Por Mairon Machado

Quando falamos de Pink Floyd, sempre os nomes que surgem são os de Roger Waters (baixo, vocais), David Gilmour (guitarras, vocais) e Syd Barrett (guitarras, vocais). Mesmo ao citar as carreiras solos, os discos desses três artistas sempre aparecem nos bate-papos relativos aos britânicos, deixando para trás os outros dois membros, Nick Mason e Rick Wright. Os álbuns solos de Mason realmente não são assim tão merecedores de atenção por parte dos fãs da banda, mas não consigo compreender como Wet Dream, lançado por Wright, não faz parte das listas de preferidos dos fãs.

Vivendo sua fase mais conturbada na banda, após o lançamento de Animals (1977) e de uma longa turnê que acabou culminando com a despedida de Wright do Pink Floyd, voltando para participar da turnê de The Wall apenas como músico contratado. Nessa entre-safra vivendo também problemas de relacionamento com a esposa Juliette Wright, o músico tirou um período de férias em Lindos, na Grécia, e lá, compôs seu primeiro álbum solo, influenciado bastante por Juliette, que acabou assinando duas das canções do disco.

Entrevista quando do lançamento de Wet Dream

Unindo forças com Snowy White (guitarras), Mel Collins (saxofone, flauta), Larry Steele (baixo) e Reg Isidore (bateria), Wet Dream surge com “Mediterranean C”, uma balada simples, com uma bonita introdução ao piano, a presença do sintetizador e a fundamental presença do saxofone de Collins, fazendo um solo arrepiante e tocante na primeira parte da canção, deixando White brilhar na segunda parte da mesma. Um bonito dedilhado de violão, acompanhado por piano, introduz “Against The Odds”. Wright começa a cantar, com toda sua voz aveludada e marcante dos tempos de “Summer ’68” ou “Echoes”, em outra faixa bastante suave e apreciável de se ouvir, principalmente no retorno do violão com o solo central.

A sequência de alternância de 6 acordes em “Cat Cruise” é simplesmente hipnotizante. Piano, baixo e e guitarra vão variando os acordes (o primeiro em um complexo dedilhado, os demais apenas na marcação), junto com a bateria, para então explodir em um solo de saxofone para rasgar a casa ao meio. O que Collins faz aqui é de se parar tudo e apreciar aqueles grandes momentos que a música nos proporciona. Repentinamente, a faixa ganha velocidade, e então é a vez de White nos abrilhantar com um solo para se brincar de air guitar pela casa. Só por “Cat Cruise”, Wet Dream merece estar nas listas de grandes discos de membros ligados ao Pink Floyd. Que faixa sensacional!

Rick Wright

“Summer Elegy” nos coloca direto em álbuns como More ou Obscured By Clouds, ou seja, as trilhas sonoras que o Pink Floyd participou, mais precisamente nas canções que Wright canta. Ali, o grupo não fazia questão de se preocupar com experimentações, e vez por outra até deixava se levar por canções mais pop, como é o caso dessa bonita e singela canção, trazendo também um belo solo por White. O lado A encerra-se com “Waves”, uma faixa mais sombria, levada por guitarra e piano elétrico, e que deixa novamente Collins tomar conta da casa com mais um solo para destruir com o mundo.

O piano sendo dedilhado carinhosamente introduz “Holiday”, mais uma faixa a contar com os vocais de Wright, e que também nos remete à faixas de Obscured By Clouds, como “Stay”. “Mad Yannis Dance” é um exercício de Wright ao piano elétrico e sintetizador, com tímidas participações de Collins e White.

Raríssimo compacto francês (ver texto)

O compacto francês amarelo

Já “Drop In From The Top” é um mergulho no jazz rock, com Wright divertindo-se no órgão, e fazendo uma bela surpresa aos ouvidos. O solo rasgado de White nos faz rememorar os bons tempos da dupla Gilmour / Wright, e essa faixa também coloca Wet Dream alguns degraus mais altos na classificação de discos pink floydianos. Essa faixa foi lançada em um lindo e raro compacto amare lofrancês, em parceria com Gilmour, sendo ela o lado A e “No Way”, de David Gilmour (1978), gravado no mesmo estúdio que Wright gravou Wet Dream, no lado B.

Os vocais de Wright retornam em “Pink’ Song”, que antes que os fãs mais curiosos possam imaginar, não é nenhuma homenagem ao Pink Floyd, mas sim um tributo a governanta do casal Wright, e é outra balada suave, dessa vez destacando a flauta de Collins. O álbum encerra-se com o swing de “Funky Deux”, com o groovezão do baixo de Larry Steele apresentando o piano elétrico, guitarra e bateria para chegar no gingado solo de saxofone e guitarra, pontuando positivamente para um álbum muito bom e a ser descoberto.

Capa e contra-capa da versão gatefold

Wet Dream foi lançado em maio de 1978, e causou um grande impacto no Pink Floyd. Waters foi o que ficou mais indignado por Wright lançar canções sem apresentar as mesmas anteriormente aos colegas. “Rick escreve essas coisas singulares, mas as mantém em segredo e depois as coloca em seus álbuns solo, que ninguém nunca ouviu. Ele nunca as partilhou. Era algo inacreditavelmente estúpido“, disse Waters a Mark Blake no livro Nos Bastidores do Pink Floyd. Por essas e outras, durante as gravações de The Wall, Waters sentiu que Richard não estava disposto a contribuir para o disco, e o demitiu da banda. Porém, o músico recusou-se a deixar o grupo sem concluir o álbum, e continuou como músico contratado.

O próprio Wright, em entrevista para Mark Blake em 1996, quando do lançamento de seu segundo álbum solo, Broken China, admitiu que Wet Dream era um pouco amador, com uma produção irregular e letras não eram muito fortes, mas que era um álbum singular do qual gostava. Então, se o dono da obra admite isso, e como ele faleceu há 11 anos, por que parece que só eu curto Wet Dream?

Parte interna da versão gatefold

Track list

1. Mediterranean C

2. Against The Odds

3. Cat Cruise

4. Summer Elegy

5. Waves

6. Holiday

7. Mad Yannis Dance

8. Drop In From The Top

9. Pink’s Song

10. Funky Deux

6 comentários

  1. André Kaminski

    Também acho injusto as críticas que fizeram a este álbum. Gosto dele e Wright fez um belo trabalho aqui.

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    • Mairon

      Valeu André. Qual o melhor Floyd solo na sua opinião? Para mim é o Pros and Cons, seguido do Rattle That Lock e esse!!

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      • André Kaminski

        Cara, gosto mais do Amused to Death do Waters, seguido deste. Embora meu integrante do Pink Floyd favorito seja o Gilmour, os trabalhos solo dele não me agradaram muito. Prefiro muito mais ele como músico do que como compositor.

      • Mairon

        O About Face é fácil um dos piores discos de um Floyd

  2. Leonardo

    Esse Wet Dream é muito bom. Acho que não deveria estar nessa série. Se fosse o Fictitious Sports (que eu gosto) ou o Profiles (ambos do Nick Mason) eu até entenderia, ou mesmo o Music From The Body…
    O melhor disco solo de um Floyd para mim é o primeiro do Gilmour. Seguido bem de perto pelos The Pros And Cons e Amused To Death que também são ótimos.

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    • Mairon

      Valeu Leonardo. Eu não consigo apreciar tanto o 1° Gilmour. Acho os mais recentes melhores em termos de composição e também de interpretação. Abraços

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