Jam em 2005 no mesmo Gigantinho, e novamente no Opinião em maio de 2014, junto do Marky Ramone’s Blitzkrieg). E levaria quase vinte anos para rever CJ (em setembro de 2014) e Max (a quem assisti em 2013 à frente do Soulfly, de novo em 2014, desta vez ao lado de seu irmão no Cavalera Conspiracy, e com o mesmo Cavalera Conspiracy na tour Beneath + Arise, no ano passado). Mas nunca mais pude assistir a um concerto com Joey ou Johhny no palco. É também por isso que aquele 09 de novembro de 1994 é tão especial, e, com certeza, ficará para sempre na minha memória como um dos mais memoráveis espetáculos a que já assisti. Tenho convicção que aqueles que estiveram lá naquela noite hão de concordar comigo!

Hey Ho, Let’s Go!

3 comentários

  1. Anônimo

    O Ramones já não era mais a mesma coisa nessa época, apesar de que ainda iriam gravar seu grande disco Adios Amigos! no ano seguinte. Ao vivo se percebia uma certa estagnação e defasagem, os caras pareciam estar de saco cheio de tocar. Bom, pelo menos opinião minha.

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  2. Anônimo

    Li uma matéria de um conhecido do Gastão Moreira alguns anos atrás, comentando que ficou deprimido demais com a passagem de som do Ramones se não me engano em São Paulo, em 94 ou 95. Johnny sempre foi um escroto e filho da puta com Joey, e na passagem de som esse camarada conta que os dois nem se olhavam. Realmente, o clima nos Ramones sempre foi péssimo. Não existia amizade na banda, era cada um por si, um clima de egoísmo e individualismo doentio e patético. Johnny era o típico nazi fdp que não queria que ninguém se importasse com o sofrimento alheio, queria que agissem como se aquilo fosse um emprego. Johnny não sabia o que era tocar em uma banda de rock’n’roll. Aquele imbecil apesar de grande guitarrista base, agia como um militar, nem parecia músico de rock. Ser músico de rock é muito mais do que subir ao palco e depois ir direto para o quarto do hotel ficar sozinho. Tocar em uma banda de rock é curtir a amizade, beber com os amigos e ser gentil e generoso com aqueles que te cercam. Me desculpem a minha sinceridade, mas é que sempre achei extremamente maldoso e desumano a forma como Johnny agia. Ainda bem que morreu, não faz falta nenhuma aquele lixo!

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  3. Anônimo

    O que enche o saco na imagem do Ramones foi o fato deles terem se tornado superestimados demais, sujeito fala deles como se nenhuma outra banda tivesse direito a ser venerada. E fora que a Emotv ops digo MTV fez o favor de desgastar a imagem deles graças as vjs burronas que trabalhavam na emissora na década de 2000 em diante, que não sabiam quase nada de rock e se metiam a besta a falar sobre o que não entendiam. E vou provocar uma outra polêmica aqui: se não fosse pelo Dee Dee Ramone e suas grandes composições, e a banda só tivessem as canções bobinhas bubblegum do Joey, o Ramones não teria passado de uma bandinha descartável. Pronto, falei!

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