Por Fernando Bueno

Originária da Holanda, o Kayak é muito provavelmente desconhecido para a maioria das pessoas, mesmo dentre o nosso meio que costuma ser mais ligado em bandas mais obscuras. Porém, de obscuro o Kayak não tem nada. Eles chegaram até a ser considerada a banda mais promissora de 1978 pela revista americana Record World. Para quem não sabe, essa revista era uma das três maiores publicações americanas sobre música da época, ao lado da Cash Box e da famosíssima Billboard. Esse ano de 1978 foi o da repercussão de Starlight Dancer, lançado no ano anterior, e que é considerado um dos grandes álbuns da banda.

A intenção inicial era que esse texto fosse sobre Royal Bed Bouncer de 1974. Porém nesses últimos dias acabei me encantando novamente com Merlin e resolvi escrever sobre ele. Entretanto fico na promessa que em um futuro próximo eu possa trazerRoyal Bed Bouncer aos leitores da Consultoria do Rock. Também tive outra intenção que foi de apresentar um álbum da década de 80. Quando tem-se um disco de qualquer banda que tenha em sua definição de estilo a palavra ‘progressivo’, logo caí-se na tentação de rotulá-lo como um disco pop fugindo muito das características iniciais da banda. Porém nesse caso a sonoridade pop do álbum é praticamente a mesma dos primeiros discos. Ou seja, a banda não mudou quase nada.

O simples fato de rotular o Kayak já é algo complicado. Essa é uma daquelas bandas que passeiam confortavelmente por diversos estilos musicais sem parecerem forçados e enfadonhos. No Rate Your Music eles são classificados como rock progressivo, progressivo sinfônico, ópera rock e progressivo pop. Para o leitor se situar melhor, digo que o Kayak é algo na linha de Supertramp e Styx, ora pendendo para um lado ora pendendo para outro. Isso é o que falo quando estou apresentando a banda para alguém.

Merlin é um álbum semiconceitual que conta a história do mais famoso mago da literatura fantástica. Suas estórias vêm sendo narradas há séculos e serviu de inspirações para vários outros magos imaginados no futuro como Gandalf e Dumbledore. Merlin está muito relacionado com os Contos Arturianos que possuem diversas interpretações das lendas que também existem hà séculos na Inglaterra. Particularmente gosto da visão apresentada por Marion Zimmer Bradley  na série de livros As Brumas de Avalon.

A faixa título inicia suavemente, apenas com voz e teclado em um volume baixo, até que é interrompida por um pomposo teclado que culmina com a entrada da guitarra que faz o tema principal. Aliás, a guitarra bastante trabalhada é o destaque de “Merlin”. A história é contada pelas palavras do próprio Merlin, como se ele estivesse declamando os versos.

Em “Tintagel”, sobre belos versos de piano, Melin diz como fez para conseguir que Uther Pendragon adentrasse ao inexpurgável castelo, que dá nome à faixa, para conceber o futuro rei Arthur com Igraine, então esposa do senhor do local, o Duque da Cornualha. O jeito foi infeitiçar Uther para que este se parecesse com o Duque e tomasse Igraine sem maiores problemas.

“The Sword in the Stone” conta a história da famosa espada Excalibur que segundo a lenda foi cravada em uma rocha e apenas o rei legítimo poderia retirá-la. Merlin conta como forjou a espada e a cravou na rocha. Novamente destaque para a guitarra que faz outro belo tema na faixa que concorre a ser a melhor do álbum.

“Niniane (Lady of the Lake)” fala sobre Viviane, também um dos nomes da personagem, que é o grande amor de Merlin. Porém Viviane roubou todo poder de Merlin e o aprisionou em uma caverna. Outras versões da lenda dizem que o local de sua prisão foi uma árvore. Em seu cárcere eterno Merlin está em lamentação sabendo que nunca poderá ser libertado. A faixa é muito bela, apesar da história trágica. Baseada quase que toda em um acompanhamento de pianos e teclados fecha a história do lado A do lançamento original. Em sua parte final, antes do solo principal, temos um daqueles trechos que consegue passar exatamente o que a música está dizendo. Parece que conseguimos visualizar o momento em que Merlin é dominado por Viviane e, quando a guitarra entra, é como se o mago caísse em desespero.

O andamento das faixas, juntamente com a linha musical adotada, faz com que essas faixas se asemelhem à trilha sonora de musicais. E esse tipo de linguagem musical pode ser encontrado em vários outros álbuns do Kayak.

O lado B do vinil começava com o único single do álbum, “Seagull”, uma balada pop com belas linhas vocais e refrão que gruda na cabeça. “Boogie Heart” como o próprio nome diz é um boogie com muito teclado, backing vocals sintetizados e de qualidade um pouco inferior ao restante do disco. Quase que dá para imaginá-los com uma daquelas bandas que apareciam em programas de televisão nos anos 50.

As melodias fáceis são abundantes em Merlin e em geral essa é uma característica forte do Kayak. Às vezes temos a impressão que já conhecíamos as músicas há um bom tempo. Sabe aquela sensação de “…já ouvi isso em algum lugar…”? Esse é um exemplo da belíssima “Now That We’ve Come This Far” e da pop/rock “Can’t Afford to Lose”. Para fechar uma música um pouco diferente do resto do álbum, “Love’s Aglow”, a começar por ter sido cantada pelo baixista do grupo. Poderia ser encarada com alguma música perdida do Camel.

Uma curiosidade do Kayak é a suas mudanças de formação. Max Werner era o cantor principal até o ano de 1978. Ele deixou o posto de vocalista para Edward Reekers, um fã de longa data do grupo, e foi tocar bateria substituindo Pim Koopman que desistiu de tocar bateria para ir para o teclado, mas isso já fora do Kayak. Afinal esse posto tinha dono, Ton Scherpenzeel, principal compositor da banda que também gravou o baixo em algumas músicas ao longo da carreira. Assim a formação do Kayak em Merlin foi: Ton Scherpenzeel (teclados), Peter Scherpenzeel (baixo, voz em “Love’s Aglow”), Johan Slager (guitarra) Max Werner (bateria) e Edward Reekers (vocal). Fazem parte da formação desse disco Katherine Lapthorn e Irene Linders que fazem backing vocals. As letras foram escritas por Ton e Irene.

Esse foi o último álbum de estúdio do Kayak antes da separação da banda, que voltaria à ativa quase 20 anos depois com Close to the Fire. Em 2003 o grupo resolveu regravar as músicas do lado A de Merlin e fazer um disco inteiro explorando a história. No fim das contas eles foram bem sucedidos no que fizeram comMelin – Bard of the Unseen. Poderia até estar apresentando esse álbum aqui, mas se tivesse feito isso deixaria de citar as ótimas faixas do lado B. A intenção é que o leitor se interesse pela banda como um todo e Merlin é um bom começo, como são aqueles álbuns citados nos primeiros parágrafos. Pode ir na certeza que você não vai errrar.

Track List

 1. Merlin

2. Tintagel

3. The Sword In The Stone

4. The King’s Enchanter

5. Niniane (Lady Of The Lake)

6. Seagull

7. Boogie Heart

8. Now That We’ve Come This Far

9. Can’t Afford To Lose

10. Love’s Aglow

 

1 comentário

  1. Francisco

    Conheço pouca coisa dessa banda holandesa, Kayak. Em muitos momentos, a banda soa como Triumvirat. Em outros, lembra muito o Barclay James Harvest. Seja como for, é uma banda muito interessante e pouco conhecida por essas bandas. Boa resenha!

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