Por Ronaldo Rodrigues

Nossa série de reflexões (veja os textos anteriores aqui e aqui) traz hoje um tema sensível a boa parte dos leitores e até mesmo dos colaboradores do nosso site – o MP3.

O MP3 foi desenvolvido no fim da década de 1980 por pesquisadores do renomado Fraunhofer Institute, na Alemanha. A sacada do MP3 foi conseguir reduzir o tamanho de arquivos digitais de áudio sem uma perda marcante de qualidade sonora. Trocando em miúdos, era como se o que se fazia com a fita K7 tivesse passado por um grande upgrade. Nos primórdios da internet, a velocidade das conexões e a capacidade de armazenamento de arquivos de um PC doméstico era bastante limitada. Até 1999 eram comum computadores domésticos com menos de 1GB (1024 MB) de capacidade de armazenamento. Na digitalização convencional pelo formato WAV, o conteúdo de um CD ou LP de 40 minutos ocupava em torno de 400 MB. Ou seja, era impossível manter este tipo de arquivo em casa e muito menos transferi-lo via internet. Já com o MP3, um álbum poderia ser digitalizado ocupando cerca de 10 vezes menos tamanho do que o formato WAV, mantendo uma qualidade de som aceitável. Paralelamente, a velocidade da internet foi sendo incrementada e a partir do fim dos anos 90 o mundo assistiu à febre do compartilhamento de arquivos e o “fenômeno” Napster.

Passada essa breve introdução, a intenção é aprofundar a discussão de como o MP3 começou a desconstruir a indústria fonográfica e toda a teia de distribuição de música que existia nas décadas passadas. E também levantar alguns aspectos sobre o comportamento do público desde sua popularização até os dias de hoje.

Analisando pela ótica da indústria, uma metáfora possível sobre a popularização do MP3 seria como se um grupo tivesse invadido uma grande fábrica e distribuído gratuitamente para os transeuntes todos os produtos de seu estoque. Já pela ótica do usuário/consumidor de música, a motivação para o MP3 (o compartilhamento e a “aquisição”) é bem mais complexa, e muitas de nossas experiências começam a se encaixar – tem o grupo daqueles que ainda não tinham independência financeira ou condições de comprar CDs/LPs mas eram ávidos por música, tem o grupo daqueles que usaram isso para aumentar enormemente a quantia de música que conheciam, tem os que baixavam pra conhecer e depois compravam o CD/LP, tem o grupo dos caçadores de raridades, tem o grupo dos que adoravam esnobar seu conhecimento e seus acervos para os demais, ou seja, toda a extensa fauna e flora de pessoas que consomem música.

No fim das contas, para o consumidor foi possível sair do esquemão “CD/LP/Rádio” para ter acesso à música. A isso somou-se outras potenciais vantagens – coleções de discos físicos poderiam tomar muito espaço e o MP3 se tornou “solução” para uma parcela dos ouvintes, seleções personalizadas de músicas poderiam ser produzidas com relativa qualidade sem grandes dificuldades, fóruns/sites de compartilhamento facilitavam o contato entre fãs de diferentes partes do mundo e até mesmo o colecionismo se adaptou aos novos tempos e uma fração grande do público se ocupava em organizar e catalogar seu acervo digital de arquivos MP3.

Toda uma cadeia subterrânea de distribuição de música foi se formando ao redor do MP3 – a pirataria adquiriu uma nova e sofisticada proporção, blogs de música (de leitura gratuita) começaram a dividir a atenção do potencial público das revistas de música, acessórios de todo o tipo eram lançados para tornar o MP3 algo realmente inserido no dia-a-dia das pessoas comuns, lançamentos de artistas famosos vazavam, web rádios e sites especializados em raridades começaram a pipocar em todos os lugares, favorecendo até mesmo que certas bandas obscuras pudessem se aproximar de seu público ou conhecer um filão de fãs até então ignorado.

Do lado de quem financiava a produção de música (e esperava o retorno desse investimento), o panorama era cada vez mais sinistro. Dinheiro ia pelo ralo, já que os custos de produção permaneciam intactos, mas as vendas (e o valor do álbum) diminuíam drasticamente pois a oferta de música passou a ser gigantesca com o MP3, o que desregulou o mercado irremediavelmente. O restante da cadeia da música também foi afetada, direta ou indiretamente – as revistas de música sofrendo a competição com a internet; as rádios experimentando a diminuição da audiência devido ao MP3 baixado em casa ou gravado em CDs personalizados pra se ouvir no carro e, por último as lojas de discos, cujo impacto foi devastador. A pergunta que muitos se fizeram desde então (e ainda fazem) é: porque pagar por algo que consigo ter/ouvir de graça? As lojas de disco deixaram de ser um comércio de público amplo para atender apenas um mercado bastante delimitado – os colecionadores de disco que se mantiveram firmes à forma consagrada de consumir música.

Muito já se escreveu, discutiu e debateu sobre o MP3 e a internet para a difusão e o consumo da música. Sugiro ao leitor que procure ler textos e notícias de 10 anos ou mais sobre o assunto. É espantoso ver como nada ou quase nada do que foi previsto e imaginado aconteceu. Apenas a previsão de que o comércio e a produção de itens físicos (CDs e LPs) estariam em queda livre se concretizou. Nem a internet conseguiu se colocar como algo realmente bom para bandas e gravadoras (majors ou independentes), nem mesmo o MP3 teve uma vida assim tão longa e “próspera”. Ou seja – o MP3 chegou, desarticulou a forma como se consumia e ouvia música, perdeu importância e não deixou praticamente nada no lugar do que havia.

Blogs, sites de compartilhamento de MP3 e até mesmo a pirataria são coisas que continuam por aí com apenas um décimo da relevância que tiveram há poucos anos atrás. E junto a elas não temos mais revistas de música, boas rádios focadas em música, lojas de discos, nem gravadoras injetando dinheiro sistematicamente em novos artistas. Obviamente que não há santos nesta discussão, mas há que se ter justiça em perceber que um mundo sem essas coisas torna-se um mundo menos interessante para quem gosta de música. A oferta excessiva de MP3 fez até mesmo a sanha por “baixar” centenas ou milhares de álbuns arrefecer, já que o tempo que as pessoas dispõem para assimilar e apreciar tudo que baixam é bastante limitado. A relação música-ouvinte esfria quando se tem filas enormes de álbuns a serem ouvidos. Seria como comer seguidos banquetes muito rapidamente – algum tempo depois tudo perde o sentido.

Ainda que algumas pessoas argumentem que os downloads digitais tiveram números expressivos há alguns anos atrás, uma fração considerável do público parece que se convenceu da filosofia do streaming – pagar uma assinatura mensal para ter acesso a um acervo estratosférico de música (da qual ele não irá consumir nem ao menos 5%). A relação que se criou não é exatamente mais entre público-banda, mas sim entre público-plataforma. No passado seria quase como imaginar que alguém pagaria um valor mensal para ter acesso a todo acervo de uma grande gravadora. O improvável no passado pode ser a realidade do presente. O MP3 fez a música perder valor pela oferta excessiva, mas a plataforma consegue manter seu valor, usando milhões de músicas como atrativo.

As plataformas conseguiram reverter um pouco o quadro desarticulado da indústria fonográfica inclusive se tornando métrica de sucesso, quase que como sendo “o novo rádio”. Contudo, como já descrito no texto anterior, seu efeito parece ser limitado já que ela aposta que o consumidor vá buscar ativamente àquilo que quer ouvir (o usuário precisa digitar na plataforma o nome da banda/álbum/canção que quer ouvir). Como já dito anteriormente este é um comportamento anti-natural para a maioria das pessoas, seja no streaming musical ou na TV/vídeo.

O MP3 democratizou o acesso à música para muita gente. O volume de conhecimento musical que foi possível se obter a partir dele não tem precedentes. Todavia, os efeitos colaterais de seu frenético compartilhamento foram inegavelmente desastrosos.

3 comentários

  1. Rafael Bonatto

    Texto incrivel e representativo dos ultimos anos. De fato o MP3 veio, mas deixou rombos no mercado musical. Não pela falta de produção, cada vez maior, mas sim pela falta de interesse em buscar e aproveitar boa música. Digeri-las melhor, na visão da massa.
    Hoje a mídia física e apreciadores de álbuns são um nicho.

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  2. André Kaminski

    É uma questão complicada, mas é o que acontece sempre com relação ao mercado: nem todos os produtos e funcionamento da indústria se mantém igual, e ainda mais com relação a produtos de entretenimento. Enquanto certos mercados como o cinema se agigantaram ainda mais mesmo com os downloads ilegais, o da música desabou.

    Não tem jeito, a questão é adaptar-se. Só lamento pelos artistas novos que terão que se esforçar muito mais para conseguirem sobreviver da música.

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