Por Davi Pascale

I Love Rock n Roll foi lançado em 18 de Novembro de 1981. Quando esse álbum chegou às lojas, Joan Marie Larkin já era um rosto conhecido. Embora tivesse apenas 23 anos, Joan Jett já havia causado um certo barulho com um grupo de garotas chamado Runaways. Esse trabalho, o segundo lançado após o fim do conjunto, seria um divisor de águas em sua carreira. Contudo, esse novo início não foi tão tranquilo como muitos imaginam. Com banda instável e sem gravadora, a garota teve que recomeçar sua carreira do zero.

Embora tenham conseguido causar furor na Europa e no Japão, as Runaways nunca foram bem recebidas nos Estados Unidos, seu país de origem. Isso fez com que as gravadoras simplesmente fechassem as portas para a garota quando optou por seguir carreira-solo. Ninguém apostava nela. Na época, o produtor Kenny Laguna foi quem enxergou o talento da cantora e resolveu arriscar. Bancou a gravação de três músicas ao lado dos músicos Steve Jones e Paul Cook (ambos do Sex Pistols) e produziu seu primeiro álbum solo. O rapaz saiu batendo nas portas de todas as gravadoras da época oferecendo o material. Todas, sem exceção, negaram. Em entrevista publicada na revista Classic Rock Magazine, a cantora relembrou o período. “Nós prensamos nossas próprias cópias e vendíamos no porta-malas do nosso carro, onde quer que nos apresentássemos. Quando fizemos sucesso no segundo álbum, pessoas como Clive Davis estavam dizendo ‘como perdemos isso’? Bem, ele nos negou. Fomos rejeitados por todas as gravadoras.”.

Para divulgar o LP que haviam criado, caíram na estrada. Sabendo que seu primeiro grupo tinha feito bastante sucesso na Europa, decidiram começar a turnê por lá. A primeira formação da banda Blackhearts contava com o guitarrista Eric Ambel, o baixista Gary Ryen e o baterista Danny ‘Furious’ O´Brien. A formação duraria pouco. Assim que retornaram para os Estados Unidos, Danny avisou que não continuaria na banda e foi substituído por Lee Crystal. Eric Ambel saiu antes da gravação do novo LP. Para seu lugar, veio Ricky Byrd. A jogada, contudo, deu certo. O lançamento começou a fazer tanto barulho entre os roqueiros que Neil Bogart, fundador da Casablanca Records, decidiu assinar com o grupo para um selo que havia recém-criado, o Boardwalk Records. O álbum auto-intitulado finalmente chegou ao mercado. Agora, com o nome de Bad Reputation. Além disso, o rapaz decidiu bancar as gravações de um novo álbum…

Bogart sugeriu que gravassem no Soundworks Recording, em Nova Iorque, mas os co-produtores Kenny Laguna e Ritchie Cordell conseguiram convencê-lo a trocar pelo Kingdom Sound, localizado na região de Long Island. A razão? O estúdio tinha uma mesa de 24 canais que eles estavam de olho. No comando principal estava o experiente Glen Kolotkin. Embora estivesse atuando ali como uma espécie de freelancer, o rapaz já tinha em seu currículo trabalhos realizados ao lado de artistas como Janis Joplin, Jimi Hendrix, Santana e Four Tops. Ou seja, sabia exatamente o que fazer. Os rapazes decidiram que queriam trazer para o disco o som que tinham no palco. Com isso, a base do álbum foi gravada ao vivo. Na sala de gravação ficaram o baterista Lee Crystal e o baixista Gary Ryan. Na sala de controle, tocando de frente para eles, estavam Joan Jett e Ricky Bird. Depois, foram acrescentadas as guitarras adicionais e os vocais. Tudo com poucos takes.

Glen, contudo, não estava exatamente feliz. Acreditava que tinham feito um bom disco com ótimas músicas e coeso, mas não enxergava nenhuma canção candidata à hit. Foi aí que Joan sugeriu que regravassem “I Love Rock n´Roll”. A música era uma canção lado B dos Arrows. A cantora sempre foi apaixonada pela música. Ela havia gravado uma versão naquela primeira sessão como artista solo, aquela que realizou ao lado dos músicos do Sex Pistols. Essa versão foi lançada como lado B do compacto “You Don´t Owe Me”, mas ela acreditava que a canção tinha potencial para algo maior. A banda, que já vinha tocando ela nos shows, tocou para o produtor que concordou estar diante de um hit. Algumas modificações foram realizadas. O arranjo foi incrementado. O solo foi modificado, o tempo foi ligeiramente modificado, a bateria ficou pouco coisa mais trabalhada, os backings no refrão ficaram mais fortes e palmas foram acrescentadas.  O resultado? O maior sucesso na carreira de Joan Jett. Em entrevista à Guitar World, em 2015, a cantora comentou que havia sugerido a canção já nos tempos de Runaways.

“Eu ouvi ‘I Love Rock n Roll’ pela primeira vez, na Inglaterra, durante uma excursão dos Runaways. Era um lado B de um compacto de um grupo chamado Arrows e eu imediatamente achei que soava como um hit. Eu mostrei para a banda, mas elas não quiseram usar porque havia uma canção chamada ‘Rock n Roll’ no álbum e elas acharam que não seria uma boa ideia ter 2 canções com a palavra ‘rock’ no mesmo disco. Pensei comigo mesma: ‘vou guardar isso comigo e talvez reviver daqui um ou dois discos. Só que a banda acabou. Então gravei para meu álbum solo e o resto é história”.

A produção do disco, certamente, foi determinante para o sucesso do LP. O time conseguiu criar um som honesto, empolgante, sem ser tosco. Não era nem cru demais, a ponto de assustar as rádios, nem super produzido, a ponto de soar fake ou pasteurizado. No tracklist do LP, misturavam-se covers com canções de sua autoria. “I Love Rock n Roll”, gravada aos 45 do segundo tempo, tornou-se o carro chefe do álbum. A versão de Joan é considerada a versão definitiva. Ainda hoje existem muitos que acreditam que seja uma canção dela. As outras releituras são: “Nag” (The Halos), “Crimson And Clover” (Tommy James & The Shondells) e “Bits And Pieces” (Dave Clark Five).  A versão que fez de Tommy James foi outro grande sucesso, mas depois de “I Love Rock n Roll”, os momentos de destaque estão realmente nas faixas autorais.

“(I´m Gonna) Run Away” aposta em um rock básico delicioso, com um ótimo riff de guitarra e um refrão que fica na cabeça remetendo aos rocks dos anos 60. “Be Straight” é outra que deixa claro suas influências. A levada dela é bem na onda das canções de Bo Diddley. Contudo, os grandes cremes aqui são de fato os rockões “Victim of Circustances” e “Love Is Pain”, além da releitura de “You´re Too Possessive”, vindo diretamente de seus dias de Runaways. A música havia sido lançada originalmente no álbum Waiting For The Night, mas considero a versão daqui bem superior, com um trabalho vocal mais bem resolvido.

O vinil tem 2 finais diferentes. A primeira prensagem trazia o clássico natalino “Little Drummer Boy”. A versão era razoável apenas, mas vale pela curiosidade. As prensagens posteriores foram substituídas por “Oh Whoe Is Me”. Faixa bacaninha, mas longe de ser um destaque. Aliás, se você não tem esse disco e pretende comprar, recomendo ir atrás do CD na versão remasterizada. Existem 2: 1 de 1992 e outra de 1998. Ambas, possuem bônus tracks.

Muitos a criticam por considerar seu rock básico demais. Para mim, a graça está exatamente aí. Não me importo se os arranjos são simples. A sonoridade é honesta, cativante, repleta de riffs fortes e refrãos que ficam na cabeça (características que adoro). Joan comentou sobre isso na matéria da Classic Rock: “Amo aquela sonoridade do início da onda glitter dos anos 70. Aquele tipo de música com a bateria na frente, boa de dançar. As histórias não são difíceis de entender. Quem quer ficar pensando 1.000.000 de anos sobre o que uma musica quer dizer? Não consigo curtir uma música se tenho que sentar e ficar pensando”.

A sonoridade de Joan Jett sempre foi simples, mas muito bem desenvolvida. Rock n roll pra cima, divertido, com ótimos riffs, ótimas melodias. Rock n roll no sentido mais literal da expressão. Sem exagero, I Love Rock n Roll é um álbum que considero meio como discoteca básica. Se até hoje, você só ouviu a música de trabalho, corre lá para ouvir….

Faixas:

01) I Love Rock n Roll

02) (I´m Gonna Run Away)

03) Love  Is Pain

04) Nag

05) Crimson And Clover

06) Victims of Circunstance

07) Bits And Pieces

08) Be Straight

09) You´re Too Possessive

10) Little Drummer Boy (primeira prensagem em vinil e CD)

11) Oh Whoe Is Me

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