Por Ronaldo Rodrigues

O Montrose, apesar de não ser tão lembrado entre as principais bandas setentistas do rock americano, teve um passado de relativo sucesso. Com o guitarrista Ronnie Montrose emprestando seu sobrenome à banda e sendo sua natural liderança, o grupo também ficou conhecido por ter revelado o talento de Sammy Hagar para o mundo, muitos anos antes de seu ingresso no já famoso Van Halen. Ronnie Montrose era um cara conhecido no início dos anos 70: já tinha trabalhado com Van Morrison, Beaver & Krause, Herbie Hancock e tinha sua guitarra estampada em um grande hit – a faixa “Frankstein”, de Edgar Winter. Ele recrutou o baixista Bill Church, com quem tinha trabalhado na banda de apoio de Van Morrison, e ali na área de San Francisco, encontraram tocando na noite dois músicos iniciantes para completar o time – Sammy Hagar (vocalista) e Denny Carmassi (bateria). Pelas relações de Montrose e Church, um contrato foi descolado com a Warner, selo que lançou os 4 discos que a banda gravou na década de 70. Nenhum deles foi um pico de sucesso ou fez a banda ter um hit, mas os colocaram nos principais palcos da época, seja abrindo shows para grandes bandas ou tocando em arenas lotadas em shows próprios. Entre 1975 e 1977 a banda experimentou seu ápice comercial, mas problemas com as drogas fizeram Ronnie Montrose romper com a banda e tentar se lançar em carreira solo. Apenas em 1987 o Montrose teve uma breve reativação.

Montrose [1973]

A estreia da banda, ainda que tenha tido desempenho comercial apenas modesto na época (atingiu a posição 133 na parada de álbuns da Billboard), criou a reputação do Montrose como um peso pesado. O disco é uma mostra muito sólida de rock pesado e é bom de cabo a rabo. As três primeiras faixas do álbum são absolutamente emblemáticas: “Rock the Nation” é peso e velocidade com os formidáveis agudos vocais de Hagar; “Bad Motor Scooter” tem Montrose arrasando na guitarra (bases e solos) e “Space Station #5” tem um riff pesadíssimo e um miolo viajante. O disco já valeria apenas por esse início, mas ele não fica só nisso. Ronnie Montrose sabia como ir em direções menos prevísiveis partindo do blues, que era a matéria-prima de todo o rock daquela época. Ao mesmo tempo em que o som do Montrose se conecta com o som de grupos como Aerosmith, Kiss, Bad Company (iniciantes na mesma época), UFO, Status Quo, Foghat, Amboy Dukes, ZZ Top e AC/DC, ele tem uma assinatura própria dada essencialmente pelo trabalho de guitarra. Baixo e bateria fazem sua função com a qualidade esperada, mas os vocais de Sammy Hagar são distintos mesmo dentro do elevado padrão dos vocalistas da época. Não à toa, o Montrose foi influência decisiva para toda a geração hard/heavy da década seguinte e “Space Station#5” recebeu uma pesada versão do Iron Maiden nos anos 80. O reconhecimento do Montrose foi surgindo gradualmente e seu álbum de estréia já ultrapassou a marca de 1 milhão de cópias vendidas ao longo das décadas.

1. Rock the Nation
2. Bad Motor Scooter
3. Space Station #5
4. I Don’t Want It
5. Good Rockin’ Tonight
6. Rock Candy
7. One Thing on My Mind
8. Make It Last


Paper Money [1974]

O segundo álbum da banda veio poucos meses após a estréia e já contava com um line-up diferente. Bill Church havia se mandado e em seu lugar havia ingressado o baixista Alan Fitzgerald. O som também vinha um pouco mudado; Ronnie Montrose escolheu dar uma açucarada em parte do repertório na tentativa de alcançar uma fatia maior de público. A faixa de abertura, “Underground”, já mostra o freio na distorção das guitarras e a busca por melodias assobiáveis. A faixa seguinte “Connection” é uma balada que rememora trechos de “Going to California” do Led Zeppelin e funcionaria melhor se tivesse 1 minuto e meio a menos de duração. Paper Money começa pra valer da terceira faixa em diante, onde “The Dreamer” traz o Montrose elétrico de volta. “Starliner” tem um clima à la Tommy do Who e um excelente trabalho de Ronnie na guitarra. A violenta “I Got the Fire” é o principal destaque do disco, com sua velocidade e riff impactante. A aposta de Ronnie Montrose parece ter funcionado a princípio, já que o segundo disco vendeu bem mais que o primeiro e a banda fez uma tour promovida pela Warner na Europa, junto com outros contratados do selo. Porém, Sammy Hagar se fartou do grupo e se despediu em fevereiro de 1975. O vocalista Bob James entrou em seu lugar e a banda virou um quinteto, agregando o tecladista Jim Alcivar para trabalhar em um novo repertório.

1. Underground
2. Connection
3. The Dreamer
4. Starliner
5. I Got the Fire
6. Spaceage Sacrifice
7. We’re Going Home
8. Paper Money


Warner Bros. Presents! [1975]

O terceiro álbum abre com uma das melhores canções da carreira da banda, “Matriarch”, um rock rápido e com alguma influência progressiva. A força de Warner Bros. Presents! está tanto na qualidade de seu repertório, quanto na qualidade da gravação, alinhada ao que de melhor havia na época. O disco também conta com a melhor balada que o Montrose gravou, a bela e variada “All I Need”. Já “Twenty Flight Rock”, “Dancin’ Feet” e “Clown Woman” demonstram claras influências do som do Led Zeppelin na nova formação do Montrose, assim como a curta e acústica “One and a Half”. O disco encerra com a rápida e pesada “Black Train”, na qual fica claro o quanto Bob James ocupou o posto de Hagar com tranqüilidade e que a entrada de Jim Alcivar foi uma boa aquisição para o time. Na época, a banda era empresariada por Bill Graham e teve seu pico de popularidade.

1. Matriarch
2. All I Need
3. Twenty Flight Rock
4. Whaler
5. Dancin’ Feet
6. O Lucky Man
7. One and a Half
8. Clown Woman
9. Black Train


Jump on It [1976]

O time do Montrose novamente estava modificado: dessa vez Alan Fitzgerald foi quem pulou fora e foi substituído por Randy Jo Hobs, baixista que havia tocado nos grupos de Johnny e Edgar Winter. O novo álbum, assim como o anterior, foi produzido por Jack Douglas, que também era o produtor do Aerosmith na ocasião. Não tão consistente musicalmente quanto o terceiro álbum, o quarto álbum do Montrose soa como se uma estrutura modesta de gravação fosse a que estivesse disponível para a banda. O material soa abafado e com pouca projeção da bateria e dos vocais. “Let’s Go” é uma excelente e pesada abertura, com Ronnie Montrose aplicando slide guitar em um contexto pouco ortodoxo. A faixa título do álbum e “What are you waiting for?” são outros ótimos exemplos de rock pauleira à lá Montrose; mas o álbum tem vários momentos já apontando na direção AOR, investindo em refrões fortes. “Tuft Segde” é uma faixa com violão, percussão e sintetizadores, exploratória e um tanto curiosa no contexto do álbum; já “Music Man”, “Crazy for You” e “Rich Man” são o lado mais soft da banda ocupando parte considerável do setlist. Durante a tour de promoção do álbum, o tecladista Jim Alcivar acumulou a função de baixista e Ronnie Montrose quase bate as botas por uma overdose de anfetamina. Impactado pela situação, passa a exigir que a banda toda adote uma postura de total sobriedade de álcool e outras drogas. Isso, somado a outros desentendimentos, resultam na debandada do vocalista Bob James no ocaso de 1976 e aí a banda implode. Em 1978, Ronnie Montrose, lançaria um álbum solo instrumental e formaria uma nova banda, o Gamma.

1. Let’s Go
2. What Are You Waitin’ For?
3. Tuft-Sedge
4. Music Man
5. Jump on It
6. Rich Man
7. Crazy for You
8. Merry-Go-Round


Mean [1987]

Decidido a retomar o velho Montrose, Ronnie convidou dois veteranos – Johnny Edwards (vocalista) e James Kottak (bateria), que eram do Buster Brown (não confundir com o grupo homônimo australiano), somados ao baixista Glenn Letsch, que já tocava com Ronnie no Gamma. A nova formação viria então com o álbum Mean, que mostra o Montrose totalmente adaptado ao hard/hair-metal que predominava nos EUA na época. Ainda que eventualmente possa parecer que a banda estivesse querendo surfar na onda, a verdade é que o hard rock do Montrose já predizia este tipo de som 15 anos antes (com mais musicalidade e conteúdo, há que se destacar). A sonoridade do álbum dialoga perfeitamente com a época em que foi lançado, com a bateria em pleno destaque na equalização, ritmos constantes, baixo coadjuvante, riffs fortes e muitos vocais agudos. É difícil dizer algo que se destaque, já que o álbum é extremamente homogêneo, do tipo – “gostou de uma, gostou de todas”. Acaba sendo muito apreciável pelos entusiastas do hard oitentista, mas previsível e um pouco maçante para os fãs da escola setentista. Sem apoio de um grande selo e tendo um cenário extremamente competitivo para este mesmo tipo de som, o disco surgiu e sumiu do mapa sem muito alarde, com Ronnie Montrose voltando aos bastidores e aos estúdios. Nas décadas seguintes, Ronnie foi mantendo diversas formações do Montrose na estrada apenas para executar material do catálogo da banda, sem produzir nada novo. Sua saúde se deteriorou com a incidência de um câncer e posteriormente de depressão, o que levou a morte prematura em 2012.

1. Don’t Damage the Rock
2. Game of Love
3. Pass It On
4. Hard Headed Woman
5. M for Machine
6. Ready, Willing and Able
7. Man of the Hour
8. Flesh and Blood
9. Stand

2 comentários

  1. Marcello

    Ótima banda. Qualquer um dos três primeiros LPs pode ser considerado altamente recomendável, mas tenho especial predileção pelo segundo (“Paper Money”), por causa da variedade de estilos – francamente, acho que boa parte do hard rock americano dos anos 80 derivou dali. A versão de “Connection” eu acho espetacular, pois o Montrose reinventou a música original dos Stones, algo que para mim se compara apenas à versão de “Help” feita pelo Deep Purple no “Shades of Deep Purple”. É uma pena que Ronnie Montrose nunca recebeu o reconhecimento que merecia pelas suas habilidades na guitarra…

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    • Ronaldo

      Legal Marcello! valeu pelo comentário. Pra mim o primeiro e o terceiro são quase que pau-a-pau…o terceiro tem aquele sonzão de bateria a la John Bonham que é matador…e as 3 primeiras músicas do primeiro disco lacram o peito! já o segundo eu considero um pouquinho abaixo desses dois. Abraço!

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