Por Ronaldo Rodrigues

O Argent foi uma banda britânica de relativo sucesso no início dos anos 70. Sua trajetória remonta ao músico Rod Argent, tecladista, vocalista e compositor, que emprestou seu sobrenome para a banda que formou após a dissolução dos Zombies. Os Zombies lutavam para se destacar no segundo pelotão da British Invasion, disputando terreno palmo-a-palmo com Hermann’s Hermits, Dave Clark Five, Kinks e Manfred Mann. Entre 1964 e 1965 a banda emplacou dois hits – “She’s Not There” e “Tell Her No” e fez muitos shows dos dois lados do Atlântico. Porém, a enorme concorrência e a falta de constância no sucesso com singles fez o grupo arrefecer. Apenas no fim de 1967 a banda descola um novo contrato já com a corda no pescoço e cunha o álbum “Odyssey and Oracle”, lançado em abril de 68, embarcando em toda a lisergia e sofisticação psicodélica do período. O álbum inicialmente fracassa e a banda se desfaz pouco tempo depois. Contudo, o tecladista e produtor Al Kooper fez um lobby a favor da banda dentro da CBS para que o álbum fosse lançado nos EUA. Uma das faixas do álbum, “Time of the Seasson” foi lançada em compacto e nada demais aconteceu a princípio, até que já em 1969 com a banda totalmente desfeita a música estoura nas paradas americanas, forçando os Zombies a um breve retorno para a promoção do álbum. Contudo, Rod Argent já estava confabulando sua nova banda, unindo-se a seu primo Jim Rodford, ao baterista Robert (Bob) Henrit e ao guitarrista Russ Ballard para uma nova aventura sonora. Com estes caras, Rod Argent foi se consolidando como um respeitado músico e compositor do cenário britânico e lançou uma sequência de álbuns ecléticos e de boa qualidade. A banda se desfez em 1976 após 7 álbuns de estúdio e um álbum duplo ao vivo. Em 2010, um retorno da formação original ocorreu no conceituado High Voltage Festival; esse retorno durou até 2013 em aparições esporádicas e em 2018 o baixista e membro fundador Jim Rodford faleceu aos 76 anos de idade.

Argent [1970]

Ainda que compactos tenham sido lançados com o nome da banda ainda em 1969 (as faixas “Liar” e “Schoolgirl”), apenas com a virada para os anos 70 é que viria o primeiro álbum da banda, lançado pela gravadora norte-americana Epic Records. A estreia da banda é sólida, ainda que soe como boa parte do rock daquela virada da década – uma parte aponta para novos caminhos, especialmente com relação a arranjos, performance instrumental e sonoridades, e outra mantém a tradição sessentista de boas melodias vocais e uma certa previsibilidade das composições.  Observando em perspectiva, nota-se uma banda com um caminho ainda a pavimentar, buscando a própria assinatura. Em um absoluto, o disco traz um rock honesto, característica que se repete, em maior ou menor grau, ao longo de toda a discografia da banda. Os vocais eram divididos principalmente entre o guitarrista Russ Ballard e o baixista Jim Rodford, com Rod Argent também assumindo o vocal principal em alguns momentos. Em geral, as vozes estão mais empostadas e as vezes até sussuradas, bem ao sabor dos 60’s. Em suma: Argent é um disco de boa qualidade mas de tímidas intenções.

1. Like Honey
2. Liar
3. Be Free
4. Schoolgirl
5. Dance in the Smoke
6. Lonely Hard Road
7. The Feeling’s Inside
8. Freefall
9. Stepping Stone
10. Bring You Joy


Ring of Hands [1971]

A banda parecia farejar um pop “perfeito” nos moldes dos Beatles, contudo já com uma bem demarcada assinatura sonora. “Celebration” é uma aconchegante abertura que não se parece com nada que não seja o próprio Argent, seus bons vocais em coro e um Hammond tocado de forma muito eficaz. “Sweet Mary” e “Chained” são agradáveis e despretensiosas e “Cast your Spell Uranus” tem algo em comum com as traduções britânicas do som da Motown. Já “Lothlorien” com sua letra fantasiosa é uma excelente contribuição da banda para o rock progressivo – Rod Argent simplesmente arrasa nesta faixa com seus teclados. O mesmo acontece na lindíssima introdução de Hammond da faixa “Rejoice”, que se transforma em uma inesperada balada após uma introdução claramente sinfônica. “Sleep Won’t Help Me” chega sem tanto a dizer quanto as demais e “Where are We Going Wrong” tem um bom swing, guitarras quentes e ótimos vocais. Comercialmente, a banda ainda estava em uma posição desconfortável, apesar do potencial de várias canções em atingir um grande público na época.

1. Celebration
2. Sweet Mary
3. Cast Your Spell Uranus
4. Lothlorien
5. Chained
6. Rejoice
7. Pleasure
8. Sleep Won’t Help Me
9. Where Are We Going Wrong


All Together Now [1972]

A grande diferença entre All Together Now e o disco anterior é que este disco teve um grande hit, a faixa de abertura “Hold Your Head Up”. O restante do álbum mantém a regularidade e a qualidade de Ring of Hands apesar de uma sequência de faixas mais agitadas, sempre apostando na interface rock/pop com um instrumental de grande qualidade. Rod Argent está ainda mais endiabrado do que no álbum anterior, com intervenções faiscantes. Voltando a tratar faixa de abertura, seus 6 minutos de duração (no qual até alguns lampejos experimentais podem ser ouvidos, com Rod Argent enxertando passagens eruditas em seu solo) foram fortemente editados para a versão single e atingiram o 5º posto nas paradas britânica e da Billboard. O álbum completo atingiu a 13ª posição na Inglaterra e a 23ª posição nos EUA. Nada que o Argent fez antes ou depois chegaria em tal posição e este feito catapultou a popularidade da banda para além da Inglaterra. “Keep on Rolling” é um piano rock bem animado, “Tragedy” tem um swingado marcante e um diálogo incrível entre guitarra e teclado (a faixa teve um bom desempenho nos charts britânicos) assim como “Be My Lover, Be My Friend”, ambas coroadas com ótimos solos de Rod Argent nos teclados. O álbum fecha com uma espécie de suíte, a quilométrica “Pure Love”, que tem nada menos quase 5 minutos de introdução instrumental conduzida pelo Hammond de Argent – um deleite para os apreciadores do instrumento.

1. Hold Your Head Up
2. Keep On Rollin’
3. Tragedy
4. I Am the Dance of the Ages
5. Be My Lover, Be My Friend
6. He’s a Dynamo
7. Pure Love


In Deep [1973]

O quarto álbum do grupo também teve bom desempenho comercial, ainda que inferior a All Together Now. Sua abertura já traz outra das mais conhecidas faixas do Argent – “God Gave Rock n’ Roll to You”, single que atingiu o 18º posto dentre os mais tocados na época de seu lançamento na Inglaterra. Posteriormente essa faixa seria regravada também com muito sucesso pelo Kiss. A coesão do repertório do grupo continuava em alta, sempre trazendo boas canções e uma interpretação vigorosa. A variada “It’s Only Money” dividida em 2 partes é um dos pontos altos da carreira da banda, com a primeira parte mais densa e progressiva e a segunda mais dançante e descontraída. O disco também tem como destaques a rica instrumentação de “Be Glad” e “Candles on the River” (que em alguns momentos lembram o Jethro Tull), os toques beatlescos da suave balada “Christmas for Free” e o piano rock de “Rosie”.

1. God Gave Rock & Roll to You
2. It’s Only Money Part I
3. It’s Only Money Part II
4. Losing Hold
5. Be Glad
6. Christmas for the Free
7. Candles on the River
8. Rosie


Nexus [1974]

O quinto do álbum traz importantes mudanças para a banda. Seria o último álbum com a formação original da banda, já que o guitarrista/vocalista Russ Ballard deixaria a banda, sendo substituído por dois jovens guitarristas, John Grimaldi e John Verity, este último também ocupando os vocais. Rod Argent inclui sintetizadores e mellotrons a seu kit de teclados. Os ventos da mudança são sentidos nos primeiros acordes da faixa de abertura, dividida em três partes – “The Coming of Kohoutek”, com os portentosos mellotrons e os sintetizadores em total alinhamento ao que fazia o Genesis na mesma época em The Lamb Lies Down on Broadway, para depois descambar em um rigoroso space boogie. “Once Around the Sun” e “Infinite Wanderer”, as partes seguintes, dão sequência a fantástica guinada rumo ao progressivo sinfônico que a banda adotou e as três faixas eram executadas como uma espécie de meddley ao vivo, que passou a ser a abertura dos shows da Argent na ocasião. O título da primeira parte faz alusão ao cometa Kohoutek, que foi avistado na órbita da Terra em 1973. “Love” recupera a influência dos Beatles no som do grupo, trazendo um clima sereno mas envernizado com sons mais eletrônicos que dantes. “Music from the Spheres” bota swingue e sofisticação na parada, assim como a funkeada “Thunder and Lightining”. Mesmo quando o Argent dá sequência a marca que desenvolveu nos álbuns anteriores, em Nexus tudo é envolto em uma sonoridade que os aproximava decisivamente das bandas progressivas britânicas. Nexus é o álbum mais requintado da banda, com ótimas composições e a competência técnica e criativa da banda levada aos limites.

1. Coming of Kohoutek [Instrumental] / Once Around the Sun [Instrumental] / Infinite Wanderer
2. Love
3. Music from the Sphere
4. Thunder and Lightning
5. Keeper of the Flame
6. Man for All Reasons
7. Gonna Meet My Maker


Encore – Live in Concert [1974]

Ainda em 1974, uma captura da banda ao vivo é lançada como um disco duplo, seguindo a tendência do mercado para as grandes bandas do rock progressivo e hard rock da época. O material presente no disco foi compilado a partir de três apresentações na Inglaterra – uma no Drury Lane Theather, o teatro mais antigo do Reino Unido, outra em St. Albans e a terceira em Swansea no País de Gales. O disco tem excelente qualidade de som e captura a banda com sua formação original e no ápice de sua musicalidade, apresentando a tour do álbum Nexus. O repertório do disco ao vivo é dividido entre All Together Now, In Deep e Nexus, os álbuns mais bem sucedidos da banda, e traz versões energizadas para “It’s Only Money”, “Thunder and Lightning” e “I am the Dance of Ages”. Impressiona o quanto Rod Argent se mantém fiel as sonoridades usadas nos álbuns de estúdio e as reproduz quase integralmente no palco (algo raro em discos ao vivo da década de 70), além de ser exímio solista. Certamente, Rod Argent deveria ter mais reconhecimento como instrumentista e sua banda ser mais comentada nas rodas rockeiras. “Hold your Head Up” foi tocada com o pé no acelerador e como usual na época, extendida longamente até virar um exercício de auto-indulgência. O bis é concedido atualizando o clássico dos Zombies “Time of the Season”, em uma interessante versão.

1. The Coming of Kohoutek
2. It’s Only Money (Part 1)
3. It’s Only Money (Part 2)
4. God Gave Rock ‘n’ Roll to You
5. Thunder and Lightning
6. Music From the Spheres
7. I Don’t Believe in Miracles
8. I Am the Dance of the Ages
9. Keep On Rolling
10. Hold Your Head Up


Circus [1975]

O Argent aprofundaria ainda mais sua musicalidade no novo álbum, Circus, amarrado pela temática circense nas letras. O tecladista Rod Argent passaria a trabalhar insanamente com sintetizadores, tirando deles sons espetaculares. Do lado rítmico, o baterista Bob Henrit e o baixista Jim Rodford traziam com firmeza uma posição mais próxima ao jazz-rock/fusion para o som da banda, que vinha de encontro a todas as ousadias eletrônicas do novo Argent. A entrada dos novos guitarristas também trouxe uma abordagem bastante sofisticada para o álbum. A faixa de abertura “Circus” tem uma introdução épica, seguida de “Highwire”, a mais longa do disco, repleta de variações e mudanças de andamento. A coisa cai um pouco em “Clown” com sua psicodelia pálida e uma balada açucarada demais que falhou ao tentar lograr as rádios (“Shine on Sunshine”). “Trapeze” tem um início ultra progressivo, mas depois cai num repeteco de idéias com uma levada repaginada de “Hold your Head Up”. O disco termina com uma faixa bem pop e dançante, “The Jester”. Talvez a preocupação técnica tenha se sobressaído ao trabalho de composição neste álbum; ainda que haja uma profusão de boas passagens instrumentais, as composições não são tão bem amarradas quanto nos discos anteriores. Apesar do público já cativo garantir boa vendagem para a gravadora, o contrato com a Epic se encerrou e não foi renovado.

1. Circus
2. Highwire
3. Clown
4. Trapeze
5. Shine on Sunshine
6. The Ring
7. The Jester


Counterpoints [1975]

De casa nova (a banda assinaria com a RCA), o Argent acabou dobrando a aposta de Circus, indo com ainda mais sede na direção do jazz-rock/fusion. O álbum foi produzido conjuntamente com o renomado engenheiro de som Tony Visconti. Os guitarristas estão mais soltos e composições bastante empolgante estão presentes no álbum, como a sequência que abre o álbum – “On my Feet Again” (que tinha jeitão de hit) e “I Can’t Remember, But Yes” (que poderia ser uma música de Jeff Beck). Outros destaques são a curta e funkeadíssima “Be Strong”, com um show das guitarras de Verity & Grimaldi e a longa balada “Road Back Home”. Phil Collins, baterista e vocalista do Genesis, deu uma força para o pessoal do Argent na ocasião da gravação, devido a um problema de saúde de Bob Henrit. Nada de positivo surgiu para a banda com o novo álbum; considerando o desgaste dos anos na estrada (6 anos de intensas atividades), os problemas de saúde de Henrit, e Rod Argent vendo que a maré não estava pra peixe na música pop, resolve tirar o time de campo. Apenas em 1978 ele lançaria um álbum como artista solo e depois trabalharia nos bastidores, compondo trilhas em parceria com Andrew Lloyd-Weber.

1. On My Feet Again
2. I Can’t Remember, But Yes
3. Time
4. Waiting for the Yellow One
5. It’s Fallen Off
6. Be Strong
7. Rock & Roll Show
8. Butterfly
9. Road Back Home

3 comentários

  1. Daniel Benedetti

    Uma vez eu ouvi o All Together Now nestes “streamings da vida” e me lembro de ter gostado, mas o ótimo texto do Ronaldo me motivou a retornar para conhecer melhor a discografia do Argent, que me passa completamente batida. Parabéns!

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  2. Uma cidadã e tecladista desiludida

    Já li outras paradas aqui mas sempre tive vergonha de comentar, mas dessa vez quase me emocionei com esse artigo. Argent é uma banda que deveria ser mais mencionada mesmo. Falando pessoalmente, sou bastante fã dos Zombies, o que numa época me motivou a ouvir Argent. E, mesmo não sendo exatamente uma entusiasta do gênero, consegui me conectar com a maioria dos álbuns. Rod Argent é um bruxo daqueles, ultracriativo e caprichoso além super técnico, não deixando a desejar em nenhum aspecto mesmo. O cara sempre tinha algo a dizer nos álbuns, conceitualmente, servindo não só pro deleite sonoro do ouvinte, é claro, mas também seu som funcionava como referência pra outros instrumentistas incansáveis. Gostaria de capturar mais essa essência do músico incansável, como o ídolo Rod Argent, e também como o autor do texto. Mas a gente vai pescando as manhas e tentando evoluir com essas influências.

    Parabéns pelo texto, ideias muito bem concatenadas.

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