Por Ronaldo Rodrigues e André Kaminski

O quão lícito é se valer de uma influência específica para compor uma música (ou um álbum) vez ou outra surge como assunto, especialmente quando se trata de separar as bandas que fizeram escola no rock, das outras que remaram com a corrente. Recentemente, conversas desse tipo foram “trends topics” dos roqueiros com o aparecimento do Greta Van Fleet, cuja influência principal (o Led Zeppelin) transparece em todas as canções do ainda curto catálogo da banda. A discussão vai longe, mas aqui separamos alguns exemplos notórios de bandas que mesmo tendo uma sólida carreira própria, não tiveram receio de se apoiar em suas influências para escrever novos sons. Exemplos pinçados dos anos 70 e das décadas mais recentes estão listados abaixo para sacarmos um pouco sobre isso e nos comentários suas indicações de outros exemplos do tipo são bem vindas.


Heart – Barracuda (Little Queen – 1977)

“Barracuda”, um clássico do rock da segunda metade dos anos 70, poderia ser descrita como a melhor música que o Led Zeppelin nunca gravou. Ao combinar com maestria a levada e o clima cinzento de “Achiles Last Stand” com a seção rítmica de “The Song Remains the Same” e mimetizar o timbre e a interpretação de John Bonham na bateria, o Heart deixa explicitamente claro para o ouvinte sua principal influência. Além disso, a música tem os agudos irrestíveis de Ann Wilson e timbres praticamente idênticos aos de Jimmy Page em várias partes da música. Outras músicas do álbum que contém “Barracuda” (Little Queen) também tem seu DNA impregnado de influências do Led Zeppelin.


Primal Fear – Sacred Illusion (Devil’s Ground – 2004)

Primal Fear sempre foi conhecido pelas suas claras influências de Judas Priest. O baixista líder Matt Sinner e o vocalista Ralf Scheepers sempre deixaram claro o seu amor por Rob Halford, Glen Tipton e companhia. E esta é uma das canções mais “Priestianas” que eu conheço deles, caracterizada pela velocidade das guitarras e baterias e o vocal de Scheepers com seus muitos agudos e notas alongadas que fariam Halford se sentir orgulhoso de seus pupilos. O Primal Fear tem lançado discos muito bons recentemente e sua discografia não deixa nada a dever a quem curte o Judas em qualquer uma de suas fases.


Triumvirat – The Earthquake 62 A.D (Pompeii – 1977)

Comparar Triumvirat com Emerson, Lake and Palmer sempre traz alguma confusão nas rodas progressivas, já que há uma corrente de fãs que defendem que o Triumvirat tem uma assinatura própria distinta da do ELP. É óbvio perceber que eles não são imitadores, mas negar a forte influência que o trio alemão sofreu do trio inglês é tapar o sol com a peneira. A primeira faixa do álbum Pompeii traz pinceladas pesadas da suíte Karn Evil 9, do álbum Brain Salad Surgery, do uso das mesmas escalas e construções harmônicas que são imediatamente associadas com Keith Emerson, além dos momentos épicos do vocal de Greg Lake, como em “The Gates of Kiev” ou “Endless Enigma Part I”. Na sonoridade, as semelhanças ficam ainda maiores entre as duas bandas, seja no uso do Hammond, dos sintetizadores, da sonoridade do baixo e do uso de baixo sintetizado e até da presença de um gongo na percussão. Ou seja, influência de ELP da cabeça aos pés.


Cathedral – Alchemist of Sorrows (Endytime – 2001)

A banda sempre foi muito influenciada por Black Sabbath e seus integrantes já assumiram serem muito fãs da banda. E não tem jeito, ao ouvir esses riffs densos e vocal que com o uso de muitos efeitos, fica claro o quanto eles amam os riffs do bigodudo inglês e os vocais viscerais de Ozzy Osbourne. “Alchemist of Sorrows” deixa isso escancarado e dos 4 minutos para frente, a música fica inclusive muito parecida com o clássico “Electric Funeral” do Sabbath. Embora muitos digam que eles copiam demais, eu acho que eles tem qualidade o suficiente para serem um destaque do heavy metal.


Mahogany Rush – Madness (Maxoom – 1973)

Qualquer faixa do disco de estreia dos canadenses do Mahogany Rush poderia entrar nessa lista, assim como diversas outras músicas da longa carreira do guitarrista Frank Marino, que tem Jimi Hendrix como guru (algo dito e redito diversas vezes pelo próprio). É interessante notar como Marino tenta transportar sua influência ao nível mais conceitual possível, de alguém que realmente estudou a fundo a musicalidade de sua referência. “Madness” é uma balada bastante sentimental e que se sintoniza fortemente com “Little Wing”, mas na qual há uma injeção de uma melancolia e frustração própria, além de uma intensidade na interpretação que a torna realmente comovente. A forma de cantar de Marino também é bastante descontraída, tal qual a de Hendrix, ainda que a cozinha do Mahogany Rush seja menos sofisticada que a do Experience. Outro detalhe interessante é que Frank Marino buscava extrair de sua Gibson SG um som equivalente ao da Fender Stratocaster de Jimi Hendrix (duas guitarras de sonoridade bem diferente), trazendo um resultado bem interessante para a música. O trecho final da música é explosivo, com um solo de guitarra matador.


The Black Crowes – Evergreen (Warpaint – 2008)

Eles são fãs de The Allman Brothers Band, isso sempre transpareceu. Embora tivessem buscado uma identidade própria no decorrer de sua carreira, aquele amor pela sonoridade do Allman sempre existiu e aquele rock sulista misturado com o blues e o country estão claramente contidos em canções como “Evergreen” com guitarras dando aquele sabor caipirão do sul dos Estados Unidos e aquela técnica blues das quais somos apaixonados.


Mutantes – O A e o Z (O A e o Z – 1973)

Há uma brincadeira usada para descrever a fase progressiva dos Mutantes, batizando sacanamente o título de um de seus álbuns como “Tudo foi feito pelo Yes”. Arnaldo Baptista e Sergio Baptista se apaixonaram pela banda em 1972 e fizeram de tudo possível para ser como eles em termos de sonoridade, conceito, vestuário e atitude de palco por um breve período. A faixa título do álbum gravado em 1973 (mas lançado apenas em 1992) remete especialmente ao Yes da fase Yes Album (1971), com um possante Hammond L-100 em destaque, o baixo Rickenbacker fazendo mil contrapontos e a guitarra cheia de efeitos. “O A e o Z” traz passagens que lembram fortemente trechos de “Yours is No Digrace” e “Close to the Edge” e traz todos os maneirismos que levaram ao grande reconhecimento do público conquistado pelo Yes, como as intensas mudanças de andamento e de compasso e a reprise textual. Trata-se de uma grande música que não prezou pela originalidade.


Airbourne – Overdrive (No Guts. No Glory – 2010)

Aí você pensa em uma banda de hard rock com riffs ganchudos da Austrália e quem vem a mente? Toque “Overdrive” e diversas outras músicas do Airbourne, também da Austrália, em qualquer festa e todos sem exceção vão dizer que é alguma música desconhecida do AC/DC. Aqui o negócio é tão parecido que dizem que chega às raias do plágio. Todavia, já que o AC/DC esteve produzindo pouco nas últimas duas décadas e a terrível morte de Malcolm Young travou ainda mais o lado criativo deles, creio que o Airbourne possa preencher um pouco dessa lacuna com seus 4 bons discos de estúdio.


Rush – Need Some Love (Rush – 1974)

Com a reconhecida e louvada influência dos britânicos do Led Zeppelin, o Rush fez seu álbum de estreia calcado basicamente por sob esta referência, usando e abusando das escalas do blues e de muito groove em suas levadas. “Need Some Love” pode ser lida como um cruzamento acelerado de “Communication Breakdown”, “Good Times Bad Times” e “Living Love Maid”, inclusive contando com uma ponte funky em seu miolo. A diferenciação vem pelos timbres (especialmente de baixo) e pela bateria de John Rutsey, um pouco mais reta e seca. Trata-se de uma faixas mais zeppelianas do primeiro álbum da banda, assentado solidamente nesta referência e que possui outros exemplos possíveis de claríssima associação ao Led Zeppelin.


Newsted – Soldierhead (Heavy Metal Music – 2013)

Óbvio, o cara foi membro do Metallica por 15 anos e pelo jeito, quando saiu, levou grande parte do talento da banda junto com ele. OK, o último álbum dos caras é até bonzinho, mas este disco e principalmente esta canção “Soldierhead” soa mais Metallica que o próprio Metallica. Aqui tem de tudo o que os fãs da banda gostam: peso, aquelas “paradinhas” de riffs de guitarra, a velocidade oitentista e, principalmente, um baixo audível e bem tocado. Lamento apenas que Newsted não tenha continuado com a banda após esse excelente disco.

17 comentários

  1. Raphael

    Gostei da proposta desse tópico. Algumas correlações que lembro são: Manowar/Grand Magus, Rainbow/Malmsteen(“Liar” do Trilogy parece ser bem calcada em “Kill the King”), Black Sabbath/Candlemass (óbvia kkk) e Beatles/ELO.

    Na opinião dos autores da matéria ou de qualquer outro que leia o meu comentário, o quão possível seria mensurar o quanto daria para distinguir uma influência clara de determinada banda no som e que entra de forma mais natural, fluída em comparação a uma mais forçada do tipo ” temos de mostrar de qualquer forma a influência x no som”?

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    • Ronaldo Rodrigues

      Legal, Raphael! obrigado pelo comentário, fico feliz em saber que curtiu. Quanto a sua pergunta, daria pra escrever um texto sobre isso, porque a discussão é vasta. Mas tentando ser bem sintético, acho que o fiel da balança é a maturidade dos músicos envolvidos. A tendência é que a garotada, ou músicos inexperientes tendam a ir mais na direção da imitação, que envolve realmente usar trechos/riffs de músicas, levadas, solos, imitar timbres, etc muito parecidos com sua influência com mínimas adaptações. O próprio John Bonham, no começo da carreira do Led Zeppelin se descrevia como “o melhor imitador de Keith Moon do mundo”. Músicos mais maduros, mais estudados ou experientes, conseguem interpretar mais, tratar a influência com mais assinatura própria, entender mais até onde soa como influência mesmo e onde já se beira plágio/imitação. Óbvio que não é só isso, mas acho que esses fatores correspondem a uma boa parte do que penso sobre o assunto. Abraço!

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    • André Kaminski

      Cara, que pergunta excelente!

      O pouco que eu teria a acrescentar à fala do Ronaldo eu acredito que vai numa questão de feeling que a gente mesmo sente ao ouvir determinada música ou disco e se no decorrer da evolução de sua discografia a gente perceba que a banda está buscando uma identidade própria ao invés de martelar nas mesmas influências sempre. Nada contra se deixar influenciar fortemente por alguma banda clássica antiga, mas se no decorrer dos anos se perceba que a banda não evoluiu ou não se diferencia, aí vejo como algo negativo.

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  2. Mairon

    O Mutantes tb chupinhou Beatles no início de carreira. “Senhor F” é quase uma cover de “Being for the Benefit of Mr. Kite”. Fora tantas outras do 1° e do 2° disco que são muuuuuuuuuuuito parecidas com o Fab Four

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  3. Mairon

    Faltou a clássica versão de “I’m Eighteen” que o Kiss transformou em “Dreamin'”

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    • Anônimo polêmico

      Igualzinha!!! O início da música até confunde, parece que vai começar a tocar “I’m Eighteen” da tia Alice.

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    • Anônimo polêmico

      Acho que os caras do Kiss sempre gostaram muuuuuuito dessa música do Alice Cooper, afinal em “A Million to One” já se percebia uma referência a essa música.

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      • Ronaldo Rodrigues

        Eu não conhecia essa música do Kiss!

  4. Davi

    Vocês deixaram o Mairon bravo com a citação da fase prog dos Mutantes kkkkkk

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      • Ronaldo Rodrigues

        Pois é! e isso não torna a banda menos boa!

    • Mairon

      Tanto é verdade que “Tudo Foi Feito Pelo Sol”, a música, é similar em sua quase totalidade a diversas partes de Tales from Topographic Oceans. O próprio O A E O Z tb tem referências Talesianas, principalmente “Hey Joe” e “Uma Pessoa Só”

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  5. Mairon

    Ronaldo, aproveitando o ensejo, qual a diferença do New Triumvirat para o Triumvirat? Sei que é parecer ser chato, mas o Pompeii, em tudo que é lugar que olho, é atribuído ao New Triumvirat. Tenho o disco, mas não parei nunca para entender pq essa diferença. Acho que chegou a hora de aprender.

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    • Ronaldo Rodrigues

      Não tem nenhuma grande diferença; foi mais marketing mesmo. De 74 em diante a banda virou um entra-e-sai de gente. Em 76, o Jurgen Fritz, cabeça da parada, já tinha na formação o Barry Palmer como vocalista. Aí pra posição de bateria e baixo entraram o Curt Cress e o Dieter Petereit. Lançaram-se como “New Triumvirat”, mas o selo continuou o mesmo (Harvest/Capitol). Acho que é o mesmo caso entre “Alex Harvey Band” e “Sensational Alex Harvey Band”; não conheço nada que justifique uma diferença entre a “new” e a “old” ehehehehe

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  6. Fernando Bueno

    Daria para fazer uma edição completa desse tema só com os imitadores do Helloween que surgiram no final dos anos 90, início dos anos 2000.

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    • Mairon

      A mais escandalosa “inspiração” é o Deep Purple com o It’s a Beautiful Day. “Child in Time” foi chupinhada descaradamente de “Bombay Calling”. Mas depois, os americanos se “Vingaram” e pegaram “Wring That Neck” como “inspiração” para “Don and Dewey”.

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