Por André Kaminski

Quando se fala em progressivo e folk, as grandes autoridades do assunto aqui no site são o Mairon Machado, Ronaldo Rodrigues e Diego Camargo. Perto do conhecimento deles, sou um mero amador. Mas nem por isso deixo de ouvir o gênero e, de vez em quando, me arrisco a escrever um pouco as minhas impressões sobre algumas bandas do estilo. E cá estou escrevendo a discografia comentada do excelentíssimo A Barca do Sol, uma das grandes bandas injustiçadas de nosso progressivo tupiniquim.

É difícil encontrar informações mais detalhadas sobre eles. Mesmo fotos promocionais são raras. Os próprios ex-integrantes não são de falar muito sobre esse período.

A banda iniciou suas atividades em 1973, antes apoiando o cantor Piry Reis. Fundindo guitarra e baixo na parte elétrica junto a muito violão, violoncelo, viola, flauta e bateria na parte acústica, a própria banda nunca se identificou como sendo parte de um gênero específico, se considerando apenas como “um conjunto que toca música com liberdade total”. Com três discos de estúdio (e mais um gravado para Olivia Byington), A Barca do Sol sempre deixou um gostinho de quero mais em seus fãs, visto que com tantos músicos do mais alto gabarito é certeza que teríamos várias outras pérolas para se ouvir onde rock e ritmos brasileiros e eruditos se misturam com tamanha qualidade como a que ouviremos por aqui. Vá atrás de seus discos agora mesmo!


A Barca do Sol [1974]

Nando Carneiro (vocal e violão), Muri Costa (vocal, violão e viola), Beto Rezende (guitarra, violão, viola e percussão), Jaques Morelenbaum (violoncelo, violino e vocal), Marcelo Bernardes (flauta), Marcos Stull (baixo elétrico e acústico) e Marcelo Costa (percussão) soltam o primeiro disco e nos primeiros segundos já se percebe um som contagiante, bonito, técnico e ao mesmo tempo soando tão popular que me surpreende como esses caras não são mais reconhecidos por um trabalho como este. “A Primeira Batalha” traz a flauta, violão e as castanholas em imenso destaque e um dueto de vozes com Muri e Nando usando uma voz limpa e outra aguda (em alguns momentos, quase falseto). “Brilho da Noite” com um clima mais tenso e veloz, mostra as qualidades dos músicos descendo o sarrafo em seus instrumentos em uma canção que deveria soar incrível ao vivo. A percussão e o violoncelo estão divinos aqui. “Arremesso” é uma linda balada focada no violão e na viola cantada por Muri em que vemos claramente o lado erudito dos integrantes. As “Boas Consciências” cantada por Nando (que tem um timbre que lembra o de Sérgio Dias dos Mutantes) é mais uma balada desta vez ainda mais singela que a anterior mas tão bela quanto. “Lady Jane” é a principal música do álbum e a mais conhecida deles, tocando por algum tempo nas rádios do país. Todo o disco é excelente. Ainda destaco “Alaska”com uma tonalidade mais introspectiva ali no dedilhado das cordas, um breve sintetizador (cortesia do grande Egberto Gismonti, que também produziu o disco), percussão e flauta para depois acelerar ao final em conjunto com o baixo. Incluo também “A Barca do Sol” fechando um belo disco que nos deixa uma excelente impressão de uma banda que estaria eternizada na memória de todo progueiro brasileiro que se preze. Se não os conhece, recomendo que não perca o seu tempo e ouça logo este grande álbum.


Logo após o primeiro disco ser lançado, o baixista Marcos Stull e o flautista Marcelo Bernardes deixam a banda. Ritchie (aquele mesmo da “Menina Veneno”) se torna o flautista por um curto período e sai antes do segundo álbum ser lançado. Segundo o próprio, ele queria cantar ao invés de tocar flauta e logo após isso foi prontamente despedido da banda. “Onde já se viu um gringo cantando MPB em português?”, teria dito. Diz a lenda que no mesmo dia, Lulu Santos e Luiz Paulo Simas convidaram o britânico a tocar no infame Vímana de Patrick Moraz e mais Lobão.

Voltando ao Barca, David Gang assumiu os trabalhos de flauta e Alain Pierre o baixo. Já mais conhecidos devido ao primeiro disco e ainda mais experientes, os cariocas preparam o segundo disco que veremos nas linhas logo abaixo.


Durante o Verão [1976]

Durante a audição do álbum, percebe-se que a guitarra de Beto aparece um tanto mais, apesar do folk continuar predominante. Aqui eles lembram um pouco mais o Jethro Tull. As letras seguem surrealistas (baseadas nos poemas de Geraldo Carneiro) e apesar de preferir o primeiro disco por pura questão de gosto, temos aqui mais uma obra de imensa qualidade. “Durante o Verão” inicia calma e com uma tonalidade mais MPB, porém na sequência, “Hotel Colonial” já é bem ao estilo do prog folk europeu com aqueles jogos vocais e instrumentação mudando de ritmo a todo momento. Viola e violino aqui fazem solos incríveis e há até mesmo um ar levemente psicodélico nesta canção. ” A Língua e a Bainha” é uma faixa um pouco aquém a meu ver, mas “Os Pilares da Cultura” já volta a subir aos meus ouvidos. Um prog rock mais enérgico, para agitar mesmo um show, com a bateria descendo o sarrafo principalmente nos pratos, guitarra solando muito e baixo cozinhando muito bem com o som. Minha favorita do álbum. “Após a curtinha “Karen”, um ar meio Pink Floyd aparece com “Memorial Day”, outro ótimo destaque com um dueto vocal de Nando e Muri. A bateria desta canção se destaca com suas viradas imprevisíveis e batidas estonteantes. Curto ainda “Banquete” com mais duetos vocais em uma dócil e leve canção em que o violoncelo de Jaques é o maior destaque. “Belladonna Lady of the Rocks” parece uma sequência da canção anterior, mas aí já entra aquela guitarra esperta e a bateria acertando forte nas batidas e a canção ganha peso. Há também a curtinha “Outros Carnavais” mas que não se destaca ao final do disco. Independente disso, quem gosta do estilo deve guardar mais uma grana para comprar este também.


Em 1978, a banda grava todo o instrumental e oferece várias de suas próprias composições para o álbum de estreia da cantora Olívia Byington chamado Corra o Risco. A maioria dos sites de hoje colocam o disco como parte da discografia principal dos caras, mas ao ouvi-lo, percebi que há algumas canções antigas como “Lady Jane” e “Brilho da Noite” com a voz de Olívia (ótima cantora, diga-se de passagem) junto a algumas novas. Como percebi que Olívia tem muito mais destaque do que a banda, optei por omitir o disco desta postagem por ficar naquele limiar de que a intenção principal era ser um disco da cantora e não da Barca. Achei ele mediano, mas vi internet afora que muita gente gosta do álbum. No mínimo vale a curiosidade para você, leitor, que gostaria de ouvir composições da Barca pela voz de outros intérpretes.


Pirata [1979]

Jaques Morelenbaum deixa a banda antes desse álbum ser lançado e os caras gravam como um sexteto por um selo independente. Logo se percebe que o direcionamento musical da banda mudou bastante: a parte rocker é praticamente toda limada e a MPB, o samba e o folk dominam por completo aqui, junto as tradicionais influências progressivas. Basicamente o que ouvirá é um conjunto de canções de ritmos regionais brasileiros misturadas a MPB, logo, pode soar estranho se é o lado mais rock da Barca do Sol que lhe interessa mais. Achei um ótimo disco, do mesmo nível do anterior, porém, não deve ser encarado muito como progressivo. Até as letras dão uma mudada, mais no estilo popularesco do que aquela coisa surreal de antes. A introdução com “Vô Mimbora pro Sertão” é praticamente um samba ao final com um toque de berimbau. Esse instrumento já emenda com a faixa seguinte “Tereza Boca do Rio”, uma mistura de samba com um toque de folk devido a flauta. “Mercado das Flores” é o que poderíamos chamar de uma espécie “samba erudito” se é que me entendem devido aos repiques e ao ukulele. “Cavalo Marinho” inicia com um lindo dedilhado de violão em uma faixa que me lembra muito o que Almir Sater faria alguns anos depois. “Jando” começa com um longo instrumental focado no piano elétrico, bateria, flautim e algumas vocalizações. Confesso que talvez seja a faixa mais fraca da discografia da banda. “Jardim de Infância” que vem na sequência é bem melhor. Lembra as belas baladas do primeiro disco com o acréscimo de um coro de vozes femininas ao fundo. “Desencontro” mantém um ótimo nível com mais um singelo samba também com um coro de vozes (dessa vez masculino). Finalizo destacando a instrumental “Rio Preto”, uma curta faixa que rememora as canções dos primeiros discos da banda.


Sem um grande selo, a banda encerra as atividades em 1981. Não encontrei exatamente as razões para isso, mas é provável que a falta de apoio de uma grande gravadora e o possível interesse em seguir em outras direções musicais fizeram os integrantes seguirem seus caminhos. Jaques se tornou famoso por ser o principal arranjador durante muitos anos de Tom Jobim, além de trabalhar com dezenas de outros artistas. A maioria se tornaram músicos conceituados gravando e tocando para outros cantores e grupos de sucesso ou sendo professores de música. Aparentemente, apenas Beto Rezende e Muri Costa volta e meia tocam juntos. Nunca houve qualquer menção a um possível retorno ou show ao vivo. Mas a banda felizmente nos deixou aí músicas que com certeza ainda serão lembradas por muitos progueiros e fãs dos anos 70. A Barca do Sol é uma banda que ainda vai surpreender muita gente.

4 comentários

  1. Ronaldo

    Excelente pauta, excelente texto, André!
    A Barca do Sol é sempre bem vinda por aqui….escrevi um texto sobre os 40 anos do lançamento do primeiro disco deles, mas este foi um dos textos perdidos pelo UOL Incident…Foi curioso que o Marcelo Costa, baterista, escreveu no comentário criticando algumas informações erradas e dizendo que o próprio encarte do CD tinha informações erradas sobre a história deles.
    Abraço,

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    • André Kaminski

      É uma pena que uma banda tão marcante como esta deveria ter algum tipo de publicação contando mais sobre a história deles. Mesmo após mais de 40 anos, as publicações a respeito da banda são parcas. E eu lembro desse texto e do comentário, lamentável que tenha sido perdido.

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  2. Diego S. A.

    Para mim o mais original dos grupos de Rock Progressivo Brasileiro, o meu favorito é o ‘Pirata (1979)’, mas os outros dois são igualmente extraordinários. A Barca é uma das únicas bandas brasileira que eu sonharia em ver ao vivo, pois as outras eu já assisti, infelizmente isso talvez nunca aconteça.

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    • André Kaminski

      Também não acredito que aconteça. Os caras já estão há décadas envolvidos em outras coisas. Mas Beto Rezende e Muri Costa de vez em quando tocam juntos. A esperança é mínima, mas ainda há.

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