Por Davi Pascale

Resolvi escrever hoje sobre uma das minhas bandas favoritas da cena heavy brasileira. Virei fã do Korzus depois de assisti-los no Monsters of Rock 1998 e desde então venho acompanhando o grupo de perto. Já tinha comprado o CD na época, mas claro que sendo fã dos caras, não poderia deixar de conferir a reedição em vinil. E é sobre ele que trataremos hoje.

Para quem está por fora… O Korzus é uma das bandas que ajudaram a dar o ponta pé inicial na cena brasileira. Me refiro ao início mesmo, marco zero. Início dos anos 80, ao lado de Salário Mínimo, Centúrias, Harppia, etc. Foi uma das poucas que sobreviveram. E o mais legal de tudo. Atingiram um nível que poucas conseguiram. O trabalho dos caras hoje tem nível gringo. Mesmo! As primeiras gravações da banda estão em uma coletânea intitulada SP Metal II. Uma espécie de Metal Massacre Attack tupiniquim, capitaneada pelo selo Baratos Afins. Ali era o oposto. Muita garra, muito suor, muitos sonhos, pouco ou nenhum conhecimento técnico.

O primeiro lançamento da banda foi um EP ao vivo, lançado em 1986, com o registro de uma gravação cujo áudio foi extraído de uma fita k7. Tendo em conta que a tecnologia daquela época era muito inferior à atual e que a cena estava literalmente começando, não preciso dizer que a qualidade de gravação não era das melhores. A apresentação, contudo, servia para demonstrar que os garotos tinham uma energia e uma agressividade fora do comum. Era o primeiro capítulo de uma longa história sendo escrito.

O tempo foi passando e tudo foi evoluindo, inclusive a banda. As técnicas de gravação melhoraram, o nível de musicalidade evoluiu, a qualidade do inglês evoluiu. Se em 1985, Pompeu era muito lembrado por sua interpretação macarrônica de “Evil Has no Boundaries” (Slayer), hoje a realidade é outra. E quando Ties of Blood foi gravado, já viviam essa nova realidade há um bom tempo.

Em parceria com a Monstro Discos, o álbum retorna ao mercado com sua primeira prensagem em vinil. Versão caprichadinha até. Capa gatefold, vinil vermelho, ótima qualidade de áudio. Para ficar perfeito só faltou um encarte com as letras…

Quando o Korzus entrou em estúdio para registrar esse álbum, já era uma banda cultuada e com uma longa estrada. Sabiam exatamente o que estavam fazendo e isso pode ser conferido já na trinca inicial. O álbum inicia com 3 petardos sonoros que, hoje, já podem receber a alcunha de clássicos: “Guilty Silence”, “Respect” e “What Are You Looking For”. A pegada? O esperado. Thrash metal pesado, oras mais cadenciado, oras mais agressivo, e com claras referências de Slayer, principalmente nas linhas vocais. Ouça “Screaming For Death” com atenção e você irá sacar o que quero dizer.

Ties of Blood foi o primeiro álbum de inéditas a contar com o baterista Rodrigo Oliveira e o guitarrista Heros Trench. Também foi o último a contar com o lendário Silvio Golfetti. Lineup destruidor. O trabalho de guitarras nesse disco é absurdo. Ouça o solo de “Punisher” com atenção e tire suas conclusões. Pau a pau com os solos escritos pelo Testament na década de 80. Sem exagero.

O lado A conta ainda com “Never Get Me Down”, outra que merece a alcunha de clássico, e com a faixa “Correria”. Para quem não se recorda ou não conhece muito da banda, vale lembrar que os caras começaram a carreira cantando em português, portanto, essas faixas são sempre muito interessantes de se ouvir. E essa também marca a primeira participação especial desse disco, o cultuado Andreas Kisser (Sepultura) com um solo inspiradíssimo. Bem legal…

“Cruelty” inicia o lado B mantendo a pegada, mas a primeira surpresa é a faixa “Evil Sight” que conta com uma levada mais cadenciada e a participação especial de Andre Matos. Sim, o próprio. O rapaz que ganhou destaque ao lado do Viper e do Angra. Aqui, ele alterna momentos onde explora seus famosos falsetes com algumas passagens onde trabalha com a voz mais rasgada. Como já era de esperar, o cara arregaçou. E, sim, a combinação inusitada deu certo. O saudoso Helcio Aguirra (Golpe de Estado) também contribuiu com um solo bem bacana nessa canção.

Outros grandes destaques do lado B ficam por conta das empolgantes “He Wasn´t Me” e “Who´s Going To Be The Next”. A sonoridade de Ties of Blood é exatamente aquilo que esperamos de uma banda como o Korzus. Riffs destruidores, solos velozes, trabalho de bateria matador, vocal empolgante e um peso fora do comum.

O trabalho original fecha com “Peça Perdão”. Como o título entrega, trata-se de mais uma faixa gravada em nosso idioma. Com uma pegada mais hardcore, a faixa se destaca pelas participações especiais. Temos aqui alguns dos principais nomes do som pesado do Brasil. Entre eles; o já falecido Redson (Coléra), além das presenças de João Gordo e Boka (ambos do Ratos de Porão). Nessa última, faz falta aquele encartezinho com as letras, viu galera…

Todo colecionador sabe que é comum reedições apresentarem faixas adicionais. Principalmente, quando tem um teor comemorativo. Ties of Blood é um trabalho marcante dentro da trajetória do Korzus e o LP é uma edição limitada. Não sei de quem foi a ideia, mas foi incluída uma versão ao vivo de “Screaming For Death”. Sacada muito bacana. Na capa não mostra o ano da gravação. Apenas que o registro foi feito pelo Sleevers. Acredito que estejam se referindo ao programa televisivo apresentado pelo Fábio Macarrão, conhecido por seu trabalho ao lado do Kamboja e também pelo trabalho que realizava no extinto Blackjack Rock Bar. A gravação é crua, sem retoques e demonstra a força que a banda tem no palco. Nessas 2 ultimas faixas, a qualidade de som cai um pouco, mas nada que prejudique ou tire o brilho do trabalho.

A edição em vinil é muito bem-vinda. Afinal, trata-se de um discaço! Sem contar que o Korzus é, sem dúvidas, uma das melhores bandas do Brasil. Homenagem justíssima. Para quem nunca ouviu nada dos caras, essa pode ser a chance de entrar no território. Esse trabalho é uma bela porta de entrada. Quem conhece e deixou passar na época, aí está uma nova chance de corrigir o erro e para quem já tinha o CD não deixe de ser um ítem muito bacana para sua coleção. Afinal, a edição, como já disse, está bem caprichada e o preço não está muito salgado, não. Preço médio em torno de RS80,00. Fica a dica…

Lado A:

  • Guilty Silence
  • Respect
  • What Are You Looking For
  • Screaming For Death
  • Never Get Me Down
  • Punisher
  • Correria

Lado B:

  • Cruelty
  • Evil Sight
  • Ties Of Blood
  • It Wasn´t Me
  • The Sadist
  • Who´s Going To Be The Next
  • Peça Perdão
  • Screaming For Death (Live)

2 comentários

  1. Piracicaba?

    80 pila por um LP novo em 2019 é bem tranquilo. Mas nunca entendi tanto apreço pelo Ties of Blood, sempre achei só mais um disco meio thrash meio groove, queria que tivessem relançado o disco de 91 ou o Discipline of Hate em bolachão!

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    • Davi

      Pode ser que relancem. Vi um comentário da banda esses dias dizendo que estão previstos mais algumas reedições em LP. Não disseram quais, mas é provavel que foquem naqueles que nunca saíram. Daí, o Discipline of Hate provavelmente entraria na jogada. O de 91 é qual? O Mass Ilusion? Se for esse, saiu em vinil na epoca. Não é difícil de encontrar, não…

      Responder

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